Mel é alimento
Anotações sobre a noite de Pontos pra Lua e Outros Feitiços que aconteceu em 25 de Agosto de 2025, na Casa Xexéu, em Serra Grande, Uruçuca, na Bahia dos Mistérios.
Embora eu seja uma pisciana de lua e ímpeto leoninos, coração e magia sagitarianas, sou também uma menina criada na secura de uma família minúscula, aos modos interioranos e sertanejos, onde todo mundo é muito metido consigo mesmo. Dos dois lados, sou filha única de uma gente que é meio bicho do mato, que ama, sente, mas não fala nada, que viveu o extermínio colonial e a escassez e que por isso precisou se transformar na própria couraça pra atravessar o tempo e me fazer chegar aqui. Pra completar o babado, trago uma vênus em aquário capaz de asfixiar qualquer sentimento e se eu for começar a falar dessa minha geração Urano-Capricórnio... ai ai.
Daí que eu sempre preciso lembrar do mel. Quem me ensinou isso foi Amanda, nesses anos todos de caminhada. Lembrar de desejar a doçura que não é o açúcar injetado diariamente em nossos poros numa violência sem fim. A doçura que não é docilização. O mel tão verdadeiro quanto o Amor.
A música sempre foi boa condutora, irrigando meu solo, me lembrando que sou quente, que também sou gente. E gente é pra brilhar, não pra morrer de fome, como diz o leonino Caetano Veloso. E mel é um doce que alimenta.
Numa configuração como a minha, eu devo muito às canções que me fizeram capaz de jorrar emoções, expressar sentimentos, desaguar dores represadas, decifrar enigmas, gritar a raiva, dançar o prazer, abraçar o destino. As canções são um jeito de se comunicar com o Tempo. Por isso preciso ser grata. Preciso lembrar do mel.
Ontem à noite vivi um desses momentos e senti, enquanto estávamos aqui na casa Xexéu, girando com a Lua, navegando nos feitiços de Amanda, dançando nas ondas de Hellen e Arthur. Existe algo tão profundo sobre o amor pela vida e seus mistérios na palavra da feiticeira mariposa, algo capaz de levar tão longe, só que pra dentro, e acho que esse algo é o mel mesmo. "Mel muito".
Eu gosto de repetições, gosto de ciclo e por isso é bom demais se guiar pela Lua. E aí quando me vi ontem viajando por canções tão antigas e tão adoradas, cantando junto cada verso, saboreando novamente e pela primeira vez cada palavra - porque afinal de contas nenhuma Lua é igual - eu refiz o caminho do prazer, imersa naquela noite venusiana. Música é linguagem, quem faz é fonte.
Era noite libriana, eu sabia, e por isso quis "o mel de toda flor", só pra citar uma outra música que Izabella colocou pra tocar esses dias, canção que gosto muito, de Geraldo Azevedo. Se pudesse, encheria o lugar com muitas delas, mas contei com o empenho de Larissa e Victor que me deram o que olhar, entre flores arranjadas e desenhadas. Entre os três da Xexéu quis fazer valer o sol em Virgem e assim fomos de detalhe em detalhe na labuta de transformar o lugar num espaço gostoso pra Magia se mostrar. A Giralua tem gira no nome, afinal de contas.
Essa noite é um desses lembretes do mel. É um daqueles presentes do mês de Agosto. É uma marca de aprendizado no caminho. Meu saturno também é em Peixes, então eu sei que preciso fazer esse lembrete brilhar pra que eu nunca esqueça. E aí quem me vale são as palavras. Assim consigo melar o caminho até a minha fonte, curar pra frente e pra trás, amar quem me ama, expandindo para revolucionar - e disso a vênus em aquário gosta muito.










