E de repente, tudo ficou preto. Não podia pensar em qualquer outra coisa, não conseguia. Não. Seus olhos estavam presos unicamente no braço de Zeno Darling, seu colega de classe. O sangue vermelho escuro escorria devagar pelo braço do rapaz, de forma que cada minúscula partícula quisesse chamar a atenção de Cecile, fosse pelo cheiro delicioso que ele exalava, fosse pelo aspecto brilhante que o sangue parecia ter conforme escorria por seu braço. Ceci abriu a boca minimamente, praticamente salivando por ele. Em uma velocidade fora do comum, ela moveu o corpo na direção de Darling, empurrando-o com brutalidade na direção da parede. Não porque ela queria, mas porque não conseguia controlar seus instintos. Controle nunca fora algo que Cecile tivera, mas agora? Agora era praticamente impossível sequer pensar sobre algo assim. Ela sentiu a respiração aumentar muito, muito, sentia o peito pesado. “D-desculpa, eu não... quero te machucar, mas é que... você... ai cacete, Zeno, cacete viu” ela empurrou ele de novo na parede, levantando o indicador pra ele “A culpa é toda sua!! Caralho.. eu..”
·˚ ༘ ༄ 🧜🏻♂️ ೃ ‧* O comunicado das aulas suspensas apenas tornava tudo ainda mais real. Suas mãos tremiam um pouco no fim do anúncio e não conseguiu ficar muito tempo ali no salão principal, mal tinha tocado na comida pois o estômago não parecia aceitar nada.
Emoções nunca foram seu forte, não conseguia nomear corretamente o que sentia, sabia que não havia se desenvolvido emocionalmente de maneira correta e essa falha tornava-o quem era atualmente. De qualquer forma, de uma coisa sabia: precisava encontrar @gonedead. Talvez não fosse a pessoa mais indicada para, nesse momento tão delicado, ir falar com o Darling, mas não podia ignorar a necessidade de saber como ele estava.
Para além disso, Patrick amava Wendy. Embora Zeno não soubesse, a mulher parecia ter entendido o seu momento de pânico quase um ano atrás quando machucou tão profundamente o outro legado. Tinha levado uma enorme bronca e um olhar decepcionado? Sim. Mas a ex sogra foi a primeira pessoa que lhe viu chorar após o término com o rapaz. As letrinhas apressadas, embaralhadas, contando tudo, despejando nela o que lhe levou a cometer o erro foi o suficiente para mover aquele coração de ouro que ela tinha. Não sabia se ela tinha lhe perdoado totalmente, mas pelo menos ela sabia.
O avistou finalmente após alguns minutos de caminhada pela academia, um meio canto escondido da academia servindo de esconderijo perfeito para alguém que certamente desejava evitar outras pessoas. Mesmo assim, Patrick se aproximou. Um leve toque em seu braço e então deu um passo para trás. As mãos mexeram no gesto tão roteiro de um oi, algo que sempre fazia para o cumprimentar quando estavam em seus bons tempos. "Eu sei que sou a última pessoa que você gostaria de ver agora mas... eu não podia não vir." isso ia além dos sentimentos bagunçados, dos assuntos não resolvidos entre eles, afinal.
A biblioteca da academia não era um dos lugares com o qual tinha a maior familiaridade do mundo. Não era alguém que passava horas lendo e estudando, não. Ela tinha mais o que fazer do que se dedicar àquele tipo de coisa. Por isso, conforme estava procurando um dos livros que precisava para a matéria da semana, ela percebeu que estava adentrando em uma sessão com temas bastante pesados. Mas por algum motivo, Cecile ia lendo os títulos e sinopses e indo além, buscando ver todas as opções que tinha. Um arrepio correu por seu braço conforme ia lendo mais sobre fantasmas - era como se pudesse senti-los ali, mesmo que estivesse apenas lendo. Por isso, quando sentiu o toque em seu braço ela quase pulou no lugar, arregalando os olhos em susto. “Puta que pariu, você tá maluco irmão? Eu tava concentrada aqui no papo dos fantasmas e tu chega assim do nada, tu quer me explodir o coração?”
❝ yes i love you. i’ll get over it. ❞ / zeno ao som de opening sequence kkk, @gonedead
FLASHBACK
Foi um golpe que Patrick não esperava. Preferia ser atingido um soco, um tapa, qualquer coisa ao invés de palavras. Mas aquela frase em especial fez com que o Triton sentisse um nó desconfortável ocupar sua garganta. As palavras tão familiares vinham como um golpe certeiro, como sal batendo em uma ferida aberta. "Não ache que eu não amei você, mas é o certo a fazer sim. Isso não... não tinha como dar certo. Você merece mais." a firmeza em suas letrinhas em nada se assemelhava a forma como sentia-se por dentro. Patrick queria chorar. Usar o passado para definir o que sentia pelo Darling além de ser uma mentira, trazia uma dor tremenda ao seu peito. Mas uma coisa estava certa, Zeno merecia mais. Por isso Patrick tomado aquela atitude drástica, cometido aquele erro terrível. Queria ter sido egoísta e prosseguido com o namoro, mas não tinha como isso acontecer. Não era certo. Podia doer agora, mas ambos iriam superar e seriam curados da ferida que o Triton abriu no coração dos dois. Sim. Um dia, quem sabe.
❝ look, i dunno if i’m the kind of person you need or even want right now. but i’m looking around and i’m the only one who’s here. ❞ / zeno, @gonedead
Não era como se quisesse totalmente distância de Zeno, a verdade é que ficar longe dele era bem mais fácil do encará-lo e lembrar-se de seus próprios atos. Patrick estava sentado no chão, as costas contra a parede e o coração acelerado como se tivesse corrido uma maratona. As mãos suavam, estava assustado. Foi por pouco que não se molhou no meio do corredor da academia, foi por pouco que não descobriram a coisa estranha que ele tinha se tornado. Os olhos verdes acabaram procurando os do mais novo, em algum momento, aquele olhar foi reconfortante para si, trazia segurança e conforto; agora, já não sabia o que encontraria ali quando o encarasse. Seria ódio? Raiva? Mágoa? Não. Nada disso. Tinha medo de ser pior, de ser o vazio. Mas não era a isso que se atentava agora, precisava se acalmar então balançou a cabeça em um leve assentir. "Ok. Está tudo bem... só fecha a porta. Não quero ninguém mais aqui." as letrinhas confusas pareciam um pouco embaralhadas assim como seus pensamentos. Apenas alguns minutos ali e iria se acalmar. Sim.
❝ every time you walk away you take another piece of me with you. ❞ / zeno, @gonedead
FLASHBACK
A confissão alheia doeu. Patrick engoliu em seco e balançou a cabeça em negação. "Não. Vai ser pior se eu ficar." tentou protestar. Era a primeira vez que o vira após a mensagem que deixou para o ex-namorado sem explicação alguma apenas terminando o relacionamento. Saber que o estava machucando era mais doloroso do que quando sem querer cortava-se quando estava cozinhando. Ter colocado um fim no que tinham foi justamente para evitar que Zeno se machucasse, afinal, estar consigo traria dor em algum momento; tendia a arruinar tudo o que tocava, então claro que não daria certo. "Não diga isso, por favor." não se importava em implorar. Os olhos ficaram um pouco embarcados pelas lágrimas não derramadas, mas tinha que respirar fundo e, mais uma vez, se afastar. Se estava de fato levando uma parte dele consigo, torcia que não fosse seu coração pois não era digno de cuidar de um bem tão precioso. Suas mãos não mereciam tocá-lo assim, foi por isso que escolheu ir embora. De novo.
five times glanced at: ( five times the receiver noticed the sender stealing glances at them ) / zeno, @gonedead
𝐈. A primeira vez que aconteceu, Patrick estava distraído. As íris esverdeadas quase perderam o pequeno sinal e aquilo quase foi ignorado. A palestra que o Feiticeiro dava não parecia interessante, o que abria portas para distrair-se, a mente longe repassando quais os horários que teria para gravar seus vídeos e postar no Spellgram, os olhos vagando sem um rumo certo pelos estudantes que ouviam a voz grave que tocava cada um dos presentes… e ora. O que foi isso? Quem era aquele? Um dos rapazes destoava dos outros mais adiante não só pelo fato de também não prestar atenção no que era discursado, mas também porque tinha os olhos voltados na sua direção. Tão rápido como Pat encontrou-o encarando-o, viu o jeito ágil que ele desviou a atenção para outro canto. Podia não ser algo consciente então, sim, deveria ser isso.
𝐈𝐈. A segunda vez que aconteceu, estava mais preparado. Conversava com uma das irmãs no refeitório, não usava seu dom, andava treinando o autocontrole então fazia uso apenas da ASL, as mãos mexendo com gestos rápidos e um ar risonho em sua face enquanto interrompia a irmã com comentários zombeteiros à história que ela contava. Em um segundo que desviou o olhar da garota, Patrick o viu. O dono dos olhos verdes que tinha permanecido em sua mente por dias desde a palestra do Feiticeiro. Antes que o garoto pudesse ter a chance de desviar o olhar, Patrick ofereceu-lhe um sorriso. Dessa vez o peguei.
𝐈𝐈𝐈. Zeno. Esse era o nome do rapaz com os olhos mais bonitos que o Triton tinha visto até então. Após o momento no refeitório, encontrou-o no corredor algumas vezes e em uma dessas, finalmente pareciam ter tempo o suficiente para trocar algumas palavras. Então talvez esse fosse o motivo de estar ali com as cores do Knight of Excalibur pintadas em sua face, as roupas tentando ao máximo ter as cores do time… mesmo que não entendesse nada de Magibol. Após o jogo iriam tomar uma bebida no Ousadia e Alegria mas, pela primeira vez, não estava indo ao bar em busca de ouvir Naveen cantar. Não. Queria apenas passar mais tempo com Zeno. Enquanto observava o jogo tentando compreender o que acontecia, viu a torcida começar a gritar e os jogadores do time do garoto demonstrarem animação. Foi um ponto? Perguntou à amiga que conseguiu arrastar até ali. Sim! Ao iniciar a comemoração, conseguiu capturar o olhar do rapaz em si. O seu sorriso largo rivalizava com o do outro. O momento pareceu durar mais do que com certeza foi, mas seu coração batia acelerado e tão agitado no peito, espalhando uma euforia desconhecida… pela Excalibur! Um olhar de Zeno parecia estar lhe transformando em uma bagunça de felicidade. Gostava disso.
𝐈𝐕. O frio no dormitório sempre foi um problema para si, mas as últimas semanas vinha mudando sua opinião sobre o lugar. O motivo disso era simples… Zeno. Estar no Let it Go parecia ser a desculpa perfeita para arrastá-lo para o sofá ou mesmo para a cama para que pudesse aconchegar-se contra o namorado e assistir filmes, conversar até altas horas ou apenas ficar quieto, apreciando a voz e o jeito delicioso que os braços alheios lhe envolviam. No momento, os cobertores grossos tornavam a cama mais quente, mas eram os braços de Zeno que deixavam tudo mais gostoso. Patrick tinha dormido, aparentemente. Assistiam um filme descansando na cama mas, pelo visto, o sono foi mais forte. O silêncio reinava no quarto mas ainda ouvia o coração do Darling bater ritmicamente abaixo de sua orelha onde descansava a cabeça no peito dele. Devagarinho, abriu os olhos. Demorou meros seguros para focar melhor no ambiente ao seu redor e ao erguer a face, percebeu que estava sendo observado. Os olhos atentos de Zeno lhe observavam com ternura e havia algo que Patrick não conseguia identificar. A segurança e o conforto do momento trouxeram um sorriso suave aos seus lábios. Se aquilo era estar feliz, gostaria que durasse para sempre.
𝐕. Fazia um tempo que não o via. Como sabia os locais que Zeno frequentava, tentava evitar todos para não mexer na ferida que ainda se encontrava aberta. Terminar com o Darling foi uma das ações mais difíceis que precisou fazer. Um impulso vindo em momento de fraqueza onde o auto-desprezo falava mais alto e que aqueles sentimentos ruins que o Doutor Grilo chamava de depressão tinham tomado o controle. Um erro. Mas um erro que não podia ser desfeito pois era melhor para Zeno que tudo continuasse daquela forma. Estava saindo do trabalho quando seu olhar capturou a figura lhe fitando de longe. Ele não estava sozinho, algumas pessoas que reconhecia ser do time estavam por perto conversando e brincando… mas Zeno lhe encarava. Aqueles olhos verdes que tanto adorava agora pareciam desconhecidos. A expressão fechada combinava com o peso do olhar. Ele me odeia? A resposta para isso parecia estar gravada no olhar persistente, mas Patrick escolhia tentar não ler nada por trás disso. Era menos doloroso. Já bastava ter que abaixar a cabeça e seguir no caminho oposto, sendo aquele que quebra o olhar e se afasta. Como sempre.
-- Ugh, a professora Elsa acabou comigo hoje. -- Ben resmungou, sentando ao lado de Zeno em uma das mesas compridas do Salão Principal no jantar. Raramente ia até o lugar, preferindo fazer seu próprio jantar, mas não achava que conseguiria erguer os braços muito mais essa noite. Tinham focado em desenvolver sua transformação em outras partes do corpo que não o rosto, e isso o tinha deixado todo dolorido, como se a transformação em si fosse um músculo pouco utilizado. -- Você já chegou no módulo II. Me diga que fica melhor ou eu vou largar essa escola hoje mesmo. Vou viver para sempre fazendo pão.