Guia para inevitáveis
─ Era um sonho dentro do sonho, o senhor me entende? Eu não queria, mas quando acordei já era tarde, como poderia ter sido tarde bem antes disso. Mas eu estava sonhando dentro do sonho, o senhor precisa entender.
─ Entendo, sim, ou posso entender que isso foi um sonho dentro do sonho. Eu penso que é como uma música com várias versões.
─ Não, isso não é uma música. É um sonho, é diferente. Eu estava sonhando dentro do sonho, assim, de olhos fechados dentro dos olhos fechados. Eu estava dormindo enquanto dormia e sonhava enquanto sonhava, dormia e sonhava duas vezes. Eu estava dormindo e sonhando que estava dormindo e sonhando, e no sonho eu sonhava que estava sonhando, então no fim das contas eu parecia não estar fazendo nada além de sonhar, mesmo que pudesse parecer que eu estivesse fazendo alguma coisa realmente.
─ Sonhar já pode ser alguma coisa. Mas o que você estava sonhando no sonho?
─ Justamente. Eu sonhava que sonhava. E depois do sonho não tinha nada. Eu sonhava que sonhava. E o segundo sonho não sonhava com nada, apenas sonhava. No sonho, eu sonhava que sonhava, e no sonho dentro do sonho eu não sonhava nada. Apenas sonhava, como se sonhar fosse a finalidade de se estar sonhando.
─ E não pode ser?
─ O senhor precisa entender.
─ Por favor, não me chame de senhor, me chame de senhora.
─ Desculpe-me.
─ Prossiga, o que você sonhava nesse sonho?
─ Já disse à senhora que eu sonhava que sonhava. Não havia mais nada além disso.
─ Deve haver alguma coisa. Deveria existir alguma coisa. Talvez tenha existido e você, agora, não consegue se lembrar.
─ Como faço pra conseguir me lembrar se havia algo sendo sonhado dentro do sonho em que eu apenas sonhava que sonhava?
─ Talvez não exista um jeito de se descobrir como fazer, talvez você possa se lembrar. Alguma coisa, talvez, que desperte o que já está dormindo, um gancho, talvez, compreende, um gancho que fisgue aquilo que já dormiu, porque quase tudo está aí, talvez. Alguma coisa ainda está aí. Se você apenas sonhava e sonhava que sonhava, então deve existir um sonho depois do sonho, mesmo que o sonho seja apenas um sonho e nada além disso.
─ Sim, faz sentido, assim como você ser um senhor ou uma senhora.
─ Por favor, me chame de S.
─ Certo. S., por favor, eu queria apenas que você entendesse que meu sonho se tratava de um sonho dentro de um sonho e nada além disso.
─ Tudo bem, eu posso compreender. Mas acho que não sou eu, acho que é você.
─ S., o que você quer dizer?
─ O que você sonhou dentro do sonho dentro do sonho?
─ Eu só estava de olhos fechados, sonhando.
─ Deve haver mais alguma coisa.
─ E se não existir mais nada?
─ Então está tudo bem. Acho que você não precisa se preocupar com isso. Está tudo bem.
─ Sim, está tudo bem.
─ Tudo bem.
─ Tudo.
─ Bem, vamos?
─ Já está na hora?
─ Sim, já está na hora. Queira se aprontar, por favor.
─ Em que lugar coloquei minhas meias?
─ Ali, logo abaixo da cadeira.
─ Obrigado, S.
─ Por favor, não me chame de S., me chame de T.
─ Você prefere assim?
─ Prefiro.
─ Certo. Obrigado, T.
─ Você se sente melhor?
─ Eu só gostaria de ficar mais um pouco, posso?
─ Pode, sim, claro. Mas já está na hora. Então vamos!
─ Obrigado, T. Não sei o que eu poderia fazer de diferente. Se eu pudesse voltar...
─ Você não vai voltar. É só fechar os olhos novamente. Vamos, assim. Foque nisso. Assim, ótimo.
─ Mas você ainda não entende, certo? Você ainda não compreende o que eu disse, compreende? Vamos, me diga a verdade. Você parece não me entender, eu queria que você me entendesse.
─ Não precisamos voltar pra isso. E eu já disse, acho que não sou eu, acho que é você. Consegue entender?
─ Sim, T., entendo, obrigado. Eu não sei o que poderia fazer. Acho que eu vi, sim, alguma coisa enquanto sonhava. Sim, era uma cor avermelhada que chegava aos poucos e de repente parecia explodir. Isso pode ser alguma coisa, T.?
─ Pode ser, sim, alguma coisa.
─ Então você acha que eu sonhei alguma coisa enquanto sonhava que sonhava? Acredita que eu possa ter sonhado alguma coisa dentro do sonho? Será que foi um terceiro sonho?
─ Acredito que possa ser muita coisa, não vamos fechar as possibilidades, tudo bem?
─ Eu só queria que você me entendesse, T.
─ Por favor, não me chame de T.
─ Tudo bem. Como posso chamar?
─ Apenas não chame mais. Está na hora. Vamos, está na hora. Precisamos.
─ Mas...
─ Quando nos reencontrarmos... Tudo bem?
─ Tudo bem. Eu só queria saber se isso pode ser um sonho, se uma cor pode ser um sonho.
─ O que você quiser que seja, pode ser. Ou quase tudo. Agora, vamos. Estou falando sério. Não existe mais tempo algum. Como posso chamar você?
─ Pode me chamar de T.







