Temporary fix
Onde Louis é apenas um mecânico solitário que vê sua rotina ser atormentada por cachos delicados e covinhas seduzentes.
Ou onde Harry vai a uma corrida clandestina e tem certeza de que Louis é dele —em todos os sentidos.
avisos: ltops, hbottom, Harry como uma garota cis, pwp, oneshot (parte 1 de 2)
Harry não sabia se estava mais nervosa pelo barulho dos motores, que rangiam alto como o de caminhões, ou pelo fato de estar ali –porque, porra, ela conseguia sentir o cheiro da ilegalidade pairando no ar. Estava longe de ser um território Styles.
Ela nunca tinha visto nada igual antes. O cheiro de gasolina queimava suas narinas e as luzes amareladas dos postes mal iluminavam as pessoas reunidas na beira da estrada. Tudo vibrava com a música alta e a fumaça corria solta por causa dos pneus cantando, tão desordeiros quanto as batidas de seu coração.
Ela andava devagar, atenta a tudo e todos, tentando fingir que não estava apavorada, tentando se misturar ao local –apesar de que seu rosto entregava que ela não era familiar.
–Harry, relaxa– Yohana disse. Ela era meio asiática e meio latina, bolsista em sua escola e aquele ambiente era comum para ela. O que a deixava naturalmente mais calma que Harry –É só ficar perto de mim, beleza?
Mas foi perambulando entre os grupos de pessoas e os carros estacionados que o viu. O mundo ao seu redor pareceu ficar mais silencioso.
Louis estava agachado ao lado de um carro vermelho –Harry não saberia dizer que marca era aquela nem se a pergunta valesse um milhão de libras–, a pouca luz refletindo seu rosto concentrado. O macacão estava fechado até o pescoço, as mãos sujas de graxa e os olhos fixos no motor, como se nada o distraísse. Ou existisse.
Havia algo nele… Real. Cru.
Algo que Harry nunca tinha visto em sua vida perfeita.
Sem perceber, ela parou de andar. Yohana foi na frente, mas já estava com um grupo grande, não seria difícil voltar a achá-la. Ela quis fazer uma coisa… A amiga podia esperar, certo?
Louis levantou o olhar quando ouviu passos muito mais perto do que ele gostaria. E quando viu Harry o observando, levantou-se e franziu o cenho –não hostil, mas como quem tenta entender por que diabos uma garota de saia rodada e um salto alto Mary Jane, parecendo uma boneca, estava ali.
Harry sentiu um frio no estômago, repensando se foi uma boa ideia.
–Oi– disse, tentando soar casual.
Louis piscou devagar.
–Tá perdida?
–Não… Só… Olhando– Harry observou o motor, como se entendesse o que visse –Tá consertando?
Louis limpou as mãos no pano que ficava apoiado em seu ombro.
–Não.
Silêncio.
–Ah– ela murmurou –É que… Hum… Você parece saber muito bem o que está fazendo.
Louis não respondeu, apenas abaixou-se novamente e voltou ao que fazia antes. Focado. Bonito demais para a sanidade de qualquer garota.
Harry sabia que aquilo foi um “se manda” silencioso, mas não conseguiu ir embora.
–Eu nunca vim à uma corrida assim– ela continuou –É… Intenso.
–É– Louis respondeu sem olhar.
Harry enrolou um cacho entre os dedos, meio sem graça. Chegava a ser engraçado ela estar nesse tipo de situação, pois ela geralmente não se esforçava para chamar atenção.
–Você corre também?
Louis soltou o ar pelo nariz, quase uma risada cética. Se pela pergunta ou pela insistência, Harry não saberia dizer.
–Não.
–Só arruma carros?
–Isso.
Outra resposta curta. Deus, esse garoto sabia falar como um ser humano ou só estava sendo selvagem com ela? Parecia um monólogo.
Harry mordeu o lábio, começando a achar que o problema era ela. Será que estava o incomodando?
Entretanto, como quem estava hipnotizada, ela não se foi. Pelo contrário, se esgueirou mais para perto, cautelosa.
–Posso… Ver?
Finalmente ele olhara para ela novamente. Não havia simpatia, nem hostilidade –só uma espécie de alerta, como se ele avaliasse um risco e se valia a pena corrê-lo ou não. Decidiu que essa seria sua primeira e única corrida da vida…
–Se você sujar esse sapato aí, não pode falar que a culpa é minha– ele disse, fingindo desinteresse.
Harry sorriu, aliviada por arrancar uma frase um pouco maior.
Aproximou-se devagar, inclinando o corpo para espiar o interior do carro. Louis olhou para ela, avaliando-a. Não de uma maneira sexual ou algo do tipo, mas sim curioso. Ela realmente não parecia fazer parte daquele ambiente.
A garota queria realmente prestar atenção, mas tinha ciência demais do olhar de Louis. Talvez não era a atenção que queria dele, mas pelo menos tinha alguma. E ela queria tanto que isso não soasse como uma pick me patética.
–Como você sabe onde mexer?– ela perguntou, tentando distrair a própria mente.
–Simplesmente sei– respondeu, com os braços cruzados sobre o peito.
–Mas como sabe que essas peças são as certas?
Louis parou. Harry o olhou sobre o ombro, perguntando-se se não estava sendo intrometida demais –era óbvio que ela não entendia nada do assunto. Ele parecia dividido entre suspirar de impaciência e responder de uma vez de forma grosseira para ver se ela calava a boca.
Mas quando seus olhos encontraram os verdes dela, ele não conseguiu fazer nenhum dos dois.
–Porque eu escutei o motor– essa havia sido a frase mais gentil que ele lhe direcionara desde o começo –Ele me diz onde dói.
Harry se virou por completo, escorando-se na parte lateral do capô.
–Como… Alguém falando?
Louis passou o olhar por todo seu rosto. Bem devagar.
–Pra quem presta atenção, sim.
Harry sentiu um arrepio inesperado, engolindo em seco.
Louis então virou de costas, quebrando o contato visual e jogando o pano sobre o ombro de novo.
–Vai começar– ele disse, indicando com a cabeça para a movimentação que começava a se formar ao redor da pista improvisada –Você deveria ir. Isso aqui não é lugar para alguém como você.
Harry arqueou uma sobrancelha, intrigada.
–E que tipo de pessoa eu sou?
Louis hesitou. Apenas por um segundo. Ele não queria falar nada que a ofendesse, mas talvez deveria –talvez ela não voltasse. Mas quando a olhou novamente, ele não teve essa coragem.
–Simplesmente sei– repetiu, voltando-se para o carro, pondo fim a conversa.
Simplesmente sei. Assim como sobre os carros?
Harry tentou não martelar a dúvida na cabeça enquanto voltava para Yohana.
—
Harry não entendia muito bem porque suas pernas o levaram até ali.
A corrida já tinha terminado, as pessoas estavam se dispersando, cada uma indo para o seu carro, e o cheiro de borracha queimada já esfriava sobre o vento. Ela devia ter acompanhado Yohana até o carro, mas mentiu, dizendo que precisava fazer uma coisa –que não deu detalhes– e para esperá-la no carro.
Ela não podia ir embora. Não ainda. Não quando Louis não saia de sua cabeça.
Harry o encontrou do jeito mais fácil possível: sozinho, guardando as ferramentas dentro da maleta e terminando de ajeitar suas coisas sob a caminhonete velha. Visto dali, ele parecia tão frio e inquebrável… Talvez por isso totalmente irresistível.
Engolindo o nervosismo, ela se aproximou.
Louis levantou os olhos devagar, sem surpresa, como se já esperasse que ela voltaria –não ansiosamente, deve-se dizer.
–Styles– ele disse, seco. Não era um cumprimento. Era uma constatação.
A garota sentiu um arrepio. Não de medo, mas de como Louis fazia seu sobrenome parecer um incômodo.
–Só Harry está bom– respondeu, tentando se sentir mais confiante do que se sentia –Você sabe meu sobrenome.
Ele fez uma careta que tentou disfarçar.
–Você foi assunto hoje.
–E o que entregou que era eu?
Louis a olhou de cima a baixo, como se perguntasse “não é óbvio?”.
–É difícil de ouvir um sobrenome desse nesse tipo de lugar– ele fez uma pausa –Ainda mais quando metade do pessoal está apostando se a menina rica vai desmaiar ou vomitar.
Harry riu, mesmo sentindo as bochechas queimarem.
Ele ocultou a parte que quase todos vieram perguntar o que ele estava fazendo com a princesinha dos Styles. Como se fosse ele que tivesse ido atrás dela.
–E você? Apostou em quê?– ela questionou, divertida.
Louis observou-a por um longo momento, como se tentasse decidir se valia a pena responder. Ele podia ver o que estava tentando fazer.
–Achei que você ia embora na metade– ele disse, finalmente –Mas não foi.
Harry respirou fundo, juntando toda sua coragem para continuar:
–Talvez eu estivesse e-
Louis levantou a mão, interrompendo-a sem cerimônia.
–Não precisa terminar– a voz dele era firme, quase fria –Seja lá o que você veio procurar aqui, não vai achar comigo.
Harry piscou. Várias vezes. Surpresa pela dureza. Não esperava um sorriso, claro, mas… Uma batida de porta na cara assim?
Louis voltou a empurrar as coisas de volta na caminhonete, decidindo que a conversa acabou.
–Escuta,– ele completou, parando completamente, ainda de costas para ela –Esse lugar não é pra você… E eu também não.
Harry sentiu o estômago apertar –não de vergonha, mas de uma curiosidade ainda maior, teimosia pura.
–Eu só queria conversar– murmurou, tentando não se sentir afetada.
Louis encontrou seu olhar virando a cabeça em cima do ombro. Havia algo ali, sim –não interesse declarado, mas reconhecimento. Como se avisasse por obrigação, como se já tivesse passado por uma situação semelhante antes.
–Conversa com qualquer um– ele gesticulou vagamente, abanando a mão para as pessoas que ainda haviam sobrado no meio da rua e bebiam algo que parecia barato –Eu tenho coisa pra fazer.
Foi um corte. Direto, limpo.
Harry abriu a boca para responder, mas nada pareceu se encaixar na conversa atual. Então apenas assentiu, engolindo o amargo de quem esperava um doce, mas lhe foi tirado.
Deu um passo para trás, o salto fazendo um barulho alto no asfalto.
Depois outro.
Louis não disse nada. Fazendo o que estava fazendo como se Harry já não estivesse mais ali.
Mas, perante a luz fraca, Harry captou um detalhe: Louis a olhou novamente –rápido e quase imperceptível– quando achou que ela já estava de costas.
O tipo de olhar que queima mais, por ser escondido. Deixando uma sensação eterna pelo não dito.
Harry sentiu o peito apertar outra vez, mas não de frustração, dessa vez. E sim de certeza.
Ela tinha acabado de ser dispensada –claramente– e racionalmente deveria ir embora e nunca mais voltar. Mas nada naquela troca apagou o que sentiu. Muito pelo contrário.
—
Harry pensou a semana inteira naquela maldita corrida. Se fosse honesta com ela mesma, ela não parou de pensar em Louis. Ela tinha que vê-lo de novo.
Era bizarro, ele mal lhe deu moral ou trocou uma meia dúzia de palavras com ela e ainda assim ela não conseguia esquecê-lo.
Quando chegou na escola em uma quarta-feira aleatória, Harry correu em busca de Yohana. Achou-a pegando suas coisas no armário e não perdeu tempo em pular no seu pescoço.
–Por favor, não me venha com seus dramas, eu estou com ressaca!– ela disse, fechando os olhos, parecendo cansada.
–Bebendo numa terça?
–Harry, admiro muito você por aguentar essa escola sóbria– respondeu, como se explicasse o porquê de tamanha irresponsabilidade.
–Eu não tenho muita escolha– ela murmurou, tão baixo quanto um sopro, enquanto soltava a amiga.
–O que?– Yohana fez uma cara confusa.
–Nada– Harry foi rápida em abrir um sorriso.
Um silêncio se instalou entre as duas e a latina não demorou para estreitar os olhos para Harry, que parecia levemente –ou muito– ansiosa.
–Tá bom, desembucha.
–Yo,… Então– ela começou, mordendo a parte interna da bochecha, hesitante –Você disse que às vezes acontecem outras corridas, né?
–Hum– concordou, desconfiada –Por quê?
Harry tentou parecer casual. Enrolou uma mecha de seu cabelo, arrastando o mesmo salto que usara na corrida no chão polido da escola. Não convenceu nem ela mesma.
–Eu… Gostei. Da vibe. Da adrenalina. Foi… Diferente.
Yohana riu. Alto. Chamando atenção de todo o corredor.
–Aham. A princesinha dos Styles gostou da adrenalina, é?
Harry deu um tapa em seu braço, fazendo cara feia para ela.
–Vai se ferrar! Foi legal, sim! Eu quero ver de novo, tá?
Yohana ficou em silêncio por alguns segundos, analisando-a. Ela sabia que ali tinha mais do que Harry queria lhe contar, mas não pressionou.
–Tá– ela levantou as mãos –Você quer ir de novo porque foi legal. Eu entendi. É melhor você ir comigo do que inventar de ir sozinha.
Harry tentou parecer indiferente, mas uma animação queimou seu estômago e apareceu em seu sorriso.
–Então você vai me levar?
–Vou– ela apontou para Harry –Mas se der polícia, é cada uma por si. Não vou arranjar encrenca por causa de uma garota que pode ter uma equipe inteira de advogados a sua disposição.
Harry levantou as mãos, inocentemente.
–Prometo me comportar. Vou colocar minha melhor roupa!
–Eu não faria isso se fosse você– mas Harry já estava longe demais para ouvir.
___
Harry passou a tarde inteira inquieta, como se tivesse tomado café com energético. A ponto de Yohana bater na porta do quarto e erguer as sobrancelhas.
–Pronta?– ela perguntou –Ou vai ficar andando em círculos até abrir um buraco no chão?
Harry fingiu naturalidade, jogando uma jaqueta de couro legítimo –que ela torcia para que os outros achassem que não era– sobre os ombros.
–Tô animada, só isso.
A outra garota riu, aquele riso de quem já conhece as manias da amiga.
–Animada? Harry, você nunca ligou para uma corrida clandestina. Uma vez que te levo e agora parece ser seu hobby favorito. Que diabos aconteceu lá?
–Nada– ela respondeu rápido demais –Só… Achei legal. Adrenalina e tal, sabe.
–Aham– ela estreitou os olhos, mas continuou sorrindo –Sei. A senhorita “eu prefiro festas com bebidinhas frutadas” agora ama poeira, motor e gente gritando.
Harry deu de ombros, tentando parecer casual.
–Quem sabe eu só estava precisando sair da minha zona de conforto. Tentar coisas novas.
–Certo, novidade– ela deu um tapinha no ombro da amiga enquanto caminhavam até o carro –Vamos antes que essa sua empolgação evapore.
Mas a empolgação não evaporou. E talvez nunca fosse.
Quando chegaram ao local onde ocorreria a corrida dessa vez –era sempre um local diferente, Harry soubera, e também se pegou questionando como eles marcavam essas coisas. Harry mal prestou atenção nos carros fazendo fila, no barulho dos motores ou no cheiro de pneu queimado. Ela estava inquieta, olhando para todos os lados como quem espera algo… Ou alguém.
Yohana notou de rabo de olho.
–Você tá que nem uma criança procurando algodão-doce. Nunca vi isso.
–Só tô… Curtindo o ambiente– ela insiste.
Ela ergueu as mãos em rendição, rindo.
–Beleza, beleza. Vai lá “curtir”. Eu vou pegar uma bebida.
E, assim, livre da atenção dela, foi fácil para Harry seguir seus impulsos e se esgueirar para seu objetivo principal e inicial: procurar Louis no meio do tumulto.
O coração acelerou quando finalmente o viu, sozinho, encostado em um carro preto, como se o mundo inteiro fosse barulho –menos ele.
Harry se aproximou devagar, como se aquele pedaço de chão estivesse a desabar se ele pisasse forte demais. As mãos dele estavam sujas de graxa –para variar– e ele vestia uma camisa branca manchada, com o olhar perdido longe dali. Até notar a sombra de Harry chegando perto.
Louis levantou o olhar preguiçosamente, como quem reconhece o incômodo que irá passar.
–Você de novo– não foi hostil, mas também não era exatamente acolhedor.
Harry forçou um sorriso, tentando parecer alguém que só estava de passagem.
–Aham. É… Eu vim de novo– ela pigarreou, sem saber muito bem o que dizer –A corrida da semana passada foi interessante.
Louis arqueou uma sobrancelha, como quem não acredita no que ouvira.
–Hum. Interessante.
Harry assentiu, firme demais para soar natural.
–Foi.
Silêncio.
Louis voltou seu olhar para o carro, dando a Harry a oportunidade de ir embora sem que ele precisasse ser rude.
Mas ela não foi.
–Vai correr hoje?– perguntou, tentando recuperar o terreno.
Louis soltou um suspiro nasal curto, quase um riso abafado.
–Talvez.
–Você pilotando deve ser…– Harry parou, sem saber exatamente como continuar –Uma visão e tanto.
Louis olhou de lado, finalmente virando um pouco o corpo na direção dela. Os olhos azuis tinham aquela intensidade gelada e calculada, mas que mandava uma chama intensa para o meio de suas pernas.
–A maioria das pessoas que volta aqui é pela adrenalina– Louis comentou, devagar –Mas você…– ele estreitou os olhos –Não tem cara de que veio por isso.
Harry sustentou o olhar, tentando não parecer que foi pega no flagra.
–E qual “cara” eu tenho?
Louis limpou a mão na calça, cruzando os braços em frente ao peito. Um gesto pequeno, mas que dizia: estou prestando atenção em você agora.
–De quem veio procurar por algo– depois corrigiu-se: –Ou alguém.
A garganta de Harry secou.
–Não sei do que você está falando.
Louis inclinou a cabeça, um sorriso mínimo –só o canto dos lábios, quase imperceptivelmente.
–Claro que não.
Harry desviou o olhar por um instante, olhando para o Mustang atrás dele –bonito, antigo, imponente, mas que não parecia estar nos seus melhores dias. Quando voltou-se para o garoto, havia algo novo na voz.
–Posso ver o carro?– não era desculpa, mas também não era a intenção principal.
Louis hesitou por um momento. Não porque não queria mostrar, mas porque mostrar seria como permitir que Harry chegasse mais perto. Mais dentro de sua vida… Talvez.
Mas abriu espaço, por fim, dando um meio passo para o lado.
–Vê aí. Só não encosta no capô– avisou –Ainda está quente.
Harry sorriu, as covinhas decorando suas bochechas e dando-a um ar inocente. Inocente o suficiente para que Louis esquecesse que ele era o objetivo dela ali.
Aproximou-se do carro, passando a mão pelo ar, sem tocar realmente –respeitando o cuidado. Louis observava. De braços cruzados, cara fechada e reparando em cada detalhe daquela garota invasiva.
Louis não podia deixar de admitir que ela era linda. Linda como uma garota nenhuma outra tinha se mostrado para ele até então. Os cabelos cacheados, os lábios cheios, as bochechas coradas, o corpo muito bem delineado. Perfeitinha demais para se encaixar em seus padrões: desarrumado, sujo e pobre.
Harry virou-se, devagar, os cachos acompanhando o movimento.
–Ele é bonito. Dá pra ver que você cuida muito bem.
Louis assentiu, olhos presos nos verdes dela.
–Não é meu… Mas é, eu cuido bem do que está sob minha posse.
Harry assentiu com a cabeça, sem saber o que dizer, corando.
–E você… Hum… Cuida bem das pessoas também? Ou só dos carros?
Louis secou o sorriso, mas não a afastou.
–Depende da pessoa.
–Ah.
–É– ele deu um pequeno passo para trás, desfazendo qualquer tipo de intimidade que eles tenham criado –Vai assistir a corrida com a sua amiga, garotinha.
–Garotinha? Quantos anos você acha que eu tenho?!– ela pergunta, exacerbada, colocando uma mão no peito, quase ofendida.
Louis deu um sorriso de canto.
–Tenho certeza de que sou mais velho que você.
–Isso não te faz a voz da experiência, senhor mais velho que eu– Harry retrucou, debochada –E só para você saber, eu tenho dezessete, faço dezoito mês que vêm!
–Ou seja, completamente ilegal– ele provocou.
–Acho que você se esqueceu de onde nós estamos…
Louis abriu um sorriso ainda maior. Ele podia ser quatro anos mais velho, mas ela sabia como lhe responder como um igual.
–Touché.
—
O galpão pulsava com luzes vermelhas e música grave –algo tipo reggaeton estava tocando. A festa pós-corrida sempre era assim: suada, ruidosa, cheia de gente meio bêbada e completamente imprudente.
Harry foi arrastada por Yohana, mas não demorou muito para que ela se perdesse intencionalmente da vista dela. Afinal, ela não tinha ido ali para curtir. Não como os outros, pelo menos.
Louis estava em um canto menos iluminado, apoiado num dos pilares de concreto, segurando um copo vermelho. Ombros relaxados, expressão fechada, olhando para a pista de dança improvisada como quem não se vê ali de forma alguma.
Ele era, sozinho, mais interessante que um grupo inteiro de homens que sabiam conduzir uma dança com sensualidade.
Harry parou a alguns passos de distância e ficou o observando –descaradamente. Louis sentiu. Levantou o olhar e a encontrou.
Por um segundo, nenhum dos dois desviou, deixando que a atmosfera ficasse densa ao redor.
Então Harry andou até ele. Sem hesitação. Sem rodeios.
Louis soltou um suspiro baixo, entornando o resto da bebida que tinha em seu copo.
–Você não aprende mesmo, né?– a voz era baixa, grave, mas não demonstrava um ataque, apenas cautela.
Harry chegou perto o bastante para Louis sentir o cheiro de sua bebida doce e seu perfume caro.
–Se você quisesse que eu não viesse– disse Harry, com aquele sorriso que parecia inocente –Teria me mandado embora da corrida de um jeito mais convincente.
Louis olhou para seus lábios antes de voltar para os olhos. Se martirizou por isso.
–Você não deveria estar bebendo– murmurou.
–Você também não– rebateu ela, dando de ombros –Mas aqui estamos.
–Eu sou legal– relembrou Louis.
Harry riu.
–Explica isso para a polícia se você for pego dirigindo, então.
Louis apertou o copo em mãos, porque, porra, ela tinha razão. Irritado consigo mesmo, ele suspirou fundo, mas não deu um passo para trás.
–Você tá bem soltinha, né?
–Honesta!– corrigiu, inclinando a cabeça –Ou você preferia que eu ficasse fazendo de conta que não passei a semana inteira pensando em você?
Louis travou o maxilar, desviando o olhar. A sinceridade bateu fundo demais. Gostaria de pensar que a garota estava assim por causa da bebida e que no dia seguinte ela nem se lembraria disso, mas sabia que isso era o tipo de coisa que ela falaria sóbria –ela era bem óbvia em suas intenções com Louis.
–Você tem dezessete, garotinha– relembrou-a, pois isso tinha que ser argumento o suficiente.
Harry sorriu de canto, em pura provocação.
–Agora que você sabe vai ficar usando isso sempre?– ela bebeu um gole de bebida antes de continuar –Eu tenho quase dezoito, caso você tenha deletado essa informação da sua mente.
Louis soltou um riso curto, incrédulo.
–Isso não muda porra nenhuma.
–Muda para mim– ela diz, encostando o ombro no mesmo pilar, quase roçando no dele –Significa que eu sei exatamente o que eu quero e o que eu preciso para conseguir.
Louis respirou fundo, como se aquilo estivesse começando a irritá-lo –não por ser ruim, mas porque estava ficando verdadeiro demais.
–Olha, eu sei o que você está fazendo.
–Ótimo!– Harry inclinou-se em sua direção. Só um pouco –Assim eu não preciso disfarçar.
Louis a encarou, sério, como se avaliasse cada palavra.
–Você não tem noção do tipo de confusão que está procurando.
–Tenho sim– Harry rebateu, firme, direta –E ainda assim vim até aqui. Melhor, eu pedi para vir até aqui.
–Sua amiga?
Mas não precisava de resposta, estava claro que sim. Louis já tinha visto Yohana outras vezes antes dela aparecer com Harry, deslocada com suas roupas de grife.
A tensão ficou mais densa. Pessoas passavam ao redor, rindo, bebendo, dançando –mas entre eles, era tudo diferente. Eles viviam no próprio mundinho, como se as coisas ao redor não os afetasse, pois já tinha muito a se pensar ali dentro.
Louis finalmente falou, em voz baixa:
–Por que você veio hoje? De verdade.
Harry não piscou.
–Porque da última vez que eu te vi… Você me mandou embora antes que eu entendesse o que…– ela se interrompeu, tentando organizar os pensamentos –Caramba, o que é isso que acontece quando a gente fica perto. É como um imã que me puxa pra você e eu não consigo… Não. Eu não quero me afastar.
Louis prendeu a respiração. Ele não esperava por aquilo dito tão cru, tão sem rodeios.
–Harry…
–Fala– provocou Harry, mordendo o lábio inferior, com os olhos brilhando de álcool e coragem –Diz que não é nada. Diz que eu estou fantasiando. Que eu sou uma garotinha sonhadora.
Louis não disse. Não conseguiu.
Só desviou o olhar para qualquer lugar que não fosse Harry e o quão próximo ele estava.
Harry sorriu devagar.
–É– murmurou –Eu sabia.
Yohana apareceu gritando o nome de Harry lá no fundo da festa, mas ela nem virou.
Louis finalmente encontrou seus olhos, temendo que ela fosse mas ao mesmo tempo ansiando que ele desse fim a essa tortura e voltasse para sua amiga. Era tão confuso, com nenhuma garota foi tão confuso, que merda!
Ele tentou recuperar o controle da situação, respirando fundo antes de dizer:
–Você deveria ir.
Harry se aproximou, ao invés. O suficiente para que sua boca ficasse perto do ouvido de Louis –sem tocar, apenas o hálito tórrido o queimando.
–Se você queria que eu fosse, não teria ficado parado enquanto eu falava tudo isso.
Louis fechou os olhos por um segundo. Foi o máximo de deleite que se permitiu: ouvir aquela voz doce enfeitiçá-lo como uma sereia faria com o pescador.
–Vai, Harry– ele repetiu, num tom que traía o que realmente queria.
Harry deu um passo para trás, mas não desviou o olhar nem por um segundo.
–Eu vou, mas você sabe que isso não acabou.
E, antes de se afastar por completo, disse baixinho:
–Você sente. Tanto quanto eu.
Louis não respondeu, mas o silêncio que ficou disse tudo.
—
Era mais tarde na festa quando Harry encontrou Louis –desta vez perto de um grupo que fazia bastante barulho. Não era um jogo oficial, ninguém estava sentado em roda ou coisa do tipo. Era apenas um monte de gente batendo garrafas na mesa improvisada, rindo alto e apostando tragos.
Um cara gritou:
–Duelo! Quem perde, bebe!
Harry olhou, curioso.
Louis estava ali, encostado na mesa, braços cruzados, observando –tentando não participar, mas também não indo embora.
Era um jogo simples: dois participantes olhavam um para o outro, quem desviasse o olhar primeiro, bebia. Era divertido, porque os outros envolta podiam fazer palhaçada, mexer com eles ou qualquer outra coisa que fosse desviar a atenção dos participantes.
Era o jogo perfeito para Louis, com aquele olhar que até as medusas sentiriam inveja.
Harry nem pensou.
–Eu quero jogar– anunciou, os olhos já em Louis.
O grupo vibrou, achando graça. Louis ergueu o olhar, lento e pesado –o mundo pareceu diminuir.
–Não– Louis disse, de imediato, firme.
–Ah, qual é, cara!– alguém bateu em suas costas –Você é o nosso melhor jogador!
–Não– pareceu definitivo.
–Porra, se Tomlinson não quer que se foda ele. Eu jogo– outro cara se pronunciou, se sentando no sofá velho que tinha ali –Vem cá, gatinha.
Louis suspirou fundo, tentando não se irritar com a cantada fajuta, mas ver Harry indo até ele sem hesitar foi demais. Ele caminhou em passos largos até os dois e, com uma carranca fechada, disse:
–Tá, eu jogo. Sai do meu lugar, Phill.
O garoto em questão não se opôs, mas não pareceu muito feliz ao sair resmungando.
Harry, por outro lado, sentou-se sorrindo enquanto esperava Louis fazer o mesmo.
–Uma rodada– especificou Louis, sentando de frente para a garota no sofá.
Eles ficaram de frente um para o outro, tão próximos que Harry sentiu o cheiro de álcool na respiração de Louis. E ele percebeu que ela estava trêmula –mas não de medo.
Louis apoiou uma mão no encosto estofado do sofá, corpo inclinado, postura firme. Harry ergueu o rosto, encarando.
–Valendo!– alguém gritou.
E então começou.
Louis olhava como se quisesse atravessar. Frio, intenso, segurando tudo o que sentia como se fosse um metal quente entre as mãos. O ar denso e pesado fazia o ar difícil de respirar, mas olhar para Harry fazia ser fácil viver.
Harry sustentava o olhar de volta, mas era completamente diferente –era esperançoso, como quem vê um incidente iminente. Ela abriu um sorriso, insolente, lento e perigoso, como quase todos os seus até então.
–Você não vai vencer– murmurou.
Louis sentiu o impacto daquelas palavras por inteiro. E, por um segundo, o álcool venceu a lógica.
Em um momento ele estava encarando aqueles verdes lindos e amazônicos e no outro olhava para aquela boca vermelha e brilhante, sorrindo para ele. Só para ele.
Não conseguiu se conter.
Ele segurou o queixo de Harry com uma mão firme e a puxou pela metade de um segundo, colando a boca na dela.
Foi rápido. Duro. Quente.
Um beijo que parecia reprimido desde o primeiro encontro.
Tão forte que Harry fez um som baixo, surpresa, deixando Louis aprofundar o toque quando sentiu os dedos em seu pescoço.
E então…
Louis soltou-a como se tivesse encostado em fogo. Tão rápido como tudo começou, também acabou.
Levantou e recuou dois passos, a respiração acelerada e olhos arregalados.
–Eu… Ar– foi tudo o que ele disse antes de escapar para fora do galpão enquanto os gritavam e se desesperar com algo do tipo:
–ISSO QUE É PERDER O JOGO! MANDOU BEM, LOUEH!
Harry tentou sorrir e fingir que isso não a havia abalado, mas era em vão. O rosto queimou de vergonha, mas ela não hesitou em ir atrás de Louis, aproveitando o alvoroço da situação para se perder.
O ar fresco ajudava a situação, mas pouco. Louis estava com as mãos apoiadas nos joelhos, respirando fundo como se tivesse corrido uma maratona.
Harry chega perto, ofegante também, deslizando a mão no braço dele.
–Eu preciso te falar uma coisa– diz ela, com uma urgência que Louis nunca viu antes –Aquilo.. Hum… Foi o meu primeiro beijo.
Louis fechou os olhos.
Droga.
Porra.
Merda!
–Harry…– ele começa, mas a voz vacila –Você não devia ter me contado isso. Olha… Aquilo… Aquele momento não foi um beijo.
Silêncio imediato.
Harry desaba um pouco por dentro. Não era aquilo que ela esperava ouvir, de todas as coisas, ainda mais no seu primeiro beijo.
–Ah– ela diz. Só isso. Como se não conseguisse montar mais qualquer outra frase –Então é assim que você vê.
Louis passa a mão no rosto.
–Eu to querendo dizer que foi um acidente. Que a gente tava bêbado. Que-
Ele tenta explicar, mas Harry escuta outra coisa: rejeição.
Ela dá um passo à frente, olhar quente e agressivo –decidido.
–Você acha que aquilo não foi um beijo?– ela pergunta, voz baixa, quase um sussurro.
–Foi um erro– ele insiste, mas o tom falha. Ele não queria realmente acreditar nisso.
Harry aproxima-se mais. As mãos sobem devagar, tocando o rosto de Louis com uma delicadeza que não combina com o coração disparado dos dois.
–Então deixa eu te mostrar a diferença.
Louis congela.
E Harry o beija.
Não como antes. Não rápido. Não acidental.
Era mais; profundo, quente, úmido. Havia língua e movimentos desgovernados. Um beijo de uma não beijadora –porque era isso que Harry era, até então.
Era o tipo de beijo que arranca o ar, que atravessa tudo, que diz “eu esperei por isso e agora tenho”.
Louis perde o chão. Os dedos seguram a cintura da garota com força, como se tentasse se agarrar a uma realidade alternativa. Onde não precisasse lutar contra si mesmo.
E, por um momento, –curto, perigoso e verdadeiro– ele se permite relaxar, deixar as coisas fluírem.
E ele odeia cada segundo em que gosta disso.
Quando finalmente se separam, o rosto dele está vermelho, os lábios entreabertos e molhados de saliva.
–Isso nunca mais… Nunca mais vai acontecer– ele consegue dizer, mas é fraco, quase um pedido para que o mundo o deixe em paz –Esquece, Harry. Por favor.
Harry dá um meio passo para trás, abalada. O beijo parecia ter sido uma porta aberta, mas bastou que Louis caísse em si novamente que a tranca voltava a se fechar. Com duas voltas, ainda.
–Certo…– ela diz, mas a voz se quebra.
Louis já estava andando para o próprio carro quando ouve e vê, por cima do ombro, uma das piores cenas que já vivenciou. A garota deixava lágrimas mancharem seu belo rosto em um choro silencioso. E o pior, ele sabia que era o motivo.
___
Os dias seguintes passaram devagar. Se arrastando em climas quentes e ensolarados, sem se importar que Harry parecia mais trovoadas e nuvens cinzas.
Ela tentou fingir que nada havia acontecido. Tentou se convencer de que tinha sido só um beijo errado numa festa barulhenta, com gente muito bêbada e luzes fracas. Tentou rir quando Yohana contava suas piadas engraçadas. Tentou prestar atenção quando os professores davam matéria de prova. Tentou voltar a ter a rotina confortável que sempre foi lhe imposta com a vida fácil que sempre teve.
Mas o gosto não saia da boca.
Não o gosto de físico–o outro. O da experiência quebrada. Da vergonha silenciosa. Da decepção de entregar-se sem receber em troca.
Era estranho pensar que aquele tinha sido seu primeiro beijo. Não foi romântico, como sempre pensara que ia ser –apesar da química inegável que tinha com Louis–, nem bonito. Ela não queria soar dramática, mas agora ficaria para sempre em sua memória; não a ação, mas as palavras duras que foram faladas depois.
Às vezes, Harry se pegava encarando o nada, lembrando da mão de Louis em sua cintura, como se a quisesse ali.
Ela não contou para Yohana. Não contou para ninguém.
Apenas… Guardou.
Até que, numa tarde qualquer, depois de pouco mais de uma semana, sem nem perceber que estava repetindo um vício perigoso, soltou:
–Você vai na corrida esse fim de semana?
Yohana ergueu a sobrancelha.
–Que isso? Vai virar tradição essa porra, agora?
Harry deu de ombros, tentando parecer casual.
–Sei lá… Não tenho nada melhor para fazer mesmo, então por que não?
Era mentira. Os pais só a deixavam sair aos fins de semana porque viajavam tanto que se sentiam mal de deixá-la sozinha, mas sempre exigiam estudos fervorosos dela. Mas Yohana não tinha como saber.
–Posso te levar, sim– ela respondeu –Mas vê se dessa vez assiste a corrida, né? Das outras vezes você parecia no mundo da lua.
Harry riu, sem humor.
Ela achou melhor não comentar o verdadeiro motivo: que só queria ver Louis. Nem que fosse de longe, apenas para saber que ele era real. Que o que ela teve com ele foi real, mesmo que por um breve segundo.
___
Harry reconheceu o lugar antes mesmo de o carro parar. O coração já estava acelerado quando Yohana desligou o motor.
–Vai ficar me olhando assim até a corrida começar?– ela provocou, rindo –Parece até que tá esperando alguém aparecer do nada.
Harry desviou o olhar rápido demais.
–Nada a ver.
Mentira. Ela o viu quase que imediatamente.
Louis estava próximo a caminhonete, conversando com dois caras, postura relaxada demais para quem normalmente se isolava. O estômago de Harry apertou –ele estava lindo, como sempre.
Ela ficou onde estava, sem saber se devia se aproximar. Tinha prometido a si mesma que não faria papel de boba novamente.
Mas não precisou se decidir.
Louis quem a olhou primeiro –os olhos azuis já estavam nela quando ela o avistou. E dessa vez ele não desviou.
O olhar demorou um segundo a mais do que seria neutro. Um segundo que dizia: eu te vi. Depois, ele se despediu dos caras com um gesto curto e caminhou na direção dela.
Acontece que Louis também não parou de pensar no beijo durante aqueles dias. Não no ato em si, mas na imagem que o perseguiu e o atormentou: o rosto choroso de Harry. Ele tinha sido duro, mais do que queria e, com certeza, mais do que precisava. Sabia que tinha falado aquilo por medo, e não porque era verdade.
Por isso se aproximou de Harry sem esperar que ela o fizesse. Culpa? Ou algo assim…
Harry sentiu o corpo ficar em alerta.
Louis parou a uma distância respeitosa –nem perto demais para pressionar, nem longe demais para parecer indiferente.
–Sua amiga dirige bem– ele comentou, apontando discretamente para o carro de Yohana –Ela devia pensar em competir.
Yohana abriu um sorriso de orelha a orelha. Era meio que seu sonho correr, mas ela não tinha confiança o suficiente para se inscrever.
–Obrigada! Mas quem sabe um dia, não é mesmo?
Louis assentiu, quase sorrindo.
Harry observava em silêncio. Aquilo já era estranho o suficiente: Louis conversando casualmente. E pior, não dando indícios de que queria parar. Gentil…
Ele então voltou a olhar para Harry. Não intenso, como antes, mas cauteloso. Humano.
–Você voltou– ele disse, sem acusação no tom.
–Voltei– Harry respondeu, simples.
Um silêncio breve se instalou. Não desconfortável, apenas carregado. Uma nuvem de tensão pairando sobre a cabeça dos dois. Yohana notou, mas tentou fingir que não… Harry teria muita coisa para lhe explicar mais tarde.
–A corrida hoje vai ser mais curta. A pista não tá muito segura, sabe? Semana passada alguém estourou as rodas nos meio-fios, já estavam bêbados demais– Louis disse, para quebrar o silêncio.
Era apenas uma informação banal –a qual ele sabia que Harry não dava a mínima. Mas isso não era sobre corrida, era uma tentativa de manter a conversa viva.
Harry entendeu.
–Mesmo assim eu gosto de assistir– respondeu –Dá pra sentir a vibração de longe.
Louis assentiu lentamente.
–É… Dá mesmo.
Os olhos deles se encontraram novamente. O verde e o azul conectando-se além de palavras. Não havia desculpas ditas. Mas ainda estava diferente: tinha cuidado, respeito, espaço.
Yohana percebeu mais uma vez a tensão e decidiu lhes dar um pouco de privacidade. Estava claro que eles tinham mais para conversar do que ela tinha para assistir.
–Vou ali pegar uma bebida antes que acabe– ela disse, sem intenções reais de ser ouvida, já que eles pareciam presos no próprio mundinho.
Louis sentou-se no lugar antes ocupado por Yohana.
–Você…– ele parou, como se estivesse escolhendo as palavras –Você ficou bem depois da outra noite?
Harry não esperava por aquilo. Ela achava que Louis tinha esquecido, assim como a mandara fazer.
–Fiquei– mentiu.
Louis assentiu novamente, aceitando sua resposta –mas seu olhar suavizou, como se parte da culpa encontrasse um lugar para pousar, mesmo que ele suspeitasse que era mentira.
–Que bom.
Eles ficaram em silêncio por um longo período. Yohana ainda não tinha voltado e o clima estava voltando a ficar pesado.
Harry cruzou uma perna sobre a outra, descansando as mãos sobre o colo. Louis não pode deixar de notar as unhas bem feitas e pintadas em um vermelho que destacava seu tom de pele.
–Você sempre vem em todas as corridas?– perguntou, apenas para manter a conversa respirando.
Louis inclinou a cabeça.
–Quase todas. Os caras sempre precisam de alguma ajuda ou outra com os carros, sabe? Não sou o único mecânico, mas sou o melhor e eles sabem– um canto de sua boca se ergueu em um quase sorriso –E você? Não parece muito do tipo que gosta de lugares barulhentos.
Harry soltou um riso curto.
–Não sou mesmo– depois, mais honesta: –Mas aqui é… Diferente.
Louis entendeu o que não foi dito.
–Diferente como?
Harry demorou meio segundo para responder.
–Menos previsível.
Ele assentiu.
–É. Aqui nada vem com um manual.
O comentário pairou entre eles com mais significado do que transparecia.
Harry observou as mãos de Louis –ainda com vestígios de graxa, unhas curtas, marcas de trabalho duro e um tanto grossas. Tão diferente das mãos dos garotos que tinham em sua escola, acostumados com a vida fácil.
–Você trabalha com isso desde quando?– perguntou.
–Desde sempre, praticamente– Louis olhou para onde ela estava olhando e de repente sentiu vergonha, escondendo as mãos no bolso do macacão –Meu tio tinha uma oficina, sabe? Ele me criou e eu tentava retribuir da melhor forma que podia, mesmo que às vezes eu mais atrapalhasse que ajudasse.
Harry riu da piadinha mal feita.
–E você gosta?
Louis pensou um pouco antes de responder.
–Não é sobre gostar. É sobre precisar fazer– ele percebeu que soou um pouco grosso, então acrescentou: –Mas tem dias que eu gosto, sim.
A garota sorriu.
–Dá pra ver quando você fala de carro. Você fica menos… Fechado.
Louis arqueou uma sobrancelha.
–Tão óbvio assim?
–Um pouco.
Louis riu de verdade dessa vez –breve, baixo, mas riu.
–E você?– foi a vez dele perguntar –O que você gosta, além de se meter onde não conhece?
Harry fez uma careta fingida de surpresa.
–Eu não me meto em qualquer lugar!
–Só nos mais barulhentos e perigosos.
–Exato!
Eles sorriram cúmplices. Era estranho como a conversa fluía melhor agora. Sem pressão, sem bebida, sem gente olhando.
Louis permaneceu em silêncio, esperando Harry responder. Ele não pode deixar de notar que ela mudara de assunto de propósito, mas deixou que ela falasse no tempo dela.
–Eu…– ela começou, indecisa, mordendo o lábio inferior. O que ela diria? Nem sabia do que gostava, não como se ela tivesse um hobby, como Louis.
Louis esperou, pacientemente.
Ela soltou um riso sem graça, baixinho, quase como uma lufada de ar.
–Isso pode parecer patético, mas, na verdade,...– ela coçou a nuca –Eu não sei.
Louis franziu a testa.
–Não sabe?
–Não sei do que eu gosto de verdade– a confissão saiu mais baixa do que esperava, quase envergonhada –Tipo, eu faço um monte de coisas, mas nada parece realmente meu. Sempre teve alguém decidindo por mim. Ou esperando algo de mim.
Ela ergueu os ombros, desconfortável.
–Acho que nunca parei pra descobrir.
Louis sentiu algo apertar no peito –uma empatia silenciosa que ele não esperava.
–Isso não é patético– ele disse, simples.
Harry arriscou um olhar.
–Não?
–Não– ele deu de ombros –Só significa que você ainda não encontrou seu lugar no mundo. E tá tudo bem.
Harry absorveu aquilo como quem recebe algo precioso demais para responder na hora.
O silêncio voltou, mas agora diferente –mais humano e mais próximo.
Harry arrumou a barra da saia, como se estivesse juntando coragem para continuar.
–Você sempre foi assim? Mais na sua?
Louis respirou fundo antes falar algo.
–Sempre. É mais fácil, sabe? Menos expectativa dos outros.
–E menos confusão– Harry completou, sem perceber o peso da palavra.
Louis olhou para ela por um longo momento, parecendo ter uma questão interna.
–É… Menos confusão.
O garoto percebeu de longe a amiga de Harry voltando. Passou a mão na nuca, nervoso –coisa que não combinava com ele.
–Harry… Eu queria que você entendesse uma coisa.
Harry ergueu o olhar, atenta.
–Eu gosto da sua companhia. De verdade– ele escolheu as palavras com cuidado –Mas eu não posso te dar… O que você tá procurando. Não agora. Talvez nunca.
O coração de Harry apertou –não como um choque, mas como um aperto lento, resignado, oprimido.
–Então você quer que a gente…– ela começou.
–Seja amigo– Louis completou, direto, mas gentil –Se você topar. Eu não quero mais continuar te afastando, mas também não quero mais te machucar.
Harry engoliu em seco. Amigo não era o que ela sonhava, mas perder Louis também não estava sob cogitação. Não agora, pelo menos, que ele se permitiu abrir tanto com ela.
–Tá– ela disse, após um minuto inteiro –Eu consigo tentar.
Louis pareceu aliviado –e, ao mesmo tempo, estranhamente triste.
Yohana apareceu finalmente, alegre como sempre e com o copo de bebida pela metade, interrompendo o momento.
–Desculpa a demora, parei para conversar com uns amigos. O que eu perdi?
Louis deu um sorriso educado, se levantando.
–Nada demais, eu já estava de saída.
Antes de se afastar, ele deu um passo na direção de Harry –hesitando por um instante, como se avaliasse se devia ou não– e então inclinou-se, deixando um beijo rápido e leve na bochecha dela.
Não foi romântico. Não foi provocativo.
Apenas um gesto de cuidado.
–Fica bem, tá?– ele murmurou.
E foi embora.
Harry ficou parada, o rosto quente e o peito bagunçado.
Tinha acabado de concordar em ser só amiga, mas o beijo na bochecha fazia seu coração bater como se ainda houvesse esperança.
E talvez –só talvez– existisse mesmo.
___
Os dias não mudaram de uma vez. Eles foram se encaixando uns nos outros, como peças pequenas formando algo maior sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando começou.
Harry passou a aparecer nas corridas mesmo quando Yohana não ia –que por falar nela, agora sabia de toda sua história com Louis e não aprovava, mas também não opinava sobre para a amiga. Às vezes chegava mais cedo só para sentar na traseira da picape de Louis enquanto assistia ele mexer nos carros dos corredores.
No começo, ela fazia perguntas demais –muito bobas, outras curiosas demais para alguém que claramente não entendia de mecânica. “Isso aí serve pra que?”, “E se você errar essa parte?”, “Você já correu em algum desses carros?”.
Louis respondia com frases curtas, meio defensivo no início. Mas, aos poucos, começou a explicar de verdade –desenhando com o dedo no ar, apontando peças, usando exemplos simples para que ela entendesse. Ele podia ver que ainda assim era confuso para ela, mas achava muito fofo vê-la tentar.
E Harry ouviu como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Não pelo carro, mas por Louis.
Com o tempo, Harry começou com pequenas ofertas: uma garrafa da água gelada em um dia quente, um lanche que sua empregada preparou para ela, mas ela achou que Louis ia gostar mais do que ela, uma música que ela mostrou pelo celular.
Nada grandioso, mas constante.
Louis não era muito de agradecer –apenas aceitava– e isso, estranhamente, era mais íntimo do que a palavra “obrigado”.
Eles passavam a dividir silêncios sem desconforto. Harry ia à oficina de Louis após a escola, sentava no sofá velho dele e ficava assistindo-o trabalhar –ou, às vezes, fazia sua lição de casa e estudava enquanto ouvia ele xingar quando algo dava errado.
Em algum momento, Louis começou a perceber que deixava Harry chegar perto demais do que normalmente protegeria: tocar seus instrumentos, invadir seu espaço, sua concentração.
E Harry começou a perceber que aquele galpão improvisado, cheio de óleo de motor e metais, era o único lugar onde ela não sentia como se precisasse performar algo.
Eles se tocavam sem perceber: quando Louis vinha descansar perto dela no sofá e, por muitas vezes ficava curioso para saber que tipo de matéria eles estudavam nessas escolinhas de ricos e acabava passando o braço em volta do pescoço de Harry; ou quando Louis segurava sua mão e a levava para mostrar algo no motor; ou Harry vinha ajudá-lo e seus ombros chegavam a se encostar.
Nada declarado, mas muito carregado.
As conversas também passaram a ser diferentes.
Harry começou a falar mais da própria vida, de como os pais quase não paravam em casa mas ainda assim colocavam expectativas nela –e só ai Louis percebeu uma semelhança entre eles, pois ambos eram sozinhos nesse quesito– e de como sua vida inteira já tinha sido planejada e ela não tinha nem o direito de opinar pois já estava acostumada a “agradar” os pais.
Louis a ouvia com paciência, percebendo que talvez sua vida fosse tão limitada quanto a dele. Por motivos diferentes, mas ainda assim.
Às vezes, ele dizia:
–Isso parece ser cansativo.
E Harry sentia como se finalmente alguém estivesse enxergando algo que ela mesmo não sabia explicar.
Louis, por sua vez, começou a deixar escapar pequenos fragmentos de si: histórias soltas de sua adolescência, noites dormindo na oficina, de como às vezes matava aula para ficar vendo o tio trabalhar para aprender o que seria seu futuro.
Nada organizado, mas real.
A relação foi ficando confortável demais para ser casual. E intensa demais para ser apenas amizade –mesmo que ninguém dissesse isso em voz alta. Eles estavam se dando muito bem.
Até que um dia as coisas mudaram.
Harry foi animada para o galpão naquele dia. Estava abafado naquela tarde, o sol baixo atravessava as frestas do telhado e iluminava partículas de poeira no ar. Um carro diferente, incompleto e sujo, estava parado bem no centro da oficina. Desmontado em partes, como um corpo aberto em uma mesa de cirurgia.
Ela viu Louis sentado no sofá, lendo algum tipo de livro/manual/jornal –ela realmente não sabia dizer– com uma cara amarrada. Percebeu logo que algo não estava certo.
–Oi– ela disse, para começar –Aconteceu alguma coisa?
Louis demorou um pouco para responder.
–Um cara me passou esse Mustang– disse, finalmente, levantando os olhos para o carro –Um modelo bem antigo. Raro.
Harry arregalou os olhos.
–Isso é incrível!
Ela olhou para o carro também. Não podia dizer muito sobre pois não entendia nada de mecânica, mas era um lindo carro. Azul marinho, capô grande e bem estruturado. Daria um belo exemplar quando pronto.
Louis soltou um meio sorriso.
–É… E não é.
Ele se levantou e caminhou até o carro, apoiando as mãos no buraco da janela.
–Pra deixar ele rodando de verdade, eu vou ter que praticamente reconstruir tudo. O motor, suspensão, parte elétrica… É como começar do zero.
Harry acompanhava atenta, séria.
–Mas você consegue, né?
–Tecnicamente? Sim– Louis respirou fundo, de olhos fechados –Financeiramente? Não.
Harry nem pensou antes de falar:
–Eu posso ajudar?
Louis ergueu o olhar de imediato, virando-se para ela.
–Não.
–Por que não?– Harry rebateu, rápido –Não faz sentido você ficar travado quando existe uma solução óbvia.
–Óbvia pra você.
–Louis, dinheiro não é um problema pra mim. Não vai me fazer falta nenhuma.
A frase saiu errada. Harry percebeu tarde demais.
O maxilar de Louis travou.
–Esse é exatamente o problema, Harry.
–Qual problema? Eu tô te oferecendo ajuda!
–Você tá me mostrando o quanto vive em outro planeta.
Harry cruzou os braços, já na defensiva.
–Ah, então eu sou a alienígena da história?
–Você não entende o peso das coisas, Harry. Você nunca teve que pensar duas vezes antes de gastar.
–Isso não faz de mim uma pessoa ruim!
–Não, mas faz inconsequente.
–Inconsequente?– Harry riu, sem humor –Você nem me conhece o suficiente pra falar isso.
–Conheço o bastante pra saber que resolve tudo com dinheiro.
Harry deu um passo à frente.
–Porque às vezes dinheiro resolve mesmo! Você que insiste em tornar tudo nem drama de sobrevivência.
Louis sentiu o golpe.
–Drama?– a voz dele subiu –Você acha que é drama saber se eu vou conseguir manter esse projeto vivo? Eu sonhei com um desses a minha vida inteira, Harry, e eu gostaria muito que ele fosse meu.
–E eu tô tentando te ajudar!
–Eu quero que ele seja meu, não nosso.
Harry se sentiu ofendida.
–Você acha que eu cobraria o carro de você?
–Cinquenta, cinquenta, não é assim que funcionam negócios?
–Louis, eu não quero fazer negócios com você, eu só quero investir no seu sonho!
–Não, Harry, o que você tá tentando fazer é me controlar.
–Eu não tô!
–Tá sim. Do seu jeito bonito, educado, mas tá. Você entra na minha vida achando que pode organizar tudo como se fosse mais um ambiente da sua casa perfeita.
Harry empalideceu, não acreditando que Louis falara aquilo depois de tudo o que contara para ele.
–Você não sabe nada sobre a minha casa.
–Sei que você nunca dormiu com medo de não pagar uma conta.
–Isso não te dá direito de me tratar como se eu fosse uma idiota mimada!
–Dá sim, quando você age como uma.
O ar entre eles ficou pesado, quase irrespirável.
Harry sentiu algo quebrar.
–Você me deixa ficar, me deixa ouvir suas histórias, me deixa achar que faço parte da sua vida… Mas na hora que eu tento entrar de verdade, você me empurra pra fora como se eu fosse um erro!
Louis desviou o olhar, atingido –mas não recuou. O orgulho falava mais alto.
–Talvez porque você seja.
Harry piscou, tentando manter a postura. Se recusaria a chorar na frente dele novamente.
–Então você acha que eu sou um problema.
–Eu acho que você complica tudo.
–Eu só tô tentando não ser inútil.
A frase escapou sem filtro.
Louis olhou para ela, confuso.
–Inútil?
–É. Porque eu não sei fazer nada de verdade, Louis! Eu não tenho nada que seja meu, eu não sei do que eu gosto e você ainda faz parecer que a única coisa que eu posso oferecer é dinheiro!
Louis respirou forte, a culpa e a raiva se misturando.
–Isso não é culpa minha.
–Não, mas você reforça!
Eles estavam falando mais alto agora. O eco do galpão fazendo tudo parecer ainda mais forte.
–Você não sabe dividir espaço, Harry!
–E você não sabe deixar ninguém chegar perto!
–Porque quando eu deixo, dá nisso!
–Nisso o quê?!
Louis passou a mão pelo rosto, exausto e irritado.
–Em duas pessoas que não falam a mesma língua.
Harry ficou em silêncio por um instante. Ela queria rebater, dizer que ele estava errado, que essas últimas semanas foram as melhores de sua vida. Que ela nunca se sentira tão bem antes e que ela não só o entendia como o enxergava. Mas nada adiantaria, Louis não queria ouvir –ele estava abalado, irritado e frustrado demais consigo mesmo até para ouvir a própria voz.
Então ela engoliu o orgulho uma última vez.
–Eu só vim aqui pra te avisar que vai ter uma festa lá em casa. Meu aniversário– a voz saiu mais baixa, mas firme –Dezoito anos.
Louis não respondeu. Ele sequer a olhava.
–Você pode ir… Se quiser– Harry deu um meio sorriso amargo –Mesmo depois de tudo.
Era um convite, embora soasse mais como uma despedida mal resolvida.
Louis ficou parado, incapaz de responder. De reagir.
Harry assentiu sozinha.
–É. Eu imaginei.
Então ela saiu, segurando as lágrimas para quando estivesse no carro.
Quando alcançou a porta do galpão, ela olhou para trás e disse com o fio de esperança que seu coração insistia em manter:
–Oito horas. Você sabe o endereço.
___
A música estava alta demais, as luzes coloridas ficavam girando por todos os cantos, as risadas se perdiam em meio a multidão e a casa ficava cada vez mais cheia –como se Harry tivesse tantos amigos assim.
A garota já nem contava mais quantos copos tinha bebido. Claro, não estava bêbada a ponto de perder o controle –ela estava naquele estado tênue de solta, leve e risonha, com aquele calor no peito que fazia tudo parecer o máximo mesmo que no dia seguinte não fosse mais.
Ela ria alto, gesticulava mais do que o normal, encostava nas pessoas sem perceber. Mas ainda assim, ela estava linda.
Os cachos compridos caiam sobre os ombros desnudos e pálidos. Usava um vestido tubinho simples vermelho com um salto alto da mesma cor, entretanto conseguia ser a pessoa que mais chamava a atenção. E não apenas por ser a aniversariante, mas porque tudo nela era convidativo e elegante, desde o sorriso doce com aquelas covinhas profundas, até o modo como se movia entre as pessoas em busca de espaço.
E por mais divertido que estivesse, uma parte dela ainda estava atenta a porta.
Quando Louis finalmente apareceu, parado meio sem jeito na porta de entrada –com uma calça jeans simples e uma camisa branca de botão– ela demorou alguns segundos para registrar que ele era real e não apenas um pensamento insistente da própria cabeça.
Então um sorriso veio. Grande, aberto, luminoso demais para alguém que tinha passado dias magoada.
Harry se levantou do sofá em um pulo, assustando Yohana –que já se atracava com um engomadinho qualquer ao seu lado– e praticamente correu na direção dele.
–Você veio!– foi o que ela disse antes de se jogar nos braços dele.
Louis mal teve tempo de reagir quando braços o envolveram em um abraço forte e desajeitado. O cheiro do perfume dela invadindo suas narinas junto com o frescor doce de alguma bebida.
Por um segundo, ele ficou rígido.
Mas então relaxou –devagar– subindo a mão pelo corpo de Harry até se fechar em suas costas. Foi um abraço um pouco breve, mas que durou tempo o suficiente para saber o quão quente e macio o corpo dela era. E –ele se odiou por reparar– o quanto ela se encaixava nele como se tivesse sido feita sob medida.
–Oi– ele disse, meio sem fôlego.
Harry se afastou o suficiente para encará-lo, os olhos brilhando. Deus, ela era tão óbvia!
–Eu achei que você não vinha.
Louis engoliu em seco.
–Eu… Queria falar com você.
O tom sério destoava daquele ambiente.
–Sobre aquele dia… Eu f-
–Não– Harry disse, rapidamente, colocando a mão sob a boca de Louis. Ela sorriu gentil, mas ainda havia algo firme em sua postura –Hoje é meu aniversário. Eu não quero estragar.
Antes que Louis pudesse insistir, Harry já tinha puxado-o pela mão, fazendo-o acompanhá-la.
–Vem. Shot comigo. É obrigatório!
–Harry, eu nem-
–Aniversário, lembra?– ela ergueu uma sobrancelha, de modo teatral –Sem discussão.
Louis se deixou ser arrastado, abrindo um sorriso de quem não acredita que cedeu.
A cozinha estava cheia demais, gente demais falando ao mesmo tempo, copos coloridos de plástico jogados por todo o balcão de mármore branco. E ainda assim, tudo parecia extremamente limpo e organizado. Podia ser porque tudo ali era extremamente bem polido, refinado e limpado cuidadosa e religiosamente todos os dias –e isso só lembrava a Louis o grande abismo que havia entre suas realidades, chegou a se envergonhar de já ter oferecido água a Harry em um copo que comprou por dois reais em uma promoção relâmpago.
Harry serviu algo em dois copinhos e lhe entregou um.
–Essa é forte. Eu acho– ela riu, meio sem saber.
–Você acha?
–Confia em mim.
E eles viraram juntos.
Louis fez uma careta automática com o gosto e sentiu queimando quando passou pela garganta. Mas ele, definitivamente, já tinha tomado coisas piores.
Harry riu alto, quase tropeçando para trás.
–Viu? Tradição de aniversário.
Louis sorriu, apesar do desconforto.
Ao redor deles, pessoas bonitas demais e roupas caras demais, conversas sobre viagens, festas e mais roupas, coisas que Louis nunca tinha vivido ou experimentado –e provavelmente nunca teria.
Ele sentia os olhares curiosos, avaliando-o. Não pareciam hostis, mas Louis sabia que eles deviam achá-lo um alienígena e se perguntou se era assim que Harry se sentia em seu território.
Sentia-se tenso.
Mas toda vez que começava a ficar insuportável demais, Harry aparecia de novo ao seu lado –oferecendo outra bebida, puxando conversa, apresentando-o a alguém. Como se, instintivamente, soubesse que Louis precisava de um ponto de apoio. Uma âncora em meio a esse mar desconhecido.
–Você está muito quieto– Harry comentou em dado momento, encostando perto demais por causa do barulho.
–Só observando– ele respondeu.
Harry sorriu torto.
–Você observa demais.
Louis ia responder, mas um grupo passou rindo alto e esbarrando neles sem pedir desculpas. Seu corpo foi jogado contra o de Harry e ele pode sentir os seios da garota em seu peito.
Ele sentiu o incômodo subir.
A casa não era dele. A linguagem não era dele. As pessoas não eram dele.
Mas Harry era. E ela estava ali, olhando-o com tanta esperança que doía.
Ele apertou os olhos com força e se afastou um pouco, voltando a sua posição de antes.
___
Harry estava determinada a aproveitar cada segundo que conseguisse roubar dentro da própria festa.
Toda vez que conseguia escapar de alguém –seja para uma foto, um parabéns aleatório, uma pergunta idiota sobre música, ou até barrar aqueles que queriam se esgueirar pelo andar de cima– ela voltava para Louis como se fosse um reflexo automático. O corpo encontrava o dele antes mesmo do pensamento.
Encostava ao lado dele na bancada, inclinava o rosto para falar por cima da música, sorria daquele jeito mais pequeno, mais verdadeiro, que não usava com mais ninguém ali.
–Você ainda tá vivo?– Harry brincou, oferecendo um copo que ela não lembrava de ter ido buscar.
–Por enquanto– Louis respondeu.
Harry riu, apoiando-se na bancada, tão perto de Louis que seus corpos se tocavam.
–Eu odeio essas festas, sabia?– Harry confessou, sem drama, como quem revela um segredo pequeno –Mas hoje… Tá menos pior.
Louis ia perguntar o porquê –mesmo que no fundo ele já soubesse–, mas alguém gritou o nome de Harry do outro lado da sala.
Harry fechou os olhos, frustrada.
–Droga.
Ela tocou rapidamente o antebraço de Louis –leve, quase nada– e saiu, já pedindo desculpas por cima do ombro.
Louis ficou onde estava, parado, sentindo todo o lado do corpo que Harry estava monopolizando quente.
Observou-a de longe.
Viu ela sorrir para outras pessoas, mudando o tom de voz, a postura, o tipo de atenção que oferecia. Como ela se personalizava e se moldava para atender a todos. Viu como todos pareciam querer um pedaço dela. Como ela pertencia àquele excesso –ou, ao menos, performava muito bem que sim.
Sentiu uma fisgada incômoda no peito.
Quando Harry voltou, alguns minutos depois, estava ainda mais solta. O sorriso mais lento e o olhar mais brilhante.
–Prometo que agora eu fico– disse, como se fosse uma jura.
Eles ficaram próximos de novo. Harry parecia ter essa coisa com espaço pessoal –ou era apenas com Louis.
Ela começou a falar de alguma lembrança boba da infância, algo sobre uma piscina enorme e uma festa que deu errado por causa de um cachorro.
Louis, no entanto, parecia prestar mais atenção na forma como a boca dela se movia, com o sorriso se expandindo a cada frase.
Harry gesticulava demais. Encostava no próprio braço, no balcão, no espaço entre eles.
–... e aí todo mundo saiu correndo molhado, foi um caos total– ela concluiu, rindo.
Louis sorriu, mas porque o sorriso dela era lindo e contagiante. Ele sequer prestou atenção na história, mas estava pronto para responder algo quando foi interrompido:
–Harry!
Uma voz a chamou.
Harry suspirou, revirando os olhos, antes de abrir o sorriso mais gentil que conseguiu.
–Eu volto. Juro.
E saiu outra vez.
Louis apoiou a mão no balcão atrás de si, respirando fundo.
Ele não queria sentir aquilo. Aquela expectativa boba. Aquele sentimento que ele sabia nomear mas que era como Voldemort.
Quando Harry retornou pela terceira vez, já tinha dois copos.
–Agora ninguém me tira daqui– anunciou, teatralmente.
Eles brindaram. Aquela bebida era doce puro, Louis gostaria muito de saber o que era aquilo.
Harry encostou um pouco mais perto agora –se proposital ou não, nem ela saberia dizer. A música vibrava no chão. O calor dos corpos ao redor deixava o ar tenso.
E então alguém entrou no espaço deles.
Um cara alto, loiro, confiante e com um sorriso fácil.
–Desculpa interromper– ele disse, olhando diretamente para Harry –Mas eu precisava te conhecer. Oi, sou Theo.
Louis sentiu essa interrupção como um ataque.
Já Harry sorriu educado.
–Oi, Theo. Eu sou Harry.
–Você tá incrível hoje– o garoto, que parecia um universitário, continuou –A festa também, mas digo… Você tá um absurdo!
Louis observou em silêncio.
O jeito como Theo olhava para Harry, se inclinava para dentro de seu espaço –como ela fazia com ele, droga!– e como ele a elogiou, deixava claro suas intenções.
Harry respondia por educação, mas o corpo se afastava no automático –sinal esse que Theo ignorava– chegando cada vez mais perto de Louis.
–Você sempre faz festas assim?– ele insistiu em manter a conversa.
–Nem sempre– ela respondeu, breve.
Louis percebeu algo estranho acontecer dentro dele: uma tensão no maxilar, um calor subindo pelo peito,uma vontade absurda de se fazer presente na conversa, de se impor de algum modo.
Mas ele não tinha esse direito.
Então apenas ficou parado. Olhando como um terceiro.
Theo riu de algo pequeno demais para ser engraçado e, num gesto quase casual, tocou o braço de Harry.
O toque foi rápido, mas foi o suficiente.
Louis sentiu o estômago revirar e desviou o rosto, olhando para a parede enquanto bebericava sua bebida.
Harry lançou um olhar para Louis –um pedido silencioso que nem ela mesmo entendia o que significava.
Louis nem viu. Estava fechado. Distante.
Harry voltou sua atenção para Theo.
–Eu vou ali falar com umas pessoas, mas a gente se vê depois– Theo disse, confiante, como se já estivesse combinado.
–Talvez– Harry respondeu, educada, mas vaga.
Theo se afastou.
O espaço que ele deixou parecia pesado entre eles.
Harry soltou o ar devagar.
–Desculpa– ela murmurou, sem saber exatamente por quê.
–Não precisa– Louis respondeu rápido, tentando ao máximo deixar o tom neutro.
Mas precisava.
O silêncio entre eles ficou carregado de algo que nenhum dos dois estava pronto para falar.
Louis sentia o limite que ele mesmo impôs gritar por dentro. Gritando para que ele acabasse com esse negócio de amizade, pois ele sabia que nunca seria só isso.
Harry sentia o vazio estranho de não ter sido escolhida naquele microinstante.
E a festa ao redor deles continuava, indiferente.
___
A festa foi perdendo força aos poucos, como uma onda que recua sem ninguém perceber exatamente como começou.
A música foi ficando mais baixa, as risadas mais espaçadas, os grupos se desfazendo um a um até que não sobrasse mais ninguém.
Exceto Louis.
Que continuou ali, orbitando Harry sempre que dava. Com conversas curtas, comentários soltos, risadas pequenas. Nada tão intenso quanto antes –mas também não era distante.
Era como se estivessem reaprendendo a existir no mesmo espaço depois da briga.
Harry estava claramente bêbada, mas não de um jeito perigoso. Apenas mais lenta, solta, rindo das próprias falas, apoiando o peso no que estivesse mais perto sem nem perceber.
Quando o último convidado foi embora, Louis percebeu um pequeno desequilíbrio na forma como Harry andava.
–Ei– ele segurou o braço dela com cuidado após fechar a porta da frente –Você tá bem?
–Tô ótima– Harry respondeu, arrastando um pouco as palavras –O chão que tá estranho.
Louis suspirou, mas sorriu.
–Vem, garotinha. Vamos nos sentar.
Ele ajudou ela a caminhar, mas ela entendeu tarde demais a sua fala.
–Ei! Garotinha não, agora eu tenho dezoito anos, esqueceu?
Isso não mudava nada, mas Louis não iria discutir com ela. Não enquanto ela não tivesse condições de rebater a altura, pelo menos.
Ele fez ela se sentar, mas ela praticamente despencou nos almofadões, rindo sozinha.
–Isso aqui é macio demais– comentou, esticando as pernas de qualquer jeito.
O vestido subiu bastante durante a queda, revelando que a calcinha fazia parte da paleta de cores daquela noite. Louis desviou os olhos rápido demais, tirou os saltos dela e a cobriu com a manta que decorava o sofá.
–Tenta ficar quieta um pouco.
Harry fez um biquinho dramático. Louis não pode impedir seus olhos de correrem por ali.
–Você tá mandão hoje!
–Alguém tem que ser responsável.
Harry virou o rosto para ele, os olhos meio pesados, mas atento. Ele estava de sua altura, sentado no chão zelando por ela.
–Você ficou.
Louis demorou mais do que alguns minutos para responder.
–Fiquei.
Harry sorriu pequeno.
O silêncio que se instalou não era desconfortável. Era calmo.
–Sobre aquele dia…– Harry começou, a voz baixinha –Eu sei que passei dos limites.
Louis respirou fundo.
–Eu também disse coisas que não deveria.
Harry franziu a testa, pensativa.
–Eu não queria te fazer sentir pequeno. Eu só… Não sei como ajudar sem tentar resolver.
Louis assentiu devagar. Parte dele imaginava aquilo.
–Eu sei. E eu não deveria ter jogado na sua cara daquele jeito.
Harry brincou com a barra da manta, envergonhada.
–Eu fiquei com medo de você não vir hoje. Yohana falou pra eu não ter esperanças, porque você não ia vir.
–Eu quase não vim mesmo.
Harry levantou o olhar, rápido.
–Quase?
–Eu não queria que a nossa última conversa fosse aquela.
Harry absorveu aquilo como algo importante.
–Ainda bem que você veio, então.
O clima ficou mais leve, honesto. Menos ofensivo.
Harry piscou devagar, abrindo um bocejo, claramente lutando contra o sono –e perdendo.
–É meu aniversário– murmurou, quase que para si mesma.
–É– Louis concordou, com um sorriso discreto.
Harry virou de novo o rosto para ele, meio séria agora.
–Eu posso pedir um presente?
Louis arqueou uma sobrancelha.
–Já não teve bebida o suficiente por hoje?
Harry riu, baixinho. Contida.
–Não é isso.
Ela hesitou por um segundo –o que não era de seu feitio.
–Um beijo.
A palavra ficou suspensa entre eles.
Louis sentiu o corpo inteiro reagir antes de a cabeça conseguir organizar qualquer argumento que fosse lógico.
–Harry…
–Só um– Harry insistiu, a voz suave, quase sonolenta –Eu prometo esquecer amanhã.
Ela não estava segura dessas palavras –e esperava não esquecer mesmo–, mas se era o que Louis precisava ouvir, ela diria.
Louis olhou para ela por um longo tempo, decidindo o que fazer.
Viu a confiança torta. A vulnerabilidade. O carinho que não sabia para onde ir.
Ele sabia que não devia.
Mas mesmo assim se inclinou.
Foi um beijo simples. Um toque de lábios leve, cuidadoso, mas que demorou mais do que Louis prometera que seria. Ia além do pedido, era um desejo dele também.
Ele pensou, que se aquele fosse o último, então que fosse uma despedida.
Os lábios de Harry eram macios contra os seus. Ele adorou a sensação.
O mundo pareceu encolher naquele pequeno tempo.
Quando Louis se afastou, Harry ainda estava sorrindo.
Era pequeno, satisfeito, quase infantil.
–Gostei– ela murmurou, a voz já pesada de sono.
Os olhos dela se fecharam logo em seguida. A respiração ficou lenta, tranquila.
Louis permaneceu imóvel, olhando para ela dormindo tão serena como se não tivesse acabado de causar uma bagunça em seu coração.
Ele sabia que aquele beijo tinha acabado de bagunçar mais coisas do que resolver. Mas mesmo assim sorriu. Ele se deixou permitir o gosto de Harry, porque ele sabia que era um dos poucos luxos que ele teria na vida.












