BISPO @ Classroom Beats ISCTE-IUL
seen from United States

seen from United States
seen from United States

seen from Canada
seen from United States
seen from China

seen from United States
seen from China
seen from United States
seen from T1
seen from United States
seen from Türkiye

seen from India
seen from Spain
seen from Malaysia
seen from Netherlands
seen from Yemen
seen from China
seen from Netherlands
seen from Malaysia
BISPO @ Classroom Beats ISCTE-IUL
Orteum Mixtape - Opinião
Apresentação em força do novo coletivo
ORTEUM é a mixtape homónima de estreia do novo coletivo de MC’s da zona de Lisboa e da Margem Sul, formado por Tilt, Osiris, Nero, Roger, Mass, Dasca, Johny Gumble e SK, apesar do grupo não aparentar ter um elenco fechado. A sigla representa e traduz a postura sarcástica da banda para com o movimento de hip-hop nacional, no qual se vai inserindo, significando, como está apresentado na capa da mixtape, “O Rap Tuga É Uma Maravilha”, ORTEUM, portanto.
É esta crítica, ao hip-hop português, e não só, a essência do coletivo e da mixtape, que é uma verdadeira apresentação e introdução ao grupo por ser o seu primeiro trabalho, pelas letras que possui e pelos temas que aborda, tratando-se de uma obra forte de afirmação pessoal. Todos os membros tinham já um percurso individual no panorama do rap português, e até já existiam algumas faixas conjuntas, ou sob a forma de participação, entre os vários MC’s do novo coletivo.
ORTEUM levam o ouvinte a percorrer, através de 17 faixas, várias dimensões e perspetivas do egotrip, enquanto expõem as suas críticas à sociedade, ao comportamento e atitudes das pessoas, ao movimento hip-hop, aos “porcos”. Assumem uma postura crítica e descomprometida em relação ao movimento.
Musicalmente falando, a mixtape é coesa, todas as faixas estão dentro do mesmo registo, não havendo claramente uma linha de separação entre os vários temas. Apresentam um som de hip-hop puro, old-school, nostálgico, que relembra as origens do rap, com beats com bateria e baixo, apesar de ter elementos mais modernos de música eletrónica em algumas faixas. Tem uma variedade q.b, no sentido em que existe essa diversidade entre instrumentais mas que estão dentro do mesmo género de hip-hop, contribuindo para a qualidade da obra como unidade, como uma só, e sem serem apenas faixas soltas “coladas”. Recorrem também com frequência à utilização de scratchs e alguns samples, elementos clássicos, inerentes e imprescindíveis para a obtenção de um som de hip-hop que remete para a velha escola, fiel às raízes. No final da maioria das faixas, cessam as vozes dos rappers para deixar fluir o instrumental, sendo neste momento que se utiliza mais o scratch, proporcionando o final de cada música, lento e a dissipar-se, preparando suavemente o ouvinte para a próxima. Por cima dos beats, encaixam em harmonia as vozes e os bons flows dos vários MC’s, que, por serem muitos, têm de se dividir pelas várias faixas, onde se destaca Nero por ser aquele que em mais músicas participa. A mixtape também foi gravada, misturada e masterizada por este na Pipa de Vinho Records.
As letras são bastante diretas, com punchlines, sem filtros, mas trabalhadas, com várias aliterações, bastante wordplay, com vocabulário diversificado e com recurso também a metáforas e versos mais complexos. Letras diretamente das ruas contra tudo e contra todos! Mas também com conselhos para os fiéis ouvintes, ORTEUM revela ter potencial para se tornar, no futuro, uma banda de culto, se os membros derem continuidade ao projeto. A variedade de MC’s é também um dos fortes do grupo e da mixtape, pois, apesar de serem diferentes, complementam-se devido à variedade de vozes e flows, não se tornando nada monótono e mantendo a energia e o flow algo rápido que caracteriza a maioria das faixas. Por outro lado, os rappers apresentam o mesmo estilo de letras, muito viradas para o egotrip e para a crítica, tornando o disco coerente, apesar de contar com um leque extenso de participantes. Além do grupo, que já de si é grande, a mixtape ORTEUM conta com muitas participações de músicos amigos da banda, de MC’s a DJ’s e produtores, que dão o seu contributo à mixtape, entre eles: DJ Apu, Oaji Odialevi, Big Favz, DJ Profail, Metamorfiko, Necxo, MLK, Alma, DJ Subvision, MCF, Mascarenhas, Randy One, T.N.T., Amon e Cezar.
Há ainda espaço para um skit, onde são abordados os temas das elites que controlam o mundo, do aquecimento global, da destruição da Natureza e do planeta Terra e do papel das pessoas neles, que depois dá seguimento e culmina na faixa seguinte “No Escuro”.
Em suma, é uma mixtape com qualidade de um grupo novo no panorama do hip-hop português, que revela ter bastante potencial, à qual o público não deve ficar indiferente e é recomendável sobretudo àqueles que apreciam o egotrip como forma de expressão nesta arte. Em termos gerais, as letras nas vozes dos MC’s combinam solenemente com o instrumental, não se destacando uma parte nem outra, mas sim o seu conjunto, e o seu todo.
Versão de texto originalmente publicado em h2tuga.pt