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Design e Indústria: os valores de uso e de troca e o sistema de produção em massa americano
Por Luiza Saad
Os estudos feitos por Marx sobre os produtos e mercadorias, apesar de antigos, permanecem válidos até os dias de hoje. Suas definições e conceitos ainda refletem de forma precisa as relações econômicas e sociais atuais, mesmo que essas tenham sofrido mudanças não previstas por ele.
Dentre essas mudanças, pode-se citar a inserção de máquinas no sistema de produção, o que resultou em uma produção em massa. Esses fatores foram determinantes para uma reformulação do produto como mercadoria, assim como da aplicação dos conceitos de valor de uso e valor de troca e outros parâmetros que os englobam.
Marx definiu o valor de uso como algo referente às propriedades determinadas de um produto e sua efetivação se dá pelo processo de consumo. Ele não expressa nenhuma relação social de produção e é imutável não importa as circunstâncias.
A partir do valor de uso, obtém-se o valor de troca, que consiste em um valor pelo qual produtos diferentes são intercambiáveis entre si. Esse valor é definido pela quantia de trabalho empregada no produto.
“O tempo de trabalho objetivado nos valores de uso das mercadorias é tão exatamente a substância que os torna valores de troca, e daí mercadorias, como também mede sua grandeza determinada de valor.” (MARX, 1859, p. 33)
O tempo de trabalho objetivado nos produtos pode ser dividido entre simples, que qualquer indivíduo médio possa executar, e complexo, que exige uma certa técnica ou habilidade e é executado por indivíduos específicos. Para igualar os dois tipos de trabalho, considera-se que o trabalho complexo corresponde a um período “x” vezes maior de trabalho simples.
No entanto, com a entrada de maquinários no sistema industrial de produção, notou-se uma mudança profunda em várias áreas, e muitas dessas mudanças podem ser explicadas através dos conceitos definidos por Marx.
“Sua característica básica era a produção em larga escala de produtos padronizados, com partes intercambiáveis, utilizando máquinas-ferramentas numa sequência de operações mecânicas simplificadas. As implicações desse sistema, que se tornou conhecido como ‘sistema americano’ de fabricação, não se restringiam aos métodos de produção, mas afetavam também toda a organização e coordenação da produção, a natureza do processo de trabalho, os métodos de comercialização dos produtos e, não menos importante, o tipo e a forma dos artigos produzidos.” (HESKETT, 1998, p. 51)
O que antes era considerado um trabalho complexo, como por exemplo a montagem de um relógio, tornou-se um trabalho simples. Isso se deu pelo destrinchamento do processo de montagem, onde vários indivíduos participavam, cada um performando uma tarefa específica. Nesse caso o enfoque deste “trabalho complexo tornado trabalho simples” é na questão da execução, da parte manual pois, como será explicado mais a frente, esse trabalho ganhou uma complexidade no quesito intelectual antes não vista.
Além disso, Marx aponta que o trabalho que caracteriza o valor de troca pode ser visto como uma relação social entre os produtos, pois a intercambialidade de mercadorias demonstra a interrelação dos trabalhos de diferentes indivíduos como algo igual e geral. A forma como o sistema americano de produção afetou o valor de troca das mercadorias refletiu também nas relações sociais e econômicas do país. Considerando, por exemplo, a Europa, onde a aquisição de certos produtos era vista como uma reafirmação de um status social elevado, a maior simplicidade na produção americana e no produto resultante em si demonstram uma sociedade inteiramente diferente da européia. Nos Estados Unidos, enquanto houvesse demanda, haveria produção, não importando a classe social do consumidor.
Heskett define essa diferença:
“A comparação (entre os EUA e a Europa) era entre as atitudes européias, baseadas nas tradições artesanais, em que o valor de um produto residia, tanto econômica quanto esteticamente, na quantidade de trabalho especializado que incorporava, e a abordagem americana, baseada em métodos industriais, que enfatizava a quantidade e utilidade para segmentos mais amplos da população.” (HESKETT, 1998, p. 56)
Algo interessante a se destacar é que, embora a mecanização do sistema de produção tenha tornado um trabalho complexo em algo simples, houve como consequência a necessidade de trabalhadores específicos para performar um trabalho complexo que não existia outrora. Antigamente, com o método de produção artesanal, o mesmo indivíduo que pensava em um produto também o construía, montava, o que consistia em um trabalho complexo. Após o sistema americano de produção em massa e a simplificação do sistema de montagem, surgiu a necessidade nas indústrias de indivíduos que pensavam os materiais do produto, assim como suas etapas de montagem. Eles viriam a ser os designers de atualmente, na época eles eram os que buscavam soluções para criar um produto que satisfizesse o público buscando a forma mais simples, barata e rápida de fazê-lo.
Se antes o trabalho manual investido no valor de uso de algo era complexo e o tornava mais caro, depois da mecanização e das linhas de montagem, o processo intelectual e o planejamento prévio envolvidos na construção de um produto simplificaram tudo isso, tornando-se eles a parte complexa do processo. A dificuldade se focava na fase de planejamento para que na fase de construção o trabalho fosse simples e o valor de troca do produto resultante, barato, já que naquela época o trabalho de criação e desenho não eram tão valorizados quanto atualmente.
E como o próprio Marx afirmava, o trabalho que definia o valor de uso era naturalmente mais concreto e intrincado que o trabalho que definia o valor de troca:
“Enquanto o trabalho que põe valor de troca é um trabalho abstratamente geral e igual, o trabalho que põe valor de uso é trabalho concreto e particular, que se subdivide em infinitos modos de trabalhos diferentes, segundo a sua forma e matéria.” (MARX, 1859, p. 37)
Embora ele nesse caso cite o trabalho que define valor de uso como algo intrincado, nota-se que ele ainda pensava em algo mais manual. Os destrinchamentos desse trabalho são mais extensos atualmente, já que com a divisão entre o “designer” e o “artesão” - ou melhor, entre aquele que pensa e desenha daquele que faz o trabalho manual - o trabalho que define o valor de uso ganhou mais subdivisões e se tornou ainda mais complexo.
A partir da mecanização do sistema de produção foi possível produzir artefatos nunca antes vistos, como por exemplo o automóvel. Com o surgimento de novos produtos de novos segmentos, houve a necessidade de verificar se havia demanda para o novo produto. Quando se cria um produto de um segmento já existente, sabe-se, através de análises do mercado, que há necessidade daquele produto, mas quando se trata de um segmento novo, é necessário criar uma demanda. Afinal de contas, um produto, por mais que seja inovador, será inútil caso não supra a necessidade dos usuários.
“Para vir a ser valor de uso, a mercadoria precisa confrontar-se com a necessidade particular para a qual é objeto de satisfação. [...] É apenas através dessa alienação multilateral das mercadorias (processo de troca) que o trabalho contido nelas se torna trabalho útil. [...] Por isso, para se efetivarem como valores de uso, as mercadorias devem se efetivarem como valores de troca.” (MARX, 1859, p. 40-1)
A solução encontrada pela indústria foram as propagandas e comerciais. Através deles foi possível “manipular” os usuários a adquirirem produtos ao apresentá-los como a solução de um problema que nem se sabia existir até então. Com isso, a publicidade avançou e se especializou imensamente nessa época, alcançando grandes feitos com o público, que em resposta consumiam vigorosamente tudo que lhes era apresentado.
“A produção em massa exigia consumo em massa.” (HESKETT, 1998, p. 64)
Com essa criação de demanda e produção em massa, o dinheiro passou a circular massivamente nos Estados Unidos, e pode-se assumir que a qualidade de vida também melhorou, já que um produto era geralmente acessível a todas as classes sociais. Enquanto houvesse demanda, haveria produção, e enquanto houvesse produto, haveria consumidores, e assim o dinheiro circulava.
“A troca das mercadorias é o processo no qual o metabolismo social (a troca dos produtos particulares dos indivíduos privados) [...] é, ao mesmo tempo, a geração de relações de produção sociais determinadas, que os indivíduos contraem nesse metabolismo. As relações recíprocas das mercadorias em processo se cristalizam como determinações diferenciadas do equivalente geral, e assim o processo de troca é simultaneamente processo de formação de dinheiro. [...] é a circulação.” (MARX, 1859, p. 47)
Algo notável no sistema de produção em massa, mais especificamente no Taylorismo e Fordismo é a “anulação” do funcionário no sistema de montagem, de forma que ele se tornasse uma engrenagem em um grande maquinário. Seu trabalho era tão impessoal que, caso houvesse a substituição de um funcionário por outro completamente diferente, a produção geral não seria afetada.
“A simplicidade indiferenciada do trabalho é, em primeiro lugar, igualdade dos trabalhos de diferentes indivíduos, relacionamento recíproco de seus trabalhos como iguais, e isso mediante uma redução de fato de todos os trabalhos a um trabalho de igual tipo.” (MARX, 1859, p. 34)
Enquanto antigamente o trabalho de indivíduos diferentes apresentavam valores diversos, mesmo que o produto criado fosse o mesmo, com o Fordismo não havia diferenciação entre os produtos criados, pois o trabalho de cada indivíduo foi abstraído até se tornar algo abstratamente geral. Esse modelo de trabalho alcançou o feito de tornar o trabalho que define o valor de uso (desconsiderando, neste caso, a parte intelectual, citada a priori) tão abstrato e vago quanto o trabalho determinante do valor de troca.
Em vista dessas observações, nota-se a grande mudança que foi iniciada com a mecanização do sistema de produção e o sistema de produção em massa americano, mudança, essa, que se estende até os dias atuais.
REFERÊNCIAS
HESKETT, J. O “sistema americano” e a produção em massa. In: HESKETT, J. Desenho industrial. [S.I.: s.n.], 1998. cap. 3, p. 51-69.
MARX, K. A Mercadoria. In: MARX, K. Para a Crítica da Economia Política. [S.I.: s.n.], 1859. cap. 1, p. 31-47.
"El diseño es una de las carácteristicas básicas de lo humano. Afecta a todas las personas, en todos los detalles de lo que hacemos cada día." John Heskett