Elaine Ramos é arquiteta de formação e desde o seu processo de graduação, já desperta maior interesse pelas matérias ligadas ao design gráfico, do seu curso. Em seu projeto final, desenvolveu, pela primeira vez, um livro, ainda sem saber que dedicaria sua carreira aos estudos da forma e a produção editorial deste objeto.
Poucos meses após formada, Elaine inicia sua jornada dentro da editora Cosac Naify, onde permaneceu por 16 anos, até o fechamento da empresa. Nesse período, foi responsável pela direção de arte de grandes títulos e de exemplares premiados, além de ter idealizado e produzido o conceituado livro "Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil".
Quando a editora fecha as suas portas, o que poderia parecer um momento trágico a qualquer profissional, para ela no entanto, foi apenas o marco do início de um novo capítulo da sua vida, quando, decide pôr em prática todos os aprendizados adquiridos nos seus anos de dedicação ao mercado editorial, e fundar a Ubu, uma nova editora independente e um espaço de autonomia, para as suas três sócias, no qual, dentro das capacidades da empresa, é possível experimentar coisas novas, projetos nos quais se acredita e que sejam democráticos dentro da sua proposta geral.
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Na Ubu, vocês serem três sócias mulheres foi algo pensado? Você acha que isso fortalece ou influência de alguma forma o modo como as pessoas consomem a editora?
Foi totalmente coincidência. Eu acho que existe uma visão de mundo, uma coisa muito comprometida e envolvida, que talvez tendam a ser características mais femininas. Não foi um projeto fazer a editora só com mulheres, nem nada disso, agora, na prática só tem mulher trabalhando nesse lugar inteiro. Não tem nenhum homem. Então eu acho que talvez sim, isso pode influenciar a forma como as pessoas enxergam a Ubu, mas a gente não fez disso uma bandeira. Não é uma editora feminista, mesmo que nos interesse discutir gênero. É uma discussão contemporânea e interessante, mas é só uma das possibilidades e a editora não é focada nisso.
Você acha que o fato de você ser mulher influencia no estilo do seu trabalho?
Eu acho que não. Eu não diria isso, porque eu nem me encaixo num estereótipo feminino, que talvez seria o da delicadeza. Eu nunca olhei para o meu trabalho com esse filtro, mas não imagino que uma pessoa intua que eu sou mulher, vendo o meu trabalho sem me conhecer.
Quando você realiza os seus projetos, você tem consciência do seu lugar social? Busca algum tipo de militância através do seu trabalho?
Eu tenho total consciência. Pra mim, por exemplo, sempre foi uma questão o fato de que a Cosac tinha a imagem de ser uma editora de elite. Eu sempre tive em mente a vontade de combater isso, no sentido de que a gente tinha uma preocupação real de fazer livros que fossem muito acessíveis ao seu público, com um preço de capa compatível e que fossem de ampliação de público. E acho que, sim, é importante fazer um livro de arte que pouca gente vai acessar e que contenha uma informação e uma reflexão cultural, mas cada projeto precisa ser feito dentro da sua esfera.
A gente vive um momento no Brasil, hoje, em que dá vontade de atuar mais, no sentido militante. Agora, por exemplo, eu acabei de fazer no SESC Pinheiros uma exposição chamada "Todo Poder ao povo", sobre o movimento negro nos Estados Unidos dos anos 60. Então pra mim é muito mais legal quando eu consigo casar o tema do meu trabalho com uma coisa em que eu acredite, mas claro que eu também tenho que pagar as contas, então muitas vezes tenho que fazer o que aparece e não consigo ter esse controle.
Na Ubu eu também tenho essa possibilidade. Como a gente pode inventar os próprios projetos, não é uma editora que pretende fazer uma militância política direta, mas sim uma militância cultural, de defesa da cultura. Eu acho que abrir uma editora na atual situação do país, no sucateamento total da cultura que o Brasil está passando, só isso já é uma militância em algum nível.
Você sente dificuldade em equilibrar a vida pessoal e a profissional?
Ah, eu sinto, sim, acho que essa é uma questão pra todo mundo. Eu tenho dois filhos e eu sempre gostei muito do meu trabalho, então pra mim nunca foi uma opção deixar de trabalhar pra ficar cuidando das crianças; eu nunca me imaginei fazendo isso.
Quando os filhos são pequenos, é uma luta e é super difícil de equacionar. Agora, criar os filhos, no meu caso, foi totalmente uma parceria com meu marido. Até quando eles eram pequenos, meu marido ficava muito mais em casa do que eu, então nunca teve uma coisa de eu ter que ser a pessoa que segura a onda. Meu marido sempre teve horários flexíveis e a gente sempre dividiu muito bem essa questão.
Ter filhos influenciou de alguma forma a sua carreira?
Os filhos drenam uma energia, mas eu acho que é uma coisa super positiva. Você deixa de ter essa energia, no trabalho, como se sua vida dependesse daquilo. Isso traz muita maturidade e te torna mais flexível. Eu acho que filho relativiza muito o sentido da vida, então a maternidade tem esse significado mais profundo.
Eu sempre fui super workaholic, mesmo quando eles eram pequenos eu trabalhava muito. Isso porque eu gosto do meu trabalho e também porque eu sempre tive uma ideia de criar os filhos pro mundo; nunca quis ser uma mãe super protetora que cria o filho embaixo da asa.
Você se lembra de alguma situação ou alguma dificuldade relacionada ao fato de você ser mulher, durante sua carreira?
Não. Como eu trabalhei numa empresa por muito tempo… eu acho que os salários das mulheres eram mais baixos que os salários dos homens e acredito que as mulheres trabalhavam mais que os homens, lá. Isso, para mim, é uma questão super séria. A Cosac, mesmo sendo uma editora cujo dono é muito esclarecido e mesmo sendo o contrário de uma empresa careta, ao longo do tempo e conforme eu fui ficando mais próxima do grupo de direção da editora, eu percebi que existia uma diferença entre os salários das mulheres e dos homens que era significativa.
Não acho que era uma decisão do Charles Cosac, do dono, acho que ele não tinha nem consciência disso. Era dos diretores financeiros, alí, mas acho que isso é uma coisa que está naturalizada na sociedade e que é muito grave, muito séria. Porque na Cosac, as mulheres eram quem levava a editora nas costas e ganhavam menos, mesmo.
Você se considera feminista?
Eu acho que sim, no sentido de que eu reconheço a existência de uma luta super necessária e importante, sobretudo nas condições de trabalho dos homens e das mulheres, que, no Brasil, é muito injusta. Não só as condições de trabalho, né? As condições na família, também, em tudo.
Bom, agora depois do último discurso do nosso presidente, você vê que não tem como não ser feminista, na verdade, porque tem aí uma luta mesmo, que precisa ser feita. Existe um espaço que precisa ser conquistado. Então, nesse sentido, sim, mas na prática, eu não tenho um trabalho sistemático nessa área.
Quais suas principais referências para o seu trabalho?
Eu sempre tenho dificuldade em elencar referências muito específicas. Primeiro, porque eu acho que é importante você ter um trabalho que se alimenta também de outras áreas e não só especificamente do design e também porque eu sempre tive uma relação com influência e com informação mais múltipla. Eu nunca fui fã de carteirinha de uma coisa específica, de ficar pesquisando e tal, mas eu sempre gostei muito do design holandês, do Wim Crouwel e do Total Design, em geral, do Karel Martens, também, enfim… o design holandês é uma coisa que eu acompanho bastante.
O Paul Rand é um designer cujo trabalho eu já olhei muito, o próprio Herb Lubalin, a turma do Push Pin e daí eu acho que nem é muito influência, é mais uma coisa que eu gosto e que eu admiro. Depois eu acho que tem os russos, também, eu sempre admirei muito as coisas mais gráficas do Alexander Rodchenko, por exemplo.
No Brasil, eu acho que o trabalho do Aloísio Magalhães é muito inspirador, até por conta da amplitude da atuação dele. No Linha do Tempo eu descobri muita coisa, né? Que eu nem conhecia, como os livros do Di Cavalcanti, o próprio papel do Monteiro Lobato no mundo dos livros, depois eu acho que a poesia concreta é uma inspiração, também.
De mulheres, eu admiro muito o trabalho da Elisa Von Randow, da Paula Tinoco do Estúdio Campo, a Flávia Nalon do PS2, que tá com um bebê pequeno agora, né? Ela é super legal. Tem a Luciana Facchini, a Flávia Castanheira, que na verdade trabalha aqui também, tem umas gerações mais novas, da Julia Masagão, que trabalha às vezes com a Elisa, mas que também tá fazendo um bocado de coisa legal, da Gabriela Castro… Essas trabalharam comigo na Cosac e agora tem estúdios próprios.
Qual é a sua opinião sobre a produção de bibliografia em design, hoje, no brasil?
Está crescendo muito, não é? Na época em que eu comecei a publicar design na Cosac, não tinha quase nada. Aquele livro do Rafael Cardoso, o "Design Antes do Design" foi o primeiro sobre design brasileiro e era uma coletânea de textos de pesquisas, mas ainda tinha pouca pesquisa em design. A produção cresceu muito de lá pra cá.
Eu vejo muito o "Linha do Tempo" como um mapa para pesquisas posteriores. Ele tem muitas portas de entrada e espero que as pesquisas sigam esses caminhos. Claro que eu também não sei tudo o que está sendo produzido. Como eu não estou no meio acadêmico, não vou nos encontros de pesquisa e tal, pouco chega pra mim.
O que você gostaria de mudar no mundo do design gráfico? Qual seria a situação ideal pra você?
Para mim, um assunto importante do design é um pouco a velha questão da sociedade como um todo entender o papel do designer. Se você é um médico, você recebe um paciente e às vezes ele vai tentar dizer pro médico o que ele tem, mas é muito claro que eu, como paciente, não tenho domínio do que o médico sabe sobre a minha saúde. Isso está muito mais claro e eu acho que o design tem esse problema: Muita gente não entende o que é, acha que sabe e que pode fazer. É uma batalha nossa, de todos os designers, fazer com que as pessoas entendam o nosso papel, o conhecimento que existe por trás daquilo, a expertise e a experiência que o trabalho exige.
No caso do designer gráfico, especificamente, eu acho que é importante pensar a atuação do designer no sentido de que ela não seja descartável. Infelizmente, boa parte dos formados em design gráfico ainda se dedicam a coisas que vão pro lixo em pouquíssimo tempo.
Então, assim, é importante tentar pensar a profissão de modo mais abrangente. Por exemplo, a partir da minha experiência, com o privilégio de ter atuado como designer, mas com muita autonomia, com a possibilidade de atuar na direção da empresa em que eu estava e também, agora, como micro empresária, eu noto que o raciocínio do design é útil para toda a estrutura da empresa. Para as decisões financeiras, para que os projetos se configurem. Não se trata apenas de ocupar um quadrado de 16 x 23. Eu acho que o buraco é mais embaixo. O que me instiga no design é um raciocínio sobre o projeto, que inclui desde o público que ele vai atingir, até o orçamento que ele tem, que preço de capa ele pode atingir… uma equação inteira, que não se resume a "olha, faça essa capa, o formato é 16:23 e o briefing é esse", sabe? Eu acho que existe um espectro enorme no qual o designer pode atuar e, para mim, o que precisa melhorar é a nossa conquista dessa atuação que é mais profunda. Não se trata de ocupar o campo bidimensional e lidar com a superfície do trabalho.











