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Ela engoliu um piano de vidro não foi fácil de assistir. A apresentação da paulistana Fernanda Navarro, no sétimo dia do II Festival de Música Experimental, foi uma perturbadora obra sobre diversas formas de violência contra a mulher — a violência doméstica, o estupro, o feminicídio. Enquanto chacoalhavam ou tocavam instavelmente diferentes instrumentos, Fernanda e suas companheiras de palco — as artistas Dorothé Depeauw, Flora Holderbaum, Camila Zerbinatti, Júlia Teles e Natália Francischini — entoam diferentes dados referentes à violência misógina. Na parte final da apresentação, elas liam relatos de agressões ocorridas a “amigas, parentes e pessoas conhecidas” coletados por Fernanda.
Fernanda é uma compositora e performer, mestra em composição musical pela Universidade da Califórnia em Santa Cruz. Sua tese de mestrado estuda a relação entre a composição musical e a “corporealidade” e ela, atualmente, é doutorante pela Universidade da Califórnia em San Diego. Depois de dois anos recolhendo os relatos para Ela engoliu um piano de vidro, Fernanda se viu abalada pelo caso da garota carioca estuprada por 33 (ou 30, ou 27; como se houvesse grande diferença) homens, e decidiu finalmente estrar a peça no II FIME — festival do qual ela foi curadora, junto a Mário del Nunzio e Matthias Koole.
Foto da apresentação de Ela engoliu um piano de vidro, no II FIME. Por Natacha Maurer.
Quando a entrevistei, ela me contou sobre a impossibilidade de se distanciar emocionalmente dos inúmeros relatos de agressão que ouviu, a cultura ainda machista no meio da música experimental e as diversas reações que recebeu a Ela engoliu um piano de vidro.
Como e quando lhe surgiu a ideia de compor uma peça que tratasse da violência contra a mulher? Você já havia abordado esse tema — ou outras questões ligadas ao feminino — em alguma outra composição?
Primeiramente, FORA TEMER. O processo de composição desta peça foi bem diferente dos processos nos quais eu geralmente me vejo envolvida quando componho uma peça. Quando fui convidada para compor uma peça nova para o FIME eu imediatamente antevi um problema: com quem trabalhar? Um dos motivos que me impulsionou a sair do Brasil foi a falta de intérpretes que gostassem e fossem capazes de tocar música contemporânea. Muito embora eu trabalhe com instalações sonoras e música eletrônica/eletroacústica, eu me interesso muito por trabalhar com música instrumental e eu gosto muito de lidar com os desafios que este tipo de música gera: fazer parte de uma tradição musical arcaica (foram anos e anos de adestramento, praticando um instrumento de 300 anos atrás, semestres e semestres de aulas de harmonia tonal e contraponto) e ao mesmo tempo sentir que esta tradição não me representa; lidar com performers que são treinados para tocar e agir de acordo com esta tradição e usar a fricção gerada entre a resistência do instrumento e a resistência do corpo “treinado” quando confrontados com ações físicas e/ou ideias que não fazem parte do repertório corporal envolvido na execução de música tradicional como geradora de possibilidades composicionais; lidar com um público treinado para ser “passivo”, que só consegue apreciar a segurança se for através da familiaridade, ou a insegurança se for através de novidades chocantemente baratas. Enfim... eu me interesso por esse conflito e esgarçamento gerado por ter um pé preso no chão por raízes do passado e o outro sendo puxado pelos satélites do futuro. Bom, esse foi um arrodeio gigante em torno da pergunta...! Voltando: considerando que eu gostaria de compor uma peça instrumental para o FIME (pelos motivos que expliquei) e que eu não encontraria performers adequados ou com tempo para trabalhar comigo no Brasil, eu decidi compor uma peça para pessoas que não necessariamente tivessem treinamento musical. A peça requereria ações simples, que qualquer “não-músico” sem impedimentos físicos fosse capaz de realizar: falar e “bater” em algum objeto que fizesse barulho. Eu tinha um projeto engavetado a 2 anos: eu havia coletado histórias de amigas e parentes mulheres que sofreram abusos e queria, de alguma forma, “dar voz” àquelas mulheres que tiveram que silenciar suas histórias. O caso da adolescente carioca que foi estuprada por vários homens no Rio de Janeiro no dia 21 de maio de 2016 e a maneira como as pessoas culparam a vítima me enfureceram. Minha mente estava explodindo de tanta dor, fúria e impotência e eu me permiti dar vazão a esses sentimentos; daí surgiu Ela engoliu um piano de vidro. Sabe, é muito complicado esse lance todo de ser mulher e compositora. Pelo menos eu acho complicado. Por muito tempo eu achei que feminismo era uma bobagem. Que a gente já vivia numa sociedade OK com as mulheres, que eu podia estudar, votar e trabalhar como qualquer cara, então “estamos quites, pare de mimimi e aja como um homem”! Bobinha! Eu era muito bobinha de tudo! Eu fui educada machista, numa família machista, numa escola machista, numa sociedade machista. Obviamente: eu era machista! Eu cheguei ao feminismo por necessidade e não por decisão estética/acadêmica ou por ler Simone de Beauvoir enquanto tomava chá. E eu permaneço feminista por empatia e por achar que eu posso mudar o mundo para melhor. Talvez bobinha, bobinha de novo... Mas eu realmente acho que a gente pode mudar o mundo para melhor. E acho que o mundo vai ser melhor quando as mulheres não tiverem as caras queimadas por ácido por outros homens (como ocorre na Índia), quando as mulheres não tiverem seus clitóris mutilados (como ocorre em 27 países na África), quando bebês meninas não forem jogadas vivas em valas porque nasceram meninas (como acontece na China), quando mulheres não forem queimadas vivas por não se vestirem como os homens desejam (como acontece no Iraque, na Arábia Saudita e em muitos outros países no Oriente Médio), quando os pais pararem de estuprar suas filhas crianças (como acontece no Brasil, no Estados Unidos, na Europa) Enfim... o mundo inteiro está contaminado por misoginia, e assim como nós queremos erradicar doenças horríveis como a AIDS – e achamos que o mundo será melhor se o fizermos – nós também devemos combater essa doença terrível chamada misoginia. A gente acha que um cientista que pesquisa vacinas contra a AIDS está ajudando a melhorar o mundo. Da mesma maneira devemos entender que uma pessoa que luta contra a misoginia também está ajudando a melhorar o mundo. Eu sempre lidei com feminismo e minha música com muita cautela. Eu me pergunto: estou eu lidando com feminismo na minha prática artística para benefício individual / carreirístico? Se eu lidar com feminismo em minha música, vou ser reduzida a “ah, aquela compositora que só faz música feminista”? Vou ser reduzida simplesmente ao meu gênero e minhas visões políticas? Eu tenho um medo terrível de ser reduzida e estereotipada e nunca mais conseguir sair debaixo dos rótulos que as pessoas podem me colocar. Esse medo sempre me dissuadiu de lidar com feminismo abertamente. No entanto, em 2014 eu compus uma peça de caráter satírico, como uma resposta às declarações imbecis e machistas do Bruno Mantovani. A peça se chama “Homage to Bruno Mantovani” e pode ser ouvida aqui. A Tânia Neiva escreveu um artigo super legal sobre essa peça! O artigo será apresentado na ANPPOM desse ano e acho que estará disponível online, caso alguém tenha interesse em ler. Antes disso, eu tinha composto uma peça chamada “Pink” (que pode ser ouvida aqui), que lida com a ideia da voz feminina reprimida, mas de maneira muito abstrata. Acho que Ela engoliu um piano de vidro foi a primeira peça que eu lidei com feminismo abertamente, sem medo de ser reduzida, julgada e estereotipada. (Não, mentira! Eu tive medo, mas eu fui com medo mesmo.)
A apresentação de Ela engoliu um piano de vidro no FIME foi a estreia da peça. Você apresentará a peça em San Diego (ou outros lugares)? Acredita que seu impacto/recepção será diferente, pela diferença da cultura em relação à violência contra mulher (se achar que essa diferença existe)?
Eu ainda não sei se apresentarei essa peça em outro lugar. Eu compus a peça para ser apresentada no Brasil e está majoritariamente em português, o que limita o seu alcance. Eu teria que retrabalhar a peça, traduzir para o inglês, regravar a parte do disklavier, escrever uma partitura totalmente diferente... Por hora, eu quero dar um tempo e não mexer nessa peça. Foi um soco no meu próprio estômago e eu ainda estou me recuperando.
Foto da apresentação de Ela engoliu um piano de vidro, no II FIME. Por Natacha Maurer.
Ela engoliu um piano de vidro, ao menos pra mim, foi uma peça bem pesada e forte de assistir. Como acha que o impacto que ela deixará nas pessoas contribui para que esse tipo de violência seja combatida?
Não sei. Eu não tenho controle de como as pessoas vão reagir. Algumas pessoas conversaram comigo depois da apresentação e eu percebi uma gama variada de reações: gente que chorou, gente que ficou com raiva, gente que ficou cética, gente que gostou... Eu esperaria que Ela engoliu um piano de vidro pudesse fazer com que as pessoas sentissem a gravidade, o peso e o incômodo da violência. Uma coisa é ler notícia de violência doméstica e estupro no jornal; outra coisa é sentir essa violência (ainda que você não tenha sido vítima direta dela). Acho que homens que puderam “sentir” esta violência durante a peça provavelmente terão mais empatia e quando confrontados com machismo (vindo deles ou de outras pessoas), talvez se lembrem do desconforto e da dor que esse machismo gera e talvez possam refrear a agressão. Mas... isso é muita teoria! Eu não sei se tenho poder para tanto.
Você passou dois anos coletando os relatos de abuso usados na peça. Como foi essa experiência? Você sentiu a necessidade de distanciar-se um tanto dos relatos para poder compor a peça a partir deles?
Foi uma experiência horrível. Doeu. Machucou. Cicatrizou esquisito. Gerou coisas novas. Me transformou. Eu não me distanciei dos relatos. Eles ficaram na cabeceira da minha cama, todo o tempo durante o processo de composição. De certa maneira, eu revivo aqueles relatos todos os dias: você abre o jornal e lê que um cara esfaqueou e matou a namorada no metrô (em Chicaco, um mês atrás); você fala com a sua família e sabe daquela parente que está passando o inferno nas mãos do marido abusivo; você abre o email e a polícia de San Diego acaba de dizer que um cara estuprou uma menina de 20 anos a 2 quadras da minha casa... Enfim, os relatos são momentos congelados do que está acontecendo o tempo todo ao nosso redor, não tenho como me distanciar.
Foto da apresentação de Ela engoliu um piano de vidro, no II FIME. Por Natacha Maurer.
Você escreveu uma tese de mestrado sobre a “corporealidade” na música e na performance. Como, para você, esta relação entre corpo e composição se dá em Ela engoliu um piano de vidro — em que o corpo feminino é peça-chave do assunto abordado?
A maneira como abordo a corporealidade no meu mestrado é muito diferente da maneira como abordei (acidentalmente!) a corporealidade em Ela engoliu um piano de vidro. Na minha tese eu falo da relação do corpo com o instrumento musical, com a tradição de tocar o instrumento, da maneira como compositores desconectam o corpo da música etc. Nesta peça é um pouco diferente: nós não tínhamos instrumentos contra os quais precisássemos nos confrontar técnica e historicamente (nenhum dos instrumentos de percussão que usamos requeria técnica específica para ser tocado). Honestamente, eu não premeditei nada específico sobre corporealidade nesta peça. As coreografias surgiram como uma necessidade expressiva e eu não formalizei ou teorizei sobre o corpo feminino nesta peça. Especialmente na introdução e no último movimento, o corpo se torna ao mesmo tempo um repositório de traumas e um espelho, que se dobra para dentro e para fora.
Você também foi curadora da segunda edição do FIME. Houve a preocupação com o equilíbrio da escalação das artistas mulheres com os homens? Como você acha que o machismo se dá no meio da música experimental?
Sim, houve preocupação de equilíbrio entre a escalação das artistas mulheres e homens. No entanto, ainda estamos muito distantes de obter este equilíbrio. Vejamos os números: das pessoas inscritas no FIME, apenas 15% são mulheres. Daí a gente já vê que o problema não é apenas em selecionar mulheres artistas. O problema é estrutural: poucas mulheres estão se inscrevendo, poucas mulheres estão produzindo, poucas mulheres estão tendo acesso a educação musical, poucas mulheres são encorajadas a serem artistas e a participarem da música experimental. Precisamos resolver o problema, simultaneamente, em várias esferas: os curadores têm que buscar equilíbrio entre gêneros durante o processo curatorial; as artistas que já têm visibilidade precisam se conscientizar de seu poder e ajudar outras artistas iniciantes ou menos engajadas a ganharem visibilidade também; educadores precisam se conscientizar do sexismo histórico e empoderar as meninas; o público tem que ser exigente e dizer: “Epa! Só tem homem nesse concerto? Isso é um desastre social!”. Sobre machismo na música experimental/contemporânea: acho que o machismo se dá em forma de agressões veladas, que acabam por gradualmente desestimular mulheres a se exporem. Vou dar um exemplo pessoal. Eu ouvi essa aqui, olha: “Você compõe como um homem!”. Isso já virou um clássico para mim. É uma agressão velada ao meu gênero. O camarada veio tentando me fazer um elogio, mas para me elogiar, ele precisa desqualificar o meu gênero e me parear com o gênero dele. Existe esse estímulo para que nos vejamos de maneira “masculinizada” (estereotipada) para que só então possamos ser reconhecidas e validadas como pessoas e não “só” como mulheres. É um absurdo grande e difícil de desconstruir em 10 segundos de comentário pós-concerto – normalmente quando eu escuto este tipo de estupidez. Existem outras manifestações de machismo na música contemporânea que são diretamente relacionadas aos privilégios históricos que os homens tiveram e têm. No entanto, estou otimista em relação à melhoria do cenário da música contemporânea: hoje temos mais mulheres participando como artistas em concertos, festivais, indo para universidades, organizando suas próprias séries de eventos etc, do que 10 anos atrás. Vejo mulheres e homens cada vez mais conscientes, tomando medidas concretas para resolver problemas contra o machismo na música. Isso significa que o feminismo está dando certo e que precisamos continuar trabalhando pela igualdade de gênero. A gente chega lá! :)














