A caça às espécies invasoras (ou quem afinal invadiu o quê?)
Urge colocarmos em cima da mesa o assunto das espécies invasoras. Quando se conversa em Portugal sobre fogos florestais, recorda-se saudosamente o tempo em que todos os montes estavam “limpos” e quase não havia incêndios.
O que acontecia no passado?
Nessa altura, cortava-se a vegetação rasteira, que viria a servir de cama aos animais nas cortes. Mais tarde, toda essa biomassa misturada com os excrementos animais já curtidos seria utilizada como fertilizante para as culturas anuais. Com o abandono da agricultura tradicional quebrou-se esse ciclo que parecia perfeito. Essa vegetação deixa de ser necessária e acumula-se nos montes, servindo de combustível aos fogos de Verão. À primeira vista, parece que se deu a extinção de um movimento orgânico bem-sucedido. Só que não.
As fragilidades desse sistema
O que passa despercebido a quem dispersa esta teoria é que o movimento de “limpeza” constante da mata durante séculos provocou uma degradação do solo através da erosão e da evaporação. Ora, isso impediu a matéria verde de cumprir a sua função na linha de sucessão ecológica.
A cada corte, o sistema era levado “ao osso” e a natureza tinha de recomeçar o trabalho de cobrir novamente o solo para o manter húmido e protegido. Mais tarde, quando já estaria tudo pronto para se dar o próximo passo na sucessão e abrir caminho à vegetação mais exigente, era feito novo corte e tudo regredia.
Foi neste ambiente de “sabotagem” permanente (e inconsciente) pelo homem à tecnologia florestal que as espécies autóctones foram perdendo terreno, dando lugar a outras mais resilientes.
A verdadeira espécie invasora
Hoje, quando falamos de espécies invasoras como o eucalipto, as mimosas ou as austrálias, partimos do princípio de que as mesmas chegaram, dominaram o terreno e, através da competição, expulsaram as espécies autóctones. Mas, analisando melhor a história, antes de elas aparecerem, outra espécie invasora por ali passou – o ser humano – e criou condições de degradação do solo por meio de diversas práticas.
Na imagem à esquerda - A presença do eucalipto entre as restantes espécies (mais de 60) num sistema agroflorestal sucessional na Estação Agroflorestal da Manguela em Julho de 2020
Na imagem da direita - Plantação de eucalipto em regime de monocultura no Concelho de Santo Tirso. Portugal. Não é o Eucalipto em sim mesmo o responsável pela desertificação dos solos, mas sim o regime de monocultura em que ele é plantado e explorado, criando desertos verdes como o da imagem em 2021
Fotos: Ricardo Meireles
Com os míseros centímetros de solo vivo e saudável que esses métodos ancestrais deixaram de herança, não será o carvalho, o sobreiro, ou outras espécies autóctones que conseguirão regenerar a terra e trazê-la para os níveis de fertilidade originais. Tal até seria possível, se parássemos hoje a nossa ação e esperássemos mais alguns séculos. Sabemos, no entanto, que já não temos esse tempo para reverter o processo degenerativo em curso.
A nossa esperança reside na eficiência dessas árvores que apelidamos de espécies invasoras e cuja capacidade de captação de nutrientes é muito mais eficaz que a da vegetação nativa. São autênticas máquinas de bombear água e nutrientes de horizontes do solo onde só elas conseguem chegar. Ao trazer toda essa energia para a superfície, criarão uma camada de fertilidade a um ritmo que nos permite ter outra perspetiva de recuperação.
O eucalipto, as acácias ou as austrálias, quando foram trazidos para o nosso território, encontraram o lugar ideal para avançar. Não por terem um instinto aniquilador, mas porque a natureza usa a sua tecnologia para fazer a análise do solo e avaliar quais as espécies do banco de sementes que estão em melhores condições de avançar no trabalho de regeneração. O ecossistema é eclético e imparcial. Nenhuma espécie vegetal ganhará terreno se não for útil aos propósitos regenerativos. .
"A inteligência da floresta é muito mais complexa e assertiva que o conhecimento humano, por vezes cheio de dogmas em relação à origem das espécies vegetais."
Se entrarmos num espaço florestal estratificado, maduro e com um solo fértil, podemos lançar por lá as sementes de todas as “espécies invasoras” que conseguirmos e veremos ao longo dos anos que nenhuma delas terá dominado o ambiente, a não ser que se tenha aberto uma clareira com o derrube de árvores autóctones e se tenha degradado o solo levando toda essa biomassa para fora do sistema.
Chegando a tal estado de degradação, impõe-se a questão:
Será viável usar eucaliptos e outras árvores de crescimento rápido para regenerar os solos?
Sim, se respeitarmos a biodiversidade, se juntamente forem plantadas e semeadas espécies autóctones e se planearmos essa intervenção tendo em conta o espaço (estratificação) e o tempo (ciclo vegetativo) de cada espécie e se aproveitarmos a dinâmica da sucessão ecológica, desde a colonização até ao clímax.
É neste contexto que a agrofloresta de sucessão e o conceito de agricultura sintrópica criado por Ernst Götsch pode inovar e contribuir para uma evolução na prática ecológica.
Ernts Gotsch durante o curso de Agricultura Sintrópica na Herdade do Freixo do Meio em Portugal. Outubro de 2018 . Foto: Ricardo Meireles
O eucalipto e outras espécies vegetais não nativas podem ajudar a salvar o solo em Portugal se forem manejados por meio de podas ou cortes atempados, se com elas forem plantadas e semeadas plantas anuais que, em conjunto, criarão uma dinâmica de vida e crescimento, se a determinada altura incorporarmos a biomassa triturada para criar uma camada enriquecida de matéria orgânica que torne possível uma rápida regeneração através da cobertura constante do solo.
E qual é o outro lado da moeda?
Se, ao invés dessa prática, perpetuarmos a monocultura e os proveitos forem totalmente retirados do ecossistema para alimentar as indústrias que dele dependem, pode significar a catástrofe ecológica de um país que há muito expulsou a floresta do seu território.
Imagem aérea de Sistema Agroflorestal Sucessional com 3 anos do projeto de Agricultura Sintrópica da Estação Agroflorestal da Manguela, em Santo Tirso, Portugal. Na imagem, mais de 60 espécies desenvolvem-se em cooperação a caminho de um sistema complexo e biodiverso de abundância.
Espécies de ciclos anuais como hortaliças e perenes como arbustos e árvores crescem no mesmo espaço com um design de plantação que recria as dinâmicas das florestas originais. Foto: Ricardo Meireles 2021
A diferença entre o remédio e o veneno é a dose, ou neste caso, o método usado ou a sua finalidade.
Ao utilizarmos a maioria da floresta como um ativo económico, mantemos uma indústria de extração de recursos de solo, que deveriam estar disponíveis para as próximas gerações. Estamos a utilizar o “cartão de crédito energético” dos nossos filhos e netos para alimentar um sistema que não temos coragem de desmantelar. A fatura, essa chegará e será bem pesada para eles.
Por sua vez, se apostarmos nas espécies de crescimento rápido, as ditas espécies invasoras, para abrirem caminho à instalação de uma floresta madura e maioritariamente autóctone (que todos queremos um dia ver a dominar), elas irão criar um atalho na evolução que demoraria centenas de anos a acontecer.
É este propósito que os movimentos ecologistas tradicionais não entenderam ainda. Criar listas maniqueístas de espécies vegetais, classificando-as de boas ou más, sem ter em conta o contexto em que elas crescem e o serviço ecológico que podem prestar, é uma atitude preconceituosa. Não há tempo para esperar que as espécies autóctones trabalhem sozinhas e não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar a eficácia de espécies mais eficazes. Leia outros artigos do nosso blog e saiba mais sobre este processo de viragem que tem um caráter de urgência criado pelo próprio ser humano.
Publicado por Ricardo Meireles
Iniciou a atividade de agricultor em 2012, cultivando e comercializando plantas aromáticas e medicinais BIO. Ao investigar sobre novas respostas para o equilíbrio ambiental do seu projeto, foi na agrofloresta de sucessão e na agricultura sintrópica que encontrou a possibilidade de um futuro mais sustentável na atividade agrícola. Em 2018 foi aluno de Ernst Götsch no Curso de Agricultura Sintrópica na Herdade do Freixo do Meio e, desde então, fundou juntamente com Walter Sandes o projeto Somos Agrofloresta