Muito prazer, eu sou aquele que ninguém nunca ouviu falar, aquele que esqueceram na rodoviária. Aquele que passou despercebido no fundamental e no ensino médio. O cara que faz faculdade, mas nunca o chamaram pelo nome. Sou tão comum e normal que sou invisível.
Sr. Invisível: Leonardo Oliveira, mas pode me chamar de Léo.
— Finalmente! – deitei no sofá. Já não aguentava mais procurar tantas casas e apartamentos, e depois de escolher e comprar os móveis encontrei tempo para descansar. Mesmo que meu irmão tenha feito a maior parte das coisas, eu também estava cansado.
Meu irmão chama Gabriel e tem 24 anos, a gente se mudou para a capital principalmente por causa do emprego que ele conseguiu aqui e por causa da minha faculdade. Meus pais bancaram tudo, por pura sorte. Vou ter tempo suficiente pra estudar já que não tenho que trabalhar.
O apartamento é legal, num lugar ótimo, em frente á uma pista de skate, perto de uma sorveteria e uma lanchonete. Apartamento com uma vista perfeita da cidade, e pra inaugurar meu irmão resolveu dar uma festa enorme e chamou os amigos que ele já tinha feito na cidade, e veio gente que ele tinha conhecido no mesmo dia da festa, mas foi ótimo. Só tinha gente legal e bonita, o que é muita sorte, já que algumas festas que ele deu da ultima vez foram horríveis. Conversei até tarde com uma garota magrinha do cabelo claro, super legal, a gente ficou e eu queria levar ela pra inaugurar o meu quarto, mas ela sumiu, de verdade, antes das onze ela saiu pra pegar um refrigerante e nunca mais voltou. Tenho muito azar.
As meninas de hoje em dia estão mais fáceis que a de antigamente, até as “difíceis” são fáceis, chega a ser engraçado conhecer uma garota que se faz de difícil, mas usa o sexo pra “prender” o namorado. Embora eu seja contra algumas meninas chegarem e já irem para a cama com um cara que nunca viu antes, às vezes a gente aproveita, vai que não acontece de novo né?
Enfim, a festa foi tão legal que até o síndico veio dar um ‘alô’ pra o pessoal, depois ele brigou feio, mas ele veio dar um oi.
Durante os outros dias eu não fiz absolutamente nada. Eu ainda estava de férias então minha vida se resumia em sair pra comprar comida, voltar pra assistir TV, ir dormir ou sair pra comprar sorvete. Desse jeito eu ia precisar de academia logo, logo. Por falar nisso, encontrei umas fotos antigas minhas e do meu irmão. Eu era muito estranho, magrelo com um “cabelo sorvetão”. Mas assim como os pokémons eu evoluí de palito de fósforo para cabelo curtinho, alto, e com mais músculos. A academia me salvou de ser um franguinho.
Hoje aconteceu uma coisa muito interessante. Enquanto eu descia pra pegar o pote de sorvete que eu pedi pra o porteiro ir comprar, percebi que o corredor e o elevador estavam com um perfume meio doce, meio cítrico, meio sei lá. A coisa mais enjoada do mundo que mais parecia perfume de velho. Mas pra a minha surpresa, ao entrar no elevador olhei pro lado e vi a dona do perfume. Uma menininha baixinha de cabelo castanho liso, morena, que parecia estar indo pra academia. Devia ter uns 15 anos, pirralha, deve ser fã de bandinhas tão enjoadas quanto seu perfume.
Chegamos ao térreo e ela saiu como se não existisse ninguém além dela no mesmo mundo. Mas antes de sair pela porta da frente ela olhou pra trás e sorriu pra mim. Foi até engraçado já que eu normalmente não sorrio pra desconhecidos, e pra ela eu sorri. Por sinal, bem bonito o sorriso dela, e ela todinha também, bem bonita.
Andei procurando algumas coisas pra fazer fora de casa; ainda faltam duas semanas pra eu finalmente ir á faculdade. Vou fazer engenharia civil, e depois física, só por vontade mesmo. Enquanto não vou estudar, fico dividindo meu tempo entre academia, comer, ver televisão e dormir. E todas as vezes que eu saio no corredor ou vou comprar sorvete, aquela garota do perfume passa por mim ou então ela já passou e deixou o perfume pelo caminho. Até que o perfume não é ruim, não sei por que pensei aquelas coisas do perfume, até que ele é bom sabe?
Hoje eu cheguei mais cedo da academia e descobri que meu quarto é do lado do quarto dela. Cada um dos 15 andares do prédio tem quatro apartamentos, o prédio é grande, e os apartamentos também. Enfim, ela estava ouvindo umas músicas eu acho, não dava pra ouvir bem do meu quarto, era baixinho demais. Mas acho que era em inglês.
Meu irmão tinha saído com uns amigos dele, então não tinha ninguém pra conversar e eu estava cansado de ver televisão. Fui à cozinha, fiz um sanduiche e sentei na cama tentando não fazer barulho nenhum, eu queria ouvir o que ela tava ouvindo. Mas depois de alguns minutos eu caí no sono, e não havia dado uma mordida se quer no sanduiche. Apaguei por mais ou menos duas horas, e acordei assustado, a musica havia parado. Fui até a sala, joguei vídeo game, mas logo voltei pra o quarto. Sabe quando o tédio é tão grande que às vezes até dormir é ruim?
Sentei na cama, e fiquei olhando o teto até virar a cabeça a 180 graus, e ver a janela. Fiquei espiando a praça, a lanchonete, a sorveteria e uma pessoa sentada num banco onde batia a sombra de uma árvore. Peguei o meu binóculo que estava na gaveta do meu guarda-roupa, e fiquei observando tudo, até ver que aquela pessoa era a minha vizinha.
Ela estava com uma calça jeans toda rasgada, uma regata branca, bem bonita. Estava tomando sorvete e lendo um livro. Usava um colar e um anel na mão. Não dava pra ver mais do que isso, moro no 8º andar e meu binóculo é bom, mas não tanto.
— Léo! – meu irmão chegou empurrando a porta e gritando feito louco. Se houve um momento na história da humanidade em que alguém literalmente morreu de susto, por pouco eu não repeti esse belo feito. Meu coração saiu pela boca e eu juro, infelizmente, que gritei igual uma menininha mimada. Meu orgulho foi por água abaixo.
— Que gritinho mais afeminado foi esse Leonardo? E o que você tá fazendo ai na janela? – tomou o meu binóculo e se jogou pra olhar a rua, e é claro que ele viu a garota.
— Olha só a Aninha ali! Léozinho tá afim dela é?
— Mas ela até que é gatinha hein?
— Seria pedofilia, olha o tamanho da criança!
— Tá bom. – e saiu pela porta, rindo.
O que esse idiota deve tá pensando de mim? Deve achar que eu sou um maníaco, um pedófilo, um tarado maluco que fica de olho nessas pré-adolescentes. Quem ele pensa que eu sou? Que droga.
— A propósito – ele gritou da cozinha — Ela tem 17 anos e é MINHA amiga.
Deu tanta ênfase na palavra “minha” que senti uma raiva enorme sem sentido.
— O que você falou idiota? Que história é essa de “MINHA”?
— Oras, ela veio pra festa e você nem notou, fiquei conversando com ela.
— Idiota! Por que não me apresentou ela? E ela tem 17 mesmo?
— Porque você é chato e ela é legal demais pra você.
— Gabriel desgraçado! – gritei. Meu irmão de anjo só tem o nome.
— Ah Leonardo vai logo espionar sua nova paixonite, vai!
Confesso que fiquei bem feliz que minha vizinha é mais velha do que eu imaginava, só um ano mais nova que eu. E chama Ana, nome bonito, bem meigo, bonito que nem ela. É... Bem bonito.
— Acorda Léo! Tá dormindo em pé? ACORDA!
Conseguia ouvir meu irmão, mas meu pensamento estava em outro lugar. Eu literalmente travei, estava em outro mundo, pensando nela.