Nunca lhe contei isso, mas acho que você iria rir em saber que fui uma criança muito impressionável e facilmente convencida. Acreditava em fadas, em poderes mágicos e que, se eu jogasse uma garrafa no mar com uma mensagem escrita, ela poderia chegar a qualquer lugar do mundo. Infelizmente, crescer significa perder um pouco dessa inocência no impossível, porém eu queria muito voltar a acreditar. Pensar que, se eu pegasse uma garrafa, seja ela de vodca ou cachaça mineira, escrevesse todas as minhas vontades e desejos, e a enviasse, de alguma forma ela chegaria até você. Talvez ela viajasse 2.175 km até chegar a Belo Horizonte.
Também nunca lhe contei, mas acho que você iria rir quando eu lhe contasse que eu, além de imaginativa, também sou meio ruim em geografia. Eu pensei em toda essa metáfora sem lembrar que Belo Horizonte não tem entrada para o mar e nem como a garrafa chegaria até suas mãos. Talvez, na minha imaginação, as fadas poderiam tomar conta da entrega terrestre e, de alguma forma, ela chegaria até você.
A verdade é que havia muitas coisas que eu queria ter lhe contado. Desde minhas imaginações infantis até minhas limitações geográficas, como meu sonho de morar em países frios mesmo odiando climas abaixo de 20 graus. Talvez o “eu” se transformasse em “nós” e pudéssemos agora virar aqueles casais chatos que parecem a mesma pessoa. Agora seriam nossas coisas, nossas imaginações, nossos planos.
O fato é que, mesmo sempre tendo acreditado em fadas, magia e coisas impossíveis, não posso lhe enganar e dizer que acreditei que esse “nós” realmente se tornaria verdade. Nosso tempo sempre foi contado e limitado. Os 2.175 km eram uma sentença de morte para o “nós” e todas as coisas que eu queria ter lhe falado. A distância nos impediu de ficar juntas, com todos os beijos, abraços, risos e conversas que tínhamos direito. Só nos sobraram resquícios do que fomos e do que poderíamos ter sido.
Nunca vamos poder contar sobre nosso amor. O amor de mãos dadas pelas ruas de Fortaleza, Salvador e BH. O amor com sabor de caipirinha, pirulito e batom vermelho. Aquele que nos fazia sorrir com as chegadas e chorar com as despedidas. Talvez um dia, mas até hoje eu não consigo falar sobre.
E nunca vamos poder falar sobre nós no futuro. Sobre nossa casa, nossos futuros gatos, nosso casamento, nossas filhas e nossa futura cidade. Os planos futuros que todo casal deveria ter o direito de sonhar e até brigar sobre, hipoteticamente, em algum ponto do relacionamento. Como o nome da nossa primeira gata, o destino da lua de mel, ou o fato de que as flores do nosso casamento precisam ser amarelas, e não rosas ou algo do tipo.
A verdade mesmo é que eu nunca vou lhe contar nada disso que eu escrevi. Tudo o que foi escrito vai ficar guardado comigo. Não tenho coragem para expor tanto assim esses sentimentos, principalmente considerando que faz tanto tempo que nós demos o último adeus. Mesmo assim, confesso que ainda vou postar esse texto em algum lugar. Esse vai ser meu último ato de acreditar no impossível. Vou crer que, de alguma forma, talvez, assim como as garrafas jogadas no mar, esse texto jogado na internet possa chegar até você. Nas praias virtuais de BH. E, se chegar, talvez eu volte a ser impressionável e creia que talvez um dia possamos ter uma chance de ficarmos juntas.
Pude lhe dizer tudo isso também. Tudo o que senti, tudo o que vivi e tudo o que nunca tivemos.
PS: Caso esse texto chegue a alguém que não seja a Laura, irei responder à pergunta mais óbvia do mundo:
Sim, nós somos sáficas (e, para piorar, saibam que foi meu primeiro amor e meu primeiro beijo com uma mulher. Não, não estou bem. Sim, quero um abraço).