Itaculumim
As praias descanto, Que tem tanto encanto – – que ameiga meu pranto Do belo Cumã! A lua prateia Seus cambras d’areia, A vaga passeia Na riba louçã.
Fronteiras a elas Se ostentam tão belas Desertas singelas As praias de além; Há nelas penedos, Enormes rochedos, Que escondem segredos… Eu canto-as também.
Eu creio que irmã Deus fez o Cumã Da praia louçã Do Itaculumim. A vaga anseia Além – e vagueia Que nestas ondeia, Eu creio por mim.
Não vedes as praias fronteiras? A quem Se estende o formoso Cumã lisonjeiro: Além se dilatam de Itaculumim As praias saudosas, o morro altaneiro.
O índio em igaras – vencia esse espaço, Juntava-se em turbas – amigos queridos; Após os folgares, as breves canções, Valente p’ra guerra marchavam reunidos.
Mas, foram esses tempos de paz, e sossego E tempos vieram de guerra, e de morte.. E sempre ao irmão, – e sempre o penedo Qual firme atalaia – vigiam no norte.
Os íncolas tristes, – a raça tupi Deixando suas tabas, fugindo lá vão, Que mais do que a morte no peito lhe custa, A fronte curvar-se-lhes à vil servidão.
O índio prefere no campo da lide Briosos guerreiros a vida acabar: Ver mortos seus filhos, seus lares extintos Do que a liberdade deixar de gozar.
Sua alma que é livre não pode vergar-se, Por isso seus lares aí deixam sem dor; E vão-se prudentes – altivos – jurando Que a fronte não curvam da pátria ao invasor…
Ceder só à força, que poucos já eram, Que os mortos juncavam seus campos mimosos… Deixaram estas praias que tanto queriam, Fugiram prudentes – mas sempre briosos.
Depois, lá bem longe… nas noites de inverno, Ouvindo nas matas gemer o trovão, E os ecos saudosos, e os ecos sentidos Quebrados, chorosos na erma soidão,
Lembravam com prantos, que amargo lhes eram As praias amenas do belo Cumã; O morro altaneiro de Itaculumim, Os combros d’areia na riba louçã.
E ermo, e saudoso das ninfas, que amou, Das crenças, que teve descanta o pajé; Os outros escutam seu canto choroso Que fala das crenças, que vida lhes é.
Ele começa com voz soluçada: — Nas praias do norte nascidos tupi; Existem palácios no mar encantados, No leito das águas de Itaculumim.
Ah! quanto é formoso seu vasto recinto, Oh! quanto são belas as virgens d’ali! O teto, que as cobre de conchas de neve, O solo das perlas mais lindas que vi.
O colo das virgens é branco, e aéreo; As tranças de ouro rasteiam no chão; O canto é sonoro – tem tal harmonia Que prende de amores qualquer coração.
Seu corpo mimoso semelha à palmeira, Que troca coa brisa seu ledo folgar: As meigas palavras, que caem dos lábios, Parecem harmonias longínquas – do mar.
Saudades que eu sinto de tudo que amei, Se triste recordo seus mimos aqui… Saudades do belo Cumã lisonjeiro, Saudade das praias de Itaculumim…
Deixamos as tabas de nossos avós… As águas salgadas, que tinham condão! Deixamos a vida nos lares queridos, Vagamos incertos por ínvio sertão.
Entre suspiros cessa o triste canto; Mais não disse o pajé! Um silêncio dorido sucedera Ao seu canto de dor…
Ele! tão feliz… ele, ditoso Eu seu doce folgar; Em palácios dourados repousando, Em instantes de amor…
Agora na soidão – agora longe Dessas deusas do mar; Agora errante, triste, e sem destino Sentia a aguda dor…
Por isso era canto bem sentido Lá por ínvios sertões! Perdera as salças praias, arenosas, Perdera o seu amor!
Lastimava seu fado – e se carpia Das praias do Cumã. E de Itaculumim se recordava Com suspiros de dor…
E muitos prantos soluçados vinham De saudades – quebrar a solidão! Depois, era um silêncio amargurado, Depois, suspiro fundo de aflição…
Prosseguem entanto sem destino, aflitos, Prosseguem marcha duvidosa, errante: E aqui campeia do Cumã as praias, E Itaculumim gigante.
Maria Firmina dos Reis









