“The Scandal of Service—Jesus washes our feet” de Jean Vanier (1996)
Vanier diz que fundou a L’Arche para “relacionamentos de coração para coração e a alegria de reconhecer a nossa humanidade comum”. Esta obsessão destes neo-semi-místicos com a humanidade transcende-me. É, na verdade, um misticismo ao contrário porque celebra o comum e não o extraordinário. Deus está preferencialmente nos pobres e nos simples e, por isso, qualquer eixo de transcendência ultrapassa-se numa espécie de transubstanciação do comum em maravilhoso. Claro que para empreender semelhante mutação é preciso sempre que “a vida no L’Arche revele significados profundos e escondidos do evangelho”. Para estes teólogos a vida comum é comum mas tem sempre este abençoado twist de providenciar visões sublimes que, claro está, não se encontram na leitura simples das Escrituras. Há, por isso, um fascínio com a imagem sobre a palavra, como os gestos de humanidade revelam o que a Teologia não consegue. “This creates a deep presence and communion between the people, not through words but through this gesture of love and service”.
Para Vanier o verdadeiro julgamento final é a partir de como amámos além das máscaras que a sociedade nos impôs. Não é que esteja completamente incorrecto ao escrever isto mas, ao mesmo tempo, é um modo fácil de nos livrarmos do enquadramento tradicional do juízo transcendente divino. Nós não seremos apenas julgados pelo que não amámos mas pelo mal concreto que fizemos. O pecado é uma palavra evitada neste livro (não me recordo de ter sido usada).
Um ponto positivo é Vanier notar que quando lava os pés dos discípulos Jesus prescinde da sua roupa externa (a capa) e depois, na cruz, a roupa lhe é retirada. Achei interessante esta referência: sugeriu-me que Jesus abdicar da roupa significa serviço, e a roupa ser retirada de Jesus significa sacrifício. A primeira aponta para a segunda.
Novamente, “cada discípulo de Jesus é convidado a penetrar mais fundo no mistério”. É sempre mistério para aqui e mistério para acolá, que, claro está, uns penetram e os outros, coitados, deverão ficar de fora.
É revelador que Vanier faça depender a força da experiência da lavagem dos pés da anterior eucaristia. “Sem a Eucaristia não podemos viver a presença e comunhão do nosso coração com os outros. Por outro lado, não podemos receber adequadamente o corpo e o sangue de Jesus se não perdoarmos e amarmos os outros”.
Mais mistério: “a lavagem dos pés é um mistério que só podemos penetrar com a ajuda do Espírito Santo”. “Acções falam mais alto do que palavras”. Certo, certo.
O mais próximo que Vanier chega de alguma ideia de justificação ou propiciação é aqui: “Jesus identifica-se não só com o escravo mas com o criminoso, com todos aqueles que se sentem completamente abandonados por Deus. (…) Tomando a violência da humanidade no seu próprio corpo, ele transforma-a em ternura e perdão”. Mas lá está, fica no mínimo vago o significado expiatório.
Mais mistério: “Through words he had communicated with the disciples as a community. Now, through this intimate action, he affirms a personal relationship with each one”.
Jesus perdoa sempre vindo de baixo e nunca vindo de cima.
A parte mais delirante é Vanier dizer que Jesus lava os pés de Judas como quem lhe diz “amo-te, independentemente do que acontecerá eu amo-te” e que talvez no momento em que se enforcou Judas tivesse os olhos em lágrimas e finalmente recebido o perdão de Jesus. Além de negar o que a Escritura diz de ele ser o filho da perdição, é uma imagem no mínimo pirosa de telenovela de terceira.
Mais do que uma vez fala-se da “noite escura da alma”, claro. A noite escura da alma virou o tide lava mais branco. Uma vez mais o catolicismo arranja no nosso sofrimento um modo de nos salvarmos.
Vanier celebra a vulnerabilidade de Jesus e sugere que vulneráveis devemos ser todos.
Foi durante uma parte em que Vanier fala acerca de uma das comunidades L’Arche em que passou um sabático em que os doentes mentais aí recebidos tinham de ser lavados e que essa lavagem lhe mostrou o poder do toque, da linguagem não verbal, que pensei: espera aí! Este não é o dread que foi apanhado em abusos sexuais? Dito e feito…
Jesus quer sempre que tenhamos relações de coração parta coração. Aqui diviniza-se o humano e diviniza-se as relações de coração para coração.
A parte em que diz que de certo modo Pedro e Judas traíram Jesus porque Jesus traiu as expectativas deles de poder é certeira.
A superação existencial volta a ser “passar a noite escura da alma”.
Olhem a apreciação final de Judas: a reacção dele que podia ter bloqueios psicológicos e espirituais no que diz respeito à comunhão e ao amor. LOL.
Diz Vanier que a imagem do Jesus que lava os pés é diferente do juiz que governa, condena e castiga. Claro… O L’Arche mostrou a Vanier que ele tinha medo de ser vulnerável mas que ao partilhar a vida com aquela comunidade descobriu a importância de ouvir e ir além da comunicação não-verbal—foi conduzido à comunicação de coração para coração.
Não quero ser injusto para um homem que terá feito muita coisa boa no acolhimento de doentes mentais, pobres e outros desprivilegiados. Mas ao mesmo tempo, e como estas notas mostram, acho revelador que este caminho de misticismos da treta, de crítica ao verbal e à palavra, de romantização do coração para o coração, de continuação da preferência pelo sacramental, de idealização de um existencialismo pop da “noite escura da alma”, de suposta revalorização do corpo acabe como acabou para Vanier. É aprender.