Os quatro planos de jogo no Big Brother: o jogo vertical.
Dentro do sistema que se desenvolve (ver introdução AQUI ) podemos de imediato ver que há DOIS grandes jogos Big Brother co-existindo. Temos o jogo do ponto de vista dos moradores, e o jogo do ponto de vista da audiência. São jogos distintos porém em retroalimentação constante, formando um sistema vivo e vibrante.
Pelo ponto de vista dos moradores, o jogo se dá em dois planos, como foi apresentado anteriormente: o plano horizontal ( a relação entre os moradores ) e o plano VERTICAL ( a relação entre o morador e o público ).
O jogo vertical se constitui em uma série de comportamentos do morador em relação ao público no qual o morador fala diretamente com (se dirige a) o público via câmeras. É um discurso direto, imediato e voltado ao afeto pessoal. Em geral é temperado com uma artificial humildade, pois o morador cita variantes do "é o público quem vê / é soberano / o público viu que eu X".
Essa forma direta supera os ditames da convivência horizontal quando o morador passa a se apoiar apenas no superego (pois é isso que o jogo vertical encerra: o julgamento de uma suposta sociedade moral) para garantir sua ''superioridade moral" perante os outros. Mas, de maneira mais simples, até pelo escopo desse texto ser outro, basicamente o jogo vertical é o morador ''falar pra cima'', ''falar com deus'' e esse deus é às vezes a produção, mas na sua maioria ... o público.
Esse jogo pode ser jogado ''malandramente'' (quando Dhomini 1 chama o público a ser cúmplice de seu personagem, o suposto malandro que dá a volta em todos, um Didi Mocó). Pode também ser jogado pelo viés machista ( Alemão e seu ''o brasil tá vendo -- que eu sou o macho alfa que é aprovado pela sociedade pois gentil e sedutor com as fêmeas). Esse jogo já foi jogado de maneira que beirava o fascismo ( Dourado e seu "eu estou acima das convenções de convivialidade pois tenho uma verdade acima da falsidade da convivência social"; basicamente um anti-intelectualismo beirando o bom selvagem de Rousseau). Um outro uso, muito mais interessante ao meu ver, é o do afeto-pelo-car-crash, que movimentou Ana Paula e sua sinceridade exposta como um nervo dilacerado. O hot-mess era acompanhado de uma ''verdade direta'' difícil de não se relacionar com. Todo mundo já foi esse hot mess anapaulisticamente e todos podem, em potencial, se relacionar com isso. E esse foi seu jogo; e com altos toques de verticalidade com a PRODUÇÃO, não só com o público.
Noto que eu, pessoalmente, não curto muito o jogo vertical. Meu interesse em jogos estilo Big Brother é a relação entre eles...eu NÃO QUERO ser parte integrante do jogo DELES.... o meu jogo é outro e se dá aqui fora. Além do mais, esse "atuar pras câmeras, pro público lá fora" torna ainda mais difícil fazer qualquer análise sobre como essas pessoas se relacionam no direto. É até possível a alegoria do ''louco da vila que fica o tempo todo falando do castigo divino de um deus acima".
Eu não curto ser chamado ao jogo. Eu prefiro ser o cientista OLHANDO pro meu experimento e discutindo meu experimento com outros, e não um comparsa dos moradores. O jogo deles é deles, o meu se dá em outro tabuleiro e se baseia em julgar o jogo deles e não ser parte do jogo deles. Mas, o jogo vertical faz muito efeito quando bem jogado por algum morador com carisma. Logo, é eficaz até um certo ponto, para alguns poucos jogadores. Suponho que o público goste também desse "ela/ele está falando diretamente comigo, eu sou do Team-X" ... Afinal, é no jogo vertical onde se dá o ''olha no meu olho'' entre o morador e o mundo-deus que o cerca.










