Este velho sabor a morte na boca, aprender de novo a habitá-lo, percorrer devagar as suas sombras, suportar devagar as suas dores, por momentos, quase um consolo, quase um abrigo, cansada alegria de um lugar que te recebe. Este velho sabor a morte na boca, por quanto tempo o esqueceste, por quanto tempo esquecido não te esqueceu, e paciente te esperou em cada dia que acreditaste que serias feliz e foste-o. Este velho sabor a morte na boca, aos poucos vou-me recordando de quem fui, reconhecendo sensações, lugares, a casa onde eu nasci, cresci, e de onde depois saí, fingindo que podia não regressar. Este velho sabor a morte na boca, eu nunca cheguei a sair (como poderia sair?), estas paredes são o meu corpo, este ar cercado o meu peito, este negro o meu coração.
— Nu contra nu, Jorge Roque [ed. Averno]



















