Crônica do desastre
Escrito em capítulos curtos, Manual da demissão demonstra o amadurecimento de Julia Wähmann enquanto romancista. Se em Cravos, seu livro de estreia, a forma se sobrepunha ao conteúdo, aqui parecemos estar diante do oposto: um exercício de estilo, sem dúvidas, mas cujo conteúdo merece muito mais atenção.
J., a protagonista, é demitida dois dias depois de ser dispensada pelo ex-namorado. A esse desastre do destino, seus amigos A. e B. também se veem na mesma situação. Não demora para, nos últimos suspiros do governo Dilma, uma onda de demissões começar a assolar o Rio de Janeiro e se alastrar pelo país conforme o novo presidente entra em jogo.
Mistura feliz do surrealismo Kafkiano com a crítica social de Saramago, Manual da demissão diverte pela noção contemporânea da dor ao mesmo tempo em que faz uma análise certeira do que é existir enquanto adulto em um país falido cujas filas são sempre intermináveis. Entre uma praia e outra, os personagens cujos nomes não ultrapassam iniciais veem em Portugal a última fronteira da esperança. Sozinha e lutando dia após dia, J. começa a se tornar uma acumuladora de caixas alheias e perspicaz observadora do mundo ao redor.
Com muito humor, Julia Wähmann prova aqui que é possível sim fazer uma boa crítica envelopada de autoficção enquanto põe o leitor num deserto empregatício cujo alívio são as referências pop – como bem diz a protagonista, evocando o sempre referenciado Bartleby de Melville: Você sabe, é a crise.
Nota: ✩✩✩✩







