Torto arado
Quando esteve no Brasil, o filósofo Albert Camus escreveu que se tratava de uma terra sem homens, onde tudo parece erguido à custa de esforços desmedidos. Em Torto arado, de Itamar Vieira Junior, esta observação é em parte verdadeira: há homens, sim, até demais, e tudo é erguido na chave do descomunal pelo sacrifício dos explorados. No sertão baiano, na fazenda dos Peixoto, vivem mais de quarenta famílias. São pessoas que moram em casas frágeis e passam seus dias plantando, colhendo e dançando nas noites de jarê, sob a encantação do curador Zeca Chapéu Grande. É nesse contexto que as filhas de Zeca, Bibiana e Belonísia, também brincam com suas bonecas feitas de espiga de milho. Um dia, contudo, as duas são vítimas de uma tragédia sanguinolenta que irá definir seus futuros.
Vencedor dos prêmios Leya, Oceanos e Jabuti, Torto arado é uma história de humanidade. No ecossistema desse microcosmo que é uma vida isolada dos grandes centros urbanos, seu autor construiu uma trama de prosa cadenciada, repleta de adereços brilhantes, que não se deixa contaminar pela mania de grandeza. A luta por moradia, o desejo de estudar, as artimanhas da política dos brancos sendo dominada pela força da encantação preta: não há espaço para nada que fuja do propósito do romance-em-si: denunciar a herança maldita da escravidão, a luta pela terra e os caminhos que os descendentes de escravos encontraram para fugir das armadilhas da branquitude.
Em três vozes, com as mesmas dicções e cadências, Torto arado se divide na épica de Bibiana e Belonísia, fios condutores, enquanto se expande como um rio para os domínios de Zeca Chapéu Grande, Salu e Maria Cabocla, entre outros. Em escala, eis o espelho de um país que já deveria saber que “o sangue do passado corre feito um rio”, e que não é preciso temer nem os vivos nem os mortos: assim como eles, estamos juntos sobre a mesma terra, esperando que a faca do corte seja a faca da garantia de que sempre haverá de viver “o mais forte”.
Nota: ✩✩✩✩













