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— É estranho pedir alguém em namoro dentro de uma loja de roupas, não?
Capítulo 05 – Distância
Entrei em um processo inicial de pânico. Meu coração pareceu parar de bater. Minha respiração agitava-se.
— Austin... – fechei os olhos, engolindo em seco. Contei três segundos e prossegui: – Que pergunta é essa? – delicadamente, virei meu corpo para trás. Fiquei mais perto ainda do girafa. Minhas pernas perdiam o sustento aos poucos por começarem a balançar.
— É que acabei de ver na TV um cara pedindo uma moça em namoro dentro de uma loja. É um daqueles programas de “volta pra mim”. – fez careta, demonstrando reprovação do local escolhido. Ahhhh! Tudo esclarecido! – Oh, o que houve? Você está tão vermelha que é possível fritar um ovo nas suas bochechas. – zombou.
Voltei o olhar para a Demi do espelho. Toquei minhas bochechas. Elas queimavam. Só faltavam borbulhar feito lava de vulcão. Que embaraçoso! Inevitavelmente progredi da fase Demi apavorada para Demi risonha. De nervosismo e pura felicidade, gargalhei sem parar.
— Garota... O que é isso? Você está bem? – tocou em meus ombros, estranhando esse comportamento nunca visto antes.
Ignorei, rindo mais e mais. Era impossível recuperar todo o fôlego, mesmo que pausando em alguns segundos e voltando em outros. Chegou a sair água de meus olhos. Passei o dedo sob um e outro. Tudo isso me causou um pouco de tontura.
— O que eu disse de tão bizarro? – Austin questionou aflito. Ele não tirava seus olhos de cima de mim. Recuperando-me, me fiz de bobinha:
— Também não sei.
O dono do par de olhos azul desconfiou de que existia sim um motivo, contudo não deu trela. Alguns instantes depois e estava tudo no esquecimento (para ELE, porque eu ainda me sentia desconfortável). Austin puxou de minha mão o cabide com o futuro presente de sua futura namorada. Cuidadosamente, para não estragar ou desfiar um centímetro de fio, pousou o vestido sob uma mesa de vidro. – Vou deixar aqui, ok? – ele retornou até minha pessoa, puxando os outros cabides dos meus braços que eu usei até então para brincar de personagens rente ao espelho. – Bom, vai lá escolher uma roupa para você. Eu vou experimentar minha outra camisa.
Finalmente meu corpo estava voltando ao estado normal. Ufa! Que tensão enorme. Foi dificultoso encarar meu próprio reflexo no espelho de tanta vergonha. O problema das pessoas pensarem demais é que elas chegam ao ponto de criarem problemas que ainda não existem. Ou melhor: que nunca existirão... eu acho.
Carreguei desde a saída da loja meu novo amor dentro da sacola. Não via a hora de lavar, vestir e exibir o lindo vestido lilás que Austin me comprou. Eu não queria ter levado nada da loja. Entretanto, quando bati os olhos naquele mar de beleza tão delicada, meu coração sairia pela boca quando fosse dar adeus para a peça.
Demos uma pausa para lanchar na praça de alimentação. Critiquei de todos os modos que estes tipos de comida feita pelo desconhecido faziam mal para a saúde. Bendito fracasso... Fui obrigada a engolir até as migalhas do prato. No retorno ao meu lar, refleti o tempo que levamos somente com as compras quando o relógio da torre batia exatas seis horas.
Conforme Austin estava mais a frente, fora ele quem se agachou para apanhar a chave da porta de entrada debaixo do tapete de boas-vindas. Algo estranho ocorreu: o pequeno objeto não estava lá. Estranhei, sentindo calafrios.
— Ué, sua mãe já chegou?! – se Austin imaginasse que eu estava tão confusa quanto ele...
O moreno tocou e girou a maçaneta. Vagarosamente, foi empurrando a porta. Ouvimos barulhos. Em passos silenciosos, ele adentrou primeiro. E naquele segundo vi o que todo filho odeia e o que toda mãe não deveria passar. Senti meu mundo desabar ao presenciar minha mãe num estado tão frágil: Dianna tinha a face molhada, os olhos vermelhos e emitia soluços intermináveis. O corpo atirado desajeitadamente no chão, com alguns papéis em volta de si. Ao seu lado, uma pequena poça formada com as centenas de lágrimas que derramara até então. Ela chorava alto, gritava para liberar a amargura que guardava.
Justin: Fosse proposital ou não, eu ganhei o troco da vida pelo que fiz nos últimos dias. Desta vez quem sumiu foi Demetria. Confesso que quando não estou ocupado, me pego automaticamente pensando nela. Gosto da companhia. É exatamente isso que me faz detestar quando não a encontro. Porém, quem sabe, assim como eu na semana passada, ela está batalhando contra problemas pessoais e isto a impede de aparecer.
A bola de fogo situava-se bem no centro do céu limpo, marcando meio dia. A alta temperatura provocava ardor em meus olhos, minha pele. Meu corpo lavava-se pelo suor. Minha roupa colava. Droga, eu gostaria tanto de uma água gelada. Suspirei, passando as costas da mão pela testa. Removi o excesso de suor daquela parte. Percebi uma pequena mão cheia de pulseiras me estendendo uma garrafa de água.
— Deus, obrigado por me ouvir. – cochichei grato. Levantei o olhar. Paralisei. Aquele rosto familiar que eu tanto desejava ver finalmente estava aqui. Demi usava óculos de sol. Eu não conseguia distinguir se ela estava séria e queria sorrir ou o contrário.
A garota sussurrou algumas coisas que não ouvi. Meus pensamentos viajaram... Dentro de minha imaginação, eu me levantava, a agarrava e pregava um abraço apertado, tão apertado que meus braços deixariam marcas em sua roupa.
— Não vai pegar? – questionou chacoalhando a garrafa em minha frente.
— Vou. – apanhei a o plástico de sua mão. O conteúdo dentro dele estava bem do jeito que eu queria.
Em silêncio, sentou ao meu lado na escadaria do Avon. Ao mesmo em que eu jorrava o líquido boca abaixo, a fitava. Demetria mantinha a cabeça abaixada, como se ainda perto, preservasse distância.
— Tem algo que você quer muito dizer, não é? – comecei dizendo. Cocei a nuca. Ela engoliu em seco. Demorou a virar o rosto para mim.
— Não quero muito dizer. – deu uma pausa, passando a mão pelo cabelo castanho. – Pelo contrário. Eu gostaria de nunca dizer.
— O que é?
A menina assoprou o ar. Eu sei que uma guerra com os próprios pensamentos acontecia. Uma guerra que por então ela perdeu. Ajeitou as mangas da blusa. Desviando o olhar pela pouca coragem de falar rosto a rosto, finalmente foi capaz de dizer claramente com todas as letras a palavra que eu nunca imaginaria ouvir:
—Adeus. – falara sem qualquer alteração em expressão ou tom de voz. Algo estava errado. Fiquei assustado. Percebendo meu nervosismo, ela contorceu os lábios como quem queria chorar. Aproximei-me dela. A preocupação era forte. – Obrigada por ter sido tão gentil comigo desde o começo. – finalizou, tipicamente forçando um sorriso.
Minhas mãos automaticamente foram parar por de cima das dela. Parar. É isso. Eu cobiçava parar aquela decisão, parar aquelas palavras, parar o tempo.
Demi... Não entendo. Você ficou chateada comigo por causa da semana passada? Aconteceu algo com sua família? Seu pai voltou? Alguém importante morreu? Você vai se mudar? Caralho, por que não consigo falar nada? Por que não consigo abrir a boca? Ei, o que essa idiota está fazendo? Por que retirou suas mãos debaixo das minhas e levantou? Por que... Por que ela não tira esses óculos? Por que não conseguiu me dizer de olho para olho? Por que ela não me ajudou a sair desse choque? Depois de tantos desencontros seria assim?
Tudo começou com uma garrafa de água e terminou da mesma forma. Se eu soubesse, não teria desejado nada. Minha estúpida covardia de nunca fazer nada a respeito me deixava bravo. Outra vez ela ia embora, e talvez fosse para sempre.
Demi: Pensei que me sentiria melhor fazendo o que é certo antes de desaparecer por uma longa questão de tempo. Sai de lá derramando duas lágrimas. Apenas duas. Que me pesaram muito. O fardo de dez mil quilos que eu carregava nas costas apenas triplicou. Eu falhei.
É engraçado como as coisas não são iguais ao planejado. Discuti comigo em frente ao espelho por diversas horas, treinando o que dizer a Justin. Sonhei longos diálogos, idealizei todos os tipos de situações. Descabelei-me, chorei, fiz caretas, tons de voz. Tudo para não repetir na frente dele. Com ou sem uma gota de calma, já era o momento de não desperdiçar nenhum segundo que fosse. Eu necessitava fazer o que precisava urgentemente: ajudar minha mãe.
Acontece que, de novo, Dianna foi enxotada do emprego. Ao mesmo tempo em que ela passava o dia todo fora distribuindo currículos em todas as regiões, lojas, casas e o que mais fosse pela cidade, eu saía cedo para tocar em um novo lugar. Mudei completamente meus horários. Agora eu saia de madrugada pelas ruas e também voltava quase pela madrugada. Eu e a loura sempre nos encontrávamos na volta e íamos embora juntas. Era triste ver o quanto ela estava abalada, o quanto abafava o choro todas as noites antes de dormir. A mulher poderia me dizer que estava bem, mas os olhos vermelhos me contavam o oposto.
Os dias podem ter seguido, mas nossa vida estava perdida. Muitas contas chegavam a nossas mãos. O mais terrível era a culpa que eu sentia por ter brincado naquelas duas semanas no Parque, sem produzir nada, me contentando com a miséria. Eu escondia todos os envelopes e cartas de cobranças que surgiam. Almejava conquistar dinheiro suficiente para pagá-los antes que minha mãe percebesse o sumiço delas. Sim, eu o faria. Daria todo o esforço possível, nem que isso custasse cantar até nos finais de semana – que eram retirados dos meus dias de trabalho para folgar.
Justin: Milagrosamente estufei o peito e tomei atitude. Esperei até quinta antes de procurar Demetria para conversarmos melhor. Desde então, eu comparecia em sua casa em todas as horas da manhã, da tarde e da noite. Ninguém nunca me atendia, ninguém nunca estava em casa. Eu perguntava sobre a família nas moradias próximas. Os donos evitavam me passar qualquer tipo de informação. Então eu deixava recado para esses vizinhos, que não repassavam. Demonstravam não se importar com eles, comigo, com o que acontecia. Isso não foi motivo para que eu fosse desistir tão cedo. Eu iria encontrá-la algum dia, custe o que for!
Demi: [...] Passada a semana de correria, bem cedinho iniciei meu primeiro sábado cantando sem ser por diversão. Minha localização era a mesma onde costumava tocar – a região norte –, a mesma região que ligava a entrada e saída da cidade. Fazia pouco mais de 120 minutos de minha presença ali. Lojas fechadas,porcentagem de vida existente quase 0%. Além do meu vocal, quase nenhum barulho existia.
Algo muito inesperado veio a me acontecer mais quarenta minutos depois, quando me encontrava sentada abaixo da única e imensa árvore de uma pequena área verde, em volta de tantas construções. Meu cover era Knocking on Heaven's Door. Três crianças me ouviam e uma delas me jogou algumas moedas. De repente ficaram agitadas e saíram correndo. Sem abandonar o que fazia, estiquei um pouco o corpo para procurar o que causou medo nelas. Vi um rapaz de estatura média, musculoso e ruivo caminhando pela calçada. Conforme chegava mais perto, era bem visível que estava de olho no meu dinheiro. Parei o cover no mesmo segundo e tentei puxar a capa do violão para trás. Tentativa falha. Ele já havia apressado os passos antes que eu pudesse reagir e enroscou propositalmente seu pé na capa. Seguiu a arrastando. Um sorriso enorme estava no rosto. Me levantei e a puxei. O garoto teve que cessar os passos, não conseguindo mais se mover. Parou de sorrir. Bufou. Lentamente, virou o corpo para mim.
— O. Que. Pensa. Que. Está. Fazendo? – pausadamente, dizia cada palavra para que eu entendesse com clareza. O rapaz tentou engrossar a voz para me provocar medo. Medo? Com tanta coisa acontecendo não tenho tempo a perder para ter medo!
— Estou cuidando do que é meu. – revidei, enfrentando o grandalhão. Os olhos negros do rapaz estavam em chamas. Não me importei. Estou me ferrando para ganhar alguma coisa e o cara acha que pode vir me roubando?! E AINDA FICA BRAVO POR ISSO?
— Escuta aqui, garotinha de merda. – se abaixou até mim, apontando um dedo na minha cara. – Eu e minha gangue mandamos nessa região da cidade. – Esfregava seu pé na capa, como quem insinuava “não vou desistir tão cedo”. – Não ficou sabendo antes? Azar o seu.
— Ei! O que está acontecendo aqui?
» Próximo capítulo (breve)
PS: vocês devem estar bem putos comigo porque só estou enchendo os personagens de problemas e a Demi e o Justin sequer ainda conseguiram fazer amizade (só criar simpatia) xD próximo capítulo vai deixar vocês bem animados, tenho certeza.













