Em entrevista ao Blog PETCOM, a professora, jornalista e pesquisadora Mirna Feitoza fala sobre o experimento acadêmico LabF5, e, entre outras coisas, sobre o webjornalismo em geral, os novos rumos da atividade jornalística e questões ligadas à formação acadêmica do profissional.
Jornalistas devem ser jornalistas e empreendedores
Por Cleyton Carlos Torres, no Observatório da Imprensa
Não é novidade que estamos acostumados a lidar com a ideia de que ao deixarmos as cadeiras da Universidade vamos cair de paraquedas dentro das grandes redações de nossas cidades. No início, era assim e hoje, infelizmente, esse ainda é o pensamento dos futuros profissionais.
O desafio é, principalmente, das universidades que não devem se conformar em qualificar apenas a mão de obra, mas também estimular e mostrar as possibilidades de ser um empreendedor. A iniciativa deve partir também por parte dos acadêmicos, é claro. Mas, afinal, como isso funciona no ramo do jornalismo?
A seguir, o texto de Cleyton Carlos Torres faz uma reflexão sobre o tema. Ainda que tenha sido publicado em há um ano, no Observatório da Imprensa, o tema é sempre bem vindo nas rodas de discussão:
Recentemente, estive com alunos de primeira viagem no jornalismo para discutirmos um assunto da moda: mídias sociais. Entre um debate e outro foi possível perceber certa ausência de empreendedorismo. Na verdade, uma ausência quase completa. Muitos estavam ansiosos por começarem na área, mas não mencionaram o fato de trabalharem como free lancers ou em canais próprios, como blogs. Ainda fazemos empregados, não empreendedores. Todo o sistema educacional brasileiro é fadado a montar uma massa de pessoas aptas a receber ordens e desempenhar de forma exemplar suas funções, mas não são estimuladas a criar suas empresas ou ao menos parcerias paralelas ao já saturadíssimo e tradicional mercado de comunicação.
O certo “conforto” e “status” oferecido pelas carteiras profissionais assinadas com grandes meios de comunicação faz com que uma legião de estudantes sonhe em repetir o óbvio, evitando uma inovação própria ou um confronto direto com os moldes jornalísticos vigentes. Perde o estudante, perde o mercado de comunicação, perde o jornalismo e, principalmente, perde a sociedade, pois não consegue ter um jornalismo inovador com mentes inovadoras.
Ao criar empreendedores – e não empregados –, o sistema educacional americano consegue plantar milhares de sementes inquietas em busca de criações próprias. O resultado? Empresas de tecnologia de ponta, estudos sobre mídia ou novos padrões de se pensar jornalismo. A mídia precisa se reinventar constantemente, mas os futuros jornalistas devem adentrar esse mercado com algum fôlego que os diferencie nos mais variados segmentos.
Uma mídia para chamar de sua
Não é por acaso que grandes conglomerados de blogs ou jornalistas individuais possuem tanto peso no mercado de mídia norte-americano. Em uma sociedade acostumada a ter jovens ousados e inovadores, aceitar canais paralelos aos da grande mídia chega a ser algo natural. No Brasil, contamos nos dedos blogs que conseguem um respeito significativo. E, algumas vezes, esse respeito só é conquistado pelo fato do canal estar vinculado a um grande portal ou jornal.
Jornalistas, criem mais. O fato da quase obrigatoriedade de aprenderem noções de programação, empreendedorismo, design ou outras atividades deveria ser, por si só, combustível suficiente para que os nossos futuros jornalistas – e os que já estão no mercado – atuem de maneira mais agressiva. É gratificante trabalhar para uma grande mídia, porém mais gratificante ainda é criar uma mídia para chamar de sua.
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*[Cleyton Carlos Torres é jornalista, pós-graduado em assessoria de imprensa, gestão da comunicação e marketing e pós-graduado em política e sociedade no Brasil contemporâneo]
Enquanto a web se revela como um espaço de possibilidades para a democratização da comunicação, surge uma questão: como é a vida de quem ainda não tem acesso a essa realidade, ou o tem de modo precário?
Por Gabriel Oliveira, do LabF5
Fotos de Anna Batista
Quando saí a campo para fazer esta reportagem, minha proposta era basicamente mostrar a vida de quem mora no interior e não tem acesso à internet (ou o tem de maneira precária) e que vive alheio à tão comentada era virtual. Esse foi o motivo da ida ao porto da Manaus Moderna, a fim de procurar quem vive no vai-e-vem das águas amazônicas. A realidade descoberta, entretanto, era mais complexa do que eu havia pensado. O acesso à internet no interior do Amazonas, que imaginei como quase nulo, existe e cresce, embora em condições certamente deficientes.
Notei isso assim que entrei num dos barcos ancorados na Balsa do Produtor, e conversei com Romilson Soares, um jovem pescador que há dois anos comanda o barco Promessa de Deus e que,embora ainda pareça estar nos seus 20 e poucos anos, já está caminhando para os 30. O barco faz o trajeto Tapauá-Manaus, uma rota que, segundo o rapaz, leva cerca de dois dias e duas noites para ser concluída.
Tapauá fica no interior do Amazonas, entre o rio de mesmo nome, o rio Ipixuna e o rio Purus, a 565 quilômetros da capital. É um município com quase 18 mil habitantes, local de nascimento de Romilson, que sai de lá para vender peixes em Manaus navegando em seu barco pequeno, humilde e abarrotado de coisas, mas que garante seu sustento e, nessas idas e vindas constantes, se torna um lar, como bem revelam as redes penduradas e os restos de café sobre uma mesa.
Quando pergunto sobre sua relação com a internet, ele diz:
― Passo mais tempo viajando, mas quando eu tenho tempo, acesso na casa do meu primo.
― E o que você geralmente gosta de fazer na internet? ― questiono eu.
― Fazer? Olhar máquina. — ele responde, com muita naturalidade.
― Máquina?
― É. Carro e moto.
Para Romilson, a web basta pura e simplesmente para isso. Como ele conta no decorrer da conversa, ele não acessa redes sociais, não se informa através de portais, não lê blogs, nada disso. Para ele, basta ficar vendo os veículos que um dia pretende adquirir para si. Em tempos digitais, sua maior fonte de informação continua sendo a TV, e ele ainda confia naquilo que vê na tela:
― Praticamente aquilo tudo é verdade, né? O que acontece no mundo... Se fosse mentira, não acho que ia mudar tanto, não.
Romilson vai na contramão de todo o burburinho que se faz sobre a web nos dias de hoje, especialmente em tempos de manifestações que surgem pelo Brasil afora. Enquanto iniciativas alternativas à mídia tradicional, como a Mídia Ninja, e o webcanal PósTV ― que se define como a “verdadeira TV aberta” ― dão uma nova face ao webjornalismo independente e delineiam um espaço onde, enfim, se pode dar vazão à tão idealizada democratização da comunicação, gente como Romilson, que ainda confia no Jornal Nacional e não vê (ou não se preocupa) em explorar um potencial maior da internet, não reconhece esse novo espaço democrático ― ou simplesmente ainda não teve essa oportunidade.
Ainda mais distante desse cenário de Romilson está outro tapauense, Nazareno Fernandes Guimarães. Encontrei Nazareno em outro barco, também atracado na mesma balsa, o Rei David II, maior e mais robusto que a embarcação de Romilson, com seus dois andares de madeira pintados em azul e branco. Nazareno tem 38 anos, trabalha com pescado há uns 16 anos (ele não sabe exatamente quando começou), e é um dos funcionários que tocam o barco, que refaz o mesmo trajeto do Promessa de Deus, mas levando também cargas e passageiros. Embora nascido em Tapauá, Nazareno mora em Manaus (ou seria mais correto dizer que mora no vai-e-vem do rio?), enquanto sua família o aguarda em seu lar em Porto Velho. Quando eu pergunto a ele se acessa a internet, ele é rápido e incisivo:
― Não, eu não gosto de internet. É questão de gosto mesmo. Eu acho que internet vicia, a gente perde muito tempo nela. Pra gente que trabalha na nossa atividade de pesca, eu não tenho tempo. ― Alguns momentos depois, ele completa: ― Lá [em Tapauá], o pessoal gosta de internet, né? Só que é muito lento o acesso por lá, mas o povo gosta de internet. O serviço de internet é da Vivo, pelo celular.
Assim como Romilson, Nazareno acompanha as notícias pelos meios tradicionais da TV e do jornal impresso. Mas ele tem lá suas ressalvas quanto ao que vê e lê:
― Rapaz, tem umas [notícias] que eu analiso e acho que devo confiar, tem umas que não. Porque tem umas que, não é?, a gente analisa o que não é verdadeiro, porque às vezes as pessoas botam coisas que não existem. Mas eu acho que 90% seja verdade, eu acho.
Nazareno também aproveita a conversa e afirma que, muitas vezes, ele sente falta de uma participação popular maior na mídia.
― Às vezes, dá vontade da gente se expressar, tem coisa que acontece com a gente no dia-a-dia... É tanta perseguição, de lei... a própria política mesmo, dá vontade de se expressar, né? Às vezes eu prefiro ficar quieto, mas eu sinto falta dessa participação.
Eu acabo aproveitando o gancho de Nazareno e improviso uma explicação simples e ainda meio superficial sobre democratização da comunicação para ele, que se mostra interessado com a ideia.
― Acho que deve ser boa ideia, né? Boa ideia, sim. — Nesse momento, ele para e pensa um pouco, e imagino que ele deva estar pensando como essa ideia pode ser explorada melhor hoje, através da web, e dominada por uma geração mais jovem: — Porque é aquela coisa: hoje o mundo tá desenvolvido, né? Por exemplo, eu tenho 38 anos, mas tem os jovens, essa geração nova, eles gostam de internet. E precisam.
― E se você gostasse de internet, o que você expressaria através dela?
― Ah, eu, por exemplo, gostaria de falar sobre a minha atividade mesmo, meu trabalho.
― Por que você acha que isso seria importante? ― pergunta minha colega de reportagem, que me acompanha para registrar, com os cliques de sua câmera, um pedaço do ponto de vista dessas pessoas.
― Porque às vezes você ia saber coisa que você não saberia normalmente. Você ia aprender coisas que você não sabia sobre pescado. Tem pessoas que moram aqui na capital, Manaus, e não sabem coisa nenhuma sobre pescado, né? Não sabem nem dizer que peixe que é, entendeu?
Esse cenário de democratização imaginado por Nazareno a partir da breve descrição apresentada talvez já seja possível na web. Ele poderia abrir seu próprio blog, poderia escrever sobre o pescado, poderia gravar vídeos sobre o assunto e "upá-los" para o Youtube. Mas ele resiste a esse formato. E se, digamos, ele entrasse na internet, ele se daria conta dessas possibilidades do ciberespaço? Afinal, foi a partir de experiências pessoais como a de Nazareno que o webjornalismo independente começou a se formar, quebrando paradigmas do jornalismo tradicional.
A pesquisadora Raquel Recuero conta, em seus artigos, que isso ficou muito claro a partir do início da Guerra do Iraque, por volta de 2003, com o aparecimento dos chamados warblogs, que consistiam em blogs que expressavam histórias e pontos de vista pessoais de gente que não possuía formação jornalística, mas revelava seu lado da guerra, e, consequentemente, informava o mundo. Alcance parecido poderia ser conseguido por Nazareno hoje, mas, para ele, a web ainda é uma realidade distante.
Há, portanto, outro obstáculo importante para que a web seja realmente o futuro de ouro da democratização da comunicação: mesmo entre aqueles que conseguem acessar o que bem lhes interessa, falta conhecimento sobre a plataforma. Domar a web e potencializar suas capacidades ainda é tarefa exercida por poucos. Foi isso o que se enxergou a partir do terceiro entrevistado, com quem conversei por mais tempo, antes mesmo de Nazareno.
Dinelder Wladeni também trabalha no Rei David II, ao lado de Nazareno, mas está aqui há apenas quatro meses. O nome é complicado, ele sabe: por isso me entrega seu RG em minhas mãos, para que eu não erre a escrita. Ao contrário dos outros dois, ele não é tapauense, muito menos amazonense. Dinelder nasceu em Charqueada, no interior de São Paulo, e veio para Manaus realizar um sonho: morar no Amazonas e trabalhar nos barcos. Ele conta que sempre foi fascinado pela natureza e pela fartura da região e, sempre que via as reportagens na TV, queria vir para o Estado.
O sonho de Dinelder é uma intrigante inversão do que se vê geralmente: o velho caso do nortista que quer tentar a vida no Sudeste “mais avançado”. O paulista desejou o contrário, que virou realidade agora que a filha de Dinelder começou a faculdade de Jornalismo, em Piracicaba (SP), e ele, enfim, sentiu-se seguro para abandonar um emprego concursado e enfrentar o calor manauara – para ele, o único problema desta terra.
Quando entrei no barco e abordei Dinelder, a única coisa que o denunciava como um estrangeiro em terras amazônidas eram seus olhos azuis e sua pele branca, embora já um pouco avermelhada pelo sol. Se não fosse por isso, ele seria facilmente confundido com um caboclo típico da Manaus Moderna, desfrutando de um prato de jaraqui frito com farinha, feijão e arroz, e vestido com uma camiseta amarela, bermuda e sandálias havaianas no pé. Começamos a conversa sobre internet, e ele revela o quanto gosta de se manter antenado, acessando constantemente portais e redes sociais através do celular, apesar da precariedade do serviço:
― Olha, aqui em Manaus até que é rápida. Mesmo aqui, onde a gente tá, abaixo do nível... agora lá em Tapauá, é muito difícil. Em Tapauá, é lento mesmo, tanto que é difícil acessar coisa pra lá. É difícil.
― E o que você costuma ver na internet?
― Eu entro muito no G1, que é o site da Globo, né; no Facebook, para mandar mensagem para minha filha, minha família, meus amigos lá de São Paulo; no BOL, que eu vejo meu e-mail e tal...
Dinelder afirma ser um viciado em leitura. O jornal posto em cima da mesa, e que ele acompanhava antes de interrompermos seu almoço, ressalta esse gosto pela leitura e sua sede por informação. Para ele, é muito mais cômodo ler uma notícia na web do que acompanhar pela TV. Ele diz até que entende mais lendo do que ouvindo ou assistindo. E não tem hora certa pra acessar e checar o que aconteceu pelo mundo. “Só hoje eu já devo ter entrado umas duas vezes.” Ele só não acessa a internet quando o barco chega a Tapauá, devido à lentidão da rede no lugar. Prefere telefonar para falar com a família. Mesmo assim aproveita as torres de Anamã e Beruri, por onde passam no caminho e onde tem sinal, para sacar o celular e visitar seus sites preferidos do dia-a-dia. Sobre o acesso no interior, ele comenta:
― Olha, tem várias pessoas que têm acesso à internet, inclusive elas compram produtos daqui pela internet... Tem um rapaz que veio com a gente na outra viagem que o pai dele é secretário de Meio Ambiente. Ele tem no celular também, e ele vai na lan house lá. Ele acha que é mais fácil. Mas lá, pelo que eu vejo, é pouca gente. Tanto que aqui, no barco, a gente tem uns seis ou sete funcionários e só eu que tenho internet.
Eu arrisco e pergunto:
― Como você enxerga essa questão de existir gente no interior que não tem acesso à internet ainda? Você acha que elas ficam mais limitadas em relação ao acesso à informação...?
― Eu acho que sim. Acho não, tenho praticamente certeza, porque, poxa vida, a televisão só passa um jornal, todas as emissoras praticamente têm um jornal, mas é só aquilo ali, né? Eles pegam o mínimo que eles puderem pra colocar, porque geralmente é meia hora, uma hora de jornal. Na internet, você pega uma página e têm notícias 24 horas, eles tão atualizando. Eu acho que pra quem quer se manter informado, a internet hoje é a melhor coisa que existe. Eu gosto muito de futebol, de fórmula um, e geralmente não dá pra assistir aqui, então eu vejo o resultado, acompanho... Imagina o pessoal que mora no interior e que não tem isso? Muitas vezes você chega lá e o pessoal não tem uma televisão, não tem uma internet pra usar. É muito pior, mas acho muito bonito o interior. Se eu pudesse morar em Tapauá, ia morar; uma cidadezinha excelente. A cidade que eu vim é pequena também, tem 16 mil habitantes; Tapauá é mais ou menos do mesmo tamanho. Só que lá eu precisaria ter uma linha telefônica e um computador na minha casa, com internet pra mim, pra não ter que ir toda hora na lan house, porque senão não dá, sabe, eu acho assim: você vai ficar por fora de tudo que acontece?
Dinelder é um entusiasta da web, e, acima de tudo, um viciado em informação. Diz que gosta de se manter informado para poder conversar com as pessoas, pois o “mais importante mesmo é poder dialogar com as pessoas”. Mas vale uma consideração: mesmo como um usuário frequente, Dinelder prende-se aos grandes portais. O G1 é sua página inicial, por onde acompanha notícias de Piracicaba, do Amazonas, e do Espírito Santo, onde mora sua mãe. Mídia Ninja? Nunca ouviu falar. Participar do processo de comunicação? Às vezes, compartilha alguma coisa no Facebook para os familiares verem. Mas só. A tal da democratização também ainda não chegou a Dinelder, apesar de seu uso constante da web.
Os depoimentos, claramente, não desmascaram uma suposta farsa da democratização da internet, porque são inegáveis as possibilidades que o ciberespaço permite. O que Romilson, Nazareno e Dinelder disseram, por mais divergente que possa parecer, reflete um ponto em comum: fazer com que a internet não apenas chegue às pessoas, mas que ela se configure numa efetiva ferramenta de expressão. Falta uma alfabetização que torne realidade a democratização idealizada.
Nota da Redação: Reportagem produzida para a disciplina "Técnica de Reportagem, Entrevista e Pesquisa em Jornalismo I", ministrada em 2013/1 pelo professor Antônio José Vale da Costa.