O mar do Rio de Janeiro e o mergulho em comunicação
Por Jéssica Botelho
Rio de Janeiro, Urca.
O Campus Praia Vermelha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, recebeu durante cinco dias estudantes, pesquisadores, docentes, profissionais e (por que não?) entusiastas da comunicação. O 38º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), sob o tema “Comunicação, Cultura e Cidade Espetáculo” (a menos de 2 quilômetros de distância da Praia Vermelha) foi um mergulho em trocas de conhecimentos entre comunicadores de todo o País.
A programação do encontro foi composta por muitas atividades simultâneas para abarcar todas os debates pertinentes, tanto nas áreas de pesquisa científica quanto apresentação de produtos experimentais, além de conferências e mesas-redondas. Alunos da Ufam receberam o prêmio da etapa nacional 22ª Exposição Nacional de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom), atividade que integra os congressos regionais como fase eliminatória para a disputa entre todas as regiões no congresso nacional.
Em 2014, a experiência do Lab F5 foi compartilhada no Expocom e venceu a etapa regional. Nessa edição, escolhemos atuar apenas como espectadores. Levando em consideração o caráter experimental do laboratório, a submersão no Intercom Rio 2015 ocorreu com intuito de familiarizar-se com as produções acadêmicas e reflexões sobre o jornalismo em rede em suas particularidades regionais através de pesquisas apresentadas, sobretudo, no Intercom Jr. Conhecer pesquisas, produtos experimentais e discussões pertinentes a cada região, sem dúvida, proporciona um novo leque de percepções e informações a ser processado em reflexões e transformado em mais trocas e confluências futuras, mais contextos compartilhados.
Diante desse contato com comunicadores de todos os estados brasileiros, principalmente por ser uma das principais preocupações deste Laboratório, reunimos algumas dessas produções acadêmicas, apresentadas durante os dias de congresso na Escola de Comunicação da UFRJ, que versam sobre temas de interesse do jornalismo em rede. São 21 artigos que abordam de crise da credibilidade jornalística ao olhar feminino sobre o webjornalismo.
É hora de dizer adeus a um ano produtivo e planejar novos desafios no Lab
Por Jéssica Botelho, do Lab F5
Fruto da disposição dos alunos em compreender e explorar as características e os potenciais do jornalismo em rede, o Lab F5 é uma experiência coletiva e enriquecedora para todos que a construíram e para os que seguem nessa busca.
Em maio de 2014 a experiência iniciada pelo Lab F5 foi apresentada na Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação, durante a décima quarta edição do Congresso de Ciências da Comunicação da Região Norte realizado na Universidade Federal do Pará. O trabalho, que falou sobre a cobertura jornalística das manifestações de 2013, concorreu na categoria Produção Multidisciplinar e foi o vencedor para representar a região na etapa nacional.
Ao longo do ano o Lab F5 continuou falando sobre a sociedade em rede, sobretudo nas áreas de comunicação e jornalismo, além de apresentar iniciativas e meios existentes para possibilitar um jornalismo digital independente. Por exemplo, o “crowdfuding”, financiamento coletivo para promoção de projetos como a agência de notícias Amazônia Real. A equipe do Lab discutiu junto aos idealizadores e realizadores dessas iniciativas as novas formas de produção e distribuição e modelos de negócios da atividade jornalística a partir dos avanços tecnológicos no terceiro #VemProHangout (Hangout é uma ferramenta de videoconferência do Google) realizado em setembro.
Finalmente, em novembro a proposta de Laboratório Experimental em Jornalismo Digital foi contemplada pelo Programa de Apoio à Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação no Amazonas, parceria entre Ufam, através da Protec, e a Fapeam. O desafio em 2015 é consolidar a trajetória ainda recente do Lab F5 como referência em ensino, desenvolver e agregar pesquisas de estudantes e egressos de graduação e pós-graduação de Comunicação do Amazonas, e maximizar a extensão.
Estudantes da Ufam promovem debate sobre as transformações no jornalismo na era digital
A atividade reunirá jornalistas e representantes do Mídia Ninja, da Amazônia Real e da Uplink e se realizará por meio de conversa compartilhada em vídeo na internet
As novas formas de produção e distribuição da notícia e os novos modelos de negócio da atividade jornalística com o avanço das tecnologias digitais estarão no centro do debate que será realizado nesta quinta-feira (11), a partir das 10h (horário local), por estudantes de Jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). A atividade ocorrerá no próprio ambiente digital, por meio de conversa em vídeo na internet baseada na ferramenta Hangout, do Google, com acesso compartilhado pelo Youtube.
O debate contará com a participação de representantes de três organizações de comunicação que surgiram e desenvolvem suas atividades na web: Mídia Ninja, Amazônia Real e Uplink Conteúdo Digital. As três organizações buscam integrar as tecnologias e ferramentas de comunicação digital para promover inovações no jornalismo e na comunicação.
A Mídia Ninja, que ganhou notoriedade na cobertura dos protestos de junho de 2013, investe no jornalismo colaborativo voltado à cobertura de pautas políticas e sociais, com distribuição da notícia por meio do compartilhamento em rede proporcionado pelas mídias sociais. A Amazônia Real, também no contexto de jornalismo independente, viabiliza em seu Portal de Notícias uma comunicação pautada pelas questões relacionadas à Amazônia, a seu povo, à sua sustentabilidade e diversidade. A Uplink Conteúdo Digital nasce com a proposta de explorar novos nichos no mercado da comunicação digital a partir da busca pela inovação e do empreendedorismo na produção de produtos e serviços de comunicação.
O debate encerra as atividades da disciplina Webjornalismo do curso de Jornalismo da Ufam. Ao longo do semestre, os alunos desenvolveram atividades teóricas e laboratoriais relacionadas às transformações do jornalismo no ambiente digital e refletiram sobre os contextos sociais que lhes são correlatos, como os fenômenos da globalização e da sociedade em rede.
Os alunos estudaram também as mudanças estruturais nas formas de produção e distribuição da notícia, baseadas na hipertextualidade, na multimidialidade, no compartilhamento e na colaboração, entre outras inovações. As atividades práticas foram desenvolvidas no LabF5, Laboratório Experimental de Jornalismo em Rede, site que dá suporte as explorações da disciplina que está baseado na plataforma Tumblr.
Entre as reportagens produzidas para o LabF5 neste semestre estão as experiências do Mídia Ninja, da Amazônia Real, da Uplink, entre outras, além de resenhas críticas e reflexões sobre os rumos do jornalismo em tempos de comunicação digital e sociedade em rede.
Relação universidade-sociedade
Além de apresentar o resultado do esforço empreendido ao longo do semestre, a proposta do debate em vídeo no Hangout com acesso pelo Youtube é possibilitar aos estudantes a interação com os agentes das transformações em curso no jornalismo no ambiente em que elas estão ocorrendo. Segundo a professora Mirna Feitoza, que ministra a disciplina Webjornalismo no curso de Jornalismo da Ufam, a atividade busca oferecer aos estudantes uma experiência de ensino-aprendizagem que extrapole o ambiente físico da sala de aula e responda aos anseios por uma educação integrada com as experiências da vida cotidiana.
“Essa atividade ultrapassa o ambiente tradicional da sala de aula e busca exercitar o desafio da educação e da inovação na relação ensino-aprendizagem, contextualizando o conhecimento adquirido em sala de aula com as práticas envolvidas na profissão e no dia-a-dia”, disse.
Para a professora Mirna Feitoza, a ideia é que essa atividade proporcione aos alunos o protagonismo de empreender a própria aprendizagem. “Espero que essa seja uma atividade de extensão universitária na qual possamos estabelecer e exercer uma outra relação de ensino-aprendizagem e uma consciência social do que é a atividade jornalística, dentro do que foi proposto para uma interação com a comunidade”, completa.
Para o estudante Isaac Guerreiro, um dos organizadores e mediador do debate, o encontro na internet com os representantes das organizações oferece várias vantagens, por não gerar custos e permitir o compartilhamento de vídeos em tempo real, com a participação de qualquer pessoa em qualquer lugar com acesso à internet. “Proporcionar um debate sobre empreendedorismo e jornalismo independente utilizando uma ferramenta que permite a qualquer pessoa, esteja ela onde estiver, participar só nos mostra que a internet oferece muitas alternativas viáveis para que as pessoas se informem e produzam informação”, diz.
A ação, além de reunir organizadores e convidados, espera contar com a participação da sociedade em geral através de questionamentos on-line. Os links para a participação em tempo real serão disponibilizados durante a semana e no dia do evento, através do Youtube, do LabF5 e de seus perfis nas mídias sociais Twitter (@LabF5) e Facebook.
Amazônia Real: jornalismo especializado e independente
Por Andriella Evelyn, Joana Rebouças, Marcela Leiros e Synde Libório, do Lab F5
Há pouco menos de um ano na web, a agência de notícias independente Amazônia Real já ascende como referência em termos de jornalismo especializado no mundo. O site surgiu da necessidade das jornalistas Kátia Brasil, Elaíze Farias e Liége Albuquerque de produzir um veículo online independente pautado nas questões da região amazônica, de seu povo, de sua sustentabilidade e diversidade. Além de tratar de temas envolvendo economia, política, questões climáticas e assuntos que consideram relevantes.
Em junho de 2013, o Brasil ficou marcado na história por uma série de mobilizações que se espalharam pelo país. Milhares de jovens ocuparam as ruas protestando contra o aumento da tarifa do transporte público. Após uma forte repressão policial, o movimento teve adesão e apoio de grande parte da população que já estava insatisfeita com a falta de investimentos em setores básicos, como saúde e educação, assim como estava cansada de tanta corrupção.
Nesse mesmo período ocorreram demissões em massa nos jornais de todo o país, por conta da crise no modelo de negócio das empresas de comunicação. As jornalistas também sofreram com esse episódio, Kátia Brasil saiu da Folha de São Paulo, onde trabalhava como correspondente no Amazonas, e Elaíze Farias saiu do Jornal A Crítica, onde era repórter especial. Elaíze foi premiada na 1ª edição do Prêmio Onça Pintada de Jornalismo, na categoria "jornal impresso", concorrendo com a reportagem intitulada “Animal mais ameaçado da Amazônia, sauim de coleira pode ser extinto em poucas décadas”. Ao se unirem com Liége Albuquerque, acharam que já estava na hora de ter um veículo de mídia independente onde pudessem noticiar fatos a sua maneira. Viam nas mobilizações um processo de mudança e surgimento de assuntos que deveriam ser abordados, mas que eram ignorados pela imprensa tradicional.
A agência de notícias como modelo de negócio começou sem grandes investimentos. As jornalistas continuaram trabalhando como free-lancer e paralelamente prosseguiram com a agência. Nesse mesmo período, Elaíze passou a escrever para outros veículos como a “Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo”, com sede em São Paulo, que acabou se tornando exemplo e inspiração para a criação do Amazônia Real. Após um curto período de tempo, Liége Albuquerque se dissociou da agência por motivos pessoais.
O modelo de produção da Amazônia Real ainda está em desenvolvimento, mas já chama a atenção por se mostrar uma alternativa ao meio tradicional. Por ser uma agência nova e ainda estar em fase de construção, carece de alguns ajustes como o meio pelo qual se pretende alcançar independência financeira.
As jornalistas procuraram iniciar um modelo de microempresa onde o mercado publicitário deveria ser a principal fonte de recursos e financiamento da agência de notícias. Logo no início, viram que não seria tão fácil achar uma empresa que correspondesse aos pré-requisitos que elas desejavam. As empresas patrocinadoras não deveriam estar vinculadas a crimes ambientais, trabalho escravo ou qualquer outra questão que agredisse o meio ambiente ou a vida humana. Deveriam ser empresas que estivessem comprometidas com a responsabilidade socioambiental da Amazônia, um fato que está cada dia mais raro na indústria amazônica. O principal para as jornalistas é não precisar se submeter à verba pública, seja do município, do estado ou de órgãos federais, pois acreditam que para manter seu ideal de independência e transparência não devem se ligar a nenhum grupo político específico.
O site de notícias sobrevive com as finanças de Kátia e Elaíze e com pequenas doações que podem ser feitas através da conta disponível na página. As doações atuais para a Agência são baixas, mas são importantes, pois ajudam a manter o site em dias com o pagamento de impostos.
Outro problema é o custeamento das reportagens, principalmente quando são feitas fora da cidade. As duas falam das dificuldades de trabalhar na região, onde os deslocamentos, hospedagem e despesas são caros. “É muito difícil fazer jornalismo na Amazônia, logisticamente falando. Algumas matérias deixam de ser produzidas na Amazônia por causa do custo, jornalismo na Amazônia é muito caro, não tem condições de fazer. A gente já fez orçamento para viagens de R$ 8 mil, e eu já paguei R$ 400 para ir a uma cidade ribeirinha próxima a Manaus”, conta Elaíze.
As parcerias são fatores extremamente importantes para a manutenção do site, por isso, o Amazônia Real mantém parceria com outras agências de notícias como A ponte e a A Pública . A Agência procura ouvir todas as partes envolvidas, desdobrar os temas e esgotar o assunto. Para checar todas as fontes, precisa-se de tempo. Por isso geralmente as jornalistas produzem matérias mais longas, bastante trabalhadas, apuradas e contextualizadas. Porém, quando necessário também fazem cobertura em tempo real, como no caso dos índios tenharim e dos índios isolados.
(Foto: Gabriel Ivan) Moto do cacique Ivan Tenharim
A plataforma do site é o Wordpress, o provedor utilizado é o do UOL e no momento toda a ação realizada pelo site de notícias é baseada na colaboração. Cerca de 20 pessoas são parceiras, entre elas os 11 colunistas que colaboram com a página, cada um focado em sua área de atuação, como antropologia, história, meio ambiente, geografia e áreas afins. Há os responsáveis pela manutenção da página, profissionais de web design, design e programação, colaboradores de fotografia e infográficos, que estão presentes desde o início do site. E há também parceiros na área ambiental, como o InfoAmazonia, um projeto que abriga dados e notícias sobre a Amazônia.
As jornalistas procuram não vender conteúdo para empresas tradicionais, mas qualquer veículo pode republicar suas matérias, dando crédito ao site, por meio da licença "creative commons". A Amazônia Real também mantém parceria de republicação com a agência espanhola EFE, a quarta maior do mundo. A agência espanhola pode republicar as matérias feitas, como na reportagem sobre o tráfico de haitianos na Amazônia e na reportagem sobre os índios isolados, republicada pelo portal Terra. Jornalistas de outros países (Polônia, Estados Unidos, Suíça e Suécia) também procuraram as jornalistas para entender a perspectiva com que tratavam a região. Como na entrevista feita para a revista online Onet, onde Elaíze e outras mulheres deram sua opinião a respeito da Copa do Mundo no Brasil.
Através dessas reportagens a agência foi divulgada em várias revistas internacionais, o que possibilitou um maior alcance e compartilhamento das matérias já produzidas além de maior visibilidade ao portal. O site proporciona ao leitor a chance de ler e discutir por meio das redes sociais, onde a pessoas criticam, comentam e podem distribuir as matérias em suas redes.
O modelo de jornalismo amazônico
Atualmente, Kátia e Elaíze se dedicam exclusivamente à Amazônia Real. Kátia Brasil cuida mais da parte executiva, resoluções com órgãos, instituições e aspectos técnicos. Elaíze Farias, por sua vez, fica mais responsável pelo conteúdo e sugestões de pauta, porém ambas produzem reportagens para o site, além de relações institucionais. Todo esse esforço já rendeu frutos, mais de 500 mil pessoas ao todo já passaram pelo site em 10 meses e nas redes sociais as jornalistas acreditam que esse número seja ainda maior.
Prestes a fazer um ano, a agência está em uma nova fase, começando a procurar financiamento de instituições que apoiam o jornalismo independente, assim poderão chegar a uma outra fase do projeto que é abrir uma sede para receber a visita de estudantes, contratar repórteres e montar uma rede de colaboradores em outros estados da Amazônia Legal. Para isso o Amazônia Real deve se tornar uma organização sem fins lucrativos e buscar instituições estrangeiras que financiam esse jornalismo, por meio de projetos.
Para financiar a Amazônia Real as jornalistas pretendem conseguir fechar parcerias com empresas privadas, mas que tenham consciência ambiental e que aceitem as regras e regulamentações impostas pela estrutura da agência para que haja uma coerência entre os valores da empresa e os critérios defendidos pela agência de noticias. Sendo assim, empresas que tenham em seu histórico escândalos ambientais, ou que estejam envolvidas com trabalho escravo, estão automaticamente fora da rota de parcerias pretendidas pelas jornalistas.
A Amazônia Real enfrenta a dificuldade de encontrar empresas com esses ideais, mas Kátia e Elaíze se mantém firmes em suas determinações de renovar o exercício jornalístico, e assim prosseguem buscando patrocinadores. Outra meta idealizada para conseguirem alcançar esse objetivo é o financiamento de projetos jornalísticos por meio de crowdfunding, ou financiamento coletivo, como alguns sites de notícias já fazem. Além de estarem tentando financiamento por meio de instituições que patrocinem esse tipo de iniciativa.
Cada um encontra um caminho e o da Amazônia Real é esse: o de independência total. Podem escrever sobre qualquer assunto com matérias completamente contextualizadas. Como a reportagem em parceria com o Mídia Ninja, a respeito da enchente em Rondônia.
Diz-se atualmente que o jornalismo está em crise, mas segundo as entrevistadas o que está em crise é o modelo da indústria do jornalismo. Apostam em novos caminhos a serem explorados, novas plataformas, o modo de fazer comunicação deve inovar sempre. Pretendem explorar novos horizontes, mas com todo cuidado, pois não podem deixar de lado as responsabilidades com o site.Elas precisam pagar manutenção, fazer prestação de contas, ao mesmo tempo em que cuidam da parte administrativa e não podem deixar de produzir conteúdo.
O jornalismo independente precisa de novos atores que tenham novas ideias como objetivo futuro, porque entendem que o sucesso está na reinvenção do modelo. Os profissionais da comunicação devem estar atentos, portanto, às diversas oportunidades que já existem e que podem ser criadas, para fazer o diferencial e, principalmente, ter qualidade.
(Nota) Durante a produção desta reportagem, Kátia enviou um e-mail comunicando que a Fundação Ford firmou parceria com o Amazônia Real. A Fundação Ford é uma entidade norte-americana criada há quase 80 anos que promove ações sociais em diversas áreas. O financiamento vai custear reportagens especiais da agência, ampliar o noticiário investigativo, inicialmente, nos estados do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima e Pará, bem como arcar com as despesas de manutenção do site notícias.
Foto: Isis Brasil. Kátia Brasil e Elaíze Farias (à direita) em entrevista concedida a alunas do 5º período de jornalismo da UFAM.
Financiamento coletivo: um degrau para o jornalismo independente
Por Daniella Lima, Jessica Tammi, Romulo Sousa e Victor Costa
“Crowdfunding”, traduzido para o português como "financiamento coletivo" ou, no mais popular “vaquinha digital”, é o financiamento de uma iniciativa a partir da colaboração de um grupo (pode ser pequeno ou muito grande) de pessoas que aportam recursos financeiros para a realização de projetos. Em 2006, começaram a se popularizar as iniciativas do financiamento coletivo. Desde então, centenas de websites em diversos países começaram a oferecer os serviços, que demonstraram grandes resultados para grupos que promovem suas iniciativas de maneira independente.
Assim, ele começa com uma definição mais ampla no seu sentido mais abrangente. A criação do modelo se deveu a alguns problemas estruturais na sociedade que motivaram o nascimento de novos mercados, principalmente mercados que privilegiam a cooperação entre as pessoas. Nesse novo cenário, o crowdfunding surge como uma alternativa de produção e consumo mais colaborativa e participativa.
Um dado recente levantado pelo The Crowdfunding Centre aponta que em março de 2014 US$ 60 mil eram obtidos pelas iniciativas de financiamento coletivo em todo mundo e que diariamente cerca de 442 novas campanhas de financiamento foram levantadas.
É um novo modelo de negócio que rapidamente se afirmou na internet e a cada dia cresce mais. A cada nova ideia de financiamento coletivo, os websites vão se tornando cada vez mais específicos. São criadas sessões para músicos, escritores, desenvolvedores de jogos e outros.
Normalmente usado para fins sociais como cultura e educação, esse modelo também alcançou o meio jornalístico, com o intuito de oportunizar a comunicação independente. Através do Catarse, um dos principais canais de financiamento coletivo no Brasil, uma série de projetos são ofertados ao público para que se tornem realidade. O canal “O Sujeito” foi criado com a intenção de promover o jornalismo independente a partir do financiamento desses projetos.
Demissões de jornalistas, manifestações de rua, defasagem da mídia tradicional e principalmente do jornal imprenso foram fatores para a idealização da plataforma de financiamento coletivo para jornalismo, O Sujeito. Tudo começou quando o jornalista Álvaro Almeida enviou e-mail a Renato Guimarães e Tom Lara para falar sobre a possibilidade de utilizar o poder da rede para criar novas formas de comunicação entre o jornalista e seus públicos e receber destes apoio para a produção de suas pautas.
Para o jornalismo, as técnicas de crowdfunding também têm sido muito bem assimiladas, resultando em sites como o falecido website Spot.us (tido como a salvação do jornalismo online em 2008) e o Vourno.com. No Brasil, começou a engatinhar o canal O Sujeito, dedicado ao financiamento coletivo de conteúdo jornalístico.
"Entendemos que as mesmas transformações que abalam o atual modelo de negócios abrem novas oportunidades aos jornalistas, que agora têm a possibilidade de ampliar horizontes e se desapegar dos formalismos das relações de trabalho, cada vez mais raras e precárias", disse. (Fonte: O Sujeito)
O Sujeito aparece como a versão brasileira do antigo spot.us (atual Public Insights Network), no qual qualquer indivíduo pode propor seu projeto jornalístico, que será avaliado por uma comissão de jornalistas experientes antes de ser divulgado pelo site.
Os três pesquisaram modelos alternativos de financiamento, mas foi por meio do Catarse e da associação com outros jornalistas que encontraram a técnica necessária para transformar as ideias em algo real. Em 12 de março de 2014, o canal O Sujeito foi inaugurado já com quatro propostas de projetos jornalísticos de abordagens diversas.
A dinâmica é simples: os autores apresentam suas ideias de pautas e como pretendem desenvolvê-las, qual será o custo e o prazo de produção e as pessoas interessadas apoiam financeiramente a execução.
Qualquer pessoa, graduada em jornalismo ou não, pode apresentar uma proposta que será analisada pelos gestores do canal e, caso sejam aprovadas, ficarão online por até 60 dias para receber apoio financeiro direto dos leitores interessados.
O Sujeito não é responsável pela publicação do conteúdo, mas pela sua viabilização. Nessa plataforma, o contato com a audiência é mais direita. O leitor (cliente) participa diretamente da avaliação de qualidade da informação. Há o aumento da exigência de apuração e de veracidade dos fatos, uma visão diferente da de veículos tradicionais em que o público era visto como uma massa homogênea de pessoas.
Principais projetos gerados pelo O Sujeito:
Pessoa-coisa, cidade-torre:
É comum encontrar nos centros comerciais das grandes cidades pessoas servindo como suporte para placas e anúncios publicitários. O que este tipo de atividade revela sobre o Brasil? Quem são, de onde vem, quanto ganham, como trabalham? O projeto tinha custo inicial de R$ 10,4 mil e arrecado R$ 10,8 mil.
O documentário questiona a construção de grandes condomínios de luxo que poderiam dar lugar a moradias dignas às pessoas por trás das placas e bandeirolas, quem está ganhando e quem sai perdendo.
O projeto propõe uma reflexão importante sobre o quanto o ritmo da urbanização dos últimos anos contribuiu para o bem-estar da população. A abordagem sobre o direito de acesso à cidade, em todas suas virtudes, surge neste contexto. Uma das propostas do documentário é investigar os personagens do processo de reconstrução do ambiente da cidade, mostrando a face humana dos processos de precarização do trabalho, especulação imobiliária.
Além do filme, o projeto espera produzir uma reportagem especial escrita que deverá ser publicada online três meses depois do financiamento, com galeria de fotos, retratos e infográficos e também uma intervenção urbana com placas e cartazes espalhados por São Paulo. O documentário também será exibido em praça pública, ao final do projeto.
Énois – Escola livre de jornalismo:
A principal ideia à frente deste projeto é promover a democratização do jornalismo, fazer com que a atividade deixe de ser acessível apenas a uma classe privilegiada, que teve a chance de cursar uma faculdade. Segundo as idealizadoras do Énois, ensinar a contar boas histórias não pode ser algo restrito às salas de aula formais. O projeto tem a pretensão de ser a primeira escola livre de jornalismo voltada para o público jovem, do Brasil. O custo total do projeto é de R$ 24,6 mil e a meta foi atingida em abril de 2014.
Na plataforma criada especialmente para o projeto, a Énois vai oferecer cursos online gratuitos com videoaulas, contato com instrutores especialistas, fóruns, grupos de trabalho e materiais de referência e aprofundamento.
O financiamento coletivo foi usado para a construção de parte da plataforma e para o lançamento de 4 módulos gratuitos (entre maio e julho de 2014). O resto do financiamento será bancado pela própria Énois, a partir da venda de novos projetos.
O foco da Escola Livre de Jornalismo é o público jovem por dois principais motivos: primeiro que o ensino da educomunicação tem um impacto positivo na educação formal. Segundo porque, segundo o Énois, a nova geração é quem irá acompanhar o processo de democratização da produção da mídia.
O processo do financiamento coletivo com objetivo de difundir o jornalismo independente ofertando bons projetos é novo e ainda tem muito o que melhorar, mas a intenção é nobre. Desde junho de 2013 vários projetos com a mesma intenção foram iniciados. Nunca as redes sociais, por exemplo, foram tão bombardeadas com noticias de veículos de jornalismo independentes. Para muitos especialistas, jornalismo irresponsável, para outros o inicio de uma grande jornada. Assim como o famoso
“Midia Ninja”, um dos mais conhecidos canais dessa nova fase do jornalismo, “ O sujeito” ainda tem muito o que definir, especialmente como dar continuidade a essas ideias.
Mídia NINJA e o avanço do jornalismo independente no Brasil
Por Indiara Bessa, Jamile Alves, Mariah Brandt e Mistyla Andrews
Tudo acontecia na hora, com o intuito de dialogar com a população, elevando o valor do conteúdo cultural que já estava sendo feito e distribuído nas redes sociais a partir do grupo Fora do Eixo, uma rede de coletivos culturais nascida em 2005, e que já está em mais de 150 cidades do Brasil. Nesses diálogos e nesse contato mais orgânico com a população, os laços entre o grupo de jornalismo independente e os movimentos sociais só cresciam. Em 2012, um protesto em Belém do Pará chamaria a atenção para a forma como uma narrativa inovadora poderia surgir dessas pequenas coberturas jornalísticas.
Cerca de 10 pessoas integrantes do movimento LGBT participavam de um protesto em frente a uma igreja onde estava o então presidente da Comissão dos Direitos Humanos, Marco Feliciano. Um fotógrafo pediu, então, que duas mulheres do movimento se beijassem dentro da igreja, e as fotografou colocando, como plano de fundo, o ex-presidente. A foto tomou proporções impensáveis, e seria usada por grandes veículos que começaram a dar visibilidade ao jornalismo independente, que por sua vez entendeu que nascia ali uma proposta de narrativa, o ativismo, diferente daquela que propunha uma cobertura mais rasa dos fatos.
Foto: Divulgação/ Mídia Ninja
Contudo, o Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, o Mídia NINJA, nasceu em março de 2013, propondo uma plataforma de comunicação independente que já estava sendo elaborada desde 2011. Sua primeira transmissão ao vivo aconteceu na Tunísia, em 2013, no Fórum Mundial de Mídia Livre, meses antes da grande explosão que mudaria o rumo do grupo e da situação midiática do país.
As manifestações de junho de 2013 tomaram proporções históricas. Tudo aconteceu em muito pouco tempo, um fato que de alguma forma se deve ao uso intensivo das redes sociais. Os jovens saíram às ruas, inicialmente, protestando contra o aumento do preço das passagens de ônibus. Com o crescimento dos movimentos, o Brasil acompanhava os fatos por meio da internet como fonte de informação e compartilhamento. Uma outra insatisfação popular veio à tona. Os grandes conglomerados midiáticos faziam suas transmissões de forma tímida, considerando os fatos não exatamente como a população queria que eles fossem transmitidos. Nasce uma mídia mascarada de vilã, e uma alternativa que agrada, de certa forma, os olhares de quem sabia o que estava acontecendo. Entra em cena as transmissões ao vivo do Mídia NINJA.
No Rio de Janeiro, as primeiras imagens em tempo real feitas por celular acontecem. A miniaturização entra em jogo e caracteriza-se como o novo instrumento de trabalho do jornalista. São nesse momento 100 mil pessoas assistindo, ao vivo, aos protestos de uma forma que não assistiram em nenhum outro veículo de comunicação. O tempo real dava a sensação de ubiquidade, o telespectador estava em dois lugares ao mesmo tempo. Ele participava no sofá de casa do que foi um dos maiores acontecimentos da democracia brasileira do século XXI. Os jovens que não viveram os grandes movimentos do século XX escrevem agora uma nova forma de protestar: em rede.
O que acontece é uma revolução. Jovens utilizam a internet, as tecnologias móveis e as redes wi-fi no processo de compartilhamento de informações. E com o jornalismo não é diferente. Os que eram antes considerados "telespectadores", ajudam a fazer a notícia. Em entrevista ao LabF5, o fotógrafo integrante do Mídia NINJA, Christian Braga afirma que a produção jornalística ficou mais perto de quem antes apenas consumia informação. "As pessoas queriam entender o que estava acontecendo, e através do NINJA elas participavam do fato. Se algum de nós inalava gás lacrimogênio, as pessoas em volta nos ajudavam nos comentários jornalísticos, tudo em tempo real". Em um dos acontecimentos mais marcantes da manifestação que foi a queima de um painel da Coca-Cola, a transmissão ao vivo do Mídia NINJA alcançou 1 ponto no IBOPE, cerca de 100 mil pessoas estavam ao vivo participando do fato. 1 ponto no IBOPE parece pouco, mas foi um grande feito, considerando que o grupo ainda era muito recente.
Nesse momento, essa plataforma de comunicação foi bem aceita pelo público, que a encarou como o "jornalismo do povo". "As pessoas estavam gostando de ver algo que não tinha qualidade alguma. Nós dizíamos que era tudo em baixa resolução e alta fidelidade" afirma Christian. O comprometimento do NINJA com a veracidade dos fatos, e a sensação de levar o telespectador para dentro dos acontecimentos contribuíram ainda mais para que, de certa forma, os meios tradicionais perdessem a credibilidade.
Foto: Divulgação/ Mídia Ninja
Após o ápice das manifestações, o Mídia Ninja começou a ser questionado sobre o seu modelo de negócio, o financiamento ou a falta dele traziam a tona questionamentos que vieram muitas das vezes com julgamentos negativos. Em entrevista ao programa da TV Cultura Roda Viva, ainda em 2013, os integrandes do mídia ninja Pablo Capilé e Bruno Torturra são indagados sobre inúmeras questões que ainda há alguns anos seriam impensáveis para a grande mídia.
Ao LabF5, Christian Braga contou sobre como acontece o processo de financiamento: doações que ainda assim não pagam as despesas de se ter funcionários pagos. "O NINJA é fruto da economia colaborativa e solidária, e tem sustentabilidade por meio da internet. Nós já pensamos em várias formas de financiamento, mas nenhuma foi eficaz". Os colaboradores ao redor do Brasil se mantém com um sistema de caixa coletivo com distribuição de renda. Braga diz ainda que o NINJA só existe porque entende de economia solidária e colaborativa.
Essa plataforma de colaboração acontece também na produção de conteúdo. A elaboração de pautas também pode ter contribuição de milhares de pessoas, que diariamente mandam informações a serem veiculadas no portal e no Facebook. Além dos que já estão ativamente nas ruas, na cobertura dos movimentos sociais e no hub de informações em tempo real. A checagem das informações é feita por uma equipe que trabalha na edição das matérias antes de colocá-las no ar.
Algumas das coberturas já foram financiadas pelos próprios movimentos sociais. Um dos documentários produzidos pelo grupo já tive total financiamento de pessoas que acreditaram no modelo de jornalismo independente. A Fundação Ford, que hoje em dia promove o financiamento de programas de promoção da democracia, contribui com microdoações para a produção de pautas do NINJA.
De acordo com Christian, o grupo acredita que o financiamento é importante, mas para alcançar um jornalismo democrático é fundamental a aprovação da Lei de Democratização da Informação, e que não há problema em receber financiamento, no entanto, esse mesmo financiamento também tem que ser livre para outras mídias independentes.
O NINJA vem crescendo e ganhando visibilidade dentro e fora do Brasil. Hoje possuem página no Facebook e uma página no Oximity, livres de qualquer tipo de publicidade. O grupo tem um sistema colaborativo, no qual qualquer pessoa pode ser produtora de um material jornalístico. E é avançando na ideia de um jornalismo mais orgânico, e que apoie causas mais relevantes para a mudança do país, que essa plataforma de comunicação investe na informação que se coloca ao lado das minorias, e que se propõe como um jornalismo mais humano que o tradicional.
Grupo RBS e as transformações digitais: 'mudar não é opcional'
Por Isaac de Paula, Thaise Rocha, Sharon Marques, Alexsandro Fleury e Priscila Rosas, do LabF5
Quando a RBS lançou seu primeiro portal na internet em 2000 deu-se início um ciclo que colocou o grupo de comunicação na vanguarda da comunicação brasileira. Presente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, a empresa criada em 1957 mantém hoje a liderança nos mercados onde atua com um diferencial que a fez referência em todo o país: os investimentos no mercado digital. Mais do que garantir a manutenção do posto à frente da concorrência – o que lhe garante a maior fatia do mercado – o grupo quer crescer ainda mais. Para isso aposta na web e na busca contínua por soluções de inovação - nem sempre populares.
Questionados sobre em que momento foi percebido que era preciso mudar estratégias e áreas de investimento, a assessoria de comunicação do Grupo RBS informou ao LabF5 que a aquisição de novos negócios e aperfeiçoamento dos já existentes se intensificou a partir de 2010. O objetivo é, por meio dessas ações, expandir as operações para além das fronteiras gaúchas e catarinenses e, assim, entrar fortemente no mercado nacional. “Ao mesmo tempo, nossos veículos de comunicação buscam se adaptar às novas realidades”, declarou em nota.
Este forte movimento esteve presente no discurso do presidente do grupo, Eduardo Sirotsky Melzer, durante o 10º Congresso Brasileiro de Jornaisrealizado pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), em São Paulo, nos dias 18 e 19 de agosto.. No evento, que ocorreu em São Paulo, ele destacou ser preciso “reinventar, evoluir, transformar a maneira de fazer jornal” e “romper com a forma convencional” de atender leitores e anunciantes.
Tais mudanças são rápidas, mas não fizeram concretizar a previsão dos mais pessimistas sobre o fim dos jornais impressos, por exemplo. “Atualmente, temos em vista dois públicos principais como consumidores dos nossos produtos. O primeiro deles são os leitores tradicionais do papel, que recebem o jornal em casa todos os dias, mas também tem o potencial ou o costume de complementar sua leitura ao longo do dia no digital. O outro público não é o tradicional do papel, e para esse cliente nós estamos trabalhando com uma oferta 100% digital. Para cada um deles abordagens diferentes são adotadas”.
Sobre as estratégias aplicadas para atrair e manter seu público, o grupo esclareceu que junto aos leitores do impresso trabalha com foco no relacionamento, e com os internautas na experiência de consumo. No primeiro caso está a cobrança por conteúdos de relevância e eficiência nas operações, como entrega e atendimento via call center. No segundo, o foco é oferecer o melhor conteúdo multimídia com velocidade e abrangência.
Assista entrevista do presidente do Conselho de Administração do Grupo RBS, Nelson Sirotsky, no Observatório da Imprensa:
Mudança nas redações
Como era de se esperar, as redações também precisaram se adaptar ao novo cenário. No Zero Hora, maior jornal impresso em circulação no estado do Rio Grande do Sul, surgiu uma nova função, o editor de integração. Este novo profissional agora é o responsável por circular e aprovar os conteúdos do projeto gráfico e da plataforma digital. É a figura que caminha pelo online e off-line, pensando no consumo da informação em ambos os meios.
De acordo com a assessoria do grupo, o número de pessoas na equipe no Tecnopuc (Parque Científico e Tecnológico da PUCRS) dobrou. O núcleo é dedicado à criação de sites, blogs, aplicativos mobile e ferramentas editoriais para as marcas do Grupo. “Até o fim do ano, só no Tecnopuc, em Porto Alegre, teremos quase 100 profissionais trabalhando exclusivamente na criação de soluções digitais para nossos produtos, em especial para os jornais”, disse Eduardo Sirotsky em nota a empresa.
Na contramão do crescimento nos quadros da área de tecnologia, houve cortes exatamente nas redações. O Grupo – que conta com cerca de 6 mil colaboradores, espalhados também em SP e RJ e Brasília – anunciou a demissão de 130 funcionários no dia 4 de agosto. Em um comunicado emitido pela presidência do grupo, os desligamentos foram justificados como medidas necessárias para “buscar produtividade e maior eficiência”.
“As transformações radicais e a velocidade impressionante pelas quais a indústria da comunicação tem passado exigem energia e dedicação para entender o momento e também coragem para promover os ajustes que precisam ser feitos para continuarmos crescendo. Mudar não é opcional. É vital para o nosso projeto empresarial”, explicou o presidente da RBS no comunicado.
Na ocasião, Sirotsky negou que havia crise. Ao LabF5, o Grupo que a publicidade segue como maior fonte de renda dos veículos, sendo as assinaturas uma parte da receita para as mídias impresso e digital. “Como qualquer empresa, há o fluxo natural de entrada e saída de pessoas”, defende a assessoria.
O assunto repercutiu nacionalmente e levantou o debate sobre incertezas na sustentabilidade financeira do jornalismo. Procurado pela reportagem, o presidente do Sindicato dos jornalistas do Amazonas, Wilson Reis, comentou que o caso da RBS não é uma ação isolada e que fatos como este, em menor proporção, tem ocorrido em todo o país. “Há uma ação desenvolvida há alguns anos através das grandes empresas na tentativa de desregulamentar a profissão do jornalista. Essas ações, como demissões sem motivo, fazem parte dessa grande tentativa de desmontar a categoria em nível nacional”, disse.
Para o masteriano de Jornalismo, especializado em Gestão Estratégica e de Marcas pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), Luiz Eduardo, o segredo do sucesso nos empreendimentos atuais, principalmente no meio digital, está em “criar serviços que solucionem problemas diários da população”. Nascido em Santa Catarina e atualmente morando em Manaus, ele afirma que o sucesso do grupo sulista está na diversificação e aproximação com o público. “A pulverização dos negócios da RBS (TV, Rádio, Jornal, Eventos, Educação, etc) faz a marca ser muito conhecida e presente na vida das pessoas. Existem eventos para todas as ideias e isso cria uma renovação constante de seus público".
Veja abaixo sobre a diversificação do modelo de negócio do Grupo RBS:
Empresa oferece serviços de inovação em comunicação digital
Por Isaac Guerreiro, Rita de Cássia Nascimento e Suelen Rocha, do Lab F5
Com pouco dinheiro e recém-formado no ensino médio em um colégio militar, aos 19 anos, Danilo Egle Barbosa só tinha uma ideia: "Estava predestinado a fazer algo que valesse a pena para a vida inteira". O recifense resolveu montar seu próprio negócio em comunicação de forma quase autodidata. Serviços de produção audiovisual tornaram-se seu diferencial.
Foi no curso de Relações Públicas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) que Danilo resolveu executar seu primeiro upgrade em comunicação. Para ele, o profissional de RP deveria englobar em sua formação atividades de outras áreas. "Acreditava que um profissional de comunicação não podia ficar parado muito tempo em um canto, então comecei a buscar outros caminhos, adquirindo conhecimento também em outros cursos e outras disciplinas”, completa.
Desde então ele começou a investir em seu próprio negócio. Aos 32 anos, Danilo Egle é diretor executivo de uma empresa que oferece serviços de comunicação digital. A Uplink Conteúdo Digital completa, em 2014, dois anos de existência na capital amazonense e inicia o pivotar para um novo ramo empreendedor: “tecnologia e inovação”.
Atual escritório da UpLink Conteúdo Digital. (reprodução)
De uma ideia até a criação de sua própria empresa, Danilo buscou ter domínio técnico de serviços profissionais como produção de videorreportagens e videoteipes (VTs) para campanhas políticas que até então, em Manaus, demonstrava ser um nicho de mercado no qual faltavam pessoas qualificadas.
Danilo na Uplink (Foto: Isaac Guerreiro)
Na universidade, ele tentou inovar o perfil de profissional ideal em Comunicação Social. “Eu tinha que ser o mais dinâmico possível”. Logo depois, Danilo fez curso técnico de rádio e TV, de produção para televisão e rádio e demais cursos fora da cidade.
Nessas viagens, começou a representar um projeto de cinema da Petrobrás, que levava filmes nacionais para comunidades do interior do Amazonas. Daí para 2004 foi um passo para criar sua primeira empresa individual para atendimento dos serviços prestados à petrolífera.
Sua formação só saiu em 2007, enquanto administrava sua rotina na direção e produção de comerciais televisivos, vídeos para diversos tipos de clientes e para programas da Prefeitura de Manaus. Em 2008, já formado, deixou um pouco sua empresa de lado e investiu como diretor dos programas de televisão na campanha política de um candidato a prefeito da cidade, em qual coordenava uma equipe de quarenta profissionais capacitados na área do audiovisual. Um dia, em conversa com um amigo e integrante da equipe percebeu que continuar nesse ramo lhe exigiria uma especialização. “Eu estava predestinado a fazer uma coisa que valesse a pena para a vida inteira, e eu comecei a pesquisar onde eu podia estudar com a grana que eu tinha. Então, analisei locais que ofereciam pós-graduações”, conta. Sua escolha foi ingressar no curso de "Cinema, Televisão e Mídias Digitais", na Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Juiz de Fora oferecia um custo de vida baixo, que conseguiria se manter com os poucos recursos financeiros que tinha. "Mandei e-mail para lá, dizendo faço isso e isso e estou a fim de entrar”.
Dividido entre os trabalhos de campanha política, Danilo entrou depois das aulas terem começado e se formou muito antes dos demais colegas de Pós. Em 2009, sem emprego, voltou para Manaus para mostrar o que aprendera. Em parceria com um amigo, Márcio Noronha, foi convidado a participar de um projeto de website para o Portal do Diário do Amazonas na produção audiovisual. Com a falta de investimento resolveu sair da empresa e após um tempo ingressou numa Secretaria de Estado, da qual logo depois se desligou com a ideia de investir em um ramo empreendedor em comunicação a partir de uma incubadora de empresas.
Danilo investiu em comunicação empreendedora a partir de uma incubadora de empresas - Fucapi. (Foto: Isaac Guerreiro)
Modelos de negócio para o Jornalismo
Danilo e equipe na Empresa Uplink. (arquivo pessoal)
Com os rumos do jornalismo e o novo modelo de negócio midiático na realidade digital, as empresas de comunicação vem buscando se aliar ao uso de tecnologias, inovando na prestação de serviços jornalísticos. Com a técnica, o jornalista ou profissional de comunicação passa a ser empreendedor e ofertar informação e a distribuição de conteúdo digital através de blogs, portais de notícias, mídias coletivas e empresas de prestação de serviço adaptadas às mudanças tecnológicas.
Com a empresa de Danilo não foi diferente, seu plano de negócios nasceu da necessidade de abastecer a demanda de serviços em Manaus e se renovou durante seu período de instituição. Desde 2012, quando fundou a Uplink, Danilo oferece serviços de comunicação, que vão desde a criação de um site até a consultoria para equipes de comunicação e assessorias, oferta de serviços de produção, edição e distribuição de conteúdo digital, como vídeo, foto, áudio e texto para a Internet. Ele percebeu que ainda tinha muita gente que precisava de serviços em comunicação. “Eu falei não, vamos parar com isso. Vou criar uma empresa para atender essas pessoas”, conta.
Hastags da empresa Uplink. (Foto: Isaac Guerreiro)
Com o seu novo projeto Presshub, a Uplink pivota um novo ramo de negócios em jornalismo e RP. Como costumam falar, "pivotar" seria essa passagem de fase, agora versificando em tecnologia e inovação. "'Pivotar' é quando você está estruturado de uma forma em seu negócio e percebe que houve alguma mudança. Então 'pivota' e vai para outro ambiente. Por isso temos essa visão da Uplink: um negócio para prestação de serviço digital", comenta.
Um dia Danilo estava conversando com uns amigos sobre a empresa Uplink e contou que, para ele, trabalhar nessa área exige certo esforço físico. “Eu sempre suei muito a camisa trabalhando em comunicação, porque para filmar você tem que conseguir a imagem, tem que correr atrás. Então eu pensei: será que não tem uma maneira de viabilizar isso de uma forma mais agradável? Talvez a Presshub seja isso, o nosso novo modelo de trabalhar, que é proporcionar vários profissionais para um cliente que precisa pagar para um serviço imediato”, relata.
A ideia do Presshub é criar uma plataforma digital com o cadastro de profissionais de Comunicação e a oferta de serviços como produção de fotos, vídeos, textos, jornais internos e muito mais. “O Presshub, por canalizar a prestação de serviços na comunicação numa plataforma na web, faz dele algo inédito em Manaus”, diz.
Na empresa, Danilo também nesses próximos meses inicia o uso de um novo serviço de assessoria a partir de uma plataforma web. O projeto "Uplink Assessoria e Consultoria Empresarial LTDA", com apoio financeiro por meio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), propõe aos assessores, diretores e proprietários a contratação dos serviços do software e recebimento diário de relatórios de como sua instituição ou empresa está na mídia.
De acordo com o cronograma do projeto é previsto que essas informações possam ser entregues dentro de um layout simples, que facilite o entendimento independente do conhecimento do usuário, numa avaliação dos meios de comunicação da região e na criação de parâmetros diferenciados para cada um deles.
Pelo projeto de assessoramento, que propõe uma análise um pouco mais apurada do que é positivo, negativo ou neutro em relação a como as empresas e instituições estão na mídia, “os gestores, chefes, diretores, secretários que não são da área de Comunicação vão ter na interface um entendimento muito melhor do trabalho desenvolvido”, argumenta.
A equipe Uplink conta com seis profissionais, dentre estes, designer, estagiário de jornalismo, pesquisadores e tecnólogos para o desenvolvimento e manutenção dos serviços gerados pela plataforma. Para que os serviços de cada projeto continuem ativos, o contratante deve efetuar pagamento mensal de manutenção do serviço.
O que se sabe é que o Jornalismo está passando por uma crise de readaptação de seu modelo de negócio. Danilo pretende continuar melhorando seus serviços para que sua empresa seja um diferencial. “Não é que estamos cansados do modelo de prestação de serviço, mas é uma nova maneira de negócio para tentar entrar em um nicho de mercado que em Manaus não tem ninguém atuando”, diz.
Ele reconhece que sua empresa inova em comunicação através de projetos excepcionais e traça sua trajetória. “Eu vejo a Uplink como uma empresa focada em projetos de inovação, tentando solucionar problemas dos profissionais de comunicação. Desde que eu me entendo por empresário, eu nunca fiz propaganda do meu negócio. Eu prefiro me dedicar. Esse é o diferencial da Uplink", admite ele.
Por Andriella Evelyn, Joana Rebouças, Marcela Leiros e Synde Libório, do LabF5
Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá é um documentário dirigido pelo cineasta brasileiro Silvio Tendler que pretende abordar os aspectos da globalização sob o ponto de vista das classes oprimidas. O filme busca discutir as consequências do capitalismo voraz, voltando o olhar para aqueles que são mais prejudicados pelo processo, o que Milton Santos chamou de globalitarismo. É o geógrafo brasileiro que traça o fio condutor de toda a narrativa acerca das faces do mundo globalizado, com base em toda a sua obra, mas principalmente no livro “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”.
Milton Almeida dos Santos foi um geógrafo e intelectual brasileiro graduado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, doutor em geografia pela Universidade de Estrasburgo (França), sendo professor e doutor honoris causa em vários países. Ganhador do prêmio Vautrin Lud, em 1994 (o prêmio Nobel da geografia), autor de cerca de 40 livros e membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo, Milton destacou-se por seus trabalhos em diversas áreas da geografia, em especial, nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo.
Uma proposta libertária para estes dias tumultuados
No documentário, são apresentadas várias questões que remetem à globalização permeadas por falas de Milton Santos, que ilustram, contribuem e explicam esses assuntos. Segundo o documentário, pode-se pensar em dois modelos de globalização: o primeiro ocorrido à época do colonialismo nos séculos 15 e 16, quando diversos locais foram ocupados por povos conquistadores, que resultou no desaparecimento de inúmeros idiomas, na dizimação de populações nativas, entre outros fatos. A segunda globalização começa no início do século 20, marcado por revoluções importantes baseadas no consumo e em conflitos político-sociais, como a revolução cubana; russa; chinesa; movimento contracultura; entre outras, levando a uma fragmentação do que se conhece como território.
Globalização e território: a nova divisão do trabalho
Grandes empresas investem em produção em rede planetária, vários países participam desse processo, gerando assim uma dispersão que leva as empresas a não assumirem acordos sociais nos países em que se instalam. Estes estão entre os motivos pelos quais essas corporações se estabelecem em países pobres, onde não há fiscalização, sendo responsáveis por desemprego, fome, pobreza, falta de água, etc.
No livro A Sociedade em Rede, Castells destaca os meios pelos quais as empresas usufruem para aumentar seus ganhos, quando se instalam nesses países. “Para aumentar os lucros, em um determinado ambiente financeiro e com os preços ajustados pelo mercado, há quatro caminhos principais: reduzir os custos de produção (começando com custos de mão-de-obra); aumentar a produtividade; ampliar o mercado; e acelerar o giro do capital.” (Castells, 2000, pág. 137).
Mídia: a fábula da globalização
Um dos fatos apresentados é o de que seis empresas controlam 90% da mídia mundial. Milton comenta a respeito do papel intermediador que a mídia possui e o quanto influencia a opinião social, por meio das notícias, que não passam de interpretação dos fatos. Segundo ele, a informação é o maior instrumento responsável pelo globalitarismo. Assim discorre também o sociólogo Edgar Morin na palestra A educação na era planetária (2011), quando fala que todo conhecimento é uma tradução. Portanto, nem tudo é de fato uma verdade absoluta. Todas as ideias e palavras são percepções construídas ao longo do tempo.
A técnica como plataforma para liberdade
O documentário mostra vários exemplos de divulgação midiática independente, sendo um deles Carlos Pronzato, cineasta que participa e documenta movimentos sociais pelas ruas da Bahia, eventos que a mídia não cobre. Mesmo achando suas ideias utópicas, Pronzato sonha com que suas obras possam ajudar as pessoas futuramente.
Esse movimento de transformar ideias em ações, mesmo sem apoio de um grande centro divulgador, é algo que vem tomando muita força nos últimos tempos, principalmente no que se refere ao jornalismo especializado. Exemplo claro disso é o grupo Mídia Ninja, coletivo de jornalismo que vem possibilitando reabrir as discussões sobre o futuro da produção de notícias.
Um aspecto interessante nesse cenário é a falta de reconhecimento com a notícia produzida de forma independente. Tanto que o jornalista Bruno Torturra, idealizador do coletivo Midia Ninja, em entrevista ao programa de TV Roda Viva, afirma: "Mídia Ninja faz jornalismo sim. Acho até curioso que ainda é uma dúvida se o que a gente faz é ou não jornalismo.”. A dúvida ocorre pelo fato da grande maioria dos críticos considerar como jornalismo apenas conteúdos provenientes de mídias tradicionais.
A revanche da periferia:
A arte está presente em todas as partes, seja no centro de grandes capitais seja na periferia. Uma forma que a população mais pobre encontrou de reivindicar foi através da arte, da cultura popular, que põem em relevo o cotidiano dos pobres, das minorias. Talvez essa forma seja considerada a “revanche”. Essa forma de manifestação ocorre frequentemente e com isso há uma possibilidade de revanche da cultura popular sobre a cultura de massas. Pois se difundem mediante o uso de equipamentos, que na origem eram próprios da cultura popular. Assim vemos que “não são as inovações tecnológicas que, por si só, condicionam as mudanças sociais” (CASTELLS, M. CARDOSO, G. 2006).
O período popular da história:
A China é um país que se deixou levar pela globalização, combinou planejamento de estado com o mecanismo de mercado. Atraiu capital externo e novas tecnologias. A adoção da sociedade privada, os baixos salários aceitos para atrair empresas internacionais, os altos índices de poluição, demonstram o quanto a China se dispôs a abrir mão do seu projeto de ideologia em troca do desenvolvimento econômico desumano e desigual.
Diferente desse modelo de globalização expansivo e ordenado, Santos dialoga com o futuro ao pensar em uma forma de evolução dessincronizada e individual. O geógrafo fala da possibilidade de uma marcha evolutiva desordenada, impossível de conter, como ocorreu nas jornadas de junho em 2013 no Brasil.
África e a América Latina: os gigantes despertando
O colonialismo e o imperialismo não compensaram os danos causados aos territórios por eles invadidos ao redor do mundo. Durante séculos os capitalistas estrangeiros se conduziram a países subdesenvolvidos como verdadeiros criminosos. Os problemas que a África e a América Latina têm hoje foram causados por esses colonizadores, gerando inúmeros problemas até os dias atuais como, por exemplo, crianças escravizadas para trabalharem em minas de ouro, com péssimas condições de trabalho e riscos físicos enormes.
Olhares do Norte, olhares do Sul
É muito comum o rico pagar para fazer um safári urbano em alguma favela, mas é anormal um pobre visitar um shopping center. É o que mostra o documentário “Hiato”, gravado em 2000, durante uma ocupação organizada em um grande shopping da zona Sul do Rio de Janeiro. Na ocupação, “favelados” conhecem uma área destinada apenas à classe média em diante, gera-se um tumulto e o preconceito é nítido na expressão dos verdadeiros frequentadores.
Existem duas éticas, a ética dos poderosos e a ética dos necessitados. A ética das pessoas que querem grandes mudanças é cada vez mais aceita nas camadas mais baixas da sociedade. Apesar da maioria das pessoas ter adquirido a herança da ética dos ricos, muitos ainda conseguem enxergar e apoiar a ética dos necessitados. “Feita à revolução nas escolas, o povo a fará nas ruas” Florestan Fernandes (1994).
Por uma outra globalização
Vivemos em uma forma de totalitarismos, apesar da maioria da população ser convencida de que tem toda liberdade de expressão. Bauman, sociólogo polonês, no documentário As fronteiras do pensamento, afirma que “cada vez que se tem mais liberdade se entrega parte da sua segurança”, ou seja, no mundo global há uma sociedade tão interdependente e ao mesmo tempo individualizada que o público se confunde com o pessoal e o ser livre se confunde com o ser privado. A Globalização reproduz o Globalitarismo, e assim sucessivamente, para quebrar esse ciclo, segundo Milton Santos, deve-se usar formas de democracia, que realmente sejam democráticas.
Considerações finais
Neste documentário, Milton Santos cita que o controle dos grandes meios de comunicação tradicionais resultou na necessidade da criação de uma mídia alternativa. Um espaço aberto à diversidade de opiniões, tanto de quem produz o conteúdo, quanto dos usuários. Nesse espaço surgiram os blogs, vlogs, fan pages e etc, ferramentas da internet nas quais os usuários podem ficar à vontade para transitar e decidir se aquela opinião, aquele editorial o agrada.
A internet e os meios de comunicação alternativos tornaram-se ferramentas essenciais para acontecimentos marcantes, como as manifestações do ano de 2013 no Brasil. Os movimentos, que ocorreram em vários estados do país, tiveram início com o aumento no preço da passagem do transporte coletivo. Os protestos tornaram-se maiores e mais intensos quando as notícias se propagaram na internet rapidamente e milhares de jovens e adultos começaram a manifestar seus descontentamentos em relação à política, à economia, entre outros. De acordo com os pesquisadores Fábio Malini e Henrique Antoun, no livro @Internet e #rua, “(...) quanto mais os sujeitos estão juntos e imersos em um acontecimento de rua, mais intenso e emocional fica o compartilhamento das informações na Internet".
Baseado nisso, pode-se observar que o webjornalismo forma-se como a mais nova e, talvez, mais eficaz ferramenta de propagação da informação.
E para instigar a curiosidade a respeito dos sistemas existente no mundo globalitário, vale a pena conferir a animação "MAN", do artista inglês Steve Cutts, que aborda os pontos negativos do sistema em que vivemos.
Por Alexsandro Fleury, Isaac de Paula, Priscila Rosas, Sharon Marques e Thaise Rocha
A era digital explicita a controvérsia de uma sociedade cada dia mais digitalmente próxima e, em simultâneo, completamente individualizada. Ligados em rede, em um processo de constante globalização, vê-se a diluição de fronteiras, significados e relações. Diferenças que sempre existiram hoje ganham novos contornos – ora mais evidentes, ora mais brandos – unidos no que Zygmunt Bauman chama, no documentário ‘Fronteiras do Pensamento – Diálogos com Zygmunt Bauman’, de "sociedade fragmentada", que resulta também do impacto da tecnologia da informação. Fragmentos de grupos sociais, de episódios da vida, de projetos e de conceitos ideais.
Com as relações transformadas, o autor do conceito de “modernidade líquida” destaca durante a entrevista a ambivalência da solidão em meio a uma multidão de solitários. Interligados por gadgets, o homem encontra-se separado pelo distanciamento físico e pelas transformações na interação entre os seres. Nas redes sociais, por exemplo, a segurança pagou o preço da liberdade, ao que eu destacaria a superexposição.
Neste novo cenário, o sociólogo polonês levanta a discussão sobre a ressignificação de identidades pessoais e coletivas. Em uma aldeia global feita por conexões que transcendem estados-nação, a interdependência torna-se, segundo Bauman, uma das mudanças irreversíveis do mundo pós-moderno. A sociedade individualizada organiza-se em grupos de pares ao mesmo tempo em que entende a sua correlação em um contexto ainda maior, planetário.
Tal mudança cobra o reposicionamento de conceitos e práticas sociais diversas, como é o caso da educação. Crítico da divisão do conhecimento em disciplinas, Edgar Morin é um dos principais defensores das mudanças na educação frente às novas demandas da humanidade. No vídeo ‘Educação na Era Planetária’, gravado em 2005 para a conferência do ciclo Universo do Conhecimento, ele aponta a ineficiência do atual método de ensino que desconsidera as conexões entre os saberes. Ao fazer referência de cada indivíduo como uma célula em totalidade, Morin reforça – mesmo que indiretamente – o que Bauman também discute: a individualidade conectada.
Para o sociólogo e filósofo francês, um dos maiores erros do sistema é reduzir o que é complexo em simples, tirando as informações de contextos geográficos, históricos, religiosos e culturais. Defensor da pluridisciplinaridade, Morin diz que o conhecimento pertinente não é sofisticado ou baseado meramente em fórmulas, mas, sim, aquele que permite ser usado em contextos. Afirmando que “o contexto situa uma parte na totalidade em que ela está inserida - e o todo na parte” e que “disciplinas separadamente atrofiam a aptidão natural da mente de contextualizar o conhecimento”, o pensador coloca em juízo a tendência de homogeneização e unificação que ameaça a diversidade.
Durante a palestra gravada na sede da Unesco, em Paris, Edgar Morin traz à tona a temática que, em recorte, podemos trazer para os indígenas brasileiros. Quando o assunto é referente a questões destes grupos étnicos, entra em pauta temas como a manutenção de costumes, a posse da terra e o acesso à educação dita “tradicional” – a mesma criticada por Morin. A defesa do sociólogo e que pode se aplicar a esta situação é entender que culturas e estilos de vida diferentes conectados em sociedade não podem ser incompreendidos pelas concepções que desconsideram a herança histórica trazida na complexidade humana. Para isso, conclama a benevolência que permite compreender o outro. Sabendo do tamanho deste desafio, ele próprio destaca que esta desconstrução é dificultosa. Exemplo disto é a necessidade de enxergar um criminoso não somente como um criminoso, como a nossa visão esquematizada tende a fazer. Neste ponto, ao espectador, fica a provocação sobre o ponto de equilíbrio.
A mesma provocação se apresenta no discurso do jornalista Bruno Torturra e do produtor cultural Pablo Capilé. No programa Roda Viva exibido pela TV Cultura e TV Brasil no dia 5 de agosto de 2013, os idealizadores do grupo Mídia Ninja foram sabatinados durante 1h30 em questões que podem ser destacadas em algumas palavras-chave: imparcialidade, democracia, independência, público e privado. Novamente, fica clara a diluição de definições concretas destes termos, que passam a ganhar novos recortes. Ganha a pluralidade de visões profundamente difundida em um espaço web capaz de receber informações das mais diversas formas e a partir dos mais variados meios e pontos de vista.
Acesso à internet no BR em 2013 | Create Infographics
Reconhecidos pelo grande público nas manifestações de julho, Torturra e Capilé pregam as "novas lógicas de produção do século 21". Compreensível a partir das mudanças do Big Data, mas um processo que ainda enfrenta embates práticos, inclusive pela falta de clareza de certos significados. Esquerda e direita políticas, jornalismo e até mesmo vandalismo, que anteriormente pareciam ter definições bastante precisas, ganham interpretações distintas para atender um público de opinião heterogênea. Público este que inúmeras vezes não encontra nos veículos de comunicação transparência e busca a comunicação mais democratizada, mas que, mesmo que fuja, está inserida em contextos políticos e sociais. Assim como essa comunicação dita pública se faz por meio da web privada, e que os Black Blocs (figuras que ganharam as manchetes durante os protestos) também têm seus atos explicados como reposta à violência que enfrentam diariamente enquanto cidadãos.
Aqui se faz necessária a retomada do que Fábio Malini e Henrique Antoun destacam em ‘A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais’: a emergência do repórter-cidadão. Eles destacam a afirmação de Dan Gillmor (2005) de que este movimento “é diretamente influenciado pelo aparelhamento tecnológico da sociedade. A comunicação em tempos de individualidade encontra uma “diversidade de versões sobre os significados dos fatos produzidos”, em mais um indicativo da necessidade de remodelação também das salas de aula dos cursos de comunicação – ainda, em sua maioria, pensadas no modelo de ensino criticado por Edgar Morin e que ensina um fazer jornalístico distante da realidade social pós-moderna descrita por Zygmunt Bauman.
A produção jornalística muda do início ao fim, da sugestão de pauta que chega à redação até a função do ombudsman. Tudo muda quando o leitor-ouvinte-telespectador passa a ter voz. Constituído como indivíduo multimidiático por uma indústria da informação que o bombardeia das mais diversas formas, o público considerado passivo assume papel ativo no processo da notícia. Como resultado, além do aumento da participação nos veículos de comunicação da grande mídia, surge também uma maior crítica ao jornalismo, um movimento explicitado pela hostilidade contra jornalistas e pela explosão de canais alternativos, como o próprio Mídia Ninja. A atenção é fragmentada, assim como a própria informação.
Em tempos de informação em 140 caracteres e de “hashtag storytelling” (Malini, Antoun, 2013), atrasada está a comunicação que não procura entender que os tempos mudaram. Ainda em ‘Fronteiras do Pensamento – Diálogos com Zygmunt Bauman’, o sociólogo afirma não saber se é o "início de uma nova forma de vida, que vai durar séculos, ou se é um período de transição de um período com um tipo de ordem social para outro tipo de ordem social". Com tantos conceitos diluídos, talvez as únicas certezas que possamos ter são a idiossincrasia e a completa dispensabilidade de maniqueísmos.
Conceitos pós-modernos criados a partir da linguagem da Web
Por Bruce Andrade, Lucas Lima Carvalho, Paulo Ramos Marques e Rebeca Cardoso, do Lab F5
Reprodução: Mispa Cultural
As ideias de Bauman nos proporcionam mecanismos para compreendermos, em parte, as mudanças sociais que vivemos nas últimas décadas. Estas mudanças aconteceram de forma muito rápida e com tal profundidade que envolvem conhecimentos em diversas áreas: educação, política, cultura, etc. Tais mudanças vêm no embalo da onda da globalização, onde as fronteiras físicas são superadas através da conexão em rede proporcionada pela internet, onde esse novo modelo de interação torna os laços humanos uma mistura de benção e maldição.
As conexões ao redor do mundo se multiplicam e isso nos torna parte de uma sociedade global, tendo uma rede que é feita e mantida por nós, onde nela podemos nos conectar e desconectar de forma instantânea. Para Bauman, essa realidade é fruto do enfraquecimento das relações humanas, que se mostra contraditório do ponto de vista lógico, pois da mesma forma que aproxima, facilita e agiliza a comunicação humana, essa rede de interação, baseia-se na virtualidade também de afetividade.
Além da superficialidade da relação humana, ao mesmo tempo em que a tecnologia liberta, ela também aprisiona. A cultura do medo afasta a afetividade e o contato mais próximo de tempos passados diminui à medida em que aumenta a dependência provocada pelas tecnologias que embarcam no conceito do medo e fabricam soluções aparentemente concretas, mas que na verdade afetam diretamente o modo como nos relacionamos.
Estamos vivenciando um mundo onde o medo de ter medo é o norte das tomadas de decisões da sociedade. A constante busca pela liberdade, oprime nossos desejos e trazem a dúvida se a gente não está vivendo numa prisão, é que questiona a música“Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)” composta em 1999 pelo grupo de rock brasileiro o Rappa. A liberdade individual está submersa numa camada abaixo do imaginário ideal. O ponto crítico disso tudo é que a sociedade não só busca a liberdade, mas também já não sabe mais o que fazer com ela.
Considerando as ideias apresentadas por Bauman, na área da educação o lado negativo de todas estas mudanças é que a geração digital é incapaz de manter a mesma forma por muito tempo. Estamos passando do que o autor chama de “modernidade sólida” para a “modernidade líquida”. A modernidade sólida, segundo ele, derretia os sólidos para colocar outros melhores em seus lugares. Essas substituições terminariam quando os sólidos ali substituídos não tivessem mais problemas, atingindo assim a perfeição. Já a modernidade líquida derreteu tudo o que era ou parecia ser sólido, mas não coloca outro sólido em seu lugar. Assim, tem-se a constante mudança, num processo que não tem previsão de terminar.
Neste cenário, vemos que a diluição da solidez acaba sendo empregada em várias áreas, dentre elas, a educação. No vídeo “Educação na Era Planetária”, o pesquisador francês Edgar Morin aborda a questão do sistema educacional ao qual somos submetidos. Morin afirma que a maneira como somos educados é inadequada e não está preparada para a era planetária, pois tal sistema é baseado na separação do conhecimento.
Entusiasta da multidisciplinaridade, Morin acredita que o conhecimento advindo de outras culturas pode contribuir de forma significativa para a elevação do conhecimento humano, uma vez que estamos conectados em rede e fazemos parte de uma sociedade que há muito tempo deixou de ser local e passou a ser global. Característico do ser humano, a linguagem é a chave para habilitar e fazer com que os conhecimentos provenientes de diversas áreas se contextualize entre si e promova uma junção cultural.
Desta forma, uma linguagem bem específica vem ganhando território e tornando-se cada vez mais indispensável na era digital. A linguagem da Web tem sido o elo de ligação entre indivíduos conectados numa rede que transmite informações entre si e para si. Baseados nessa realidade, vários coletivos midiáticos utilizam dessa linguagem para transpor a fronteira da localidade. Esse é o caso do grupo Mídia Ninja, que durante entrevista ao programa Roda Viva da Tv Cultura, seus líderes: Bruno Torturra e Pablo Capilé, explanaram novos conceitos a respeito de jornalismo, democracia, independência, negócios, público e privado, temas que fazem parte de qualquer sociedade e que estão em grande evidência em tempos de era digital.
Após ganhar destaque durante as manifestações de julho de 2013 no Brasil, o grupo Mídia Ninja, possibilitou enxergarmos uma nova forma de se fazer jornalismo e levar a informação a um grande número de pessoas através de meios alternativos disponíveis a praticamente boa parte da população brasileira. A partir desse momento surgiu a necessidade de se discutir o que é jornalismo e como a web contribui para a produção do jornalística. Inevitavelmente, tudo gira em torno da devida conscientização da geração digital para o uso adequado das novas tecnologias. Essa questão da conscientização não se resume ao fato de “os fins justificarem os meios”, como afirmava Maquiavel no seu livro intitulado O Príncipe, mas na construção de uma consciência para o uso desses meios de comunicação.
A linguagem da Web não existe somente no conceito de codificação de rede, ela é como uma metamorfose, está sempre se renovando e tornando-se algo novo a cada determinado espaço de tempo. Novas formas de interação se mostram dispostos a ocupar a lacuna que as novas tecnologias deixam para serem preenchidas por uma sociedade ávida por novos conhecimentos e em busca de exprimir sua própria personalidade.
Considerando as ideias de Bauman, a sociedade pós-moderna está aprendendo a lidar com a linguagem da web que ao longo dos anos foi capaz de revolucionar o modo como nos relacionamos ao ponto de passarmos a integrar uma rede de conexão complexa onde a informação e o conhecimento se renovam a cada instante, formando novos conceitos para temas do cotidiano local. Por enquanto não sabemos se essa é apenas uma fase que refletirá no nosso modo de agir, pensar e viver, mas o certo é que a era digital vem moldando o futuro da sociedade pós-moderna.
A democratização da rede digital e a crise existencial do Jornalismo
Por Isaac Guerreiro, Rita de Cássia e Suelen Rocha
Difundir conhecimento e transformar processos ideológicos passaram a ser alguns dos papeis do uso da Internet. Para que se compreenda como o cenário da internet se dá hoje, sendo o principal meio de difusão de ideologias e de interferência na estrutura social, é importante conhecer a obra 'Sociedade em Rede' do sociólogo espanhol Manuel Castells. Lançada nos anos de 2000 e 2006, esta última edição fruto de conferência promovida em Lisboa, 'Sociedade em Rede' aborda como as tecnologias, no impulso pelas pesquisas militares, foram amplamente utilizadas pelo setor financeiro, justamente em um momento de necessidade de reestruturação do capitalismo.
Criada na década de 1960 por tecnólogos da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos (DARPA), a Internet tinha segundo Manuel Castells (2000, p. 44), “a intenção de impedir a tomada ou destruição do sistema norte-americano de comunicações pelos soviéticos, em caso de guerra nuclear”. Ao longo de 'Sociedade em Rede', o autor salienta que ainda no século XX, a internet passa a conectar um site a outro hipertextualmente, construindo o conceito que temos hoje de Redes Digitais. Estamos interligados em redes e a internet é o mecanismo pelo qual o sujeito deflagra defeitos, críticas, experiências, adquire domínio científico e tecnológico e elabora uma nova sociedade.
E nessa perspectiva, as redes sociais, como Twitter e Facebook, e os computadores interligados formaram a sociedade em rede dos movimentos sociais em rede. Demonstraram o intenso papel da internet em 2013 para a realização das manifestações ocorridas no país, o movimento partiu da internet e ganhou as ruas brasileiras. Como exemplo para discutir o processo de movimento em rede abordado por Castells, no vídeo do programa Roda Viva da TV Cultura, é perceptível através da entrevista com o jornalista Bruno Torturra e com o produtor cultural Pablo Capilé, esta nova forma de usar a rede digital para promover reflexão e construir uma sociedade democrática.
Bruno Torturra (à dir.) e Pablo Capilé (de camiseta preta) participando do debate no programa Roda Viva da TV Cultura.
Disposta e pertencente a um Estado democrático, a sociedade seria de fato democrática? "A sociedade nada mais é que apenas o ensaio do que seria a humanidade”, essa declaração é dada por Milton Santos, durante o vídeo Encontro com Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá (SANTOS, 2001). O geógrafo traça na entrevista como a mídia conduz a desinformação e manipulação de ideias em face de um processo de globalização que ainda deixa à margem povos da sociedade. De acordo com a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, é assegurado “o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”. Mas, o que se verifica atualmente é a má distribuição desses direitos à grande massa da população do país, deixando a margem uma parcela de pessoas sem qualidade de vida e usufruto da globalização. De fato, a globalização produz muito mais do que destina. Como assegurar a compreensão de processos políticos, tecnológicos, científicos e educacionais por essa população desglobalizada? Hoje, a internet é um dos mecanismos para conscientização e criação de novos sujeitos participantes destes processos.
A internet: uma conexão em redes
Como disse Castells, a internet nasce de um meio repressor. Uma forma de comunicação militar, em que fosse possível uma rede distribuída que impedisse um domínio de informação pela Rússia Soviética, num contexto claro da paranoica Guerra Fria.
Com o passar dos anos, a internet é incorporada pelas universidades e por elas distribuídas. Aos poucos com a popularização de computadores as pessoas passam a hackear tecnologias e a produzir conteúdo e dispor de forma acessível aos usuários. Criam-se fóruns de discussão e aplicativos que possam usar o potencial dessa rede.
"Esses são os diagramas de Paul Baran, publicados no texto BARAN, Paul (1964): On distributed communications."
Os computadores se tornam tão populares que criam um mercado consumidor. Tendo dimensões globais, tornam-se fonte de dinheiro e a internet, meio de informação em sua maioria gratuita e toma forma com informações multicolaborativas e descentralizadas.
Atualmente, o meio social passa a ter acesso a uma série de informações interconectadas, a tecnologia cresce e os dispositivos passam a ter mais ferramentas, com velocidade rápida e compartilhamento de informação mais preciso e ágil e os Hackers usam a internet como forma de quebrar formas industriais da venda de informação. Mas é ainda entre os anos 1950 e 1960, que a idealização da cultura hacker e sua filosofia nasce no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (Massachusetts Institute of Technology, MIT) e em 1984, sua ética é descrita no livro de Steven Levy, 'Hackers: Heroes of the Computer Revolution', em vista dos princípios de compartilhamento, descentralização e livre acesso aos computadores, em busca da liberdade de acesso à informação.
Considerando o histórico da comercialização dos computadores, o advento da Internet e a crescente popularização dos saberes e recursos disponíveis através das redes digitais, Manuel Castells (2000, p. 57) em sua obra infere que “a arquitetura de rede ao ser criada para fins militares era composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão, contornando barreiras eletrônicas”. Hoje esse processo de informatização pressupõe “a integração do mundo em redes globais de instrumentalidade”. Construindo um espaço diferente das mídias eletrônicas (redes televisas e radiofônicas), pautado no interesse mercadológico e privado, mas voltado para o interesse público, individual e crítico dos cidadãos. A internet é um mecanismo de comunicação global, abstrai fronteiras e sugere uma nova estrutura social, uma sociedade cibernética.
Assim temos o que Castells (2006, p.24) esclarece como difusão da sociedade em rede: "E com a expansão das redes de novas tecnologias de comunicação, dá-se uma explosão de redes horizontais de comunicação, bastante independentes do negócio dos media e dos governos, o que permite a emergência daquilo a que chamei comunicação de massa autocomandada". Na obra, o autor explica ainda o que seria uma sociedade em rede, para ele "uma estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microeletrônica e em redes digitais de computadores" (2006, p. 20).
Ainda em 'Sociedade em Rede', Castells ressalta a expressividade presente nas redes digitais, onde o público fala e “peneira” o que deve ser dito e promove mobilizações políticas. "Assim, computadores, sistemas de comunicação, decodificação e programação genética são todos amplificadores e extensões da mente humana. O que pensamos e como pensamos é expresso em bens, serviços, produção material e intelectual, sejam alimentos, moradia, sistemas de transporte e comunicação, mísseis, saúde, educação ou imagens." (CASTELLS, p 69).
Apesar dos fatores positivos, a revolução Industrial do século XVIII, estendeu-se para a maior parte do globo durante os dois séculos posteriores, mas sua expansão foi muito seletiva e lenta em comparação aos padrões atuais de difusão tecnológica. É percebível a falta de qualidade da velocidade da internet e acesso limitado por algumas classes populacionais. Levando ao nível global, a Internet venceu fronteiras de classes sociais, é possível o acesso,mesmo que de baixa qualidade, através de aparelhos celulares e a informatização pelos blogs, vlogs, desmembrando a importância de atribuição do saber somente pelo Jornal e demais mídias, que apresentaram em sua maioria vertentes privadas. Diferente destes, a internet passa a alcançar níveis sociais mais periféricos, reunindo pensamentos e abordagens críticas, como o caso das últimas mobilizações sociais ocorridas no Brasil no ano de 2013 em decorrência do aumento da passagem do transporte público e demais reivindicações da sociedade brasileira. Como Castells relata sobre a mobilização em rede: "a sociedade em rede também se manifesta na transformação da sociabilidade" (2006, p. 24). Assim, quanto mais há usabilidade da internet como meio de comunicação, mais envolvimento se constrói entre seus usuários.
Um novo jornalismo
Castells apoia em 'Sociedade em Rede', que essa evolução "permite às pessoas comuniquem umas com as outras sem utilizar os canais criados pelas instituições da sociedade para a comunicação socializante" (2006, p. 24). Contudo, evidencia-se nesses tempos de sociabilidade em rede, o desencontro entre internet e o jornal impresso/eletrônico, estes respectivamente, presenciam uma lógica digital de ser gratuita, multifacetada e interativa e uma lógica analógica de ser pago, "imparcial", unilateral. Devido esses aspectos, os sistemas de informação industrial que não apresentam nenhum diferencial (como por exemplo, qualidade ou credibilidade) perdem muitos clientes para a internet. Passam a depender ainda mais de anúncios/publicidade se tornando menos independente.
O jornalismo entra em crise de identidade. Seria uma informação que desinforma? Apenas um mercado informativo?. Na crise começam a florescer pequenas iniciativas que buscam novas formas de vender a informação. Elas buscam novas lógicas pra produzir conteúdo jornalístico. Para responder esses questionamentos, a iniciativa da Mídia Ninja, grupo de mídia formado em 2011 com a proposta de atuar e ser reconhecido pelo ativismo sociopolítico, em alternativa à imprensa tradicional partidária. A ação do grupo se tornou conhecida mundialmente no ano passado, através da transmissão dos protestos no Brasil. As transmissões acontecem em tempo real, seja por fotojornalismo, textual ou em produtos audiovisuais, preferivelmente pela internet com uso de instrumentos amadores como celulares ou unidades móveis montadas em carrinho de supermercado.
"A gente está defendendo a democracia quando a gente toma um lado da manifestação". Bruno Torturra.
Bombardeados por profissionais das mídias eletrônicas do país e demais jornalistas no Programa Roda Vida da rede televisiva por assinatura, TV Cultura, os entrevistados Bruno Torturra e Pablo Capilé que estão a frente da iniciativa Mídia Ninja e participantes da rede Fora do Eixo, demonstram exatidão nas respostas impostas e arredio a herança deixada ao jornalismo atual pelo capitalismo.
"Políticas públicas para a comunicação e cultura são fundamentais.Isso melhorou muito nos últimos dez anos e a gente acha que está muito aquém e gostaria que pelo menos 2% desses recursos federais fossem destinados para a cultura e isso está muito distante." Pablo Capilé.
Propõem a busca de financiamento público (comunicação como um bem publico), financiamento popular (crowndfounding), plataformas de informações limitada a baixo preço (microtransações) e assinantes, para contextualização de saberes e direitos prescritos na própria Constituição Federal. A livre escolha e a participação direta dos processos políticos do Brasil.
A compreensão se essa é uma solução, não basta, o importante é buscar entender quais benefícios essa iniciativa trará a formação cidadã do país e se isso, é de fato pautado na realidade local. A internet que nasce para benefício de um pequeno grupo, hoje é a porta de transferência de interação e conhecimento em redes sociais, aplicativos e sítios, contribuindo para constatação de novas iniciativas como essa idealizada pela Mídia Ninja. Em discussão por Castells em sua obra, percebe-se que a transmissão de informação via redes conectadas se converte em sentidos, numa mobilização da sociedade. Assim, 'Sociedade em Rede' é uma obra importante, publicada nos anos de 200 e 2006, que contextualiza o passado e atualidade do uso da internet, mediando assim uma democratização desse meio tecnológico que promove relações de poder e interação de sociedades em redes globais de organização social. “A sociedade é que da forma à tecnologia de acordo com as necessidades, valores e interesses das pessoas que utilizam as tecnologias” (2006, p.17).
Por Anilton Junior, Daniella de Lima, Noelle Cabral e Thiago Fernando, do Lab F5.
Resenha do vídeo: "Globalização Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá". Direção: Silvio Tendler. Duração: 90 min. Produção: Caliban, 2006.
Desde os primórdios, as pessoas se reúnem em grupos pequenos para buscarem alimentos e se protegerem de predadores. O vídeo "Globalização Milton Santos- O mundo global visto do lado de cá" cita exemplos de como aos poucos, esses bandos foram crescendo e, com isso, surgiu a ideia de sociedade.
Para organizar e determinar os passos que seriam tomados, instituíram os primeiros líderes. Essas organizações começaram a se desenvolver formando as primeiras civilizações. Assim, transformaram-se em nações e mais tarde, países. Chegando ao ponto de não ter mais para a onde crescer, os países mais ricos começaram a migrar para outras regiões do planeta para expandir seus domínios, aumentar suas riquezas e sustentar sua população. Sem se preocupar em manter viva a cultura dos povos que foram colonizados, esse processo é chamado de primeira globalização.
É possível dizer que a segunda globalização teve início no século XVIII com a fragmentação das nações. Novos países surgiram e os que eram colônias, brigaram por sua independência. Nessa etapa, a globalização busca abranger as civilizações e suas características próprias.
A partir do começo do século XIX, a mídia começou a ser usada para movimentar as massas. O jornal foi o primeiro meio de comunicação utilizado para informar as pessoas e manipular opiniões. Revoltas, lutas e movimentos explodiram pelo mundo pelo o que era divulgado nos jornais.
O vídeo do Silvio Tendler descreve ainda os três processos da globalização mencionando também o século XX, onde a globalização teve sua terceira geração. Com a revolução tecnológica, o controle da mídia sobre a sociedade aumentou.Televisão e internet foram usadas para manipular a opinião da população. Lembrando sempre que seis famílias dominam 90% da mídia que é divulgada no planeta, provando que o poder da mídia ajudou o processo no final do século XX.
Visando passar uma imagem positiva desse fato, normalmente, vemos apenas notícias boas sobre a mídia e dificilmente ouvimos notícias que comprovam a manipulação que as massas sofrem. A imagem de uma fábula é passada para a população, como se a mídia fosse apenas mais um meio de informar. E assim esquecem que ela também é uma formadora de opiniões e, por isso tem poder.
Diante desse contexto, é possível ver uma forte dominação dos povos do hemisfério norte sobre o sul, como mostra o vídeo " Globalização Milton Santos: O mundo global visto do lado de cá", desde os séculos XV e XVI com a colonização, como já foi citado. A globalização já mostrava seu lado negativo, uma vez que os colonizados eram obrigados a mudar seus hábitos, valores e até crenças. Foi a partir desse momento, que o consumismo se propagou pelo mundo. Primeiramente, através de trocas e com o passar do tempo, outros métodos foram surgindo e se adequando a cada sistema econômico e sociocultural impostos para que a sociedade continuasse usufruindo dos bens materiais.
Entre os séculos XX e XXI, o cenário mundial tornou-se palco de grandes conflitos justamente na época em que a globalização ganhava força, fosse através da mídia, fosse através da conexão entre as diversas sociedades que queriam e ainda querem dominar além dos seus limites territoriais.
Os territórios se tornaram, então, uma matriz social para que houvesse mais proximidade entre parte das classes dominantes e interessadas em se desenvolver e manter seu padrão de vida. Todo esse processo se deu devido à globalização que aproxima as fronteiras e aumenta as diferenças sociais.
Todo o desenvolvimento proporcionado, seja pelo capitalismo, pelas novas tecnologias ou até mesmo pela globalização, tem dois lados. O que se quer enfatizar nessa resenha é a globalização como perversidade, característica central dos processos sociais, desde a colonização até se tornar o que é hoje, prejudicial à maioria da sociedade e que acabou favorecendo a poucos. “Nós estamos fazendo os ensaios do que será a humanidade. Nunca houve” (SANTOS, 2001).
O Capitalismo se impregnou e está como o principal sistema econômico no mundo trazendo consigo empresas multinacionais, milionárias e que contribuem pouquíssimo com a melhoria de vida de quem realmente necessita. Essas empresas desorganizam os territórios social e moralmente causando conflitos e mudanças drásticas, impulsionando o desemprego crônico, o aumento da pobreza, da fome e do desabrigo.
É através desses aspectos que é possível perceber o que a globalização se tornou, um globalitarismo, uma imposição de uma globalização criada para um determinado povo com a formulação de uma ética para poderosos, mas que aos poucos perde força diante de mudanças que estão tentando ser compreendidas. "O Globalitarismo existe para reproduzir a globalização". (SANTOS, 2001).
O globaritarismo é citado por Milton Santos como o resultado do viés perverso e não acidental que a globalização tomou. Na história houveram vários momentos onde o mundo lutou contra diferentes totalitarismos. Porém, “fugimos de totalitarismos, mas caímos noutro”, diz Milton Santos. É difícil pensar que vivemos, especificamente no Brasil, um país não totalitário visto que somos livres, e há vários exemplos disso. No entanto, é uma liberdade condicionada, com caminhos pré estabelecidos onde qualquer tentativa de fuga do roteiro é punida na primeira esquina.
Além disso, uma grande porção da população não tem acesso a direitos básicos previamente estabelecidos constitucionalmente. Visto isso, devemos discutir quem são as pessoas, governos ou empresas que ditam as regras pelas quais as sociedades sobrevivem.
No vídeo, José Saramago indaga que “as grandes organizações financeiras mundiais, os FMI’s, as organizações mundias de comércio, os bancos mundiais, nenhum deles é democrático, então como podemos continuar falando de democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são escolhidos democraticamente?”. As organizações que controlam as ações mundiais não possuem uma integridade social, visto que o dinheiro se tornou o centro do mundo. Onde a pobreza é encarada com naturalidade e a questão da fome continua sendo debatida, sem ações efetivas, camuflando uma clara pré disposição a não solucionar as mazelas mundiais.
Segundo Milton, “Há uma ética dos poderosos, que não chega a ser ética, e uma outra daqueles que não tem nada, ou seja, seu viés violento é cada vez mais compreendido”.
A população em geral é contra violência, pelo simples fato de violência ser ruim. Porém, é preciso entender porque pequenos ou grandes grupos apelam para o vandalismo quando o Estado não os ouve. Há grandes grupos que defendem a tese de que sem violência, os governos fazem vistas grossas às suas reivindicações. Ou seja, devemos interpretar os diferentes lados, e procurar entender de que lado a violência começou.
O debate se torna extremamente tênue, visto que são criadas diferentes éticas, e todas elas com motivos lógicos carregados de mecanismos intelectuais sedentos por mudanças em prol de seus desejos. Nessa questão, conclui-se que o Estado e as empresas, juntamente com os movimentos sociais, devem procurar caminhos democráticos, como Milton diz: “precisamos voltar a debater a civilização, que nós paramos, dando lugar aos debates sobre crescimento econômico. Isso abre espaço para todo tipo de barbárie”.
Obviamente, é impossível pensar em um Estado e empresas que concordem em debater ações democráticas já que isso vai contra sua ética, ou falta de. Visto isso, Milton afirma que as ONG's e nem os movimentos sociais são capazes de mudanças que melhorariam substancialmente as sociedades. Então seria necessário um estado socializante, capaz de atender às demandas das grandes maiorias. “Vamos quebrar o globalitarismo com formas de governo democráticas. Realmente democráticas.”
Seria necessário, então, que o Estado mudasse de dentro para fora. Milton ressalta a força que os atuais pequenos atores, sejam eles as mídias alternativas, movimentos sociais, até mesmo grupos desorganizados temporariamente, mas que tem potencial de mudar o Estado, consequentemente o Estado melhorar a sociedade.
Sem dúvida esse vídeo deve fazer parte do playlist das pessoas que procuram entender melhor em que mundo elas vivem e quais são os caminhos a se trilhar para uma globalização democrática. Também é incrível pensar como as falas de Milton Santos em 2001, explicam fatos atuais, além de esmiuçar situações cotidianas dos governos vigentes 13 anos depois, tornando assim esse vídeo um instrumento de conscientização fortíssimo para o conhecimento abrangente de globalização.
Resenha: “Fronteiras do Conhecimento”, de Zygmunt Bauman
Por Victor Costa, Jéssica Tammi, Romulo Sousa e Daniella Lima, do LabF5
Polonês refugiado na Rússia, iniciou e concluiu seus estudos em sociologia, sendo depois professor em diversos outros países da América e Europa, Zygmunt Bauman é bastante conhecido por suas análises sobre a modernidade e holocausto, pós-modernidade consumista e modernidade líquida.
Individualismo
No vídeo da série “Fronteiras do Pensamento”, Bauman inicia a exposição de seus pensamentos filosóficos tratando do individualismo surgido durante a transição de uma sociedade produtora (modernidade) para uma sociedade consumidora (pós modernidade). Aqui, há uma valorização do indivíduo acima da comunidade, uma necessidade de afirmação de uma identidade que define a vida de toda a população.
Mundo interdependente
Vivendo num mundo interdependente, Bauman diz que a conjectura do planeta atualmente “é o mais próximo que tivemos de ter um país global” (tradução livre), onde a velocidade do tráfego de informações nos permite estar inteiramente ligados e dependentes de outras pessoas existentes em locais completamente diferentes, quase uma ágora mundial.
Edgar Morin por exemplo, no vídeo “A educação na era planetária” para a TV, fala que o sistema de educação clássico não serve mais, pois não é interdisciplinar, as matérias são isoladas. Há de se criar um modelo que abranja todos os conteúdos.
Da mesma maneira, o jornalismo também tem que ser reestruturado, como destacou o ativista Pablo Capilé, integrante do grupo de jornalismo independente Mídia NINJA em uma entrevista ao Roda Viva em Setembro de 2013, ao destacar a limitação do jornalismo atual à chamada mídia tradicional.
A descentralização da mídia representa uma abertura para o desenvolvimento das distintas formas de jornalismo. Assim, o desenvolvimento contínuo de novas formas de atuação faz parte de um processo de evolução. Não há dúvidas de que a Internet facilita a criação de direções alternativas no sentido do progresso.
Bauman aponta os perigos para a democracia atual, sendo o principal o “divórcio” entre o poder e a política, mas ao mesmo tempo, espera que no futuro as forças se reorganizem para montar uma “democracia global”.
Redes Sociais
Em relação às novas mídias, o sociólogo fala de como a atual geração se encontra “solitária numa multidão” optando pela convivência em redes ao invés da vida em comunidade, o lado negativo dessa interdependência através das redes.
A organização em grupos dedicados à publicação de conteúdo relevante e confiável através das redes é capaz de reestruturar o fluxo de informação, diferente do que é feito pelos indivíduos isolados.
Em “Milton Santos - O mundo global visto do lado de cá” aborda-se a democratização dos meios de comunicação, a extinção do monopólio da grande mídia e o uso de meios que, inicialmente, serviam a interesses “imperialistas”, segundo o geógrafo, e que agora fazem parte da revolução da periferia, quando a cultura popular adquire status de cultura de massa.
O debate estimula a padronização das diretrizes de desenvolvimento para o futuro. É importante questionar o quanto a constante divulgação das informações exige a precisão e a definição do fluxo de informações.
Ambivalência
Depois da metade do vídeo, o sociólogo se aprofunda mais no tema mais estudado em sua carreira, a parte menos dispersa e mais consistente da entrevista. Fala sobre os problemas advindos da autonomia individual, onde o as pessoas da pós-modernidade importam-se mais com a construção e estabilidade de si próprio do que antes voltar-se para o coletivo e assegurar o bem-estar geral.
Aqui percebemos resquícios daquilo que o sociólogo aprendeu em Varsóvia, devido à influência comunista, porém em seguida fala mal também da opressão do Estado que ele sofrera antigamente (razão pela qual fora expulso da Rússia) e compara com a ameaça que é a individualização atual, apontando a busca para um meio-termo.
Sobre esse pensamento, ele estabelece os paralelos “liberdade e segurança”, exemplificando que antes (na modernidade), havia uma busca pela segurança em detrimento da liberdade (o que pende para a escravidão), e hoje em dia prioriza-se a liberdade sob a segurança (o que leva ao caos). O equilíbrio é sempre almejado, mas nunca alcançado.
Num diálogo mais extenso, Bauman seria capaz de expor melhor temas que ficaram soltos em meios a tantos tópicos distintos, que não poderiam ser abordados em meia-hora de vídeo, ainda assim, mantêm-se firme em suas convicções e expõe seus pontos de vista de forma convincente.
Sobre Comunicação, alternativas e desenvolvimento na Amazônia
Por Jéssica Botelho, do Lab F5
Em se tratando de Amazônia o discurso comunicacional atual ainda é impregnado do imaginário dos primeiros viajantes europeus que por essas terras passaram. A mídia como parte fundamental desse processo formador de opinião e produtor de sentidos consolida, na prática, estereótipos e preconceitos criados a partir de uma visão que não privilegia o olhar local, ou quando o faz é de tal forma que apresenta um raso espaço de participação dos amazônidas. Nesse sentido, e avaliando o poder e responsabilidade que tem o jornalismo, por exemplo, é imprescindível que se faça uma leitura crítica da Comunicação que é desenvolvida no contexto amazônico.
Quando discutimos jornalismo ainda, nocivamente, partimos da lógica capitalista industrial. É necessário refletir que o modelo de mercado jornalístico pautado nos grandes veículos de comunicação tem atravessado uma crise, levando ao debate sobre novas formas de fazer jornalismo, formas que não as que estão postas. O “alternativo” surge, então, com suas novas possibilidades, sobretudo com a Internet. Ao falarmos em Amazônia essa prática, que foge do discurso hegemônico colocado, pode ser observada no trabalho desenvolvido por Lúcio Flávio Pinto, no Pará.
Para além do trato jornalístico comprometido com a responsabilidade ao falar dos aspectos políticos, econômicos e sociais da região, como o impacto dos grandes projetos desenvolvidos na Amazônia por empresas privadas e estatais. Lúcio Flávio Pinto e seu Jornal Pessoal (impresso e online) abordam também a necessidade de compreensão da Amazônia, principalmente pelos jornalistas, como um espaço peculiar e de características únicas que é tratado arbitrariamente pelo jornalismo nas escalas tanto regionais quanto nacionais e globais.
Outro aspecto importante a ser considerado é a falta de diálogo entre os Estados que compõem a região amazônica. O WebAmazônia, encontro de blogueiros e jornalistas realizado no início de setembro deste ano em Belém, buscou discutir a democratização da comunicação nos Estados nortistas e apresentar reivindicações e propostas alternativas para uma Amazônia conectada e com voz autônoma para fazer contraponto à Amazônia mostrada pelas grandes empresas comandadas por interesses diretamente ligadas ao poder dominante. O encontro precedeu o III Fórum da Internet que teve participação de representantes, por exemplo, de etnias indígenas do Nordeste dialogando sobre a negação de espaço na mídia e a possibilidade de construir mudanças a partir da rede.
Ao refletirmos sobre a legitimidade da “cara e voz da Amazônia” podemos chegar ao questionamento de como essa cara e essa voz da Amazônia são vistas pelo mundo. O exotismo da região continua encantando os olhos estrangeiros e a despertar cobiça daquele que já representa um espaço para o qual o mundo volta seus interesses. Voltamos aqui ao início, quando falamos nos relatos dos primeiros viajantes europeus. O local posto pelo global pouco muda ou quase nada em relação a estes. Um caso interessante para ilustrarmos essa visão é a discussão que vez por outra retorna ao foco das polêmicas: a internacionalização da Amazônia.
A espetacularização da violência, e o consequente esvaziamento (pode-se apontar até mesmo uma inexistência) de debate sobre o tema, é mais uma situação que pouco estimula a Comunicação como fator de desenvolvimento na Amazônia. Temos programas televisivos e cadernos de jornais impressos que naturalizam o sensacionalismo acerca da violência, tornado-a, por outro lado, notícia comum, corriqueira. Ou seja, consolida a violência como uma das principais mercadorias do jornalismo local.
Um erro comumente cometido ao falar de Amazônia é tratá-la como um espaço de densa floresta tropical abundante em biodiversidade. Obviamente, não se pretende aqui dizer que não possa ser definida dessa forma. Entretanto, é fundamental lembrar que as questões sociais e políticas são reflexos de um espaço geograficamente diverso. Não por acaso entre as definições temos: Amazônia internacional, legal, oriental e Pan Amazônia. Quais as implicações dessas diferenciações? Há que se pensar com cautela, buscar conhecimento e responsabilidade, assumir compromisso em tratar cada região da Amazônia, sob pena de um jornalismo pouco engajado no poder que possui ante ao desenvolvimento social do contexto ao qual está inserido.
Em entrevista ao Blog PETCOM, a professora, jornalista e pesquisadora Mirna Feitoza fala sobre o experimento acadêmico LabF5, e, entre outras coisas, sobre o webjornalismo em geral, os novos rumos da atividade jornalística e questões ligadas à formação acadêmica do profissional.
Por Allan Gomes, Jéssica Botelho e Drielly Canavarro, do Lab F5
Foto: Anonymous Rio
Quando as primeiras manifestações que tomaram o país a partir de junho de 2013, as palavras de ordem e os gritos de protesto - “Não é só por vinte centavos!” - não deixavam claro que o que estava em pauta eram questões mais profundas. Assim como não se via nenhuma conexão com aquele início de junho e as ondas de demissões nas redações de jornais que vinham ocorrendo desde abril, no entanto quanto maiores ficavam as mobilizações e mais conservadoras se mostravam as coberturas, maior foi ficando a hostilização da mídia nas ruas.
Dentre as diversas discussões surgidas a partir de então ficou claro que a crise econômica era seguida de uma crise de representatividade. Como destaca o sociólogo espanhol Manuel Castells em sua obra "A sociedade em rede: do conhecimento à ação política", vivemos em um momento de transição para uma sociedade em rede, onde as instituições ligadas à economia industrial estão sendo postas em cheque e o jornalismo não poderia ficar de fora dessa reconstrução.
As manifestações iniciadas em junho no País trouxeram consigo intensos debates. A hostilização aos símbolos e militantes de partidos políticos suscitou a revolta dos que protestavam e explicitou um descontentamento com a democracia participativa brasileira. Em entrevista à revista Isto É, publicada em 28 de junho, Castells - que estava no Brasil quando as mobilizações começaram - fala da predisposição existente nas sociedades para manifestações como as que varreram o País: “O que eu imaginava, e pesquisei durante vários anos, é que a crise de legitimidade política e a capacidade de se comunicar através da Internet e de dispositivos móveis levam à possibilidade de que surjam movimentos sociais espontâneos a qualquer momento e em qualquer lugar. Porque razões para indignação existem em todos os lugares”, observa ele.
Como Castells, o sociólogo brasileiro e militante da cultura digital, Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), identifica uma crise que perpassa não apenas as instituições jornalísticas. “Há uma crise de intermediação generalizada. Todas as estruturas de intermediação construídas no mundo industrial foram abaladas e estão sendo abaladas há algum tempo, mas a Internet e a comunicação em rede aceleraram isso. Então, essa crise é na indústria cultural, é na imprensa. A imprensa já não define mais sozinha quais fatos serão considerados notícia, agora ela disputa com as redes”, avalia Silveira.
Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), desde 13 junho cerca de 80 jornalistas sofreram algum tipo de hostilização (física ou verbal) por policiais e manifestantes. A Abraji tem contabilizado os dados dessas agressões e disponibilizado dados online sobre as ocorrências.
Reflexo de uma geração acostumada à horizontalidade das mídias sociais - meio em que essas massas se sentem mais representados -, a reação à mídia tradicional surge por esta ser um meio verticalizado, como apontado por Clóvis de Barros Filho, professor de ética da ECA/USP, em entrevista a revista Imprensa em sua edição de agosto de 2013. “Essa verticalidade foi alvo de desapreço no nível estatal, partidário, sindical, e não haveria por que ser diferente em relação à mídia. Os meios de comunicação tradicionais são percebidos como definidores de pauta, sendo que a própria produção de informação via redes sociais é conflitante com esta legitimidade de que eles sempre gozaram”, avalia Barros.
Naturalmente, como é característica da rede, o debate tomou conta da Internet, com vídeos de análises e textos debruçando-se sobre o tema. O Lab F5 selecionou alguns para somar ao debate: