“um pouco de egocentrismo cai bem, Alice. um dosezinha, só, com whisky. pra gente engolir de uma vez e sentir efeito imediato. é como aquele dia, em que me olhei no espelho, e você me observava. num momento não via nada, Alice, apenas os olhos maltratados, uma boca fina, num meio sorriso cansado, umas pintinhas aqui, outras acolá. nada demais numa garota comum. mas então, como um tapa na minha cara, está lá. meu egocentrismo, fazendo eu me dar conta de mim mesma, tendo consciência de tudo aquilo que sempre fui, mas nunca vi. bateu na hora, senti o ardor, o fogo por dentro me consumindo no espanto de perceber que eu era eu, que eu era tudo. exatamente como a dose de whisky descendo na garganta. forte. intensa. doída, mas de um jeito quase prazeroso. engraçado, não é, Alice? a gente sentir, ver e perceber que esteve o tempo todo ali. que estivemos em nós mesmos. que eu me pertencia. e me era. bastava um olhar atento, uma arrogância necessária, um quê de malícia e perspicácia pra me dar conta do que é. do que sou. já dizia Freud que ego é a nossa essência. então como é possível nunca perceber aquilo que está inerente à nós mesmos, desde sempre? aquilo que faz de mim eu? de nós, nós? é, é, é, Alice, eu dei agora para psicologia barata na mesma do bar. desculpa, vou voltar dos devaneios. é só, que, bem, realmente, um pouco de egocentrismo me caiu muito bem.”












