Monumento para quê?
Fernão Dias, Paes Leme, Castello Branco, Raposo Tavares, Costa e Silva, Marechal Deodoro, são nomes de personagens em rodovias, avenidas, ruas e monumentos em São Paulo.
Normalmente construídos em homenagem a algum acontecimento ou personagem histórico, o monumento é a forma mais comum de patrimônio material que encontramos pela cidade. Ao mesmo tempo que carrega uma certa afetividade, pois atuam contra o apagamento, assegurando um tempo e preservando uma determinada memória, eles também são passíveis de questionamento, uma vez que sua existência é um fator de disputa em torno da construção da memória da cidade. Quem determina qual momento histórico ou personagem deve ser homenageado? Por quê e para quem?
Já reparou que existe um monumento em forma de obelisco que fica na saída do metrô Faria Lima? O Monumento à Aldeia de Nossa Senhora de Pinheiros está instalado numa bifurcação triangular entre a Rua Teodoro Sampaio, Rua dos Pinheiros e Av. Faria Lima. Esse monumento foi criado por Luiz Marrone em 1971 para homenagear a origem da formação do bairro, que se deu com a fundação do Aldeamento de Nossa Senhora de Pinheiros em 1560 pelo Padre José Anchieta. Sua existência levanta a bola para refletirmos sobre memória e disputa simbólica nos espaços da cidade. Primeira questão: não há ao menos uma placa que informe o nome do monumento, a quem ou ao que ele homenageia, e por quem e quando foi criado. A única placa que existe no local é um tótem com os dizeres: Praça João Nassar. Quem foi João Nassar e qual a sua relação com a história do Aldeamento? Por que construir monumentos para preservar uma história sem pensar em seu caráter informativo e de formação cidadã?
A segunda questão: em linhas gerais, os aldeamentos não eram aldeias, eram locais fundados para a catequização e aniquilamento da cultura indígena e sua exploração. Ao chegar perto do monumento é possível observar que as imagens inscritas no metal representam os indígenas sendo catequizados pelos jesuítas. A Companhia de Jesus teve como grande missão a colonização e exploração dos corpos indígenas em função da soberania cultural e econômica de Portugal. O sangue derramado e a formação histórica do Brasil colônia determinam até os dias de hoje a maneira como praticamos o apagamento de povos e culturas. Pagaremos essa dívida histórica com a criação de monumentos que enaltecem um momento onde identidades e culturas eram apagadas? Continuaremos homenageando ditaduras, extermínios, bandeirantes e ditadores em nomes de ruas e avenidas?
Monumento à Aldeia de Nossa Senhora de Pinheiros
A primeira missa no Brasil. 1859 de Victor Meirelles
Aldeamento de Alberto Eckhoult, s/d
Mapa típico de aldeamentos jesuítas



















