O Aldeamento Nossa Senhora de Pinheiros
Quem caminha pelas ruas do agitado Largo pouco sabe sobre a origem do bairro e as histórias pavimentadas sob a praça ou sob as ruas da região. Não é à toa, nada desse passado é visível aos olhos de quem frequenta Pinheiros nos dias de hoje.
Localizada em ponto nodal de convergência dos principais rios paulistas (Rio Pinheiros, Tamanduateí e Rio Tietê), a região sempre se configurou como caminho de passagem, muito antes inclusive dos portugueses chegarem por aqui. O célebre caminho do Peabiru – movimentada rota indígena que conectava a costa sudeste do Brasil ao sul do país e seguia até Paraguai, Bolívia e Peru –, cruzava a região onde hoje estão localizadas as atuais ruas Butantã, Paes Leme e Teodoro Sampaio.
Por esta mesma rota os portugueses subiram a Serra do Mar e chegarem ao planalto paulista, onde foi fundado o Pátio do Colégio em 1554. Forçados a deixar seu território, os indígenas que ali habitavam se deslocaram para outras regiões, assim formando as principais cidades e bairros da região metropolitana: São Miguel Paulista, Santo Amaro, Pinheiros, Carapicuíba, Barueri e M'boy Mirim. Parte desse grupo, aproximadamente mil indígenas do tronco tupi-guarani, se instalou na região próximo ao Rio Pinheiros – Pi-iêrê em tupi, que significa "derramado", em alusão ao transbordamento das águas que alagavam suas margens. Pouco tempo depois, sob a ordem da Coroa Portuguesa e sob o comando do Padre José Anchieta, foi fundado o Aldeamento da Nossa Senhora da Conceição de Pinheiros, em 1560.
Importante dizer que esse grupo que se instalou na região – se afastando do contato com os primeiros invasores – não viveu em uma aldeia (o que caracteriza seu próprio sistema de vida) e sim em um aldeamento. Aldeamento eram àquelas comunidades indígenas configuradas para receber a missão jesuíta, ou seja, um sistema de doutrinação onde o catolicismo e a cultura portuguesa eram impostos de maneira a eliminar a presença de suas culturas originárias. Pode-se dizer que em um primeiro momento, o apagamento da cultura indígena representava o sucesso dos aldeamentos geridos pela Companhia de Jesus e a continuidade da política de exploração e colonização da Coroa Portuguesa.
Evidente que durante os primeiros anos houveram muitos conflitos e tensões entre a população indígena e os jesuítas, que desejavam sobretudo convertê-los em bons cristãos. A certa altura a Companhia de Jesus não mais exercia um papel funcional para o projeto colonial, que almejava em um segundo momento a soberania dos colonos e a exploração da terra e da mão de obra indígena. Dessa maneira, toda a região de várzea de Pinheiros foi doada ao bandeirante Fernão Dias, conhecido como caçador de esmeraldas e que praticava brandamente a captura e escravização dos indígenas. Com a expulsão permanente da Companhia de Jesus da colônia, a tutoria religiosa do Aldeamento ficou a cargo dos Beneditinos, que em 1640 mudaram o nome da capela principal da aldeia, a apadrinhando de Nossa Senhora de Monte Serrate, nome da atual matriz existente na Igreja.
Os próximos anos foram marcados por uma perda gradual de suas identidades como grupo, intensificada entre 1730 e 1750 com diversas medidas advindas de Portugal, especialmente a partir da publicação do Diretório dos Índios. Neste conjunto, as principais medidas eram a proibição da língua geral – o nheengatu, uma mistura entre tupi e português que permitia a comunicação entre os povos – a obrigatoriedade do ensino de português e costumes cristãos, a alteração dos aldeamentos em vilas, a proibição da escravização e o incentivo de casamentos entre colonos brancos e indígenas. Frente a isso, muitos acabaram adaptando suas formas de vida ao catolicismo e a cultura imperial, em prol de sua própria sobrevivência. Pouco a pouco, os nativos do Aldeamento de Pinheiros se miscigenaram a ponto de não em poucas gerações não existir sinal de sua existência por ali, apenas uma pequena comunidade que, no início do século XVIII, contava apenas com 21 homens e 24 mulheres. Segundo as anotações do botânico e viajante francês Auguste de Saint-Hilaire, que passou pela Vila de Pinheiros em 1819: "não existe mais nesta aldeia um único descendente guaianás. A população foi renovada e aniquilada".
Importante dizer que, apensar da triste história de dominação e aniquilamento dos povos que habitavam o território durante o período colonial, hoje os povos originários do Brasil – que contam atualmente com cerca de 305 diferentes etnias – continuam resistindo e lutando pela preservação e respeito de seus modos de vida. Além de resistir, os povos originários existem não apenas em suas comunidades e reservas, mas também no tecido urbano, basta observar. Hoje a população indígena no Brasil – apesar de suas dificuldades – segue crescendo e se configurando como o principal grupo que luta pela proteção da natureza frente a preocupante perspectiva de futuro que enfrentamos.