⚡️ POV I : não é bem culpa, é... algo a mais.
Entre o misto extenso de coisas que sentia naquele dia, o garoto poderia apontar os três que se destacavam: incerteza, preocupação e medo. O peso da conversa com sua mãe ainda caía sobre seus ombros e ter escondido o real motivo da cabeça cheia no meio da missão deixou um amargo na língua, como se fingir que algo não aconteceu fosse o suficiente para que ele nunca viesse a ser um tópico de conversa ou de puxões de orelha, talvez até de uma expulsão - mas sequer sabia se o que lhe preocupava havia ocorrido de fato.
O moreno permaneceu em silêncio durante todo o caminho até o local remoto, acompanhado da presença de sua mãe e um agente responsável pela locomoção. Encarava o céu parcialmente nublado com desânimo e reagia aos comentários aleatórios com pouco ou nenhum entusiasmo, os olhos acompanhando a paisagem verde conforme ela passava rápido pelo vidro. Os suspiros soltos eram incontáveis e teriam se estendido por mais tempo se não fosse a chegada ao local de destino: uma floresta num lugar qualquer, longe de tudo e todos, sem forma alguma de contatar os outros e apenas com a companhia de sua mãe. Ela dizia algo sobre responsabilidade e sobre conexão com os elementos enquanto caminhavam para fora do veículo e seguiam uma certa trilha até uma corrente de água em meio às árvores.
Era evidente o abalo psicológico em Inpyo e a razão parecia cada vez mais e mais ridícula quando ele parava para refletir e talvez fosse mesmo, mas precisava repensar cada uma das situações para ter certeza do que acontecera. Suspirou, seu único pensamento girando em torno de como “ter a mente observada seria quinze vezes mais fácil”, mas sabendo que não escolheria aquela opção mesmo que ela fosse a única por medo de descobrirem mais do que desejava sobre seus pensamentos.
No fim, recebeu instruções de sua mãe que preferiu observar de longe aquilo que deveria ser seu treinamento: reflita. Preferia ser chutado de um penhasco do que ter de fazer aquilo ao ser observado por aquela que, pouco antes, lhe falou duras verdades. — Não tenho muita outra opção, não é? — O corpo deslizou para baixo ao se aproximar do riacho e logo estava estirado sobre a grama e a terra, parte do braço para fora enquanto a mão entrava na pequena correnteza por falta do que fazer. O Bae fechou os olhos e pensou, lembrou do dia antes da missão e do que havia feito de errado: o uso despreocupado de seus poderes. O que lhe deixou com a cabeça fora do lugar foi a presença de uma criança, um único garotinho que provavelmente estava com o olhar virado para a pessoa errada e na hora errada.
Não tinha o que fazer sobre o que já havia passado, não tinha o que dizer sobre o acontecimento ou se redimir sobre algo que não tinha plena certeza. Deveria mostrar algum tipo de redenção sobre o modo que agiu, talvez? Não era correto deixar erros interferirem em resultados, não era correto se distrair e agir igual um merda depois disso; e sabia de todos esses pontos. — Eu sei que minha reação foi exagerada, não era o que eu queria. Não imaginei que um descuido de poucos minutos daria nesse resultado, até porque geralmente não é tão sério assim. — Precisava mesmo falar? Não sabia. Sentiu que colocar as coisas para fora poderia ajudar no entendimento de sua mãe e, provavelmente, dos outros que iriam ler aquele relatório. — Mas dessa vez foi sério, então sei que preciso repensar umas coisas aqui e ali. Espero não ter que ser específico. — Entre uma pausa para pensar e outra, recebia comandos de sua mãe que pareciam já ter sido programados por algum dos agentes para testar como reagiria. Seu emocional permaneceu basicamente estável desde o acontecido, mas não de um jeito positivo - e isso afetava no desempenho de seus poderes, só não tinha noção do quanto.
Tagarelava com sua mãe conforme pedia desculpas e especificava os motivos de ter agido de tal forma durante a conversa e, a todo momento, tentava se mostrar arrependido e que estava mesmo tentando caminhar para uma versão menos explosiva e menos egoísta de si, mas não sabia quando apresentaria essas melhoras ou se seria forçado a mostrá-las. Cada vez que era ordenado a usar um de seus poderes o resultado saía com segundos de atraso: soltar raios pela mão que não estava em contato com a água, testar seus reflexos mesmo deitado entre um comando e outro, manipular pequenas massas de ar pelo máximo de tempo possível num mesmo tamanho e coisas que pareciam tediosas ao ver do moreno.
Chegou num ponto de desabafo em que não foi mais possível esconder a culpa ou o desapontamento de seus resultados, mas o que realmente influenciou nos resultados que esperava foi aquele que mais tinha peso: o ódio que sentia pela derrota. Inpyo sempre detestou perder não importa o que fosse e não importa como fosse; o fato de ter sido o único culpado por isso tinha um impacto mais forte ainda. Ao remoer o acontecimento durante o uso de seus poderes, aconteceu algo não antes observado durante o uso daquela mesma habilidade; aos poucos surgiram nuvens tempestuosas nos céus onde o garoto parecia se concentrar bem no centro da espiral formadas por elas, a inquietude sendo transformada em raios e trovões acompanhados de uma ventania desconfortável - e era como se o garoto tivesse se desligado do mundo.
“Bae Inpyo, já chega. Terminamos por aqui, você já explicou o bastante.” Sua mãe pareceu mentir, não havia explicado nem metade porque não sabia como explicar, mas foi o suficiente para chamar a atenção do filho que carregava um semblante fechado. Ficaram ali por mais alguns minutos para ter a certeza de que aquele princípio de tempestade iria se dissipar e, após a finalização dos testes, a única certeza que tinham era que o temperamento do rapaz precisaria ser polido… de novo.












