Eu ergui muros que pudessem me proteger de tudo o que se tornou o mundo: um lugar onde a sinceridade não existe mais. Ou você trai, ou você é traído; ou você congela seu coração, ou alguém vai despedaçá-lo por motivos fúteis. O problema é que não se deve apenas congelar o coração - e sim arrancá-lo de do corpo e queimá-lo.
Quando meus olhos encontraram os seus, meses atrás, eu senti que toda a minha resistência iria embora. Ver você correndo, só de top e shorts, com a maior inocência, fez meus braços relaxarem e eu imaginei se seria capaz de colocar tudo em risco por alguém. Eu lutei todos os anos da minha vida para me manter ileso ao caos que se tornou a sociedade. Você nasceu linda, e foi criada com uma cultura diferente da minha - o amor é uma doença. Enlouquece e apodrece por dentro. Ele promoveu guerras e a falta dele fez as pessoas mais contaminadas cometerem suicídio. Na Selva, isso não passava de baboseira. Sempre foi muito difícil para as pessoas de lá explicaram a sensação de sentir amor. Era errado, e mesmo assim optaram por senti-lo. Entretanto, desistir de uma vida nunca foi fácil. Abandonar tudo e ir cruzar a fronteira - que separa os válidos (aqueles que acreditam que o mundo está melhor e mais seguro sem o amor) dos inválidos (a resistência à ditadura de ao completar 18 anos se submeter a uma cirurgia no cérebro que promete a cura para o amor) - é algo perigoso, é viver sem regras e lutar pela sobrevivência, é não ter água quente para tomar banho; é não ter água. Mas, com o passar dos anos, os inválidos ganharam força. Fizeram da resistência um grande grupo elaborado com um único objetivo: acabar com a cura. O amor é alçar voo em meio à confusão do chão.
E então, Lena, eu vi você de novo. E de novo. Você, que contava os dias para sua cura, não sabia ao certo qual era seu sentimento por mim. Conversar com um homem curado (a resistência se infiltrou na sociedade e com alguns documentos falsos me tornei curado, ble) não era proibido, mas eu sentia o medo em seus olhos ao me encontrar na praia, ao nadar comigo... e quando eu me abri, contei a você sobre a Selva, sobre os inválidos, sobre minha falsa cura, você correu. Correu mais rápido do que você costumava quando eu te espiava nas suas corridas matinais. Fiquei sem te ver por um longo tempo. E tudo o que passava na minha cabeça é que não valia a pena me arriscar tanto assim... me apaixonar por alguém que estava prestes a arrancar metade do cérebro e se tornar frio, sem sentimento algum. Só que é isso que o amor faz: tirar toda a sua consciência. Eu não ia desistir de um par de olhos tão profundos, de um cabelo liso, preto, macio, e um corpo e de um coração que ainda batia. Eu já amava você.
A tortura não era tão dolorosa. A gente se acostuma com a dor e quando ela vai embora o vazio é mais agonizante ainda. Eu estava acostumado com a ideia de viver para a resistência, de morrer em paz sabendo que depois da guerra as pessoas poderiam sentir o amor. Mas... você me despertou do meu estado de repouso. Eu lutei e te encontrei em uma festa proibida que até hoje não sei o que você estava fazendo lá. E assim que eu te tirei daquela confusão, levei você para um abrigo, e te beijei... eu soube, Lena, que a resistência não pode ser dura como os válidos são. A resistência nasceu do intuito de poder sentir. E a gente se amou.
Fugir não estava nos meus planos. Às vezes eu visitava a Selva, e um dia eu te levei comigo. Você gostou. Implorou para que fugíssemos. Soube, enfim, que tudo o que aprendeu na vida era controverso: como afogar o amor? Como viver sem sentir mais nada? Depois da cura, tudo o que se costumava fazer antes é meio esquecido, meio deixado de lado. A rotina é o que as pessoas seguem. Não há como furá-la, o curado acorda, come, vai ao banheiro, é casado com outro curado que o governo escolheu e volta a dormir. Lena, dias antes da sua cura, nós fugimos. E tudo deu errado. Enquanto eu acelerava a moto e você apertava minha cintura, brotavam mil policiais atrás de nós, com sede de sangue. Do nosso... E eu já não tinha mais meu tato. Menti para você e te fiz saltar e correr o mais rápido possível, atravessar a cerca que já não estava mais eletrificada e te prometi que estaria bem atrás. Mas então quando você me olhou, do outro lado, sem ter movido um centímetro e já coberto de socos e algemas e policiais, eu disse corra. Você obedeceu.
As paredes são grossas e a Selva está longe. Visualizo seu cabelo batendo nas suas costas o tempo todo... estou com saudades.