Eu entendo porque tu acha chocante eu não querer ter filhos. Sempre gostei de crianças, sempre enchia teu saco pra ir na tua casa ver teu irmão. Eu gosto de crianças - amo, na verdade. Mas criar uma requer devoção e um tipo de altruísmo que eu não tenho. Tu sabe como eu adoro cigarros, adoro ficar bêbada e adoro ser livre. Isso não combina com filhos, e acho que tu não percebeu que não combinava com casamento também. Eu sabia que não tinha futuro. Eu sabia que a gente duraria um verão, e depois eu iria pra praia sozinha ouvir o barulho das ondas. Mas eu te quis um pouquinho mais, só mais uma semana, só até o inverno, e aí já era frio demais pra perder teu calor. Já havia muito de mim em você e a tua roupa já tava no meu armário. Minha mãe te conhecia, mostrei tua foto pro meu pai pelo skype e ele sorriu, todo orgulhoso. E também tinha o jeito que tu me olhava, como se eu tivesse prazo de validade. O jeito que tu me beijava, como se eu fosse de vidro. O jeito que tu pegou minha mão naquele dia horrível e não me deixou olhar pra trás de jeito nenhum, cuidou de mim quando eu não era eu mesma. Quando eu te xinguei de tantos nomes que minha garganta doía pelo esforço e tu ficou um mês sem me ver. E eu não falei mais. Não sorri mais. Era verão de novo e eu queria distância do sol e da areia. Queria distância das coisas que me faziam feliz porque todas elas encontravam um jeito de se relacionar a você. E teve aquele dia que minha mãe te ligou porque eu fiquei doente e tu entrou na minha casa como se fosse furacão, não hesitou em me abraçar naquela cama malfeita e quente. Encostou a cabeça no meu ombro e disse que nunca mais iria embora. E eu chorei porque eu sabia que você não ia. Mas eu fui.
Me desculpa. Porra, me desculpa.












