"Como nós jogamos basquete na Argentina", por Luis Scola
Para realmente entender a minha história e como a seleção argentina se formou, você precisa entender como os argentinos viam o basquete nos anos 90. Ele era apenas um esporte alternativo ao futebol, um esporte praticado pelo bem da variedade. A pressão cultural sobre a seleção de futebol é gigante - para se ter ideia, quando a Argentina perdeu na final da Copa do Mundo de 2014, as pessoas se comportaram como se aquilo fosse uma tragédia. Eles eram os segundos melhores do mundo e isso não era suficiente.
Para o time de basquete, a expectativa é completamente diferente. Um dos primeiros grandes torneios que o nosso jovem grupo participou foi o classificatório para os Jogos Olímpicos de 2000, em Sidney. Nós não conseguimos a classificação, mas chegamos bem perto. Em casa, o pessoal estava tipo, "Caramba! É incrível que vocês tenham ido tão longe!" Nós éramos muito bem recebidos. Era essa a realidade da expectativa das pessoas quando se tratava de basquete na Argentina.
Em 2004, nas Olimpíadas de Atenas, a gente sentia que um objetivo realista para a nossa equipe era estar entre as doze do torneio. Era tudo o que a gente queria. Chegar lá era a conquista mais alta que podíamos imaginar. Ganhar a medalha de ouro estava fora de questão.
A gente chocou o mundo.
Meu pai jogava basquete semi-profissionalmente. Quando eu era criança, eu achava incrível que ele ia pro seu trabalho no banco por 7 ou 8 horas, voltava pra casa para nos ver e então saía para treinar às 9h, 10h da noite. Ele viajava pelo país inteiro para participar de campeonatos, jogando contra times de pequenas cidades em áreas remotas da Argentina. Ele ganhava um dinheirinho, mas esse não era o motivo pelo qual ele jogava.
Ele amava o jogo tão intensamente que era contagioso. Ele praticava o que eu chamo de "verdadeiro basquete" - o que significa que ele jogava apenas porque amava o esporte.
Foi uma questão de tempo até eu começar a jogar. Eventualmente, a gente colocou um aro na nossa garagem.
Arremessávamos ali e fazíamos exercícios na calçada. Isso pode soar normal pra maioria das pessoas dos Estados Unidos, mas na Argentina, nos anos 80, as pessoas olhavam pra nós como se fôssemos malucos. O futebol é o esporte nacional da Argentina, mas o basquete se tornou a grande forma pela qual eu me conectei com meu pai.
Havia um empecilho, porém - a TV a cabo ainda não estava disponível na maior parte da Argentina no fim dos anos 80 e começo dos 90, então não havia como assistir aos jogos da NBA. Então, nós tínhamos que ser criativos.
Nós comprávamos fitas antigas de VHS. Fitas compradas nos Estados Unidos e que alguém tinha trazido pra Argentina para vender. Era como um bazar da TV Americana. Mas isso foi até a TV a cabo chegar no nosso país e mudá-lo pra sempre.
O ano era 1992, e o Chicago Bulls estavam nas Finais contra o Portland Trail Blazers. Meus amigos e eu ficamos fascinados - assistir às finais daquele ano foi o começo da relação da minha geração com o basquete. Mais e mais, o basquete servia como uma alternativa ao futebol - ainda não havia muitas pessoas que o praticavam, mas era visualmente bonito, da mesma forma que o futebol é - o passe e o movimento fora da bola. Isso ajudou a criar interesse.
Futebol é o esporte nacional e sempre será. Nada jamais o tocará - o basquete nunca chegará perto, mas ele se tornou o irmão competitivo mais novo.
E, como argentinos que jogam basquete, nós temos algumas coisas que nos beneficiam:
Antes de mais nada, basquete organizado é a única forma de se jogar basquete por aqui. Não existe três contra três, um contra um, jogo de meia quadra na Argentina. Só existe cinco contra cinco quadra inteira - o jogo é coletivo desde o primeiro momento que você o joga. O resultado dessa abordagem é perceptível desde as nossas categorias de base até a nossa seleção.
Segundo, e mais importante, nós somos apaixonados. E eu não quero dizer, "Eu amo vencer e fazer mais de 40 pontos e ser o melhor jogador da quadra" - essa é a parte legal e que qualquer um gostaria. Ser bom nos esportes é muito legal. Mas são os momentos que não são legais que são os mais importantes para o crescimento, e os argentinos são apaixonados pela evolução.
Tendo jogado mais de vinte anos profissionalmente, o jogo me levou pra todos os cantos do mundo. Eu tive momentos de muito orgulho na NBA, mas quando eu falo sobre a minha carreira, o triunfo da seleção Argentina em 2004 se sobressai a todo resto.
Os Estados Unidos nunca tinham perdido um jogo olímpico com os atletas da NBA. Nós sabíamos o que iríamos enfrentar. Mas nós tínhamos o grupo que estava jogando junto há uma década: Manu, Nocioni, Delfino, Oberto, Pepe Sánchez, Walter Hermann e todo o resto.
Em 2004, nós estávamos mais velhos, mais fortes. A gente não só achava que tinha a chance de vencer os Estados Unidos - a gente sabia que podia vencê-los. Eu sempre vou me lembrar como a gente se sentiu quando entrou na quadra. Eu me lembro de como estava a atmosfera do vestiário.
Os Estados Unidos esperavam vencer. Mas nós sabíamos que iríamos ganhar. Ninguém no nosso time tinha dúvidas sobre qual seria o resultado.
Aquele jogo, que era a semi-final olímpica, não era como nossos jogos anteriores, nos quais a gente sabia que tinha uma chance, mas que a maior probabilidade era a derrota. Como espectadores, nós havíamos visto tantos outros times quase vencerem dos EUA, mas perderem no fim.
Nesse dia, quando chegou a hora do Nocioni ou do Manu converterem chutes importantes, eles acertaram. O Manu terminou com 29. Nós passamos a bola incrivelmente bem. No momento que os outros times tinham hesitado, na hora de fechar o jogo que é quando os Estados Unidos jogam melhor, nós jogamos com a mesma paixão e ferocidade com a qual havíamos começado o jogo.
Uma coisa que foi difícil de lembrar na época, eu preciso admitir, é que a gente ainda tinha que vencer outro jogo pra conquistar o ouro. A gente tinha ganhado desse time teoricamente invencível e, naquele momento, a gente não tava de fato lembrando que a gente ainda tinha mais coisa pra fazer.
Mas você provavelmente se lembra de como tudo terminou.
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Este texto foi escrito por Luis Scola em 2017 para o "The Player's Tribune" e não foi traduzido em sua íntegra aqui (por incrível que pareça, rs). Eu, André Cavalieri, selecionei e traduzi os trechos que você leu por aqui. Espero que tenha gostado.
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