Sonoluminescência.
Ela resmunga sobre o sono e encosta a cabeça em meu ombro. Por um momento penso em afagá-la ou, quem sabe beijá-la, mas noto que no momento o sono é maior que isto.
Acomodo-me de modo a ser o mais confortável a ela, começo a respirar o mais devagar possível, quem sabe respirando lentamente, arremedando-a, ela consiga repousar. Fracasso: torno-me barulhento, o alento brando não consegue suprir as necessidades de um coração acelerado.
Ofereço colo, uma maneira mais confortável para dormir e enquanto velo o seu sono tento me desligar também. Meu coração ladrava, mas ali ela não sofreria com os sons deste órgão barulhento que se abalava com o carinho alheio e a aproximação dela. Sempre fora assim, pensando bem, já fora até pior. O fato é que já nascera defeituoso: "Sopro no Coração", alguém apontou;
Quando pequeno a ideia me assombrava, afinal, minha mente inocente não conseguia entender a ideia de ter um ar no coração e nem o que aquilo poderia fazer comigo. Brincava com garrafas, imaginado se o sopro do coração seria igual o ar embalado junto ao líquido. Quem sabe poderia ser possível sentir o ar passando por mim caso eu ficasse de ponta cabeça.
Torno-me travesseiro. Ela se ajeita em mim e faz com que o sofá pareça mais confortável do que realmente é. Sua boca entreaberta me faz sorrir. Tenho que confessar: acho-a charmosa até dormindo. Contenho o desejo de dedilhar os seus cabelos, pois seu sono frágil se romperia. Contento-me em cantarolar baixinho alguma musica de Luiz Tatit, como sempre faço quando ela não esta atenta, "A Companheira", "Os Três Sentidos", quem sabe aquela do Maurício Pereira que gosta e tanto a lembra. Ela respira tranquila, ignorando os ruídos provenientes do canto e da televisão. Abaixo o volume.
Ruído.
Alguns anos depois descobri que o tal do sopro cardíaco era na verdade um "ruído" causado por algum mau funcionamento ou coisa parecida, não sei bem. Quando criança sabia menos ainda. Comecei a procurar ouvir meu próprio coração, não no sentido poético do termo, apenas queria saber como era a desafinação dos meus ventrículos e artérias.
O ruído caiu bem na minha adolescência, período onde me sentia normal com minha condição, afinal todos à minha volta eram igualmente barulhentos.
Meu defeito se tornou escudo, resposta fácil para todos os problemas: era tudo culpa do meu coração ruidoso, que se amplificava com a taquicardia adquirida sabe-se-lá de onde.
No fundo me divertia ligando instrumentos musicais e distorções para tentar jogar no mundo um pouco do ruído com o qual eu convivia.
A lembrança me tira um sorriso e ela se mexe, ameaça acordar. Prendo a respiração por um instante. Logo ela acordará, levantará e agirá como se nada tivesse acontecido - Não sei como alguém pode ter tanta energia dormindo tão pouco, coisas da modernidade. Quem sabe nascera com economia de energia. Quiçá já acordou e esta só curtindo o momento. Nossas respirações estão em um mesmo ritmo, da mesma maneira de quando a conheci.
Aquela pessoa que vinha com uma frequência particular, que me dava vontade de aproximar e puxar para dançar mesmo que eu nem saiba dançar, e mesmo que não pudesse dançar. Éramos dois mancos nos entreolhando, fingindo silêncio e nos negando voltar a ouvir ritmo em meio à cacofonia.
Às vezes acho que ela também trazia consigo um ruído no peito, não apenas pela confusão que me era similar, mas pelo abraço: toda vez que os braços dela me envolvem nossas frequências ruidosas se juntam, uma combinação em dulcíssono que faz com que tudo o que esteja ao redor se torne desimportante, inexistente; e nada mais perturba.
Ruído branco.
Ela abre os olhos, se estica toda.
Dormiu bem?
Ela me responde positivamente e eu sorrio. Ela é linda. Abro meus braços, armo um abraço e nós sumimos um pouquinho.












