◃🍒⌇ Na famigerada lista de pessoas que David Cho valorizava mais que sua própria vida, era óbvio que o primeiro nome era Florence. Mas, logo em seguida, vinha o avô paterno; justo quem tinha lhe presenteado com o carro, mas obviamente não por isso. Desde muito novo, ele era absolutamente louco pelo avô que, junto com a avó, pareciam as únicas pessoas que ouviam sua voz e a aceitavam sem tentar impor os próprios pensamentos nele. Era tudo o que ele queria dos pais e jamais conseguiu. E, é claro, seu avô era igualmente doido pelo primeiro neto e o único garoto entre as meninas. Apesar do loiro ter uma relação horrível com os pais, a dele com o velho não tinha mudado nadinha com o passar dos anos, porque... Bem, ele não fazia ideia de que David tinha virado um delinquente, pra dizer o mínimo. E uma doença no coração já fragilizado pela idade era mais que o suficiente para que ninguém se atrevesse a contar. Para todos os efeitos, quando ele estava na cidade, o herdeiro dos Cho realmente era um primor de rapaz, mal saía de dentro de casa, se cercava de livros e de roupas alinhadas e elegantes, até dava um jeito na desordem de seus fios loiros e voltava a usar os óculos de grau, normalmente esquecidos porque não adiantava de nada corrigir a visão se o álcool ainda a mantinha embaçada. E por mais que soubesse que seu avô tinha orgulho de uma mentira, preferia isso à desiludi-lo com a verdade cruel. Faria qualquer coisa para deixar aquele velho feliz.
◃🍒⌇ Dentro do grande leque de coisas que eram incluídas no pacote “fazer o velho feliz”, cozinhar era uma delas. Tinha aprendido a fazê-lo bem cedo, inclusive, por curiosidade própria e influência da mãe, mas obviamente mal chegava perto de um fogão nos dias de hoje, preferindo se entupir de fast food ou qualquer tipo de delivery disponível. Só seu avô merecia que ele se desse ao trabalho; e era por isso que estava tão revoltado com aquele convidado surpresa para o jantar. Veja bem: por uma coincidência do destino, no dia anterior, Kiho tinha ido bater na porta de casa para falar com seu pai - provavelmente fazer alguma cobrança à mando do pai de Nikita - e isso acabou resultando em David lhe apresentando ao velho. E a um convite para que ele voltasse lá na noite seguinte, porque “meu neto vai fazer o jantar e ele cozinha muito bem!” - que Myungho obviamente aceitou porque jamais perderia tal oportunidade de uma zoação futura. Pois bem. Agora ele estava na cozinha, sentado à beira do balcão de mármore enquanto assistia David ir e vir entre o fogão, a bancada e a geladeira, lhe lançando olhares quase assassinos no meio tempo. ㅡ Eu não acredito que tô me prestando ao papel de cozinhar na sua frente enquanto tu fica me vigiando com esse sorriso estúpido na cara, Kiho. Porra. As coisas que eu faço pelo meu velho... ㅡ Resmungou, uma careta quase permanente no rosto, aproveitando que o avô estava com Diana na sala de jantar para voltar a falar uns palavrões. Terminando de temperar uma porção de batatas fritas, seguiu até o balcão, colocando o pote de vidro de maneira grosseira na superfície e se escorando ali, bem de frente para o mais novo, os olhos estreitos em sua direção conforme se aproximava. ㅡ Espero que esteja muito ruim e que você morra de indigestão. ㅡ Sussurrou, soando quase ameaçador, não fosse o sorriso discreto brincando pelo canto dos lábios e o fato de tê-los unidos ao de Myungho logo em seguida, num beijo curto e casto demais - mas preferia não abusar da sorte, não na casa dos pais. Apenas sugou levemente o ínfero alheio antes de se afastar, roubando para si uma ou duas batatas fritas antes de voltar a cuidar das panelas no fogão.