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Imagino que a minha caixa torácica é a minha prisão. Os cabelos desgrenhados, a roupa amarrotada. É ali que eu vivo. Eu. Eu de verdade. Eu. Não essa reprodução sem vergonha do que deveria ser eu. Sem cor porque sem luz, sem luz porque nada está ligado. Nada. Falta energia. E falta razão. Não se acende uma luz a não ser que se queira ver. De todo modo, eu estou lá. Presa. É uma armadilha, é claro. Eu poderia quebrar a casca desse ovo imenso com cheiro de enxofre, por que não? Cascas são frágeis. Eu poderia nascer. Eu poderia ter energia o suficiente para iluminar a minha vida. Só a minha. Não quero ser um holofote. Uma luzinha de emergência é só o que eu peço. Eu poderia. Não poderia? Não. É uma armadilha. Os punhos apertados em um nó de angústia e raiva e solidão. Dou um passo adianta. Com cuidado, muito cuidado. É preciso cuidado pra fazer essas coisas. Então, dou o outro. O outro passo. Ainda estou de pé, os punhos alinhados. Só o que eu preciso é socar a bosta da casca até que ela se abra. Eu sei o que fazer. Não é tão difícil assim. Mas é. No próximo passo eu escorrego. Escorrego no óleo na gosma na meleca que me cobre e cobre toda essa casca essa prisão essa caixa torácica. Eu escorrego e então eu sou aquilo. Sou parte daquilo. E eu não consigo levantar. Não porque eu não queira. (Vocês precisam entender essa coisa de querer. Eu não quero cair. Eu nunca quero. E eu não quero ficar esparramada feito um espantalho que a chuva derrubou. Patética. Triste. Impotente. Eu não quero. Mesmo que eu queira, eu não quero. Se eu quero é porque me fizeram querer. É porque eu não posso não querer. Eu não quero querer. Vocês entendem? Eu espero que sim. Avante.) Se eu não levanto é porque. A cada. Movimento. Escorrego. E caio. Agora, aqui (com a cara na gosma, a gosma na boca, a língua áspera, cada parte do meu corpo afundada nessa merda nessa coisa, que não deixa de ser confortável, ah como é, tão familiar no meio dos meus dedos, um casulo úmido protegendo a minha pele) lembro de quando cheguei até a casca. Lembro de toca-la. Lembro do espanto. Lembro da felicidade. Da euforia. Lembro de sentir cada lugar escuro e esquecido e desconhecido das minhas entranhas querendo sair. Sair. A luz. Fiquei ali. Parada. Quieta. Sem querer respirar. Fiquei ali. Sentindo. Prevendo. Como seria estar lá fora? Como seria ser de fato? Como seria tomar posse do que é meu por direito, de nascença, de sempre para sempre? Fiquei com raiva. Eu sinto raiva, muita raiva, sempre. E eu soquei a casca com toda a minhas angústia e a minha solidão e a minha raiva e a minha tristeza E só o que eu consegui foi Cair. Chorei por três meses. Alaguei minha caixa, minha prisão. Quase me afoguei. Por mais três meses fiquei à deriva na minha própria tristeza. E então. Nada. Por muito tempo nada. O nada é constante por aqui. O nada do nada. Porque até mesmo nada é alguma coisa, pelo amor de Deus. E então, deve ter sido ontem ou anteontem, quem pode saber, eu senti de novo. A necessidade, a raiva, a vontade de sair. Eu preciso sair. Eu preciso ver como é que as coisas são com os meus olhos. Meus próprios olhos. Até quando? Por quanto tempo dá para viver presa dentro do corpo, vendo sentindo comendo com outros olhos e outro corpo e outra boca? Até quando dá para viver como alguém que não se conhece?
C.L