«Os brasileiros sempre iam salvando a Caparica e naqueles dias entregou-se a quantos corpos podia. Com uns deixava-se quase currar, com os outros dominava. Espantava-a sempre aquela entrega tão falsa e tão verdadeira daqueles homens que eram especialistas em criar intimidade numa foda esporádica de fim de tarde. Eram bem-dispostos e prazenteiros, tinham à-vontade com o seu corpo e nunca nada podia correr mal porque todos os fiascos tão normais na foda única eram encarados com a maior das naturalidades. Mas passados alguns dias a chupar caracoletas com manteiga nos karaokes do parque de campismo apercebeu-se da tragédia em curso. Os sítios mais populares da Caparica estavam já tomados pelos franceses ricos que passavam vestidos de linho e cestinho no braço a caminho da praia. Era uma questão de muito pouco tempo, percebeu, para que da Fonte da Telha e da Cova do Vapor expulsassem todos os pescadores, bailadores de techno, bebedores de vodca e comerciantes de crack. Que pensavam os franceses de tudo isto? Talvez que se fodam os mitras que vão para a puta que os pariu, ou talvez não, talvez apoiassem até a associação de protecção dos locais. Mas o que era facto é que havendo uma diferença tão abismal, de 'argent', entenda-se, o conflito era inevitável e depois das ofensas não haveria mais pruridos em exterminar os mitras, prendê-los, ou mais simplesmente pôr a presidente da câmara a deitar-lhe as casas abaixo alegando o PDM e as alterações climáticas. Que belo sítio, que vista bonita, nunca tinha reparado, diria a presidente na esplanada das francesas jovens onde aprendeu que chupar caracoletas e intercalar com golinhos de vodca é até bem saboroso.»
— Manuel Bivar, in Os Mamíferos, As Aves e Os Peixes, ed. Língua Morta, 2022, pp. 137-8.