No último fim de semana de Junho o ilícito marcou presença na 10ª edição do Festival MED. Seguem-se algumas imagens dos dois dias do evento, cortesia do fotógrafo ilícito, Mário Cunha.
Sabe-nos bem voltar às estreitas ruas da velha Loulé. É um sentimento diferente, aquele que nós dá um festival também ele diferente. Ano após ano calcorreamos as desniveladas ruelas de calçada, num recinto que parece pequeno, mas que não o é na realidade.
Acantonadas entre o icónico mercado, a Igreja Matriz e as resistentes pedras que em tempos davam forma a um castelo, milhares de pessoas fazem do Festival MED uma experiência.
Mais de uma mão cheia de palcos, um ambiente acolhedor e música para todos os gostos num cartaz repleto de diversidade. Tem sido este o plano de jogo da organização do MED ao longo dos dez últimos anos e, como diz o ditado, em equipa que ganha, não se mexe. Este ano não foi diferente.
A primeira década de músicas do mundo em Loulé teve algumas oscilações, alterações de detalhes e as obrigatórias afinações da máquina, mas o balanço só pode ser positivo, mais não seja pela criação de uma marca distinta no que toca a eventos culturais por terras algarvias.
A organização do evento faz com que no espaço de nove horas seja possível a qualquer um – com algum jogo de cintura e frescura física à mistura – ouvir os mais distintos estilos musicais. Da música clássica ou jazz que por norma abrem as hostes quando o sol ainda não desceu da linha do horizonte, ao rock e blues que recebem a noite de braços abertos. O final da festa fica, por norma, a cargo da mãe África e da sua diáspora, com ritmos e batidas indefensavelmente infecciosos, numa alegria de viver que algumas vezes só a música nos parece dar.
Com um cartaz composto por nomes menos sonantes do que em edições anteriores e um dia a menos para se fazer a festa, o MED mantém ainda assim a sua força em toda a orgânica envolvente do festival.
Para os visitantes, um dilema se levanta deste logo: ver um pouco de todos os concertos, ou ver alguns concertos do principio ao fim? A resposta define desde logo a experiência de cada um. Na parte que toca ao ilícito, este foi um ano diferente. Depois de muitas edições em que a primeira opção nos pareceu sempre a mais correcta – afinal reportar os concertos é prioridade – desta feita optámos por viver um pouco mais o ambiente do MED.
A comida, a bebida, o convívio. Três elementos importantes e que são não raras vezes esquecidos em detrimento da música, quando para muitos se torna mais relevante percorrer as vielas entre os muitos palcos disponíveis para fazer valer o preço do bilhete.
Esta escolha fez desde logo com que perdêssemos alguns concertos nas duas noites, pelo que desde logo fica aqui a nota. Eles que nos perdoem, mas – com muita pena nossa – não estávamos lá para Samuel Úria, não vimos Tulipa Ruiz, ouvimos de longe Sílvia Perez Cruz e nem vislumbrámos Cuca Roseta.
Na primeira noite, sexta-feira dia 28, saímos de lá com a doçura da música da angolana Aline Frazão. Sons que aquecem o coração, e que tornaram ainda mais agradável uma noite que se mostrava quente. Num festival com as características do MED, pode tornar-se difícil para o público abrandar o ritmo e sentir um pouco mais a música, ficando muitas vezes esta tarefa a cargo dos próprios sons. Aqui, o artista tem um papel fundamental, impondo a sua sonoridade e ritmo a todos os que estejam presentes na plateia. Foi exactamente isso que fez Aline Frazão.
A caminho de Dead Combo passámos pelo palco da Matriz, numa altura em que Miguel Araújo já fazia valer a força dos seus singles para o muito público que de propósito foi ouvir “a dos aviões” e “os maridos das outras”, como se dizia por entre os presentes.
No palco Castelo, já perto da meia-noite, Tó Trips e Pedro Gonçalves fizeram aqui que melhor sabem, tocaram rock n’ roll. Não são convencionais, nem são para toda a gente, mas o enclave do Castelo mostrou-se pequeno para tanta gente, como de resto viria a acontecer na noite seguinte com os Kumpania Algazarra.
Alternando entre sons mais pesados e baladas como «Ana Adamastor», o duo lisboeta não falhou na sua missão, numa noite em que Tó Trips esteve particularmente inspirado, tocando como quem dança abraçado à sua guitarra, distorcendo, riffando e quase destruindo a sua fiel companheira. Por entre os clássicos «Lusitânia Playboys», «Mr. Eastwood» e «Cuba 1970» houve ainda espaço para uma versão de Tom Waits, naquela que seria potencialmente uma colaboração abençoada pelos deuses.
Do Mali, Loulé ficou a conhecer Oumou Sangaré. Mescla de sons algures entre o tipicamente africano e melodias bem ocidentais como a soul ou o funk, Oumou parece não ter limites, dando a conhecer a sua música a um público que, arriscamos dizer, a desconhecia por completo. Longe de ser apenas mais um nome do contingente africano que anualmente vem tocar a terras de Loulé, desta senhora ficámos com a ideia de que podemos esperar coisas bonitas nos dias que aí vêm.
Por África ficámos ainda madrugada dentro, cortesia de Hugo Mendez “Sofrito”. DJ set com o berço da civilização no coração, não tão electrónico como seria de esperar, mas bem mais orgânico, samplando as batidas instrumentais para lhes dar nova vida. A alegria musical de África misturada com zeros e uns fechou a primeira noite do MED 2013.
Na segunda e última noite do festival, o lusco fusco foi passado ao som de Bad Luck & Trouble, trio algarvio de voz e guitarras, quando antes deles já The Burnt Old Man tinham tocado pela segunda noite consecutiva e a Orquestra do Algarve tinha trazido à vida as «4 Estações de Vivaldi» no interior da Igreja Matriz.
Com o recinto a encher a bom ritmo, os Dona Gi davam azo ao seu fado gingão para um público receptivo a um fado mais descontraído, longe das amarras que muitas vezes impedem o género de chegar a uma audiência mais alargado e porventura mais jovem.
Poucos minutos depois, do outro lado do recinto, Sílvia Perez Cruz encantava o público sentado – uma das poucas vezes que o vimos assim na história recente do MED – com a força da sua voz. Num tom tão depressa dominante como afável, a voz desta catalã é uma arma poderosa, ecoando nas paredes que envolvem a Cerca como a de uma sereia que nos chama para o fundo do mar. Não estivemos muito tempo a ouvi-la, mas nem por isso ficámos menos encantados.
Em relação aos Hedningarna, criatividade parece ser a palavra de ordem para este trio de suecos. Privados da sua gaita de foles, perdida algures nos porões de bagagens do Aeroporto de Frankfurt, para “os pagães” – significado do seu nome -, isso não parece ser problema. Munidos de uma série de instrumentos tradicionais, inclusive algo que mais parece a faca do Master Chief no épico Halo, mas que afinal se trata de uma jaw harp ou, berimbau de boca, em português. Esta variedade instrumental permite-lhes alargar os horizontes, fugindo ao redutor género de folk rock. Afinal, para eles o rock psicadélico não parece andar muito longe a dada altura do concerto.
Viragem à esquerda a seguir à Matriz e fomos cair no meio d’A Festa. Não é coisa oficial, mas eles que ponham a papelada em dia, porque os concertos de Kumpania Algazarra nunca são apenas concertos. São festas. Para eles, em palco, e para o público à sua frente. Em Loulé não foi diferente, e para esta rapaziada que parece ter saído de uma desconhecida aldeia dos Balcãs, mas que afinal é bem portuguesa, apenas isso parece interessar. A festa, a alegria, os saltos, as danças, a boa disposição. O palco foi demasiado pequeno para eles, e o recinto foi demasiado pequeno para tanta gente que quis fazer a festa com eles.
Tão grande foi a festa, que não estávamos na Cerca para ver Cuca Roseta apresentar «Raiz», o disco que acabou de lançar este ano e que tanta atenção lhe tem garantido. Ainda assim, e de acordo com as nossas fontes, muitos outros marcaram presença no concerto da fadista lisboeta.
Substituto mais ou menos de última hora para o muito antecipado Anthony B, Omar Perry tem a história do seu lado, ainda que não seja propriamente a sua história. Filho do mítico Lee «Scratch» Perry, uma das figuras maiores do reggae, Omar veio até Loulé sem grandes pretensões e com o intuito de puxar pela multidão adepta dos ideais do rastafarianismo, tudo isto com a força da sua música. Tendo por base o reggae roots, Omar aposta ainda assim forte no dancehall como linha directa para pôr o público aos saltos, como de resto acaba por ser o caminho seguido por muitas das vozes mais destacadas que o reggae tem para oferecer por estes dias.
Com o concerto do músico natural de Kingston a chegar ao fim, estava também cada vez mais próximo o final de mais uma edição do MED. Havia, no entanto, um último ponto de passagem antes da despedida.
Haverá, perguntamos nós retoricamente, algum projecto musical com um nome tão apropriado como aquele que foi criado por Pedro Coquenão?
Batida. Tão simples, mas ao mesmo tempo tão apropriado. O homem sozinho em palco, com a sua caixa de ritmos improvisada daquilo que parece ser uma antiga lata de óleo, com uma série de bidons à sua frente cuja cor se coordena com a batida da música. A força vem da batida, de uma África digital que o homem da Fazuma faz por dar a conhecer por esse mundo fora. «Bazuka» pode ter sido o seu pé a manter a porta bem aberta para o que aí vem, mas pelo que se viu na madrugada de sábado passado, a Batida ainda tem muito para dar a ouvir, e tem, acima de tudo, um público que quer dançar ao seu som.
No seu décimo ano, aquilo que começou como Festival de Músicas do Mediterrâneo é, naturalmente, muito mais que isso. É uma marca, é um evento da região, é uma festa popular com muito boa música. É um espaço de diferença, que anualmente é abraçado e apreciado pelo povo. Até para o ano.