Expressões insondáveis, lá estávamos nós. Observando um ao outro como se nunca houvéssemos realmente nos visto, como se nunca tivesse havido tempo para isso. E talvez não houvesse tido tempo, mesmo. Nem coragem, da minha parte. Nunca consegui manter nossas trocas de olhares por muito tempo; sempre quebrei-as, baixando o olhar e corando. Vergonha. Experimente olhar para o sol, sem pestanejar, pelo tempo de uma vida; essa é a sensação de olhar para você. Cega. Vicia. Aterroriza. Mas dessa vez foi diferente. Eu não pretendia quebrar a linha tênue que acabara de se criar entre nós. O silêncio perdurou, mas as perguntas não tardaram a chegar. Quanto tempo já fazia? Quando foi que eu deixei passar os detalhes? Coisas que parecem tão insignificantes em meio às situações cotidianas, agora me pareciam tão palpáveis. Tão necessárias. Como... o seu cabelo. Aparentava estar um pouco maior do que o usual – do jeito que eu sempre gostei. Quando foi que você deixou crescer? Ou será que ele sempre esteve assim, e eu nunca percebi? COMO eu não percebi isso antes? Me vi tomada por um impulso irracional de pular em você, bagunçar seu cabelo e me desculpar pelo egoísmo desnecessário e exacerbado – mas algo em sua postura me repeliu. Sua expressão era dura, e o maxilar cerrado (eu quase podia ouvir os dentes rangendo de leve, como que para conter as palavras) protegia-lhe da surpresa e do eventual choque causado pelo encontro repentino. Mas os olhos nunca me engaram; eles possuíam alguma espécie de brilho desvairado, típico de olhos que cobiçam o que não podem ter. Olhos intensos. Em brasa. Emanando calor. Calor que nem mesmo tua frieza poderia negar. Eles se moveram brevemente, esquadrinhando meu rosto. Esse tipo de análise, vinda de você, sempre me fez sentir meio... nua. Exposta. Eu sabia que você enxergava além do superficial; naquele momento, você estava penetrando não só na profundeza perigosa do meu olhar, mas também, no meu corpo, na minha alma e na minha mente. Contive um arrepio na nuca. Tentei bloquear meus pensamentos, de modo a não lhe permitir acesso a eles – você não podia saber a intensidade com a qual eu estava querendo-o naquele momento -, mas, como sempre, algo em minha expressão me traiu. Se eu não tivesse passado os últimos segundos encarando a sua figura ofuscante de Sol, eu não teria notado a ligeira arqueada na sua sobrancelha esquerda – nem o espectro de sorriso que perpassou sua boca por um instante. Coisa de momento. De um segundo infinitesimal, pra ser sincera. Me pergunto se foram os meus olhos que me traíram (exageradamente grandes, como se quisessem lhe devorar em toda a sua essência), ou os lábios (entreabertos, hesitantes, como sempre ficavam quando sedentos pelos seus). Ou talvez tenha sido a respiração. Na sua presença, eu raramente conseguia controlá-la; e, quando conseguia, você me roubava o pouco ar que eu tinha – não que você precisasse de mais motivos pra se vangloriar por isso. Instintivamente, as lembranças vieram. Vívidas, cálidas, num turbilhão que era quase uma possessão de espírito. Impossível que você não sentisse as ondas de magnetismo que emanavam de mim. E, naquele momento, eu fui sua. Só sua. Seu olhar vago, faminto (a brasa ainda queimando dentro dele) não me deixou dúvidas que você também pensava nisso, e que se encontrava tão perdido quanto eu, travando uma batalha interna que só nós dois poderíamos entender. E, por um segundo, você parecia ter se decidido por um dos lados da batalha – a brasa finalmente se dissolvera, assim como a tua expressão. E, naquele momento, você foi meu. Só meu. Pelo canto do olho, captei um gesto rápido da sua mão. Como um instinto, ela viria até o meu rosto, se o movimento não fosse interrompido. Mas foi. Tão bruscamente quanto quando começara. Poderia ter sido qualquer coisa, afinal – o afastar de uma mosca, uma ajeitada na manga da blusa, uma coceira interrompida. Poderia ter sido nada. Poderia ter sido tudo. E, este tudo, endureceu novamente. Suas mãos fecharam-se em punhos. Guardaram-se no bolso (comichando tanto quanto o meu peito). Um último olhar de brasa solidificada – mas que ainda me queimava -, vira-me as costas e sai. Sai como se fugisse de algo. E temesse isso. Como se eu tivesse me tornado o sol, e fosse doloroso demais manter os olhos em mim. Eu sei. Ali, você receou cegar. Viciar. Se aterrorizar. E, mais do que tudo, receou as palavras. As palavras não ditas, mas facilmente lidas no meu olhar. Incrustadas na minha mente. Impressas na minha alma.
Durante um segundo infinitesimal, você receou a prisão de uma vida.
Cega. Vicia. Aterroriza. Eu sei.