Persuasão carrega uma conotação de que a influência está relacionada a um convencimento negativo ou a favor de uma motivação com consequências favoráveis apenas para um lado. É uma imagem que desfavorece a palavra, referente a uma prática que já foi responsável por levar conhecimento e desenvolver criticidade para uma população.
Ainda que nos dias de hoje as informações possam ser produzidos e distribuídos por qualquer pessoa com os adventos das novas tecnologias, durante boa parte da história houve uma centralização do conhecimento. O acesso atualmente está maximizado com as buscas em rede, o que derrubou uma hierarquia que, ao longo dos séculos, privava as massas das suas sociedades de ter acesso a altos níveis de aprendizados.
Quando esses conhecimentos chegavam a população, eram tidos como verdades incontestáveis e que não tinham espaço para questionamento e reflexão. Divindades eram usadas para todo tipo de justificativa e explicação.
Tendo acesso a o que seria a estrutura social da Grécia no período de 400 a.C., é comprovado que a época contou com mentes que passaram a explorar a persuasão em prol do conhecimento. Técnicas de convencimento que ensinavam as pessoas a formular argumentos e contra-argumentos conforme interesses.
Um especialista nesse segmento era Górgias - nascido em Leontini, na região da Sicília - que fez parte da primeira geração dos sofista, por volta de 480 a 380 a.C.
Sua técnica estava relacionada com o uso das palavras para convencimento. A oratória e a retórica faziam parte das táticas de persuasão a fim de espalhar conhecimento. E isso não só em Atenas, onde começou suas práticas, mas por toda a região da Grécia por onde viajou.
Górgias fora criticado por outros grandes filósofos por defender com seus discursos pontos de vista que eram considerados demasiadamente subjetivos e paradoxais. Entretanto, para defender seu método Górgias afirmou: “O que parece a mim é para mim, e o que parece a ti é para ti.” Sua fala também se relaciona com a sua defesa de que a importância da retórica se dá para que não haja uma única pessoa como certa e detentora da verdade.
Seus fundamentos de retórica foram preservados em obras como: Sobre o Não-Ser ou Sobre a Natureza, O Elogio de Helena, A Defesa de Palamedes, A Oração Fúnebre, O Discurso Olímpico, O Elogio dos Elisinos, O Elogio de Aquiles, A Arte Oratória, O Onomástico.
E sua carreira esteve muito além de ensinar através da retórica, uma vez que foi convocado como embaixador de Atenas com o intuito de defender a cidade da invasão de Siracusa.
Não é à toa então, que ele tenha ficado conhecido como “o pai da sofística”.
Os seres humanos não conseguem viver isoladamente, uma vez que a necessidade de alcançar objetivos - inicialmente por sobrevivência da espécie - não é possível individualmente. Esse contexto é capaz de explicar a motivação de terem surgido as sociedades. Ao longo de nossas vidas, desenvolvemos um conjunto de habilidades para nos relacionar com os outros que nos cercam socialmente, de acordo com costumes e hábitos desenvolvidos. Assim, construímos o nosso jeito de ser e pensar intelectualmente enquanto cidadão e aprendemos a conviver com outras pessoas, das quais precisamos para desenvolver nossos projetos de vida. E por projetos, é possível fazer referência a objetivos mais complexos e específicos dentro do contexto de sociedade.
Desde o nosso nascimento, o convívio com outras pessoas pessoas fazem parte da nossa existência e com isso, aprendemos o poder das relações, suas importâncias, influências e necessidades. Relacionamo-nos por amizade, estudo, conhecimento, compartilhamento, e por afetividade - por exemplo - com uma infinidade de finalidades. Relações que vão das mais simbólicas às mais formais e contratuais. E o exemplo de uma das relações que consegue permear entre esses dois extremos são os casamentos.
A união matrimonial é um enlace que, no decorrer da história humana, já envolveu muito além do que apenas afeição entre os indivíduos: se tratou e ainda se trata de uma relação social de uma complexidade bem maior. A própria história é capaz de comprovar isso, quando analisa-se seu contexto de surgimento, o seu simbolismo durante os séculos dos períodos Médios e Modernos e agora, na Contemporaneidade.Os casamentos no século XII tinham o objetivo de unção de forças políticas e militares. A partir desse ato, um tratado de estabilidade entre dois grupos era estabelecido de forma a ser benéfico para ambas as partes. Com caráter irrevogável, os casamentos não passavam de acordos com consentimentos e estipulações sociais e religiosas - objetivos muito maiores que conquistas pessoais.
As mudanças que a função e imagem social do casamento foram adquirindo ao longo dos séculos pelas sociedades são condizentes com as próprias mudanças dos indivíduos inseridos nelas. O gesto de uma noiva entrar na igreja vestida de branco, popularizado no século XIX com a rainha Vitória, na Inglaterra, conhecida pelo puritanismo, entrou em contestação entre as mulheres nos séculos que se seguiram justamente pelo fato de terem mudado ao longo da história e conquistado opiniões e escolhas próprias, depois de muito tempo onde apenas tiveram que aceitar o que já estava popularizado e determinado.
Os objetivos, conquistas e percepções de futuro das relações - inclusive dos casamentos - sofreram ainda mais com a entrada da sociedade no ritmo da produção e da informação contemporânea. A volatilidade em que as coisas acontecem contaminaram os relacionamentos, no que Bauman vai caracterizar como “liquidez”.
Com isso, assim como há uma facilidade e rapidez para serem formadas relações, da mesma forma surgem os conflitos sociais, motivados pela ampla divergência de pensamentos e ações, influenciados por esse contexto em que estão inseridos. De acordo com Bauman “Os laços inter-humanos, que antes teciam uma rede de segurança digna de um amplo e contínuo investimento de tempo e esforço, e valiam o sacrifício de interesses individuais imediatos (...), se tornam cada vez mais frágeis e reconhecidamente temporários”.
É dessa forma que tomar atitudes rápidas, substituir relações, mudar de opinião e objetivos se tornou tão comum no século XXI, influenciando diretamente no número de divórcios. Dados comprovados por estudos trazem que em quase todos os lugares do mundo na atualidade há uma média de uma separação em cada três uniões. Assim como, o Brasil registrou 341,1 mil divórcios em 2014, ante 130,5 mil registros em 2004. Números que mostram um salto de 161,4% em dez anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Assim, nos convívios e matrimônios dentro do contexto das sociedades movidas pela instabilidade, cabem as relações com dinamicidade de experiências e mudanças de projetos e objetivos de compartilhados para individuais, e vice versa, Assim como, cabe o investimento em paciência e esforço para manter uma relação a longo prazo, num convívio sólido e adaptável para conflitos e projeções futuras.