Gaoth se assistia voltar àquela casa como se assistisse a um filme. Via-se do alto entrar minúsculo por uma das janelas, aproximar-se da cama do homem que vitimaria, acordá-lo com o som de um vidro de veneno se estilhaçando no chão. Observou o homem acordar aterrorizado, e correr para longe do fae tão rápido quanto pôde, mas não rápido o suficiente. Pretendia descer a escada, alcançar um telefone ou qualquer outra coisa, desesperado para salvar a vida. O rapaz continuava a persegui-lo, sem certezas. Já hesitara uma vez, poderia tê-lo alcançado e destruído num instante, apenas, porque não o fizera?
O jovem assassino, sonhando, se assistiu afastar-se aquelas coisas da cabeça e fazer menção de seguir sua presa, que já disparava pelos primeiros degraus quando aquele senhor olhou-o mais uma vez. A expressão que carregava no semblante ficou gravada na mente do fae. Talvez porque fosse triste demais, um animal caçado, morto antes de morrer, e talvez porque tenha sido a última que o homem foi capaz de sustentar antes de tropeçar e rolar escada abaixo. Gaoth arrependeu-se. Não queria fazer aquilo, não queria matá-lo e, uma vez que o tinha percebido, nunca mais poderia negá-lo.
Assistiu àquele homem, cruel metalúrgico, câncer do ambiente e do mundo, tropeçar e rolar escada abaixo. E compadeceu-se dele. Tentou buscá-lo, parar a queda, ajudá-lo como fosse, mas sem sucesso. Quando o mais novo alcançou a sua vítima aos pés do último lance das escadas, encontrou-o destruído, quebrado, ensanguentado em algumas partes que sofreram mais lesões. “Não, não, não...” Murmurava repetidamente, passando pelo corpo do homem um par de mãos que brilhava em azul, se detendo nos ferimentos mais graves e reparando-os. Mas foi lento demais. Gaoth assistiu bem de perto a vida se esvair dos olhos daquele homem que já nem parecia tão mau. Parecia apenas... Indefeso. O rapaz sentiu as lágrimas queimarem-lhe a parte de trás dos olhos, ameaçando cair de qualquer maneira, sem que o fae as pudesse impedir. “Não era pra ser assim, não, não... Foi um acidente.” ele continuou murmurando, percebendo, enfim, que de fato fora um trágico acidente. Desde que o vira despertar e correr e gritar e chamar por socorro, implorar pela vida que perdera com os olhos marejados, o fae não tinha mais intenção ou coragem de assassiná-lo.
O empresário, então, morreu no colo daquele vil desconhecido. E Gaoth sentiu que um pedacinho seu morria junto. Com o coração apertado, repousou o corpo no primeiro degrau. Nem teve coragem de contorcê-lo num ângulo estranho, de queda. Deixou-o ali, repousando como um anjo. A polícia que se virasse, depois, para encontrar uma explicação. Não é como se fossem chegar a conclusão de que uma fada entrara voando pela janela e o assustara fatalmente, perto demais da escada.
Virava-se na direção da janela, pronto para encolher e partir como havia feito em suas lembranças quando deixou de assistir ao seu feito e começou a vivê-lo mais uma vez. Mas com um desfecho diferente. Escutou uma risada - uma risada de mulher - e voltou-se, assombrado, para o corpo. O velho ria, orgulhoso, contente, sublime. E, num segundo, não era mais um velho, mas uma general poderosa, impávida e irascível. Sua mãe.
Ela ria e estava feliz e será que tinha notado que ele chorara? Esperava que não. Ela continuava rindo, sem parar nunca. “Meu filho, meu filho, meu filho!” dizia em outra língua que não era espanhol e não fazia com que ele se sentisse em casa, no colo. “Que orgulho do meu filho!”. E, dito isso, o rosto mudou novamente, diante do olhar fixo e impotente do rapaz. Era Anastasia. E ela não ria. Não chorava. Não fazia nada. Estava inerte, gelada e morta. E, sem saber como, Gaoth sabia que havia sido ela que ele jogara da escada, ela tropeçara e morrera, e jazia sem vida, colocada cuidadosamente aos pés do primeiro degrau como se fosse um anjo.
Agora Gaoth berrava. Segurava a cabeça com as duas mãos e ela doía infinitamente. O riso de sua mãe estava dentro dela, e o silêncio da morte da Anastasia, mais barulhento do que qualquer um dos seus pensamentos, também. As lágrimas então rolavam pela face do assassino sem nenhuma censura - ele nem conseguia pensar nelas, senti-las - quando o rosto mudou de novo. Era Safira e era também estava aos prantos. Apontava o dedo do presidente da metalúrgica para ele e dizia repetidamente: “Você mentiu pra mim também, você mentiu pra mim também!”
A janela, de repente, estava a metros e mais metros, uma distância infinita dele, e Gaoth corria até ela sem jamais alcançá-la. Queria deixar aquele lugar, precisava deixar aquele lugar, mas não conseguia deixar de olhar para o cadáver por cima do ombro enquanto fugia, e, a cada vez que o fazia, a janela se afastava um pouco mais. Teve tempo ainda de ver Poppy, morta pela Lúpus, ele sabia sem precisar que lhe fosse explicado, antes que se lançasse para o céu da noite, batendo as asas à exaustão.
O mundo era diferente lá fora. Era aterrorizante, era vermelho sangue, e os humanos gritavam amedrontados, agarrados às vidas frágeis como o velho que Gaoth havia acabado de assassinar também havia feito. Era parte daquele mundo. Tinha sangue nas mãos. E, ainda que tivesse sido treinado durante toda a vida para fazer parte dele, não gostava.
Fechou os olhos com força e voou sem parar nunca. Ainda que não visse, sentia: era a supremacia, o mundo era deles e os humanos eram finalmente esmagados como baratas sob os seus pés, sob os seus braços ou sob suas mãos pateticamente impotentes. Gaoth suspirou, ouvindo-os morrer aos montes, ouvindo-os serem dominados e ouvindo alguém rir atrás dele. Ria loucamente, ria como sua mãe, e a voz de Mirakkar retumbou como um trovão atrás de si. “Bravo, bravo! Bem vindo ao novo mundo, mestre, vamos ver do que o senhor é capaz!”
Contra a sua vontade, Gaoth olhou-o e sorriu. Um sorriso frio, lâminas de aço. Cumprimentou o servo e professor com a cabeça, e voou com ele para baixo, na direção da matança. Participaria dela, a estrelaria, ele sentiu. Dentro da própria cabeça, Gaoth gritava, esperneava e sentia o controle que tinha sobre o corpo e a voz se desfazer em fumaça.
Segurava uma espada. Da ponta já escorria sangue. Mirakkar ria, e Gaoth riu junto enquanto chorava. Decapitou uma, duas, três crianças que tentaram escapar. Ria e berrava, perturbado. Seus olhos ardiam e ele sentia na boca um gosto amargo, e sentia fome. Alçava voo mais uma vez, deliciado com o novo mundo, desesperado dentro de seu cárcere privado. Em rasantes perfeitamente executados, cortava braços e cabeças, divertia-se. Gritava a plenos pulmões, pedia-se para parar, mas não parava. A natureza florescia bela, intocada, e Gaoth sentia a força invadir o próprio corpo, uma alegoria de toda uma espécie que renascia das cinzas, do sangue, mais forte.
Desfilava com sua espada, asas abertas. As lágrimas brotavam e transbordavam por dentro, mas, por fora, o sorriso era cínico, de metal gélido. Das asas escorriam fios de ouro e como ele era lindo, lindo e feio, horrendo, monstruoso. Seu olhar encontrou mais um rosto conhecido e Gaoth berrou para que ele o ajudasse, mas a voz não saiu. Ao invés disso, os lábios se contorceram num sorriso diabólico e ele o lançou para Harry um minuto antes de cortar mais uma cabeça.
Gaoth acordou sobressaltado e aterrorizado, soltando todo o ar que nem sabia que estava prendendo em seus pulmões. Seu rosto estava trilhado por lágrimas abundantes e o corpo todo encharcado por suor frio. A garganta doía, também e, mesmo sem testar, o fae sabia que estava rouco. Era como se tivesse gritado a noite toda. Olhou para o lado e encontrou Echo dormindo como pedra. Não, não gritara. Mas sentia no peito um aperto inexplicável, na cabeça todo o peso do mundo, e sobre si morbidade densa, triste, falsa e melancólica. Levou a mão ao coração. Ele batia acelerado, desesperado, como se tentasse romper a pele do rapaz e fugir, levando consigo a verdade.
Fechou os olhos e tentou voltar a dormir, sem sucesso. Ainda que não se lembrasse de nada, Gaoth sabia que, o que quer que tivesse visto em quanto dormia, havida sido horrível. E ele nunca mais seria o mesmo. Esperava com tudo o que tinha dentro de si que tivesse sido apenas um sonho.