TASK #02. tw: ataque de pânico, menção de crise de ansiedade, morte (violenta).
isso não vai dar certo.
começar a fazer algo e já ter o pessimismo entrelaçado com seus pensamentos não era bem o melhor dos caminhos. elói estava na caverna dos deuses sentado em um canto afastado escondido atrás de uma rocha. o único barulho no local era da água que sempre apresentava aquele movimento fluído mesmo sem ter vento ou correnteza.
os olhos azuis focavam a folha de louro, o caderno laranja e a caneta. mexia nervosamente com a barra da saia e tentava não ter uma crise de ansiedade antes mesmo de começar a fazer a tarefa. não havia como negar que estava com medo de mexer no passado, havia apenas uma missão na mente que lhe assombrava… e o semideus não sabia bem se desejava ter mais um lembrete daquela situação. carregar a maldição já não era o suficiente? uma conta no pescoço parecia mais uma forma de se punir, mas não era como se pudesse levar a mente para outro local, aquela tinha sido a maior e mais importante missão de sua vida.
alegria, diversão, determinação… desconfiança, surpresa, medo, dor, luto. com pesar, escrevia cada sentimento que recordava de ter sentido naquela noite fatídica, sequer precisava pensar muito, já era bem recorrente sentir tudo aquilo quando pensava na tal missão.
respirando fundo, pegou o isqueiro e acendeu a folha de louro. o cheiro era suave, parecia uma erva simples que não tinha tanto poder… mas assim que fechou os olhos e se concentrou no cheiro… sentiu os pés tocarem o chão. impossível, estava sentado!
mas não, não mais.
diante de si, três pessoas riam no meio da floresta, duas garotas e um rapaz: ele, veronica e thabata. tão jovens, tão ingênuos, nenhum dos três sabiam o que estava por vir. falavam baixinho, riam baixinho, eram discretos… ou ao menos era o pensavam. o pequeno acampamento montado ao redor da fogueira de repente era desmontado às pressas, a fogueira apagada e a brasa pisoteada para que o fogo se extinguisse. escondidos atrás de uma grande rocha, os três traçaram um plano que resultaria na morte de um deles. ao longe, elói ouvia o riso das dracaenaes. a desconfiança assolava seu peito com tudo, estariam elas mais perto do que previram? o mapa não indicava que o ninho estava tão próximo, eles ainda teriam um dia de caminhada até encontrar o local. a surpresa vinha então se fazer presente quando avistou a primeira criatura.
cinco. cinco dracaenaes.
mas como assim cinco? sua lembrança lhe mostrava sempre apenas quatro. algo estava errado ou o trauma era tão profundo que isso tinha alterado sua memória?
observando apenas como um espectador, elói encontrava-se paralisado. a cena diante de si era aterrorizante, eles começavam a correr para longe ao verem a clara desvantagem… mas não havia escape. foram avistados. o medo fazia com que suasse, com que sentisse o estômago embrulhar. a lutava começava e elas conseguiam separar os semideuses com eficácia. quatro delas contra três deles. onde estava a quinta? olhou assustado ao redor para ver se conseguia encontrá-la… mas não, estava fora de vista. por isso não lembrava?
uma delas atingiu com as garras o lado direito de seu torso, elói sentiu a dor imensa, a cicatriz tinha quase desaparecido mas às vezes podia sentir o local doer. como agora. a dor aguda lhe fez se curvar para frente, o cheiro de sangue e enxofre inundava o ar, não era apenas ele machucado mas as garotas também. seu chicote conseguiu finalmente ceifar a vida da dracaenae que lhe perturbava, havia duas encurralando veronica e uma com thabata. o olhar assustado do semideus que perdia sangue vagou de uma para outra. a filha de hécate estava mais perto, a de hipnos estava mais longe. por um lado, matar uma dracaenae seria mais fácil, mas a distância não ajudaria, não conseguiria chegar a tempo. por outro lado… era veronica encurralada. enfrentar duas dracaenaes não era nada em comparação ao medo de perder a namorada. o grito da garota que amava ecoou em seus ouvidos e a dor pareceu sumir pois, no momento, tinha apenas que ajudar a semideusa.
salve as duas. tente salvar as duas.
o elói espectador gritou para o ferido que vivia a cena. como se o ouvisse, o semideus parou no meio do caminho e mudou de tática, se fosse correndo até a dracaenae que ameaçava thabata e usasse o charme da voz para parar as duas que a namorada enfrentava… dava tempo. tinha que dar. “parem agora! eu ordeno que parem!” o grito foi forte, firme, carregado de charme. para os monstros o poder pareceu funcionar, atordoadas, as dracaenaes pararam o ataque… mas as garotas também. ao invés de reagirem, veronica e thabata também permaneceram quietas. “não ouçam o babaca, façam algo! matem as semideusas!” a quinta dracaenae saía das sombras. pelas roupas mais elegantes, era alguém de alta patente no exército daquelas criaturas. e a ordem direta dela serviu para que os monstros se recuperassem, grunhindo irritadas por terem sido enganadas. o próximo grito que ouvia era de thabata sendo erguida pelo pescoço e atirada no chão… antes que a dracaenae esmagasse a cabeça dela com uma pedra. elói tentou gritar para veronica se defender mas foi puxado pelos cabelos pela quinta maldita dracaenae que segurou-o no ar, virando-lhe para encarar o que os outros monstros faziam com sua namorada. cada uma puxava um braço da semideusa… e não demorou muito para que a garota fosse partida ao meio. o olhar vazio da menina encarava-lhe quando ela caiu no chão sem vida, havia um corte profundo em sua garganta e a risada vitoriosa dos monstros era o que preenchia o local. vê-la morrer foi como se seu coração se despedaçasse, não apenas daquele que vivia, mas o que assistia impotente também.
restava apenas ele assistindo… e sua versão machucada tendo em seguida a cabeça arrancada para fora do corpo. um massacre. um massacre completo. todos mortos.
o cheiro de queimado entrava em suas narinas e elói era trazido de volta para a realidade. uma simples mudança na escolha e todos eles teriam morrido.
de volta a caverna, não conseguia respirar. podia sentir as mãos daquela maldita criatura em seu pescoço apertando para impedir seu fôlego; podia sentir a dor ainda do ferimento mais uma vez lhe assolando. com as mãos pressionadas contra o chão, a face começando a ficar roxa por causa da incapacidade de respirar, o semideus começou a tossir desesperado, a garganta parecia ter se fechado e nem mesmo quando vomitou... conseguiu puxar o ar para os pulmões. aos poucos ao invés de roxa, a face ficava vermelha e a falta de oxigênio fez com que ficasse tonto, a visão começando a escurecer até que desmaiasse. não era incomum ter crises de ansiedade ou ataques de pânico que lhe deixasse afetado, mas dessa vez foi diferente. em sua mão, quando despertasse, estaria a pequena conta pintada agora. a argila não mais seca, lisa, agora tinha sido toda pintada de preta e havia um crânio cinza pintado representando o massacre que teria ocorrido se tivesse tentado não salvar apenas veronica como o fez no passado, mas thabata também.
To love is to destroy,
and to be loved
is to be
destroyed.
Tradições não eram muito o seu forte já que Thorn havia vivido tempo demais para sequer alimentá-las mais, mas estar de volta ao acampamento meio-sangue depois de três anos deixaram o centenário um tanto quanto sentimental. O natal naquele ano seria diferente e ele estaria ao lado de seus amigos e família mais uma vez. Aquilo bastava.
Estava sendo tomado por risadas incessantes enquanto alguns dos semideuses reunidos recitavam piadas tão sem graça que chegava a ser cômico, quando subitamente imagens em flash começaram a surgir diante de seus olhos. Aquilo já tinha acontecido antes, Thorn lembrou-se, e quando aquilo acontecia normalmente o que vinha depois não era nada bom. Todo o seu corpo se retesou, o trapézio gritando pela tensão que agora começava a tomar conta de pontos específicos do seu corpo. Seu rosto estava congelado enquanto os flashs iam e vinham em sua mente sem ordem ou nexo algum, os olhos verdes tomando um brilho cinzento e fraco diante do poder ativado pela sua descendência.
A princípio, o filho de Caos conseguiu apenas distinguir um olho de um tom azul escuro quase cinzento, e lupino, e logo a imagem se dissipou como névoa. Thorn piscou algumas vezes, os olhos arregalados passeando pelo salão à procura de Rowan. Sem nenhum sucesso. Ele não estava em lugar algum do cômodo e, a partir daquele momento, o desespero começou a tomar conta de si. Seus olhos vagaram nervosos pelo refeitório e captaram Robin mais distante, junto com Bash, Astoria estava entre os seus outros meio-irmãos na mesa, até conseguiu ver Ellie junto dos seus irmãos do chalé 12 e Julian pregando peças como papai Noel. Mas nada daquilo lhe trazia graça alguma quando havia a possibilidade de Rowan estar em apuros. Thorn se levantou discretamente, ainda sorrindo para os irmãos que continuavam reunidos e conversando e caminhou a passos largos para fora do refeitório. Todos os pelos do seu braço se eriçaram assim que a brisa fria da noite tocou-lhe a pele, e sua intuição lhe dizia que algo estava muito, muito errado. Involuntariamente, as mãos buscaram as espadas que não saiam das suas costas para quase nada, mas que naquela noite ele havia deixado no chalé, e suas feições se contorceram em uma careta irritada. Que descuido!. A única coisa que tinha naquele momento era o anel de seu pai, que se transformava em uma adaga em momentos de emergência, e seus poderes. Teriam de servir.
Os olhos e a audição permaneciam atentos a cada movimentação suspeita enquanto caminhava apressado pelo acampamento, sem um rumo preestabelecido, quando o filho de Caos foi tomado por outra visão. Dessa vez os flashs se alternaram entre um confronto e mortes, e ele conseguiu distinguir as árvores da colina do acampamento. Um corpo jazia inerte no chão. A visão se estendeu por apenas alguns segundos a mais e ele conseguiu visualizar o vento forte da noite bagunçando mechas de cabelo ruivo. Thorn se esforçou ao máximo para fazer com que a visão se estendesse a fim de tentar identificar qualquer detalhe que o ajudasse a entender aquele quebra cabeça, mas logo esta também se apagou tão rápido quanto tinha surgido. Os olhos cinzentos do centenário voltaram ao tom esverdeado, agora sem nenhum brilho, o cenho franzido indicando a confusão que aquelas imagens lhe traziam.
Seu coração galopante quase saiu pela boca ao ouvir uma voz familiar, e ele piscou algumas vezes para que sua visão ganhasse foco novamente.
“Você também sentiu?” ele se virou rapidamente e viu que se tratava de Brenna, uma das filhas de Ares. Thorn não percebeu quando ela se aproximou e nem viu por onde ela chegou até encontrá-lo. Antes que ele pudesse responder, a morena já estava tirando um dos bastões que prendiam seu cabelo negro, e com uma manobra experiente este se transformou em um escudo que ela agora abençoava com uma das mãos, um brilho cintilando a prata da arma provavelmente presenteada pelo seu próprio pai.
“Não só senti como vi algumas… coisas” ele revelou com o olhar atento antes de tirar o anel dado pelo seu pai muitos anos atrás e o revirar entre os dedos, que tão logo se transformou na adaga de bronze. Thorn não tinha nenhuma relação próxima da garota, mas já a vira lutando várias vezes, algumas dessas vezes até tinham se ajudado, e a presença de uma filha de Ares lhe era sempre reconfortante pela aproximação que ele próprio tinha com o Deus da Guerra. Sua mente ia e vinha a cada passo que Thorn dava em direção apontada por Brenna, revivendo as imagens que a pouco se mostraram presentes diante de seus olhos. Sua mente confusa se alternou entre acreditar que Rowan pudesse estar em perigo, assim como Robin, mas lembrou-se de ter visto a segunda no refeitório alguns segundos atrás. Rowan, por outro lado, não estava em lugar nenhum, e Thorn se agarrou a ideia de que ele era capaz de se transformar e dilacerar inimigos com as próprias garras, e se as visões não estivessem lhe pregando peças, ele seria capaz de se defender melhor do que ele e os outros semideuses juntos. Uma parte de si não queria acreditar nas visões, que era apenas exagero, mas o problema era que as visões nunca falhavam. Sua intuição lhe confundiu por um momento até Thorn se lembrar que era Ariel quem estava na patrulha daquela noite. O cabelo ruivo que vira não era de Robin, não podia ser, não tinha passado tempo suficiente para que ela saísse do salão e chegasse na colina. Algo dentro dele se contorceu de aflição, e o filho de Caos correu, deixando uma Brenna aos berros perguntando-se onde ele estava indo.
Ele parou apenas para recuperar o fôlego na subida, esperando encontrar um cerco completamente armado mas encontrando nada mais nada menos do que escuridão, o cenário reverberando um silêncio consumido por uma energia esquisita. Tentou ao máximo manter seus passos silenciosos mas não foi suficiente, e o semideus teve tempo apenas de se esquivar minimamente quando uma flecha passou zunindo pegando sua têmpora de raspão. Ele rosnou um palavrão em voz alta e ergueu uma das mãos, dela brotando uma bola de fogo que finalmente iluminou o caminho a sua frente, revelando a ruiva mais a diante com o arco e flecha em mãos. Estava próxima de um corpo que jazia inerte aos seus pés e foi como se Thorn estivesse vivendo um dejavu. Dois elementos do que ele havia visualizado estavam diante de si, e uma sensação de familiaridade arrepiou sua nuca, mas não de um jeito bom. Ele odiava aquele dom.
“What the fuck, Ari! Você quase arrancou minha orelha” ele protestou, aflito, os dedos checando a têmpora que agora expelia sangue escarlate com uma torrente fraca. Ele se aproximou da ruiva e sua voz era quase um sussurro quando ele reconheceu o corpo da garota aos seus pés. “Ah não, Holly…” Holly era irmã de Lexie, e Thorn havia passado tempo o suficiente no chalé de Apolo para reconhecê-la. Algo dentro dele se quebrou, mas seu corpo reagiu com a natural postura de batalha. Estava acontecendo de novo, e era para isso que ele tinha voltado. Para ser quem seu pai o moldou para ser durante vários séculos, e para ser quem deveria ser quando Ares o tirou daquela prisão. Tinha voltado para não permitir que aquilo acontecesse com as pessoas que ele amava. Thorn ouviu atentamente as explicações de Ariel e seguiu com a ruiva de volta ao acampamento. No entanto, não era de seu feitio se envolver em diplomacias e apenas se manteve ao lado dela enquanto a via solicitar uma reunião de emergência com os superiores. Ainda tinha que encontrar Rowan no meio daquela confusão toda. Talvez aquela perturbação em sua mente fosse desnecessária, no entanto, agora que mais um corpo apareceu assassinado no acampamento, o filho de Caos já começava a perder o senso de medição para o que era ou não exagero.
Os acontecimentos seguintes foram como um borrão indistinto. Thorn se viu abandonando Ariel e o grupo de superiores e correndo em direção ao uivo lupino que preencheu sua audição segundos atrás. O caos que iria encontrar no meio do acampamento, entretanto, definitivamente não era o que ele esperava. Não conseguiu sequer raciocinar, apenas esquivar-se quando um lobo pulou sobre sua cabeça. Ele conjurou um escudo mágico que se moldou acima de si, e praguejou baixinho quando viu a horda de lobisomens que surgiram subitamente. “Não lembro do acampamento meio-sangue ter convidado a alcateia para a ceia” soltou com uma careta irritada quando um dos lobos se transformou na forma humana e correu para cima dele. Já havia lutado com lobisomens antes e conhecia alguns dos seus truques, e quando o garoto se transformou em lobo de volta, no momento do pulo, Thorn jogou-se no chão, deslizando o corpo pela areia e girando a adaga em direção à barriga do animal. Sangue respingou em suas mãos e rosto da pele rasgada e ele esquivou-se de lado a fim de evitar o baque do corpo pesado. Seu olhar ergueu-se quando ele ouviu a flecha de Ariel zunindo novamente, mas dessa vez lhe dando cobertura, atingindo o inimigo.
Desprovido de armas, Thorn estava pronto para ir à luta corpo a corpo com outro lobisomem, contudo, como se o tempo tivesse desacelerado e ele estivesse vendo através de câmera lenta, o lobo inimigo se chocou contra um corpo lupino robusto de pelos castanhos que o filho de Caos conhecia bem. Rowan se trombou contra o outro animal, os caninos afiados agarrando a pele da jugular e as presas afiadas arranhando e rasgando a pele do outro até que finalmente arremessou o corpo inerte para longe, e Thorn conseguiu ouvir o gemido doloroso da vida que se esvaiu do animal agora morto. Um sorriso cúmplice e aliviado permeou seus lábios quando o amigo virou o focinho em sua direção, os olhos azuis lupinos que ele havia visto em sua visão agora o fitando profundamente, e o semideus meneou a cabeça em agradecimento.
Antes que pudesse se mover e voltar à luta, Thorn foi tomado por outra visão. Dessa vez, o filho de Caos conseguiu distinguir exatamente quem era a mulher que via diante dos seus olhos, os cabelos loiros lhe eram familiares demais para que não identificassem-na a quilômetros de distância. “Tori” a voz engasgada saindo como um sussurro enquanto os olhos cinzentos fitavam a imagem da irmã ensanguentada no chão de terra. Thorn teve tempo apenas de captar os gestos de Ariel atrás de si que indicavam que tomariam as rédeas dali por diante, antes de dar meia volta e correr floresta acima, ignorando todo e qualquer sinal de sanidade e autocontrole.
…
Seus olhos não acreditavam no que viram quando ele diminuiu o passo até parar, e captou a imagem da loba lacerando o corpo da semideusa romana. Tudo parecia completamente errado. Por um momento o pescoço do centenário tombou de lado, os lábios entreabertos em uma pergunta não feita, suas feições emanando completa confusão. Astoria pareceu não perceber sua presença até então, foi só quando Thorn galgou em sua direção que ela conseguiu enxergá-lo. Sua mão ergueu a adaga de forma defensiva quase que involuntariamente, e seu coração se estilhaçou em mil pedaços ao ver as lágrimas que rolavam pelo rosto de uma Astoria completamente vulnerável e confusa.
Rapidamente sua mente se deu conta do que de fato estava acontecendo, mas seu coração não queria acreditar.
Os lábios crisparam-se em uma careta de desgosto evidente e ele a olhou de cima, o queixo erguido de orgulho ferido pela traição. “Foi você, esse tempo todo…” a voz grave reverberou fraca e o semideus se manteve em uma postura defensiva. Suas emoções, entretanto, tinham outros planos, e inconscientemente ele conjurou um escudo de proteção entre eles. Thorn jamais faria nada contra a sua própria irmã, pelo contrário, tinha voltado justamente para defendê-la e evitar que ela e os seus amigos fossem vítimas daqueles assassinatos. Mas era, na verdade, ela quem estava por trás de tudo. Seus olhos marejaram ao ouvir a voz fraca dela repleta de auto piedade. Thorn estava à beira de um colapso ao ouviu a confissão de Astoria. Uma parte de si queria gritar com ela, perguntar porquê ela não confiou nele o suficiente para contar o que estava acontecendo. Ele daria um jeito, ele sempre dava. E outra parte de si queria caçar Lycaon onde quer que ele estivesse naquele acampamento e fazê-lo pagar pelo sofrimento e ameaças que fez sua irmã passar, mas a única coisa que conseguiu fazer foi revirar a adaga entre a destra, recolocando o anel de volta no dedo médio.
Se aproximou de Astoria e agarrou seu rosto com as mãos ensanguentadas “Shhh” a voz como um sussurro desalinhado pelo nervosismo. Seus olhos não conseguiram mais conter as lágrimas quando a ouviu proferir aquele apelido carinhoso na língua natal da rainha da Espanha, e seu rosto se contorceu com uma dor que ele se julgava indigno de sentir. Tinha sido moldado, durante tantos séculos, para ajudar a salvar sua meia-família de ataques como aqueles, mas ali estava ele, salvando justo a pessoa que tinha causado toda aquela situação.
Sempre fora egoísta, no fim das contas.
As mãos tremiam quando ele agarrou a irmã no braço e se arrastou para fora do confronto, mantendo o escudo ao redor deles enquanto corria em direção aos limites da colina “Eu vou te levar para um lugar seguro” foram as últimas palavras de conforto que saíram da sua boca. Thorn sabia o que podia acontecer com ela caso permanecesse ali, e até que ela pudesse se justificar, talvez morresse no meio do caminho devido as fraturas que ele conseguiu identificar por todo o seu corpo. E ele não podia deixar que aquilo acontecesse, mesmo que ela fosse culpada. Lidaria com as consequências depois. Suas feições tomaram um ar sério e frustrado enquanto se dirigia para longe do acampamento, e ele orou mentalmente para os Deuses pedindo por proteção pelos seus amigos e pelo lugar que por séculos fora seu lar -- e que ainda continuava sendo. A culpa o invadindo por abandoná-los mais uma vez depois de promessas de que jamais o faria de novo. “Não faça promessas que não pode cumprir, Thorn” ele se repreendeu baixinho ao se aproximar do esconderijo onde havia deixado sua Mercedes meses atrás. Balançou uma das mãos e a ilusão se dissipou, mostrando o carro que ele havia camuflado para casos de emergências como aquela. Acomodou Astoria no banco ao seu lado e olhou pelo retrovisor para certificar-se de que não tinham sido seguidos. Tão logo puxou um celular reserva do porta luvas, as mãos trêmulas sujavam a tela de sangue enquanto procurava pelos contatos, encontrando o de Rowan como um dos primeiros.
irmao
vc vai ouvir os boatos mais tard
mas n acredite de vdd
eu dou notícias assim que der
prometo
não deixe robin fazer nada de estupido
amo vocês
Thorn jogou o celular no porta luvas e ligou o carro sem precisar de chave, acelerando duas vezes apenas para sentir a potência do veículo antes de engatar a primeira marcha e as mãos agarrarem o volante. O cavalo de pau foi certeiro e o carro girou em seu próprio eixo, pegando a estrada de terra que levava para fora dos limites da colina.
Ele podia ouvir a voz de alguém que quase havia se esquecido a muitos séculos atrás, quando ainda estava na prisão na Inglaterra Eduardiana “Todo mundo trai todo mundo, e você não vai se safar dessa, pequenino. Vai ser enganado e depois jogado no canal como um rato, sem valor nenhum” seu rosto se contraiu em um carranca e ele gritou o mais alto que conseguiu, as lágrimas rolando pelo rosto e manchando a camisa vermelha que havia escolhido para aquela noite. O escarlate do tecido se camuflando no sangue que a manchava quase completamente, sendo impossível distinguir entre os dois. Thorn agarrou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos, e se não tivesse adaptado aquele carro com energia mágica certamente o motor explodiria de tanta raiva emanada pelo filho de Caos.
Seus olhos se encontraram vidrados na estrada a sua frente, incapaz de encarar a irmã que permanecia desacordada no banco ao lado, e ele fez uma promessa silenciosa de vingança contra o rei lobo.
i etch my own face
upon my wicked flesh
i am my own devastating god.
27 JUNE, 1994.
TIMESTAMP: 01:24:36.
the chains rattled, fixed snugly ‘round a thick column of stone and tightened painfully around the unfortunate fellow snared within. it wasn’t a well-planned endeavor—a crime of passion rather than of blueprints and preparations—but that had never been ezra’s specialty. it was the finish line, and not the journey, that spurred him forward. and oh, how enticing the finish line was! when he had chiseled through the marble, the filth he had captured, he would serve as an artful example to any fortunate enough to see his message.
don’t stick your hand in the fire unless you’re prepared to be burned.
and like many before him, ( many after him ) this man hadn’t been prepared. he could talk, sure. bark out insults. sneer at those different from himself. but when it came time to measure up, it was clear who was more evolved between the two. who had adapted to the harsh world around them and who would die, insignificant and unworthy.
“feeling proud of yourself, are we?” he muttered smugly around his cigarette, drawing the chains tighter around his prisoner’s torso with a simple flex of influence. “thought you were real smart out on the streets, earlier. not so strong without a bit of beer to give you courage.” not so strong without the rest of the world on his side, alone and frightened and at the mercy of a monster even the worst legends couldn’t hope to live up to.
a hand snaked out to grip his jaw, twisting his neck to the side. “think i’ll start here, what do you think about that? s’what you’re using against me, and all. only fair.” it was too easy to keep his mouth agape, to shatter the mandible and send shards of bone digging inward. jaw broken, he could take his teeth. a blade in hand, he dug clumsily ( purposefully ) between his gums, dislodging anything in reach. it didn’t much matter if the poor bastard swallowed them as long as they were popped from place. if he chose to keep them, he would dig through his insides, later.
to sensitive ears, the noise alone would have been overwhelming. the prisoner still fought for life, screamed and spat ( tinged a deep, gushing red ) with each movement ezra made. but it mattered little—he was weak and human, and his assailant enjoyed the futility of his struggle. he would take more than a pound of flesh before the night was done.
TIMESTAMP: 04:34:12
his entertainment came at a cost. always did, always would. where once a nearly-normal man stood, now even the average passerby would have clocked as a mutant. there was no hiding the black blood leaking from his eyes, his mouth, his nose, his ears—no hiding the long spines that had torn through his back and through his ragged, stained shirt. transformation was coming, whether he liked it or not... but he reveled in it. he reveled in the gift that indulging his worst pleasures had brought. reveled in the steep descent from human to other.
the ground beneath his feet had withered under the weight of his influence, given itself over to the majesty of his tainted essence, sending shadows creeping out in every direction. but with it came a clarity unsuspected—an internal alarm tripped. someone, something, was in the broken bones of the building with him. someone, something, had stepped onto his spider’s web of dark chaos, sent a ricochet of vibration hurtling toward his firmly planted feet.
mid-sneer, ezra paused, attention drifting from his prize. whoever it was had snuck up as a silent observer, making no move to interrupt the gruesome scene he had presented. were they human? mutant? friend? foe? whatever their intentions, he would deal with them later. for now... he would enjoy an audience, as he always had. if they wanted to watch, he would give them a hell of a show—a finale worth waiting for.
his attention shifted, returned to his prisoner. they had stopped begging, stopped spitting, stopped moving—weakened beyond repair, a rattling breath, the weak rise and fall of a battered ribcage was the only sign they still lived. not for long.
“you’re lucky, you know,” he spoke, tone distorted and strange; “most people don’t get to bear witness to something so much greater than themselves.” while he faced the slumped body still wrapped in chains, his words called out to something farther. the watcher. the witness. the shadow. “think of it this way,” his voice lowered, this time meant to address his tortured plaything; “if it hadn’t been me, it would have been someone else. and they would have killed you too quickly.”
a flash of movement and his talons buried themselves deep within his abdomen, excitement twitching along the spines jutting from his back as a wet, gurgling scream tore itself from his victim. no more, it begged, red chasing it out of his prisoner’s mouth; i’m ready to go. and this time, ezra would indulge him—he was ready to end it, too.
drawing back, he pulled himself to his feet. didn’t need a knife for this. didn’t even need a hand. slowly, his influence crept out to the half-living corpse displayed in front of him, seeping through the paper-thin defenses a human could provide.
his insides—deep, red serpents—slithered from the hole ezra had left in his belly and up along his chest, coiling tight around his throat. tighter, tighter, tighter... that’s it. the man shuddered and convulsed, spitting blood and bile over his front as he fought—but how could he fight against his own body? his own flesh and blood? the end was inevitable, now... and a memory he would revisit many times in the coming weeks.
but for the moment, black eyes drifted aside—staring past his prejudiced victim and toward the abyss. the abyss stared back, holding two others settled hard into their sockets. he could feel them tucked within the shadow’s skull, calling out to him.
slowly, carefully, he lifted a taloned hand to the eyes shining in the dark.
i see you.
ACT II
i dream of massacres
i am a garden of black and red agonies.
02 JULY, 1994.
TIMESTAMP: 19:52:07.
first night on the job and already ezra was slacking. a smoke break, unsanctioned by his employer, had been taken out in an alleyway and anyone desperate enough to peer into the windows of his parked cab had been ignored. the night was warm and clear, much nicer than those he had been used to across the pond, and who would he have been to ignore an opportunity?
a pleasant loiter later, he turned and stepped in the direction he had parked. behind him, the soft thump of light feet against stone caught his attention. turning, he came face to face with someone shrouded in shadow, shining eyes peering up into his own nightly gaze. familiar. instantly so, but his mind had yet to catch up to the ghost of memory.
“ezra shaw?” this time, a voice from behind.
turning on his heel, two new strangers came into focus, blocking his path out of the crevice he had crawled into. “that’s my name,” he replied, tension sliding off his shoulders like water from an otter’s coat; “unless you’re police, that is.”
“we’re not the police.”
smoke escaped from the gaps in his fangs, eyes skittering along the silhouette of the speaker. not the police, but certainly someone with authority. “well, not police, it’s been nice.” short. not short enough. “but i’ve got places to be. can’t stand around chatting all night. you know how it is.” an attempt to excuse himself, brows lifted in expectation... but the strangers didn’t move aside. they stood, still as statues, in his way.
“we’ve been watching you.” the voice from behind spoke again, conjuring forth the context that had been missing in moments previous.
head turning, he briefly took in the shape of the person still positioned behind, curiosity glittering in his eyes. the watcher. recognition now settled into place, his easy expression gave way to a ( more feral than not ) smirk. “that so?” his attention drifted back toward the more numerous of the groups, hands tucked deep into his pockets. “like what you see, then?”
“you have potential,” the authoritative one answered, shrugging a shoulder. “power, drive... and i think you’ll find our goals align.”
“and what goals would that be?”
“liberation.” the smile they offered was silky and dripping with venom. “domination.” they were words that ezra was willing to hear out, his faux dedication to work already forgotten. “you know that we’re better than them and aren’t afraid to stand up and prove it. we could use more like you.”
weight shifting, ezra considered the offer brewing between them. “who’s we?”
“the brotherhood,” they said, extending a hand. “i’ll explain more when we get back to base. if you’re interested, of course...”
he was.
ACT III
i took my power in my hand
and went against the world.
12 AUGUST, 1994.
TIMESTAMP: 23:17:48.
he was different from some of the others in that there was no pound of flesh that he hadn’t already taken. many initiates had been drawn to the cause through the promise of retribution, of eyes for eyes and teeth for teeth. ezra didn’t need vengeance—his debts had been settled in the old world—but he certainly hadn’t turned down the opportunity for bloodshed.
his target was learning that, now. after a lifetime of spewing the same hatred burned into the folds of his brain from others like himself, he had met someone willing to fight back. but to call it a fight implied that both sides had a chance—incorrect, given his sorry state. strapped ( nailed down, even ) to a metal chair and already having suffered many, many blows to the skull... there was never a question as to who would be winning, tonight.
it would be him.
“i have to say, you’re more cooperative than some of the others,” ezra said from his position nearby, lounging on the seat he had grabbed for himself. unique gifts meant he didn’t need to get up close and personal with those he meant to do harm. it was entertaining to do so, of course—sometimes he wanted to be the one holding the knife—but it was a special kind of horror to be responsible for your own demise. a special kind of horror fit for someone determined to keep their kind contained and away from the rest of society.
“you haven’t... given me... mu-mu...much of a choice.” the lawyer stammered, voice weak with agony but unable to resist, unable to be risen to a scream. the knife in his grasp was burrowed in his wrist, crawling along with ribbons of skin nudged against the blade.
“no, i haven’t,” ezra remarked, watching dreamily as his target continued to flay himself. how long could he keep it up consciously? the muscles could be controlled even after the brain, the body, failed... but it was always more gratifying for them to realize what they were doing. “but it’s only fair, isn't’ it? i mean, when has your sorry arse ever given one of us a good choice?”
“ch-christ...” a long strip of flesh spills toward the ground, chased by a steady drip of red. “is... is that what...?” struggling for breath, he would require his tormentor to finish his question.
“is that what this is about?” he sneered, fangs bared. “i s’pose it’s too much to ask that you’re clever and willing, isn’t it? you really thought it wouldn’t catch up with you?”
ragged, pained, breathing was his only response... but ezra knew the answer. knew the excuses. of course he had never imagined retribution—he had been upholding the law! taking the dangerous dregs that society had to offer and placing them where they couldn’t hurt another. but however fair law claimed to be, it wasn’t so. they both knew what happened when the world stood against those prosecuted.
and if it hadn’t been him, it would have been someone else—as sure as the knife forced into his grasp, the lawyer had been the orchestrator of his own demise.
TIMESTAMP: 01:37:17.
in the end, his target had held up beyond his expectations. his consciousness had waned in places, but a few good smacks had set him right. he had removed the skin from both arms, his torso, and much of his face before blood loss and shock had finally rendered him unresponsive. but not dead. no, that was a pleasure that ezra had taken for himself. for all the lawyer’s hard work, it was only right that he finish the job. it would have been a waste, otherwise.
coated in red and black, the spines that had ripped from his forearms quivered with the last gasps of his excitement. there was only one task left, now. it hadn’t been of his own volition, of his own mind, to target someone as he had here—it had been an instruction that ( for once in his life ) he had been eager to follow. a binding to a purpose that rose ( albeit, not far ) higher than the haphazard bloodshed he had worked on, himself.
camera procured and pose readied, he prepared for his conclusion. click. flash. hiss. the photograph ejected, the finale complete, he had only to report his success to the agent waiting nearby. no doubt having watched the whole thing, even as they pretended otherwise. supervision was for children, but ezra had let it slide—who wouldn’t have wanted to witness some of the best that he had to offer?
pushing through the doorway, he found himself face to face with the agent in question. terrible eyes shining. “show’s over,” he said, holding out the polaroid with a clawed hand.
this time, they offered curiosity. “i noticed. what’s this?” flipped over, the tagline read: ENTROPY. AUGUST 1994.
a query for you.
if you had to choose a side between the xavier institute and the brotherhood, which side would you choose and why?
DISEMBODIED VOICE: hello joseph. i want to pick your brain.
[ several turns ensue. the speaker is unable to be found. ]
JOSEPH: where am i? who are you? what are you?
DV: there’s no reason for alarm. you’re at home. you’re dreaming.
JOSEPH: ...dreaming?
[ a hush falls over the visible of the two speakers, the familiar landscape bringing pain to his expression, a sting to his heart. home. it’s been a long time since he’s been home. ]
JOSEPH: why would i want to dream about going home?
DV: isn’t that what we all want? a place to call home? to feel safe in? you dream of it often.
JOSEPH: i don’t... remember dreaming about it.
DV: the mind protects itself.
JOSEPH: can i... can i go somewhere else?
DV: it’s painful for you to be here, isn’t it? knowing that in a perfect world you would never have left at all. that your parents wouldn’t have failed you.
JOSEPH: they did their best.
DV: and they still failed you.
[ silence is a noose around the neck, catching on the lump in their throat. ]
JOSEPH: what do you want from me?
DV: i told you. i want to pick your brain.
[ the scene shifts, just slightly. the house grows warmer, inviting. two figures, one man and one woman, stand in the doorway, mirrors of their own soft, welcoming, expressions. older than the last time he had seen them, but instantly recognizable—his parents. ]
JOSEPH: what does this have to... why are you showing me this?
DV: in a perfect world, you would be here. they would welcome you. they would love you.
JOSEPH: okay, so the world isn’t... perfect. what does this matter?
DV: if you could show them to coexist, would you?
JOSEPH: i don’t... i don’t know what to say.
DV: think about it.
[ the scene shifts, this time to a place more recently familiar—the xavier institute. uncharacteristically empty, pristine, an image more than a reality. ]
DV: you know this place.
JOSEPH: of course i do, it’s... i’ve been trying to...
DV: you want to join them? they’ve abandoned you before.
JOSEPH: they didn’t... they can help me... what choice do i have?
DV: more of a choice than you think.
JOSEPH: why are you so... cryptic about everything?
DV: the institute has relied on the shadows of anonymity for a long time. their front as a school, prestigious and well-respected, has given them much. but that respect has been challenged by xavier’s recent decision to expose its true purpose.
JOSEPH: i know, i... i know this already.
DV: charles xavier is optimistic. he believes that humanity can coexist with those more evolved than themselves. that we can come together, man and mutant, and build a better future for ourselves. that we can drive out hate if we allow love in our hearts, even for those who hold nothing but contempt for us.
JOSEPH: why are you telling me all of this?
DV: i want you to make a choice. i want you to be informed.
[ the institute shimmers, fading out into another scene. a crowd. a riot. screaming echoes all around, rife with hatred. with fear. with pain. an animal, large and out of place, hones in on a young woman that had moments before been a friend. ]
DV: but this is what they drive you to. this is the result of your efforts to coexist. you harm the people closest to you because humanity has drilled it into your skull that you are dangerous.
JOSEPH: they’re not... not everyone is like that. the ones that are, they’re just scared. i’m scared.
DV: of yourself. of what you’re capable of.
JOSEPH: you’re just telling me things i already know.
DV: it’s your dream, joseph. it’s your mind.
JOSEPH: you’re not making any sense!
DV: there are others that could help you. those that see you not as a burden, but as an asset. those that would allow you to exist as you were meant to.
JOSEPH: you mean the brotherhood? they’re...
DV: they’re what? dangerous? is that what the people around you say?
JOSEPH: they hurt people.
DV: so you do.
JOSEPH: it’s—
DV: different? how?
JOSEPH: i don’t want to hurt anyone! i don’t!
DV: then why do you?
JOSEPH: it’s not me! it’s not!
DV: it is you. with the instincts of something greater than yourself, perhaps, but you nonetheless.
JOSEPH: i don’t... i don’t want to hurt anyone.
DV: you say a lot about what you don’t want. what about what you do?
JOSEPH: i want... i just want to live my life. i want to be normal.
DV: you want to coexist.
JOSEPH: i want to coexist.
[ the entire dream shimmers like rippling water, a light almost blinding just beneath the surface. when it clears, they’re different. larger. powerful. people linger below, small and breakable things. tempting. no! not tempting. the instinct abates, slipping through the cracks of his mind like sand through fingers. ]
DV: this is the future you want?
[ the people don’t scream, don’t shout, don’t flee. they’re comfortable in his presence, despite the monster who’s skin he’s wearing. ]
JOSEPH: ...more than anything.
[ behind, a voice calls, familiar. the woman—the friend—from before, this time accompanied by several others. friends, all of them. his friends. none cowering in terror at the beast that has broken through to the present. ]
DV: then you’ve made your choice. you would prefer to live among them, to even the playing field. you don’t want to believe that you could be greater than another.
[ they remain silent, distant, soaking in the moment like rays from the sun. this is a dream, but one they don’t want to end. could reality ever live up to this? could the world ever be as perfect? they have to believe that, for their sake. for everyone’s sake. ]
DV: you’ve seen a taste of what the future can hold. are you ready to share what it is you truly want?
JOSEPH: i—
DV: living your life, being normal... these are things that others would want of you. embracing yourself is the path to success, whatever you choose. you want more than that.
JOSEPH: i want... to help people. i don’t want them to get hurt.
[ the massive head he wears turns, gaze resting on a dark-haired woman in the center. she smiles softly, knowingly, droplets of water reaching up from the grass to meet her fingertips. ]
JOSEPH: i want to make a difference.
DV: you want to be a hero. but first, you need an identity.
JOSEPH: a name...
DV: a name. and what is your name? your real name?
I'm a survivor, I'm not gon' give up
I'm not gon' stop, I'm goin' work harder
I'm a survivor, I'm gonna make it
I will survive, keep on survivin'
Brenna Carstairs sempre se atrasava. Às vezes de propósito, às vezes não. Era, na verdade, difícil saber, apenas ela era capaz de dizer. A morena se olhava no espelho do chalé de Ares enquanto terminava de pintar os lábios do vermelho característico e terminar de atacar a pulseira que havia ganhado de presente de Julian naquele natal. Naquele momento, ela sabia que seu primo de consideração se encontrava pregando peças nos outros campistas entregando-lhes presentes falsos, mas para ela ele havia dado um presente de verdade. Os olhos negros observaram o pingente mais de perto, um sorriso brotando em seus lábios escarlate ao lembrar-se de outras festividades que haviam passado no mundo mortal com seus pais reunidos. Aquela lembrança nostálgica a tomou quase que imediatamente, e ela tocou na tatuagem em seu pulso para reconfortar-se, agradecendo por mais um ano com seus pais vivos e fazendo uma prece silenciosa para sua falecida mãe. Os dedos ajustaram a barra do vestido vermelho antes de passearem pelo seu corpo até chegarem ao zíper do decote, puxando-o para baixo apenas o suficiente para revelar a tatuagem desenhada entre os seios. Ela fitou a si mesma no espelho com um sorriso triunfante e seguiu para onde as comemorações se iniciavam, o salto ecoando no piso de madeira do chalé enquanto ela descia os degraus.
No meio do caminho, no entanto, Brenna diminuiu os passos, o olfato captando odores que não deveriam exatamente fazer parte daquela noite. O nariz se contorceu e ela podia sentir o cheiro metálico de sangue no ar, seus instintos entrando em alerta imediatamente. Ela vasculhou o perímetro com o olhar mas não captou nada mais que se mostrasse suspeito, até ver Thorn sair apressado do refeitório. Algo estava errado. Ela o seguiu com passos ligeiros mas parou abruptamente quando o filho de Caos freou a sua frente, parecendo estar tomado por uma hipnose profunda. Ela o avaliou dos pés à cabeça e quase tomou um susto ao ver os olhos dele adquirindo um tom acinzentado. Algo estava muito errado. “Brekker?” ela perguntou, a voz um tanto aflita, balançando a palma da mão em frente ao seu rosto que de nada adiantou, ele não parecia enxergá-la. Seu cenho franziu-se em preocupação e quando ele finalmente pareceu notar sua presença a filha de Ares proferiu outra pergunta: "Você também sentiu?”. Antes que ele pudesse responder, Brenna já estava desprendendo o hashi de seu cabelo que, com um giro entre seus dedos, transformou-se em um escudo de prata. Ela o abençoou com a mão livre e voltou a olhar para Thorn sem saber exatamente o que ele queria dizer com ‘visto coisas’. A filha de Ares apontou com o queixo por cima do ombro enquanto tentava rastrear novamente o cheiro que havia sentido à alguns segundos atrás. Seus sentidos estavam começando a sofrer algum tipo de interferência estranha e foi só quando o filho de Caos correu sem rumo, deixando uma Brenna aflita aos berros, que ela perdeu todo o resquício do cheiro. Quase tomou um susto quando uma mão tocou em seu braço, a chamando de volta para o refeitório. Era uma das suas irmãs, recitando xingamentos incrédulos pelo seu atraso que, para ela, era completamente desnecessário. Brenna transformou o escudo em hashi novamente e guardou-o entre os cabelos, seguindo sua irmã colina abaixo em meio a elogios sobre a escolha da roupa de cada uma para aquela ocasião.
Ao adentrar o salão, a primeira pessoa que Brenna viu foi Dorothea, e a morena acenou graciosamente para a amiga do outro lado do refeitório. Em poucos segundos já estava distraída em meio às conversas paralelas da mesa que havia se juntado, contudo, não demorou para que toda aquela energia de celebração fosse quebrada pelo ataque dos lobos de Lycaon. No fundo Brenna sabia que algo estava errado desde que pusera os pés fora do seu chalé, mas de uma forma ou de outra, a energia de conflito acelerava sua pulsação e alimentava seu cerne mágico. A filha de Ares sacou uma das facas da mesa de ceia e rapidamente a arremessou à distância, atingindo o ombro de um dos seguidores de Lycaon que ainda não tinha se transformado em lobo para atacar. Brenna seguiu pelo meio da multidão como se estivesse em um desfile, os olhos negros brilhando de satisfação por poder finalmente colocar as mãos em seus inimigos. A destra elevou-se para arrancar o hashi dos cabelos novamente e a canhota movimentou-se ao lado do corpo, atiçando a serpente do bracelete que outrora fora presenteado por Ártemis em uma missão. A serpente sibilou em sua mão e distendeu-se em um chicote de prata afiado que a filha de Ares usou para capturar o braço de um dos homens e o puxá-lo em sua direção, chocando seu rosto contra o escudo erguido pela outra. Brenna respirou fundo, inalando a sensação satisfatória que o campo de batalha lhe proporcionava, e seguiu para o próximo oponente.
Sua audição captava rapidamente os movimentos a sua volta, a fazendo girar em torno de si mesma para golpear quem quer que estivesse tentando pegá-la desprevenida. Brenna arremessou o escudo no ar quando um lobo irrompeu em seu caminho, o uivo sofrido do animal ecoando em seus ouvidos, mas antes que pudesse correr para atacar outro adversário, foi atirada para longe. A semideusa caiu no chão com um baque surdo e sentiu todos os ossos arderem de dor, o chicote que outrora segurava sendo perdido de vista. Ela não se preocupava com seu paradeiro pois a serpente encontraria o caminho de volta para casa, entretanto, agora se encontrava completamente desarmada e o corpo do lobo à sua frente agora havia se transformado em sua forma humana, revelando a identidade de alguém que a muito Brenna havia deixado no passado. “Eu avisei que iríamos nos encontrar de novo, B” seu ex proferiu as palavras com um riso maníaco nos lábios, agarrando seus pés e a arrastando para o bosque que rodeava o acampamento.
Brenna se debateu em sua pegada mas Gabriel estava mais forte do que nunca. Sua rota de fuga se tornava cada vez menor ao passo que adentravam o bosque e com um pulo ágil ele estava em cima de si, pressionando as mãos contra seu pescoço. Brenna o encarou com os olhos tremendo de raiva, as mãos agarradas às dele tentando livrar-se, e as palavras soaram quase asfixiadas quando ela abriu a boca “É melhor que você consiga me matar agora porque se não eu vou caçar você e arrancar essa sua mão podre para comer no churrasco” aqueles foram segundos suficientes para uma distração e ela aproveitou para cravar os dentes no nariz o lobisomem, arrancando a ponta do membro e o cuspindo em sua face. Brenna abriu um sorriso cheio de dentes ensanguentados antes que a pegada em seu pescoço fosse mais forte, as íris negras começando a se revirar pela falta de ar. Por alguns segundos pensou que havia chegado sua hora de finalmente encontrar com os mortos nos Campos Elísios. Sabia que se debater gastaria ainda mais energia, mas seus pés procuravam qualquer coisa na qual pudesse chutar para se libertar. Se fosse morrer, morreria lutando. Mas morrer não erra um opção, não naquela noite. Pelo visto os Deuses tinham outros planos para ela naquele momento, e a semideusa arfou de alívio ao sentir o oxigênio preenchendo seus pulmões novamente quando o corpo inerte foi arrancado de cima de si. O que seus olhos viram em seguida, no entanto, quase lhe tirou o fôlego novamente. Sebastian tinha sua espada em riste e outra mão permanecia erguida para ela, que a aceitou antes de levantar-se do chão. Fosse pela batalha ou não, Brenna estava igualmente atordoada em vê-lo de novo, havia feito o possível para respeitar o tempo que Robin estipulou para a sua recuperação, mas agora que ele estava diante de si seus pensamentos e sentimentos se debatiam em confusão “Obrigada, Bash” as palavras engasgadas saíram como um sussurro quando Brenna tocou seu rosto apenas para ter certeza de que era real. Um sorriso sem graça delineou seus lábios antes de sua voz ser expelida mais uma vez, agora determinada “Let’s find the others.”
The interview was a good idea. Jesse knew that with at least some certainty. It was a way to at least know who they needed to keep an eye on, to try and weed out anyone with bad intentions before they even stepped foot into the town. It wasn’t flawless by any means, but maybe it would do them better in the future than just welcoming anyone off the streets...They didn’t need another Kit in their midst, after all.
But that didn’t mean he wasn’t dreading it. It was, in essence, a job interview. And sure, he was already slotted in to take on the role in the newly formed council and had been part of making this whole interview a reality, but that didn’t make it feel any less like a means of proving his worth to be here. That he was here for a purpose and here to stay - hopefully, anyway.
He cleared his throat as he sat down across from the interviewer and recorder, faces and names blurring just a bit as he instead focused on the questions being asked.
Where do you come from?
“Originally from Chicago,” he answered simply, shoulders lifting in a bit of a shrug. There wasn’t that much more to it.
How would you describe yourself as a person?
“Uh-” he hesitates a minute, considering the question. How would he describe himself as a person? He’d never had to really think about it before. “I don’t know, really. I guess loyal, driven, a leader. At least, I aspire to be, anyway.” He hated talking about himself. It was easier to concern himself with others and not deal with himself.
How many walkers have you killed?
It’s an interesting question, truly. The number of walkers a person killed spoke to their experience out there in the apocalypse, how they were able to handle themselves in this hellish world. It also took a special kind of person to keep track of that.
In the beginning Jesse could remember avoiding it at all costs. They didn’t know anything about this ‘virus’ or these people - were they still people? Were they alive? Was it possible to get them back? But when it was life or death, Jesse chose life and chose his family, time and time again.
“I don’t know, honestly. Avoided it for a while, but when it was necessary it was necessarily.”
How many people have you killed? Why did you kill them?
He knows that this question is meant to be since the outbreak, he knows even to anticipate it. Yet he can’t help thinking back to the war, to those he had killed without all that much thought. Sure, another example of kill or be killed, another example of doing what needed to be done. And yet...
But even without considering before the answer doesn’t really come easily. Because he remembers all the blood on his hands, what he’s had to do to survive. When months had gone by and walkers became common creatures they all knew had to die and weren’t going to be coming back - well, the lines blurred between the living and the dead. He didn’t like to admit it, wanted to pretend that sentiment wasn’t true...but in that period before he’d stumbled upon Fairvale and had a little sense and hope knocked back into him --
“Jesse?”
His name pulls him back to reality a little and he looks up at the interviewer, clearing his throat. “Uhm, 8 people. I think. Wait - 7, I guess...” He folds his hands together tightly, certain that it wasn’t the answer they were expecting or looking for. It’s written firmly in their expressions even as they try to compose themselves. A killer as part of their council? Had they just opened themselves up to another Kit?
He tries to tell himself it had to be done, every death at his hands were for a reason. First because of a bite that had been hidden away, one that transformed the former companion into one of those things. There hadn’t been any consideration in that one, even if they had become something of a friend. They didn’t really count, either - technically they were no longer a person when Jesse pulled them off the boy and slid a blade into their temple. It was the kid that was truly his first, one that had reminded him so much of Liam, that he’d come to want to protect just as much as his own baby brother.
Bitten on the forearm, terrified of what was going to happen to him, the group stood around him with solemn expressions. Perhaps because they all knew what needed to be done but none of them was willing to step forward and do it. In part also because the boy’s older brother had fallen to his knees beside the younger, clinging to him for dear life with seemingly no intention of letting anyone else get close.
“We - You have to help him.” He still remembers the look of desperation in Liam’s eyes as he pleads for Jesse to save him, to keep their friend from dying at the hands of this - disease. But Jesse’s no doctor. All he knows is a bite means death and becoming one of those monsters. But if the disease can’t spread then maybe there’s a chance? The idea of removing the infected limb turns even his stomach, brings back flashes of memories that he’d buried down deep - so similar the situation and yet so incredibly different.
But living with one arm less than before was better than dying.
“Hold him still -”
In the end, it didn’t even matter. While it didn’t seem that the disease would take him, it was the blood loss and infection that did. And that blood was now on his hands, seeping into his skin, burned into his memory.
But what came next was worse, a grief stricken older brother to the boy that lay dead on the operating table (though realistically it was nothing more than an old bar top, with supplies that never should’ve been considered for the task at hand). When they’d pulled Liam towards him with a hand around his chin, ready to snap his neck at any moment. You took everything from me, now I’ll do the same to you.
If the roles were reversed, Jesse wasn’t sure how he would’ve reacted. But somehow a life for a life didn’t make sense. He tried to plead with him, talk him down...but eventually there wasn’t any choice left. If he wanted to keep Liam alive (and he’d rather die than let anything happen to him) then pulling the trigger and putting a bullet in the brain of someone he’d begin to consider a friend was all he could do...
That story was still fresh in his mind, one that replayed in a loop with different (sometimes better, usually far worse) outcomes if he closed his eyes for too long. But he’d be lying if he said it hadn’t gotten easier after that. To say he’d killed a person, a human, living person - but he’d done it because it meant surviving. Keeping himself or his family alive.
Are you searching for anybody?
“Yes.” He may have stopped in Fairvale to hang his hat and to have somewhere to call ‘home’, at least to some extent, but he wasn’t going to give up on his family. He’d just needed to refuel, recuperate, make a plan...
“My parents, my little brother, Liam. We got separated when a horde of ‘em came through. I told them to run while I drew the walkers away...” There had to have been a better solution - he thought that over and over since that day. They should’ve stuck together. But in the heat of the moment it seemed like the best option, and he’d assumed they’d circle back and find each other again without issue. They’d done it again and again. Told him to hide, told him to stay there - and he’d always managed to find him again.
But not this time. By the time he’d circled back to where he’d last seen them there was no sign of them. And he searched. And he tried not to think of what it meant that he couldn’t find them, that they weren’t here, that this wasn’t as easy as it had been before.
He stumbled upon other groups of survivors, pockets of people who had their own agendas and ended up on the wrong side of his gun in the desperate search for his family. But Fairvale had been the first place that actually sparked a little bit of hope in him. Maybe they’d found it already - no, that hadn’t been the case - but maybe they would find it, too. Just as he had.
Why are you here?
It’s a question he’d asked himself a few times since he’d arrived just a few weeks prior. Why are you here? Why wasn’t he still out there looking - not that he wasn’t taking every opportunity to continue the search. “Because I’m no good to them dead. Because I can do something here. Because chasing a moving target is impossible.” He can only hope that that’s been the problem, that with both of them constantly on the move the odds of them finding each other decreased with every passing day. If he stayed in one place - or at least had a place to go back to - then maybe that increased their odds of finding each other again.
Would you consider yourself a team player?
“Sure, yeah. I’ve always operated best on a team, I think.”
Are you the type of person who will try to make the best out of a bad situation?
The best out of a bad situation. Like trying to survive when the world was burning around them? “I’m not sure any of us would be here if we didn’t at least have some sense of that.”
What skills do you have that will benefit the community and your fellow survivors?
“I was in the marines, a few years back. I’ve been told I’m a good leader. I try to keep the best interest of the people around me at heart. And I’m not a bad shot.”
Can you handle yourself in a crisis?
The answer, again, felt pretty obvious. “I think I’ve proven that already, but given we’re all still standing here i think for the most part the answer to that has to be yes for all of us.” They were living in a crisis - for over six months now. If they couldn’t handle themselves in a crisis then they were either extremely lucky to still be alive or already dead.
What are you willing to do to protect the people and things you care about?
“I -” He’d already killed to protect Liam. He’d more quickly step into the line of fire than let anything happen to those he cared about, if he knew it would keep them safe. “Anything.”
Do you have any pre-existing medical conditions our medical staff should be informed about?
This was another question he wasn’t looking forward to. His disability was often hidden from others, behind a pant leg he looked no different unless you knew to pay attention to the slight hitch in his gait. For the most part it didn’t hinder his abilities - running wasn’t as easy as it had once been and he couldn’t be on his feet for lengthy periods of time without discomfort, but he imagined almost everyone suffered those ailments if only in a very distinctly different way.
He just didn’t want people looking at him like he was broken. At least not in that way. He’d seen the pitying gazes all through his recovery. This, as much as he hated to say it, could be a fresh start.
But he also wasn’t stupid. He couldn’t do all of this own his own. Sometimes, he’d need a little extra help.
Pulling up the leg of his pant to reveal a hint of the prosthetic beneath, his shoulders lifted in a slight shrug. “I’d prefer to keep it discreet, if possible.”
Gaoth se assistia voltar àquela casa como se assistisse a um filme. Via-se do alto entrar minúsculo por uma das janelas, aproximar-se da cama do homem que vitimaria, acordá-lo com o som de um vidro de veneno se estilhaçando no chão. Observou o homem acordar aterrorizado, e correr para longe do fae tão rápido quanto pôde, mas não rápido o suficiente. Pretendia descer a escada, alcançar um telefone ou qualquer outra coisa, desesperado para salvar a vida. O rapaz continuava a persegui-lo, sem certezas. Já hesitara uma vez, poderia tê-lo alcançado e destruído num instante, apenas, porque não o fizera?
O jovem assassino, sonhando, se assistiu afastar-se aquelas coisas da cabeça e fazer menção de seguir sua presa, que já disparava pelos primeiros degraus quando aquele senhor olhou-o mais uma vez. A expressão que carregava no semblante ficou gravada na mente do fae. Talvez porque fosse triste demais, um animal caçado, morto antes de morrer, e talvez porque tenha sido a última que o homem foi capaz de sustentar antes de tropeçar e rolar escada abaixo. Gaoth arrependeu-se. Não queria fazer aquilo, não queria matá-lo e, uma vez que o tinha percebido, nunca mais poderia negá-lo.
Assistiu àquele homem, cruel metalúrgico, câncer do ambiente e do mundo, tropeçar e rolar escada abaixo. E compadeceu-se dele. Tentou buscá-lo, parar a queda, ajudá-lo como fosse, mas sem sucesso. Quando o mais novo alcançou a sua vítima aos pés do último lance das escadas, encontrou-o destruído, quebrado, ensanguentado em algumas partes que sofreram mais lesões. “Não, não, não...” Murmurava repetidamente, passando pelo corpo do homem um par de mãos que brilhava em azul, se detendo nos ferimentos mais graves e reparando-os. Mas foi lento demais. Gaoth assistiu bem de perto a vida se esvair dos olhos daquele homem que já nem parecia tão mau. Parecia apenas... Indefeso. O rapaz sentiu as lágrimas queimarem-lhe a parte de trás dos olhos, ameaçando cair de qualquer maneira, sem que o fae as pudesse impedir. “Não era pra ser assim, não, não... Foi um acidente.” ele continuou murmurando, percebendo, enfim, que de fato fora um trágico acidente. Desde que o vira despertar e correr e gritar e chamar por socorro, implorar pela vida que perdera com os olhos marejados, o fae não tinha mais intenção ou coragem de assassiná-lo.
O empresário, então, morreu no colo daquele vil desconhecido. E Gaoth sentiu que um pedacinho seu morria junto. Com o coração apertado, repousou o corpo no primeiro degrau. Nem teve coragem de contorcê-lo num ângulo estranho, de queda. Deixou-o ali, repousando como um anjo. A polícia que se virasse, depois, para encontrar uma explicação. Não é como se fossem chegar a conclusão de que uma fada entrara voando pela janela e o assustara fatalmente, perto demais da escada.
Virava-se na direção da janela, pronto para encolher e partir como havia feito em suas lembranças quando deixou de assistir ao seu feito e começou a vivê-lo mais uma vez. Mas com um desfecho diferente. Escutou uma risada - uma risada de mulher - e voltou-se, assombrado, para o corpo. O velho ria, orgulhoso, contente, sublime. E, num segundo, não era mais um velho, mas uma general poderosa, impávida e irascível. Sua mãe.
Ela ria e estava feliz e será que tinha notado que ele chorara? Esperava que não. Ela continuava rindo, sem parar nunca. “Meu filho, meu filho, meu filho!” dizia em outra língua que não era espanhol e não fazia com que ele se sentisse em casa, no colo. “Que orgulho do meu filho!”. E, dito isso, o rosto mudou novamente, diante do olhar fixo e impotente do rapaz. Era Anastasia. E ela não ria. Não chorava. Não fazia nada. Estava inerte, gelada e morta. E, sem saber como, Gaoth sabia que havia sido ela que ele jogara da escada, ela tropeçara e morrera, e jazia sem vida, colocada cuidadosamente aos pés do primeiro degrau como se fosse um anjo.
Agora Gaoth berrava. Segurava a cabeça com as duas mãos e ela doía infinitamente. O riso de sua mãe estava dentro dela, e o silêncio da morte da Anastasia, mais barulhento do que qualquer um dos seus pensamentos, também. As lágrimas então rolavam pela face do assassino sem nenhuma censura - ele nem conseguia pensar nelas, senti-las - quando o rosto mudou de novo. Era Safira e era também estava aos prantos. Apontava o dedo do presidente da metalúrgica para ele e dizia repetidamente: “Você mentiu pra mim também, você mentiu pra mim também!”
A janela, de repente, estava a metros e mais metros, uma distância infinita dele, e Gaoth corria até ela sem jamais alcançá-la. Queria deixar aquele lugar, precisava deixar aquele lugar, mas não conseguia deixar de olhar para o cadáver por cima do ombro enquanto fugia, e, a cada vez que o fazia, a janela se afastava um pouco mais. Teve tempo ainda de ver Poppy, morta pela Lúpus, ele sabia sem precisar que lhe fosse explicado, antes que se lançasse para o céu da noite, batendo as asas à exaustão.
O mundo era diferente lá fora. Era aterrorizante, era vermelho sangue, e os humanos gritavam amedrontados, agarrados às vidas frágeis como o velho que Gaoth havia acabado de assassinar também havia feito. Era parte daquele mundo. Tinha sangue nas mãos. E, ainda que tivesse sido treinado durante toda a vida para fazer parte dele, não gostava.
Fechou os olhos com força e voou sem parar nunca. Ainda que não visse, sentia: era a supremacia, o mundo era deles e os humanos eram finalmente esmagados como baratas sob os seus pés, sob os seus braços ou sob suas mãos pateticamente impotentes. Gaoth suspirou, ouvindo-os morrer aos montes, ouvindo-os serem dominados e ouvindo alguém rir atrás dele. Ria loucamente, ria como sua mãe, e a voz de Mirakkar retumbou como um trovão atrás de si. “Bravo, bravo! Bem vindo ao novo mundo, mestre, vamos ver do que o senhor é capaz!”
Contra a sua vontade, Gaoth olhou-o e sorriu. Um sorriso frio, lâminas de aço. Cumprimentou o servo e professor com a cabeça, e voou com ele para baixo, na direção da matança. Participaria dela, a estrelaria, ele sentiu. Dentro da própria cabeça, Gaoth gritava, esperneava e sentia o controle que tinha sobre o corpo e a voz se desfazer em fumaça.
Segurava uma espada. Da ponta já escorria sangue. Mirakkar ria, e Gaoth riu junto enquanto chorava. Decapitou uma, duas, três crianças que tentaram escapar. Ria e berrava, perturbado. Seus olhos ardiam e ele sentia na boca um gosto amargo, e sentia fome. Alçava voo mais uma vez, deliciado com o novo mundo, desesperado dentro de seu cárcere privado. Em rasantes perfeitamente executados, cortava braços e cabeças, divertia-se. Gritava a plenos pulmões, pedia-se para parar, mas não parava. A natureza florescia bela, intocada, e Gaoth sentia a força invadir o próprio corpo, uma alegoria de toda uma espécie que renascia das cinzas, do sangue, mais forte.
Desfilava com sua espada, asas abertas. As lágrimas brotavam e transbordavam por dentro, mas, por fora, o sorriso era cínico, de metal gélido. Das asas escorriam fios de ouro e como ele era lindo, lindo e feio, horrendo, monstruoso. Seu olhar encontrou mais um rosto conhecido e Gaoth berrou para que ele o ajudasse, mas a voz não saiu. Ao invés disso, os lábios se contorceram num sorriso diabólico e ele o lançou para Harry um minuto antes de cortar mais uma cabeça.
Gaoth acordou sobressaltado e aterrorizado, soltando todo o ar que nem sabia que estava prendendo em seus pulmões. Seu rosto estava trilhado por lágrimas abundantes e o corpo todo encharcado por suor frio. A garganta doía, também e, mesmo sem testar, o fae sabia que estava rouco. Era como se tivesse gritado a noite toda. Olhou para o lado e encontrou Echo dormindo como pedra. Não, não gritara. Mas sentia no peito um aperto inexplicável, na cabeça todo o peso do mundo, e sobre si morbidade densa, triste, falsa e melancólica. Levou a mão ao coração. Ele batia acelerado, desesperado, como se tentasse romper a pele do rapaz e fugir, levando consigo a verdade.
Fechou os olhos e tentou voltar a dormir, sem sucesso. Ainda que não se lembrasse de nada, Gaoth sabia que, o que quer que tivesse visto em quanto dormia, havida sido horrível. E ele nunca mais seria o mesmo. Esperava com tudo o que tinha dentro de si que tivesse sido apenas um sonho.
O mundo inteiro sumiu quando Bethany começou a rodopiar. A quadra, onde ensaiava tão tarde da noite para a próxima apresentação, toda a Camden High, o silêncio da madrugada e até mesmo o seu namorado, que a assistia atentamente da primeira fileira da arquibancada. Quando a jovem sul-coreana começou o pirouette, todos eles simplesmente deixaram de existir. Havia ela, havia o a ponta de um dos seus pés rodando incansavelmente no chão bem incerado, a outra perna pegando impulso de quando em quando, um giro infinito e mais nada.
Era um passo difícil. O mais difícil e o mais ousado que a moça já intentara. Por isso os treinos noturnos, por isso tanta dedicação, trabalho e suor. Tinha que ser nada menos do que perfeita. O queixo erguido, o sorriso de atriz, o corpo ereto e a postura de uma boneca de caixinha de música, uma bailarina completa. Foi uma dor súbita na coxa direita que a desmontou. Bethany, antes gloriosa como uma fada, caiu como um trapo pesado, produzindo um ruído oco no chão.
Levantou-se corajosamente, arfando. O olhar de Marcus era impassível, gelado. Uma decepção classuda, quem sabe? Ou talvez simplesmente não estivesse nem aí. Bethany reergueu-se, fuzilando com um olhar flamejante: seu olhar de desafio. Uma dorzinha na perna não a impediria de absolutamente nada. Apoiou-se na trave e impulsionou o corpo para cima, na ponta dos pés.
Recomeçou o movimento. Os pés na quarta posição: plié, passé relevé. E o queixo sempre em frente, norteando o movimento, mais veloz que todo o resto do corpo, exibindo ao público o melhor sorriso da jovem bailarina. A dor recomeçou sem aviso, queimando-lhe a coxa mais uma vez. Bethany resistiu por um ou dois giros, mas não demorou a cair novamente, gritando de dor. Tentou agarrar-se à trave para que o corpo não fosse de encontro ao chão mais uma vez, mas seria melhor que não o tivesse feito: raspou o joelho num pino enferrujado e afiado, rasgando a calça e a pele, sem impedir a queda.
O corte sangrava, e a dor era insuportável. Beth urrou mais uma vez, de frustração e sofrimento. Olhava para o seu joelho completamente ensanguentado com nojo e aflição, e gritava para que Marcus a ajudasse, já não conseguia se levantar. O rapaz, entretanto, não se movía. Encarava-a sem vê-la, como se estivesse tonto. E os berros de Bethany ecoavam pela quadra, ricocheteando inúteis nas paredes de pedra.
Estava ficando tonta. Perdera sangue demais? A voz que lhe arranhava a garganta perdera toda a potência. Chamava pelo amado quase que com um sussurro, um sussurro desesperado e débil. Mas, dessa vez, Marcus atendeu.
A próxima coisa que Bethany notou foi o corpo do namorado sobre o dela. Teria gostado daquilo numa outra situação, mas o olhar assassino, desejoso no rosto dele levou-a ao pânico absoluto no lugar de dar-lhe prazer. Não teve, entretanto, sequer um instante para temer por sua vida. Enquanto ao longe ela escutava o relógio bater doze horas, sentiu facas afiadas cravando-lhe o pescoço, e depois não sentiu mais nada...
Ao despertar, Bethany não se lembraria das sensações torturantes de seu estranho pesadelo. Não se recordaría dos tons vermelhos, cor de sangue, e nem do cheiro de desespero que pairava no ar. O gosto amargo nos lábios, entretanto, não a abandonaria nunca mais. Sentiu uma agonia infinita, pincelada por pontadas violentas na perna que a traíra no chão da quadra. E, só então, teve a preocupação de olhar em volta.
Seus pais e suas irmãs estavam aterrorizados. Gritavam e urravam para um Harry que corria, corria e corria mas não chegava nunca. Não pareciam vê-la, entretanto, atirada no chão, coberta de fuligem. Sempre fora assim tão invisível? Bethany também gritou. Pediu à Annya que a levanta-se, á Freya que a socorresse e a Harry que se apressasse para ajudá-los. Mas eles não a ouviam, e ela mesma não conseguia escutar a voz projetando-se para fora de sua garganta dolorida, rouca.
Chorou em desespero. Chorou todas as lágrimas que pôde, e a água salgada embaçou sua visão, protegendo-a das cenas violentas que se desenrrolavam naquele estranho cenário onírico. Não viu quando uma fada de asas douradas e vermelhas cortou uma cabeça e riu. Não viu quando um lobo abriu o tórax de um homem com as mãos e comeu-lhe as entranhas. Não viu os vampiros drenando o sangue de crianças apavoradas. E não viu os esforços inúteis de Harry, que jamais iria alcançá-los.
Apenas chorou e gritou, esperneou eternamente no chão, levando uma das mãos ao pescoço por instinto, por reflexo e pela dor. Sequer reparou nos furos que agora decoravam sua pele, marcas de uma transformação que não pedira, e de uma condição que levaria consigo pela eternidade, quisesse ou não. Passaram-se minutos, dias ou horas. Bethany não saberia precisar. O mundo continuava sufocando-a em seu vermelho febril, abafando as súplicas arroucadas e sua família, enevoando o desespero de seu irmão e recebendo no ar salgado e azedo as vidas que se esvaiam.
Mas a moça não se lembrou de absolutamente nada quando abriu os enormes olhos, agora vermelhos, tons de terra e sangue. Bethany olhou ao redor: o seu corpo ainda estava estatelado no chão, e não havia nem sinal de Marcus. Mas já não se sentia fraca, a dor na coxa direita a havia abandonado, e seus membros pareciam vibrar com uma força desconhecida. A cabeça, todavia, zumbia furiosamente, doía como o diabo. Não pôde segurar as lágrimas, que inundaram as pálpebras já molhadas sem que Bethany entendesse o por quê. A única coisa que sabia, naquele instante, é que ser uma vampira era muito melhor do que ser uma reles humana ordinária. Afora isso, não sabia mais nada.