Bar Azul, 1996 / Instagram de Luiz Braga
"É na risada histérica que pula do espelho quando me olho pela manhã, mas tem que ser esse espelho enferrujado, que vejo todo o Guamá. Existe apenas esse espelho, essa posição, essa luz, esse horário, esse quarto e essa garota órfã no mundo, em nenhum outro momento ou lugar essa combinação se repetirá. Só assim poderei evocar e invocar o meu Guamá, esse de tantas memórias profundas.
(...) Cada amanhecer fazia da vovó nossa protagonista, tudo era mais brando perto dela, não que fosse uma pessoa que nos mimasse, mas era uma mulher que preenchia qualquer vazio, o vazio que faz eco, engana. Mas ela conhecia a gente em tudo. Vinda do Acará, uma cidade no interior do Pará, chegou no Guamá quando o bairro estava explodindo de gente do Nordeste ou dos interiores ao redor. Nessa época, os próprios moradores abriam ruas e faziam melhorias no bairro, não mudou muito.
(...) Não lembro de ter ido muito longe do Guamá, sempre moramos aqui. Era meu continente, meu planeta. Uma trama de casas de alvenaria e madeira, de um andar ou dois, vendas de todo tipo, um crescimento desordenado como as ideias da minha cabeça.
(...) Vovó tinha a cara do Guamá, desse que vejo no espelho antigo.
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Monique Malcher ~ Flor de gume (2020)














