Mostra de São Paulo: O Direito do Mais Forte (Gênero, Pan)
Por Davi Barros
Em um trecho de O Heroísmo da Visão, Susan Sontag diz: "Seguros habitantes de classe média dos recantos mais ricos do mundo, regiões onde se tira e se consome a maior parte das fotos, têm notícia dos horrores do mundo sobretudo por meio da câmera: as fotos podem afligir e afligem. Mas a tendência estetizadora da fotografia é tamanha que o veículo que transmite sofrimento termina por neutralizá-lo. As câmeras miniaturizam a experiência, transformam a história em espetáculo. Assim como criam solidariedade, fotos subtraem solidariedade, distanciam as emoções.". Apesar de falar da fotografia, uma discussão similar pode ser trazida ao campo do cinema, sobretudo a uma certa tendência que vem consumindo o cinema dito arthouse majoritariamente europeu nas últimas décadas, a dos intitulados filmes "urgentes" que tratam sobre problemas sociais, geralmente os expondo através de uma série de diversas formas de violência na qual um (ou mais de um) personagem é submetido, utilizando de uma estética hiper realista para perturbar ainda mais o espectador. Com a finalidade de denunciar certo aspecto da sociedade, esses longas acreditam que expor a realidade nua e crua para o público seja a única forma de os tornarem conscientes sobre as mazelas modernas, mas será que, em um mundo já abarrotado de registros imagéticos de violências, mais imagens realistas sobre violência conseguiriam de fato conscientizar o espectador? Por mais que elas sejam realistas e isso o aproxime do público, esses filmes não estariam espetacularizando o sofrimento alheio em prol de uma dita causa social? Apesar de serem tidos como longas confrontacionais, eles geralmente são premiados em festivais internacionais de renome e rapidamente se juntam ao cânone, quase sempre aclamados pela crítica especializada e amados por uma audiência na qual esses longas supostamente criticam. Gostar desse tipo de filmes se mostra mais como uma grife que atesta o "bom gosto" de uma pessoa por apreciar uma obra de caráter reflexivo, uma forma de aliviar a culpa do espectador em relação ao problema representado na tela, o submetendo a uma hora e meia de todo tipo de violência e injustiça social, retratada da forma mais verossímil possível. Um incômodo cômodo. Apesar de compartilhar certas semelhanças com esse tipo de tendência que se popularizou em festivais, Lav Diaz na maioria das vezes consegue se distanciar desse tipo cinema, seus personagens não são simplesmente peças em um tabuleiro cujo a única função é provar o ponto X do diretor, são pessoas com suas alegrias e dores tendo que sobreviver em um mundo hostil a elas, e provavelmente nenhum desses cineastas premiados por seus filmes "urgentes" conseguiriam filmar uma cena tão bela quanto a em que duas personagens cantam "Sunrise, Sunset" e "Somewhere" em A Mulher Que Se Foi. Apesar de seu foco excessivo no sofrimento dos seus personagens chegue a beirar a espetacularização, o diretor filipino consegue remediar isso pelo seu olhar de uma pessoa que também é afetada por aquela realidade em alguma medida, uma forma de registrar histórias que provavelmente nunca seriam contadas. Em Gênero, Pan, Diaz foca na relação entre três homens e o que se dá entre eles como o mote principal da trama, o que vai desencadear todas as tragédias que estão por vir. Pouco após eles chegarem a ilha, um deles liga o rádio e escutam um cientista falar sobre o cérebro humano, onde ele diz que algumas pessoas ainda possuem um cérebro menos "evoluído", mais próximo de chimpanzés por seu caráter mais violento e egoísta, o oposto disso se mostraria em humanos altruístas e que não demonstram sentimentos como ciúmes, de acordo com ele. Ainda é exemplificado que as pessoas com o cérebro mais próximos ao de um chimpanzé são geralmente ladrões, assassinos e ditadores, enquanto as "desenvolvidas" são comparadas a líderes religiosos. Essa sequência já denuncia em alguma medida o que está por vir no filme. O que se segue depois é quase Um Dia no Campo do terceiro mundo, só que se lá aqueles personagens tinham tempo para amar e se desiludir, aqui o espectro das injustiças sociais de seu meio e a própria violência na qual carregam pairam sobre eles, se tornando quase que um filme de terror, assim como outros do Lav Diaz. Aliado ao lado místico presente no cenário na qual eles se encontram, os personagens estão quase que predestinados à danação, com um encontro supostamente amistoso se tornando o catalisador da violência que acontecerá.
Começando do micro até chegar ao macro, a violência no filme vai crescendo como se fosse um tumor maligno. No que tange o discurso do filme, ele não está muito distante de outras obras do Diaz, com sua visão pessimista e praticamente niilista se tornando inclusive até um pouco mais forte aqui, onde nem a figura mais religiosa do trio se mostra tão "evoluída" quanto o cientista havia dado a entender. Apesar de inicialmente começar "diferente" de outros filmes do diretor, logo ele retorna a temas comuns a sua obra, que aqui parecem denotar mais um repetimento do que uma reformulação de ideias, como se ele acreditasse que suas imagens sejam o suficiente para abarcar todo o projeto, e por mais fortes que elas possam ser, o filme não existe só delas. É mais um filme com o mesmo discurso de sempre, de que o homem é mal por natureza, e apesar de Diaz ser muito mais interessante que outros diretores que trabalham com temas similares, aqui ele parece cair em algumas armadilhas que o separavam desse cinema sádico arthouse feito para um público mais elitizado e supostamente erudito. No começo do filme, um dos personagens diz que com a condição na qual eles se encontram, é a sobrevivência do mais forte que prevalece, uma espécime de mundo cão, uma violência sem fim. Apesar de tentar fugir um pouco das dicotomias estabelecidas inicialmente, fica difícil tirar o gosto amargo da boca após o discurso do cientista, ainda mais porque ela parece permear sobre todo o filme. Se tudo está predestinado a violência e destruição, então não há nada a se salvar.
Gênero, Pan está disponível na 44º edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
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