Movimentos Noturnos (Liberté)
Por Lucas Andrade
Liberté começa com uma conversa entre dois nobres, um francês e o outro alemão, sobre a execução de Robert-François Damiens, um servo acusado de regicídio por Luís XV em 1757. O nobre francês descreve em detalhes o processo de execução, onde o acusado teve sua pele queimada e arrancada com pinças de ferro em brasa, uma tentativa de desmembramento, primeiro através de quatro cavalos e em seguida com os tendões cortados à faca, acabando por fim com seu torso sendo posto na estaca e queimado em praça pública. É um relato horrível não apenas pelos detalhes gráficos pacientemente descritos pelo nobre, mas também por uma estranha atmosfera erótica que se forma no ambiente, em que tanto o ato de descrever como o de ouvir essas ações de violência extrema aparenta causar uma excitação visível por parte dos dois homens, como se estivessem compartilhando uma história proibida mas não por isso menos lasciva.
Muito provavelmente o diretor Albert Serra tinha em mente que tal relato também é o que dá início à outra obra que também explora, dessa vez sob um viés acadêmico, as relações entre controle, Estado e violência: Vigiar e Punir de Michel Foucault. Em linhas bastante básicas, Foucault analisa a mudança que ocorreu entre fins do século XVIII e percorreu boa parte do século XIX da punição corretiva enquanto forma de espetáculo público em que a violência era uma medida infligida diretamente ao corpo do acusado para uma instituição privada que tudo vê, e que ataca ao invés do corpo a mente e a “alma” do criminoso como forma de correção. Liberté acontece nesse espaço de mudança, onde as políticas do corpo estavam passando por drásticas remodelações, seguindo as mudanças políticas que em breve também tomariam toda a Europa. Como o próprio título atesta, o filme acompanha personagens que aspiram e praticam uma solução para esses paradigmas, uma emancipação das rígidas normas sociais que resultam por fim na liberdade em sua forma mais pura.
Não é a toa que, excluído a breves momentos em seu início e fim, Liberté é em sua grande maioria um filme noturno. Um período carregado de significados eróticos (especialmente no século XVIII) a noite aqui representa uma chance de libertação das algemas sociais, e das próprias noções de moralidade, abrindo espaço para o desconhecido onde esses libertinos podem dar vazão às suas fantasias secretas. Serra se interessa pela noite especialmente pelo seu caráter anti produtivo, por um senso de alheamento e de suspensão de continuidade, filmado aqui com uma sensualidade remanescente das obras dos mestres rococó, aliado a uma atenção aos corpos e as infinitas configurações entre luz e sombra que apenas Serra consegue alcançar atualmente. A noite é o período que torna possível essa exploração da sexualidade enquanto uma força democrática. As relações que tomam presença nas florestas de eucalipto onde o filme se situa possuem um caráter arbitrário, onde papéis sociais desaparecem sob a lei do desejo.
Muitas comparações foram feitas entre Liberté e a obra do Marquês de Sade, especialmente seu 120 Dias em Sodoma, onde também experienciamos transgressão sexual enquanto uma forma de espetáculo, encenado sob uma nascente ideia de libertinagem que andava lado a lado com as mudanças de pensamento trazidas pelo Iluminismo. Ambos são obras sobre perda de moralidade, uma aniquilação da individualidade em busca de um prazer distanciado dos ideais de produtividade. Mas se em Sade essa desumanização era encenada através de um vigoroso projeto de mecanização do homem, uma busca ativa de uma sexualidade utópica em sua negação dos ideais reprodutivos da época, Serra aplica sua típica languidez formal para construir um retrato de impotência que evoca nada além de um senso de desespero palpável.
Se A Morte de Luís XIV representava uma espécie de ápice no seu cinema, todas suas obsessões condensadas nos gestos e no corpo de Jean Pierre Léaud, em Liberté ele abdica do drama unitário em busca de uma descentralização confusa. Em sua base, o impulso é o mesmo: o prazer voyeurístico inerente à matéria do cinema estendida até o último ponto. E enquanto a perversidade de Luís XIV residia em entrarmos em conjunção com essa ideia observando a lenta morte de uma figura mítica em tempo real, aqui é a inércia do sexo que causa ruptura. A emoção de um cinema baseado no choque do tabu é quebrada pelo fato de Serra simplesmente não estar interessado em explorar os limites da transgressão aqui. Liberté se constrói em torno de diversas tentativas falhas de alcançar qualquer clímax: sexual ou narrativo, e isso se deve tanto a um apreço do diretor pela decadência do corpo e sua decrepitude como também a uma certa angústia e frustração inerente ao desejo que sustenta todo o filme.
Assim como as pinturas de Boucher hoje nos parecem nada além de divertidos retratos de uma época em que o conceito de transgressão através da libertinagem ainda era possível, também é igualmente certo pensar que a última coisa que Serra procura aqui é a transgressão como um fim em si mesma. O diretor parece possuir um interesse quase vil em explorar a aristocracia europeia como um teatro em que a finitude do corpo se torna visível através da impossibilidade dos rituais sociais em mascarar os limites frustrantes da nossa própria mortalidade e em Liberté não é diferente. O título do filme desse modo não deixa de ser irônico: a última cena revela um lento nascer do sol, não só uma espécie de renascimento de um ciclo mas a exterminação de outro, que acabamos de presenciar. A liberdade não faz sentido se não for pareada com a opressão, e ao acessar através do cinema uma imagem obsoleta e construir nessa fratura temporal uma dramaturgia própria, Serra descreve por fim como paradoxalmente o desejo floresce nesses ambientes em que sua negação é mais incisiva.
















