Quilhas
De forma um pouco aleatória tentarei abordar este assunto: Quilhas!
AVANT-PROPOS
Escrevo este texto apenas como um surfista que vem experimentando alguns tipos de quilhas em alguns tipos de pranchas, em algumas condições de mar, em algumas circunstâncias que variam, como tudo... outra remarca importante é ressaltar que o interesse, ou o processo de “aprofundamento” no assunto quilha é recente se considerado meus 25 anos de surfe, correspondendo a menos de um quinto deste. Logo, venho me interessando e descobrindo mais sobre, nos últimos quatro, cinco anos.
METAFORAS
Uma possível metáfora seria, pneus para um carro. Mas ela é falha pois as quilhas são muito mais do que os pneus são para um carro. Seria o pneu e a direção talvez? o leme de um barco, servindo até mesmo como um motor, se considerarmos a propulsão que elas podem gerar. Uma outra metáfora possível seria as Barbatanas de um peixe (talvez a mais sensata considerando a hidrodinâmica e a biomimética). Deixemos as metáforas de lado: quilhas são quilhas, e servem numa prancha como elemento fundamental em seu funcionamento e performance, possibilitando certos movimentos e limitando outros... Tem a ver com hidrodinâmica, afinal o território mais comum pra uso de uma prancha de surfe é dentro água, apesar de por vezes ela sair voando por aí, especialmente nos tempos modernos. (Alguém me corrija se eu vir a falar muita besteira por aqui)
FATORES de INFLUÊNCIA
Alguns fatores que influenciam o funcionamento de uma quilha:
Material - uma quilha pode ser composta pela combinação de alguns materiais ou por um único material. Os que me vem na cabeça agora são: fibra de vidro, resina, madeira, fibra de carbono, plástico, compensado, honeycomb, ... esses materiais, e suas proporções irão atuar especialmente na flexibilidade da quilha e terão muito a ver com a durabilidade e resistência, bem como o peso e resposta dentro d´água.
Outline/Design: assim como uma prancha pode ser moldada, esculpida, a quilha funciona de forma muito parecida. De um pedaço de “bloco”, corta-se (a mão ou numa máquina) uma determinada forma, e depois trabalha-se nos detalhes e pormenores, vai se trabalhando o foil, visualizando a entrada/saída d´´agua, sendo este um trabalho minucioso e delicado, mas que também pode ser feito, e simplificado com o uso moldes e pela mecanização de algumas partes do processo. Esta parte de mecanização e industrialização da fabricação de quilhas me é ainda pouco conhecida, mas sobre o que sei no sentido de se fazer uma quilha à mão, testemunho a grande dedicação e complexidade do processo.
Formas de encaixe: dois grupos basicamente, quilhas laminadas na prancha, as fixas ou as removíveis: que podem ser compatíveis com sistema FCS, FCS 2, FUTUREFINS e US Box. (existem outros, mas esses 4 são os mais comuns)
Posicionamento: O funcionamento de uma determinada quilha depende muito da posição e da angulação que ela é colocada em relação à prancha. Isso tem total influencia na forma com que a quilha irá se “comportar dentro d´água.
Esses fatores foram aqui descritos pra termos alguma noção de que é um objeto não tão simples como muitas vezes parece. Possui diversas nuances e variações, que irão interferir diretamente na forma com que uma prancha irá se comportar durante o deslizar sobre uma onda.
VARIAS QUILHAS - VARIAS PRANCHAS
Com algumas experimentações vim a perceber que se tenho uma só prancha em meu quiver, mas tenho algumas quilhas diferentes para usar nesta prancha, acabo por ter “várias pranchas”. Colocando uma quilha mais flexível ou mais rígida, maior ou menor, com esse ou aquele outline, mais pra frente ou pra trás em relação a rabeta da prancha, tenho experiências de surfabilidade totalmente diferentes.
No entanto, posso ter uma série de pranchas, com diversos outlines, características, mas se eu dispor de apenas uma quilha, poderei ficar extremamente limitado em minha “surfabilidade”.
QUILHA DE PLÁSTICO ?
É uma pergunta que terá sua devida polêmica. Há quilhas e quilhas, como há pães e pães... pão de farinha branca industrializado ou pão de farinha integral feito a mão com fermentação natural? Há plásticos e plásticos, fibras e fibras, resinas e resinas... Basta entender pra que serve a quilha que estás a procura? Se for pra aprender a ficar em pé numa prancha, ir reto, e não machucar ninguém, pode ser que uma quilha de plástico acabe por lhe servir super bem. Não iria defender que uma quilha de carbono, super hi-tech ou uma quilha feita à mão é indispensável a um iniciante. Mas pode ter certeza que conforme o surfista vai aprofundando e aprimorando o seu surfe, se colocando em situações mais exigentes, consideraria sensato consultar alguém que conheça um pouco mais do assunto ou simplesmente ir testando e expandindo as possibilidades que poderão lhe servir melhor.
Não resistirei a metáfora! Imagina que pra aprenderes a dirigir pode-se começar com um fiatzinho 1.0 com pneus carecas andando devagar no asfalto. A partir do momento que vais fazer uma trilha off-road no sahara, seria mais seguro usar um jipe, talvez um “landrover” ou um Toyota 4x4 com bons pneus. Não lhe servirá apenas a carcaça de landrover. Precisarás de um motor forte e que funcione bem, assim como pneus específicos praquele tipo de terreno. Se quiseres um carro de corrida, para andar em alta velocidade, terás que alterar toda a configuração. Já não lhe servirá um 4x4 pesado com pneus de trator, precisará de um carro mais leve com determinado motor, com um design e uma aerodinâmica específica pra corrida, etc etc etc...
FEITA À MÃO OU À MAQUINA? vou deixar com cada um a reflexão. Mas posso vos dizer que sou apaixonado por trabalhos artesanais e manuais, trabalhos que são feitos de forma dedicada, com uso de boa matéria prima, com criatividade, conhecimento e experiência, feitos para durar, produzidos numa óptica equilibrada, onde cada parte envolvida no processo receba um valor honesto e digno como artesão, como ser humano. Admiro trabalhos que honram a inventividade, o talento e as horas investidas na sua concepção e construção. Tudo que existe por trás da peça. Assim como um simples pão pode carregar em si muita história, lágrima e suor (muito amor) - é isso que valorizo numa prancha, numa quilha, ou em qualquer outra obra de arte.
Viva a Arte, Viva o Surfe, Viva o Amor!
Um maha Aloha and Enjoy the ride!
photo Luiza Tozzi















