Se a certeza fosse parte da minha consciência, se o conhecimento fosse as sinapses correndo no meu córtex, se os pelos arrepiados fossem sinais de estar vivo, se eu possuísse a terra, se o mastigar fosse a fome pelo amor dos gritos da minha barriga, se correr me levasse ao destino, se houvesse algum destino nesse abismo da vida, se as minhas palavras tocassem como constantemente as minhas mãos alcançam as coisas, se eu pudesse voar para ver a realidade de outro ponto de vista, se as possibilidades e oportunidades trouxessem a convicção de um manual não recebido na fabricação, se existir fizesse tanto sentido quanto os meus próprios sentidos me conduzem nessa estrada, se a sensibilidade fosse a riqueza mais cobiçada, sem disputa e partilhada, se estar fosse ser de nada, valeria todos esses “se”; se sair do muro fosse um estado de paz e não de guerra, se as minhas palavras tivessem alguma raiz etimológica, filosófica, racional, se o pensar me aproximasse mais do existir, se fazer o que todos fazem fosse o correto, a vida não seria esse caos, pois seguimos copiando e colando; se o correto fosse tão correto, não haveria dúvida, se a dúvida trouxesse a certeza, ah, se a dúvida me presenteasse com a certeza… Se me encaixasse em um molde, corpo ou do lado de dentro, mas o ar e liberdade estão presentes fora das minhas limitações humanas; se a vida fosse curta, ela não seria infinita. A vida é muito longa, e a morte é breve. O que se entende por morte não é a morte. A morte é a vitória de uma pausa, um suspiro, um descanso remunerado, férias, feriado, final de semana, verão no inverno dos amantes do verão, despertar, transitar nas dimensões do divino e finalmente encontrar água para se molhar no calor escaldante de janeiro. O fim não existe. O que existe são eternas reticências…