O ciclo vicioso da "vida instagramável"
Não é de hoje que noto essa proliferação de pessoas “plastificadas”. Os rostos, padronizados pelas “harmonizações” faciais, competem com dentes cada vez mais brancos e alinhados, mesmo que beirem o antinatural. Até os mais “discretos” teimam em não envelhecer: ficam sem expressão, os cabelos jamais embranquecem.
Como cantou o sábio Arnaldo Antunes, “a coisa mais moderna que existe é envelhecer”. O ciclo da vida é esse: o cabelo fica ralo, as rugas surgem, a audição falha e os amigos mais próximos começam a partir.
Não me entenda mal. Não é uma crítica direta à vaidade de quem deseja retardar esse processo natural. Um pouco de cuidado não faz mal a ninguém, especialmente a quem vive da própria imagem. O problema, na minha (não tão importante) opinião, reside numa espécie de escravidão, num culto excessivo à imagem, na busca eterna por uma beleza inatingível.
O padrão de beleza muda em velocidade vertiginosa. Para as mulheres, já não basta ser magra, ter barriga negativa e o escambau. Agora é preciso ser "bombada", ter “bumbum na nuca” (nem sei direito o que isso significa), ostentar cabelo impecável e só publicar fotos em cenários paradisíacos. Já os homens não podem mais ser calvos: pegam um avião para a Turquia e voltam com as madeixas renovadas; precisam ter o “shape”, entupir-se de anabolizantes, escalar montanhas e retornar “renovados” para a esposa que outrora foi chifrada; precisam acordar às cinco da manhã para ouvir um guru da internet e, obviamente, ser red pill.
Não sei como chegamos até aqui. Na verdade, sei, mas é duro viver essa realidade. Tudo é superficial, tudo gira em torno de uma falsa prosperidade, de uma felicidade forjada. A vida tem que ser instagramável. Quem não se expõe, corre o risco de não existir – ou, pelo menos, é esse o mundo que nos vendem.
Esse mundo fake fode com a saúde mental das pessoas. Elas querem ter a mesma vida, o mesmo corpo, a mesma conta bancária, o mesmo lifestyle e a mesma felicidade desses “influenciadores”. A realidade é que, na maioria das vezes, a felicidade dessas pessoas esconde uma tristeza profunda, o dinheiro é oriundo do crime, e as viagens badaladas nem são tão bem aproveitadas assim. Afinal, quem está se divertindo de verdade não lembra de tirar tanta foto e fazer tanto vídeo.
Vez ou outra, tento manter uma vida ativa na rede social profissional, mas quando rolo o feed, todo mundo é “muito bom no que faz” – e a gente sabe que a vida real não é assim. Principalmente quando conhecemos o dito cujo (ou dita cuja). As IAs padronizaram os textos dessa rede: todo mundo é grato, usa travessão, exagera nos adjetivos e está sempre realizando projetos “inovadores”.
Não é à toa que as pessoas estão adoecendo, tomando doses cavalares de ansiolíticos e antidepressivos. O burnout se tornou comum numa sociedade que cultua e aplaude “empresários” que defendem jornadas de 14 ou 16 horas, enquanto eles próprios jogam futevôlei às dez da manhã de uma terça-feira ensolarada.
Faz um tempo que diminui a geração de conteúdo nas redes sociais, embora ainda passe tempo demais consumindo humor, futebol e coisas inúteis. É a minha dose diária de dopamina, que sei que preciso diminuir. Às vezes, deixo o celular longe para não ficar preso nesse conteúdo, voltei à atividade física, a passar mais tempo com o Kindle na mão. Ano que vem pretendo aprender algo novo ou aprofundar o conhecimento em algo que já domino o básico. Voltar a escrever faz parte desse processo de cura, da busca por ser menos dependente desse mundo superficial que nos torna infelizes.












