O Lastro e o Horizonte
Em 2002, a partida não teve o peso de uma ruptura dramática; foi um movimento de inércia em direção ao horizonte. Eu tinha 16 anos e a convicção silenciosa de que o mundo começava exatamente onde a fronteira da minha cidade natal terminava. Fui sem olhar para trás, impulsionado menos pelo desdém ao que ficava e mais por uma curiosidade pragmática pelo que vinha adiante.
O que se seguiu foi uma sucessão de endereços que, somados, compõem um mapa de dez cidades e cinco estados. Uma trajetória de experiências legítimas, de conquistas que justificam a errância, mas que cobram seu quinhão em uma moeda invisível: a perda do referencial comum. Há um preço específico que se paga pela mobilidade, e ele não se traduz em arrependimento, mas em um sutil descompasso.
Aos quarenta anos, o pertencimento tornou-se um dialeto que desaprendi a falar. Observo, com a neutralidade de um espectador, as rodas de conversa onde piadas internas orbitam nomes de professores antigos ou episódios de uma infância compartilhada. Nesses momentos, a distância não é medida em quilômetros, mas na ausência dessa "cola" social que une as pessoas sem esforço. Sou aquele que, invariavelmente, precisa de legenda para o óbvio.
Essa jornada, contudo, não foi solitária. Há duas décadas, divido o silêncio das chegadas com uma companheira que atravessou comigo esses paralelos. E, há quase dez anos, o nosso núcleo se expandiu: dois filhos vieram dar peso e nova gramática à nossa pátria portátil. Se antes éramos dois náufragos voluntários, hoje somos uma pequena estrutura que exige raízes, ainda que estas sejam superficiais.
Desde 2018, o nosso porto é Goiânia. Recentemente, a compra de um apartamento serviu como um gesto de trégua com o asfalto. É um ato de fixação, uma vontade de aproveitar o agora e, quem sabe, oferecer aos filhos a continuidade que eu mesmo interrompi na adolescência. Mas para quem já habitou tantos CEPs, a posse de um imóvel é um lastro relativo. É o desejo de ficar, temperado pela consciência de que o mundo continua vasto e que uma nova partida é sempre uma variável possível, embora não mais urgente.
Viver assim é habitar um eterno estado de tradução. É preciso decifrar o ritmo da nova rua e os códigos implícitos de uma cidade que já tinha seus donos muito antes da minha mudança chegar. Resta esse sentimento de ser um forasteiro por opção. Alguém que conhece muitos códigos, mas não possui a chave de nenhum clube exclusivo. É uma solidão que não pede socorro, mas que se manifesta no reconhecimento de que o chão sob meus pés, por mais que agora eu tenha a escritura, nunca deixou de ser, tecnicamente, terra estrangeira.














