Dica de Escrita #1: Quando devo escrever em 1ª e em 3ª pessoa?
Boa noite, galerinha. Hoje iniciarei uma série de posts que pretendo fazer aqui no Tumblr sobre Dicas de Escrita.
Desde que comecei a participar de grupos de leitura do Wattpad para divulgar o meu livro, Portal das Almas, eu venho reparando na quantidade de dúvidas que muitos escritores possuem sobre a escrita. Sei que escrever não é fácil, que escrever um livro é menos ainda, então eu perguntei aqui e ali.
Qual é a sua maior dúvida sobre a escrita?
Foi pensando nisso que eu decidi fazer essa série de posts. Espero que minhas dicas possam sanar suas maiores dúvidas para que seu livro se torne impecável!
A Dica #1 foi sugerida por @mmochi091. Se você tem dúvidas sobre escrever em 1ª pessoa ou em 3ª, está no lugar certo! Clique no link abaixo para continuar lendo.
Narração em 1ª pessoa
A narração em 1ª pessoa, também chamada como narrador personagem, é caracterizada por um personagem narrando a história. A perspectiva do personagem ganha foco e os verbos são conjugados, em geral, em primeira pessoa.
Aqui, o narrador e o autor das ações é o próprio personagem.
Como narrador personagem, você pode aprofundar os sentimentos do seu personagem, as experiências e os pensamentos dele. Toda a narração possui um caráter mais profundo e talvez até psicológico.
Mas cuidado! A menos que em sua história o seu personagem tenha poderes mágicos e seja capaz de ler mentes ou de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, ninguém sabe com absoluta certeza o que o outro pensa ou o que acontece em nossas costas. O narrador não é onisciente e onipresente!
O narrador não pode afirmar com absoluta certeza o que os outros personagens estão pensando ou o que estão sentindo. Ele só pode ter uma vaga ideia e, mesmo que em alguns momentos esteja certo, haverá muitos momentos em que estará errado.
Na narração em primeira pessoa, haverá muitas impressões erradas sobre os outros personagens e situações adversas. E está tudo bem! Afinal, nós estamos lendo sob o olhar de um personagem que não é onisciente. Ele não sabe de tudo e se engana muitas vezes.
Narração em 3ª Pessoa
Há vários estilos de narrações em terceira pessoa, mas todos são caracterizados por uma narração sob a perspectiva de um observador, com verbos conjugados em terceira pessoa. As diferenças entre os estilos se deve ao grau de onisciência do narrador.
Aqui, o narrador assume a perspectiva de um observador enquanto os personagens são os autores das ações.
O narrador pode contar a história como um mero observador, desconhecendo os pensamentos e sentimentos dos personagens. Ele relata apenas o que vê, e não o que os personagens pensam ou sentem. Este narrador leva ao pé da letra o recurso do showing: mostre, não conte.
Ou o narrador pode ser onisciente, conhecendo todos os pensamentos e sentimentos dos personagens. O narrador onisciente relata tudo o que vê, e o que os personagens sentem e pensam, como no exemplo abaixo.
Thymea franziu o cenho. Tinha certeza de que nenhuma daquelas pessoas ribeirinhas possuía qualquer habilidade, tampouco estavam por perto. O galho crescer fora conveniente e suspeito. Quem quer que sabotara o drone de Danijel, deveria ser semelhante a ela. — Trecho retirado de Portal das Almas.
A onisciência do narrador pode ser, ainda, limitada ou não.
O narrador onisciente limitado se aproxima de um personagem por vez, narrando somente o que um personagem vê, sente, pensa e sabe. Em alguns aspectos, é como se escrevesse como um narrador personagem, mas em terceira pessoa.
Já o narrador não limitado, ou somente onisciente, narra sobre todos os personagens ao mesmo tempo, mesclando o que cada personagem vê, sente, pensa e sabe.
Mas cuidado! Trocar o ponto de vista dos personagens no mesmo capítulo ou colocar pensamentos e sentimentos de vários personagens ao mesmo tempo pode causar confusão que pode fazer o leitor abandonar sua obra.
Se optar por um narrador onisciente não limitado, dilua os pensamentos e sentimentos dos personagens ao longo da narração. Não coloque tudo em um mesmo parágrafo, dedique um parágrafo para cada personagem, mencionando o nome de cada um.
Se escolher um narrador onisciente limitado, dê preferência trocar o ponto de vista dos personagens entre os capítulos (capítulo 1 sob o ponto de vista do personagem A e capítulo 2 do personagem B). Se for preciso fazer no mesmo capítulo, ou seja, em uma mesma cena, deixe uma linha em branco para evidenciar a troca.
Para ficar ainda mais claro de quem é o ponto de vista, mencione o personagem logo no primeiro parágrafo. Se a narração é sob Fulana, comece seu primeiro parágrafo já com, por exemplo, “Fulana viu.” E depois desenvolva o resto.
Quando devo escolher cada uma?
A verdade, meu querido leitor, é que não existe uma regra que diga quando usar os dois tipos de narração. Desde que mantenha a consistência, você pode escolher qualquer uma das duas narrações!
Há, no entanto, algumas coisas que você pode levar em consideração. Como você quer contar a sua história? É uma história dark que vai mergulhar no psicológico dos personagens? Ou uma aventura recheada de mistério?
Não existe regra, é verdade, mas certos estilos se adaptam melhor em certas histórias do que outros. Então, antes de começar, pense e responda para você mesmo: o que você quer contar? Dada as características os narradores que expliquei acima, pense e reflita qual narração se encaixa melhor na sua proposta.
Se escolher escrever em terceira pessoa, mantenha o livro todo em terceira. Mas se escolher em primeira, seja consistente e faça dois ou três narradores personagens se precisar narrar com mais de uma visão. O importante é ser consistente ao longo de todo o livro.
E, então, você me diz: mas, Camille, eu já vi livros publicados por editoras que usam os dois tipos de narradores!
E eu te respondo: certamente há livros assim. Mas se quer minha opinião pessoal, é muito estranho ler um livro que começa com primeira pessoa e do nada, quando não é o capítulo do protagonista narrador, muda para terceira! E vice-versa.
Como eu disse ali em cima, não existe uma regra, você é livre para escrever como desejar. Mas eu te pergunto: vale a pena causar estranheza no leitor que pode levá-lo a abandonar sua obra? Então siga meu conselho e seja consistente.
Exceção
Como no bom e velho português, para toda regra há exceções! Apesar de não ser uma regra propriamente dita, ainda há exceção de quando pode misturar as narrações — quando a mistura não parece estranha.
Por exemplo, se sua história está em 3ª pessoa, mas em algum momento o leitor se depara com um diário, uma carta ou qualquer coisa que um personagem tenha escrito, aqui cabe perfeitamente o uso em primeira pessoa desde que esteja em itálico. Afinal, não é uma narração do narrador, mas uma transcrição fiel do que foi encontrado.
Se o texto for longo, dedique um capítulo só para isso! Se for curto, use linhas em branco para separar a transcrição do restante da narração.
Ok, acho que me empolguei para escrever esse post. Mas espero que as dicas tenham ajudado. Por hoje é só, semana que vem voltarei com a Dica #2. Se você tiver uma dúvida sobre escrita, mande-me uma ask, em anônimo se preferir, que eu terei o imenso prazer em te ajudar!
E não se esqueçam de dar uma olhada no meu livro no Wattpad, tenho certeza de que não se arrependerão!










