05. A Dor Adolescente que Envelheceu como Vinho, por Pitty
Há músicas que são uma fotografia da nossa adolescência. Para mim, uma dessas fotos em alta definição é “Na Sua Estante”, da Pitty. Naquela época, com os hormônios em ebulição e o coração sendo um alvo fácil para qualquer um que me desse um mínimo de atenção, essa música era o hino oficial da minha fossa.
Eu me sentia exatamente aquilo: o livro esquecido na estante, cheio de coisas a dizer, mas servindo apenas como decoração para o ego de outra pessoa. A voz rasgada da Pitty, a guitarra que alternava entre a calmaria e a explosão, tudo aquilo validava o meu drama juvenil. Era o rock me dizendo: "Eu te entendo".
O mais curioso é que, ao garimpar essa música anos depois, ela bate de um jeito diferente. A dor adolescente se foi, mas a mensagem sobre ser usado e não valorizado continua assustadoramente atual. A gente só troca os dramas do colégio pelos boletos e pelas decepções amorosas mais complexas. A música amadureceu comigo. O que antes era um lamento, hoje soa como um aviso, um lembrete para não me deixar transformar em objeto na vida de ninguém. É o poder de uma composição atemporal.
Um brinde às dores que nos ensinaram a ter amor-próprio. Mesmo que tenha demorado um pouco.









