Neil Larsen - Jungle Fever
neil larsen não teve uma vida ordinária. ele poderia ter tido uma, como leiteiro, jornaleiro, como um músico nascido para servir a uma orquestra ou a uma banda. grandes pessoas levaram vidas ordinárias e é a maioria das grandes pessoas que as levam.
esse tecladista não é conhecido por quase ninguém. ele foi (e é) aliás um grande músico de estúdio. tocou com artistas como george harrison, não nos melhores discos do beatle. george, leonard cohen e outros que são considerados faróis da música ocidental no século xx.
uma coisa curiosa e feliz sobre essa trajetória, a mais importante delas aliás: os melhores discos dos 200 gravados com participação de neil são dele mesmo. compostos por ele e tocados por ele e por uma banda sob o comando dele.
são nesses discos, como “high gear”, que ele com seus músicos destrincha temas que já nascem bons por conterem harmonias muito boas.
a harmonia na música, quando em estado pleno, real, é a rejunção de partes “perdidas”, soltas, que levam a desvendarmos pelo menos uma parte da harmonia original. a harmonia da criação de deus nesta terra.
a harmonia musical, em sua perfeição, é uma analogia à harmonia universal decretada pro deus.
neil se esforça para encontrar grandes harmonias (grandes escritas musicais em uma música), filiadas a essa harmonia maior.
ele faz isso e torna essas harmonias marcantes para o ouvinte com uma técnica que é a fidelidade harmônica. todas as músicas dele nesses discos dos anos 70 sempre remetem e retornam às ideias originais que as fundaram, como em um jogo de circularidade e criação em cima do já conhecido e percorrido. estou falando de uma dada sequência de acordes e de um certo encontro de texturas corporificando esses acordes, que vão se materializando cada vez mais pela recorrência e pela forma com que fraseados vão sendo embutidos ali.
o jazz-rock dos anos 70, em suas melhores encarnações, em geral faz isso mesmo. mas com neil larsen e sua banda eu sinto mais forte a ideia de fidelidade harmônica. como se ela estivesse sendo fundada aqui mesmo. dá pra sentir na grande “high gear”, ou em “demonette”, em que uma espécie de nota primordial (repetida no coração da música) sempre chama um desenlace revelatório. a pressão dessa nota e as consequentes revelações que ela traz reincidentemente, tanto na harmonia como nos fraseados de variados instrumentos que decorrem dela, são a síntese desse espírito de fidelidade e insistência em visões extraordinárias.
é isso afinal que é música mesmo, a insistência nessas visões. a insistência, que pode perpassar uma música ou uma obra inteira, no que é extraordinário.
mas eu tava dizendo mesmo que a vida dele foi extraordinária. ele foi escolhido em um concurso simplesmente pelo melhor aluno de aaron copland, leonard bernstein, quando tinha uns 11 anos. foi estudar e depois foi convocado para a guerra no vietnam (de onde o clima recôndito, misterioso, dessas harmonias do não casualmente batizado disco “jungle fever” parece emanar).
serviu na infantaria e depois foi reconvocado para participar de uma banda que alegrava os outros soldados.
talvez por isso não tenha sido sacrificado em combate pesado e morrido.
e talvez por isso tenha feito, com tanta paixão e insistência nos motivos musicais vitais (que nos trazem vida, que justificam uma vida), alguns discos muito bons.
essa é a grande harmonia universal da qual a grande música, com a grande harmonia, sempre trata e para qual ela sempre retorna.
o porquê de neil larsen está aqui vivo.