Give yourself a break
Saguão de Entrada
Nikki
Nikka estava com raiva. Não era aquela raivinha irritadinha, não. Era a versão erupção de vulcão emocional com glitter e faísca. Faíscas, inclusive, estavam saindo da ponta da varinha que ela nem lembrava de estar segurando. Clássico. Tudo porque a queridíssima Rose Rosier (vulgo “Rancinho Puro-Sangue”) soltou, com aquele sorrisinho venenoso, que “tem gente que devia ir à psicóloga três vezes por semana”, olhando diretamente pra Nikka como quem joga o feitiço e ainda dá tchauzinho.
O que mais doía? Que ela nem tinha feito nada demais. Só foi ela mesma. Uma garota feliz, barulhenta, cheia de energia, um pouco intensa — tá, muito intensa. Mas nunca maldosa. Nunca cruel. Por que ser diferente incomodava tanto as pessoas? Ela bufou. Sentia o peito queimar. Queria explodir. Gritar. Jogar uma banana na cara da Rose. (Sim, ela andava com uma na mochila. Motivos pessoais.)
— Respira, Nikka... respira, ou você vai tacar fogo em alguém e vai ser você mesma.
Mas era tarde demais. Já andava pelo corredor como se fosse atropelar a escola inteira com os próprios pés. Passo firme, olhar elétrico, ar de “me segura ou eu viro uma tempestade”. E virou mesmo. Bateu no que pensou ser uma parede. Mas não era uma parede.
Era uma professora.
— Desculpa, professora! — disse Nikka, já tentando ajudar a mulher a se equilibrar.
Pois é. Ela estava um caos. Mas um caos com motivo.
E até aquela fúria passar — o que, honestamente, não levaria mais que um dia ou dois — era melhor manter Rose Rosier bem longe.
___
Marisha
Era hora do almoço e havia almoçado depressa para então aproveitar alguns minutos ao sol. Finalmente o clima havia começado a esquentar e me sentia ansiosa para deixar meu estado de quase-hibernação em que vivia durante o inverno. Seguia caminhando contra a corrente de alunos, a grande maioria menores que eu quando senti a pancada em meu ombro.
A surpresa foi tanta que me desestabilizei e quase fui ao chão, sendo amparada pela mesma autora do soco, uma garota de cabelos loiros, cuidadosamente desalinhados.
- Solomons! - me separei da aluna e recuei um passo, me recuperando depressa da surpresa.
A onda de alunos havia se separado ao nosso redor, alguns contemplando a situação com curiosidade antes de seguirem seu caminho.
- Não é assim que vai me convencer a mudar sua nota no seu relatório sobre a poção do Desespero. - dei um meio sorriso. Meu ombro doía, mas endireitei a postura, estudando a garota. Um segundo antes seu olhar estava cheio de raiva cega, mas agora parecia arrependida.
Não conseguia imaginar o que eu teria feito que faria uma aluna querer me aceitar um soco, então só poderia ser um acidente. Ainda assim...
- Aconteceu alguma coisa? - a maior parte dos alunos agora seguia seu caminho, nos deixando sozinhas.
Havia passado a maior parte do ano fazendo malabarismos dentro das regras da escola para poupar os alunos da sede de punição da diretora Montclare. Tinha certeza que Úrsula poderia sentir o cheiro de um aluno se comportando de forma violenta e não demoraria para descer de seu covil para impor ordem no castelo.
___
Nikki
Eu juro que não queria ter quase matado uma professora. Sério. Por Merlin, nem mesmo queria estar existindo neste exato momento. Queria estar invisível, evaporada, sumida num canto qualquer do universo, talvez encolhida entre livros e almofadas, com meu gatinho dormindo no meu colo e alguma playlist triste tocando ao fundo. Mas olha... se era pra colidir com alguém, que bom que foi com essa professora em específico. Porque, sei lá, ela parecia menos feita de pedra do que o resto do corpo docente. Ainda assim, eu dei um sorriso nervoso — aquele tipo de sorriso que é mais pedido de socorro do que expressão facial — só pra responder à brincadeira dela e fingir que tava tudo bem. A gente faz isso o tempo inteiro, né?
O estranho é que eu ouvia passos ao redor, gente passando, falando, rindo, respirando... mas não enxergava nada. Nada além do centro do meu próprio Mar Vermelho. Quando ela me perguntou se eu estava bem, mordi o lábio com tanta força que quase fiz marca. Porque eu queria mentir. Queria dizer que sim, claro que sim, tudo certo. Inventar qualquer coisa: “foi só uma batida, professora”, “estou com fome”, “acho que foi o energético”. Qualquer desculpa, contanto que soasse como um dia normal.
Mas hoje não era um dia normal.
Então eu desabei. Assim, sem aviso. Sem chance de segurar a pose ou reconstruir a muralha. As primeiras lágrimas saíram como se estivessem esperando há dias pela brecha. Duras. Quentes. Nada discretas. Não era bonito, nem cinematográfico. Era cru. Era eu.
— Eu tô bem. — menti, ainda assim, porque é isso que a gente faz. Limpei o rosto com a manga da minha blusa de crochê cinza, aquela que já estava meio torta de tanto uso, e tentei parecer forte. — Só... só um pouco cansada. — sorri de novo. O tipo de sorriso que não engana ninguém, mas a gente solta mesmo assim.
___
Marisha
Num segundo Solomons parecia cheia de fúria e então se desfez na minha frente. Pude ver a garota murchando, lágrimas brotando em seus olhos, seus lábios tremendo. Fui pega de surpresa e mal soube como reagir. Não saberia como agir se fosse uma amiga minha chorando na minha frente, imagina uma aluna que eu mal conhecia...
- Vamos sair dessa confusão. - outros teriam lhe envolvido em um abraço e a arrastado para longe, mas eu apenas fiz um sinal para que ela me acompanhasse até um dos bancos na lateral do saguão, afastados dos olhares de quem passasse por ali. Em seu lugar, imaginava que detestaria ser vista chorando em público.
Me sentei no banco de madeira, esperando que ela me imitasse, enquanto a analisava mais uma vez. Não pude deixar de ficar mais atenta quando ela anunciou que estava cansada.
- Estudando muito para os exames? - eu sabia por experiência própria que raramente os exames eram os culpados pelo cansaço. Podiam ser noites de mais em festas secretas pelo castelo, uma briga com alguém que tirava nosso sono, ou alguma maldição terrível que nos fazia passar as noites de lua cheia correndo pela Floresta Proibida. Cada um tinha seus problemas.
- De novo, esse não seria um bom motivo pra sair socando os outros por aí. - lhe dei um meio sorriso, tentando fazer graça da situação.
Sabia que meu eu adolescente detestaria um professor tentando ser engraçadinho para se aproximar de mim, mas não fazia nem um ano que havia me formado, eu podia contar como aluna, certo?
___
Nikki
Era… estranho. Eu estava tão entregue ao que sentia que nem procurei por olhares ou julgamentos. Só sentia. E, naquele momento, isso já era o bastante.
Tanta... indignação. Por que as pessoas são assim?
Terminei de secar o rosto e segui a professora. Acho que só balancei a cabeça quando ela me chamou. Sentada no banco de madeira, fiquei feliz por estar com meu casaco grande e fofinho. De algum jeito, ele parecia meu escudo. O mundo devia ficar lá fora.
E não, não estava estudando muito. Ri — um riso sem graça, mais reflexo do vazio do que de qualquer piada. Só mais um sinal de que aquilo era a última coisa na minha lista de preocupações.
Mas o sorriso sem cor ganhou um tom diferente com o último comentário dela. Pensei na Rose. Depois em mim. E finalizei com um soco e um nariz quebrado.
— Acho que seria, sim. Só mirei na pessoa errada. — Outro sorrisinho, meio torto, meio sem vida. Daqueles que parecem piada, mas nascem de uma tragédia pessoal.
Se era verdade? Não sei. E, pra ser sincera, naquele momento nem importava. — Por que algumas pessoas são ruins? Tipo, de propósito? Você já conheceu alguém assim? — soltei, olhando pra frente, sem nunca encarar ela de verdade.
___
Marisha
A pergunta de Solomons me deixou pensativa por um instante. Eu conhecia alguém ruim de propósito?
- Algumas pessoas são ruins para se sentirem superior aos outros. - encolhi meus ombros. Respondia baseada em experiências próprias. Quantas vezes alguém não tinha sido cruel comigo apenas para se sentir acima de mim? Quantas vezes eu não tinha feito o mesmo?
- Nesse caso, mostrar que eles conseguiram te afetar só vai piorar a situação. - precisei segurar uma careta diante da minha fala. Estava falando exatamente como todos os adultos. Como se fosse fácil ignorar, dar as costas e ir embora... Não podia julgar Solomons se ela queria socar alguém às vezes.
Mas o que havia me ajudado em situações como essa? Pensando um pouco, estive sempre tão ocupada em passar despercebida que raramente alguém reparava em mim para me incomodar.
- Quem anda incomodando você? - talvez se conhecesse a raiz do problema, eu pudesse ajudá-la de alguma forma.
Continuava a estudar Solomons, pensativa. Ela parecia o tipo de garota que não levava desaforo para casa e me surpreendi que a provocação de outros alunos estivesse a afetando tanto. Talvez o problema fosse mais grave que apenas alguns comentários maldosos.
___
Nikki
Quem... era a garota? Marisha queria saber. Meus lábios se abriram, mas minha mente agiu mais rápido. Revelar o problema, geralmente, não o resolvia, ainda mais com a omissão da escola. Rose era tudo que eu odiava: uma vaca mimada cheia de veneno. Sentia tanta raiva e indignação que queria resolver aquilo sozinha. Meu peito queimava; respirei fundo, tentando conter o incêndio.
E, aos poucos, a água ia penetrando entre a fumaça e destroços aqui dentro.
Encarei Marisha, curiosa. — Você já assistiu àqueles filmes de adolescentes em que alguém sofre bullying e a escola finge que faz alguma coisa? — Arqueei uma sobrancelha, depois fiz um círculo no ar com o dedo, apontando para todo o castelo. — Adultos colocam crianças à flor da pele para ficarem juntas. Como, eu pergunto, isso poderia dar certo? — Suspirei, desanimada de verdade, observando os jovens passarem: alguns sozinhos, outros com amigos, todos com histórias desconhecidas se entrelaçando de um jeito muito, muito confuso.
___
Marisha
Inclinei a cabeça para o lado quando Solomons perguntou se havia assistido filmes adolescentes. Havia crescido em uma casa bruxa, sem contato nenhum com tecnologia ou filmes até estar mais velha. Mas entendia a vontade da garota de não envolver adultos em seus problemas.
- Imagino que seja um bom treinamento para a vida adulta. - encolhi meus ombros - Adultos também podem ser cruéis e infantis, pelo que estou vendo, as coisas não mudam muito.
Me vi pensativa, tentando imaginar como poderia ajudar a garota à distância. Eu entendia, correr para pedir ajuda dos professores seria interpretado como um sinal de fraqueza.
- Eu sei que não resolve o problema. Mas quando quiser, você pode passar na sala de poções, se quiser conversar. Eu só fugir da confusão e ter um segundo de paz. - quem sabe oferecer um esconderijo e um ombro amigo fosse tudo que eu podia fazer, pelo menos por enquanto. Não ia convencê-la a confiar em mim de uma hora pra outra.
- E evitaria trocar socos pelos corredores... A Diretora está doida pra encontrar uma cobaia para seus castigos. - minha expressão ficou séria por um instante, mas logo lhe dei um sorriso torto - Mas você não ouviu isso de mim.
___
Nikki
Um bom treinamento para a vida adulta? Dei um risinho, desses meio desacreditados, quase irônicos. Nada, absolutamente nada, nesse mundo nos prepara de verdade para o que é ser adulto. Marisha só não tinha descoberto isso ainda — ou fingia muito bem que não sabia.
Cruzei as pernas. Estava mais... calma. O que eu fiz nem foi exatamente um desabafo, mas perceber que até mesmo uma adulta parecia não entender o mundo me trouxe algum alívio. Uma estranha sensação de pertencimento.
— Eu aceito o convite. — Sorri, o rosto já seco, o coração mais sossegado. — Bom, acho melhor eu ir andando. — Me levantei. Alguns jovens nos observavam de longe, e, sinceramente, isso começava a ficar um pouco chato.
— Mas que tal amanhã? — Estendi a mão, como quem fecha um acordo. Diretamente, sem drama.
___
Marisha
Solomons pareceu descrente quando contei como a escola podia ser um treino para a vida adulta e mordi meu lábio inferior, segurando uma risada. Ainda não me sentia uma adulta completa e a maior parte do tempo me sentia uma adolescente fingindo que sabia das coisas. Mas começava a entender que muitos dos adultos ao meu redor também viviam assim.
No fim, algo na conversa pareceu tranquilizar a garota, que agora parecia mais calma, sem mais lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Ela mesma parecia entender que se sentia melhor e levantou-se depressa.
Lhe dei um sorriso quando ela aceitou meu convite e então estendeu a mão para fecharmos um acordo.
- Ótimo! - apertei sua mão, fingindo muita formalidade, mas logo deixei escapar uma risada, relaxando.
Os alunos que passavam pelo Saguão reduziam o passo e nos olhavam, curiosos, antes de seguirem seu caminho. Reparei como Solomons parecia desconfortável com a atenção.
- Depois do almoço? Preciso preparar ingredientes para o Professor Ki-Tae, vai ser bom ter uma companhia. - lhe dei um último sorriso.













