And despite everything I'm still human
Floresta nos arredores de Godrics Hollow
Ainda segurava firmemente a mão de Ash quando desaparatamos no meio da floresta. A floresta nos arredores de Godrics Hollow era bem menor do que a que cercava Hogwarts, mas suas árvores eram igualmente altas e densas, bloqueando quase toda a luz do sol daquele fim de tarde.
Estava nervosa para me transformar em Hogwarts novamente. A segurança ao redor do Castelo estava cada vez mais acirrada e a nova diretora parecia determinada a encontrar qualquer fiozinho de cabelo fora do lugar. Nos últimos anos havia confiado na falta de organização da direção para me transformar com quase completa certeza de que nunca seria apanhada. Agora não tinha mais tanta certeza de que isso ainda era possível.
- O vilarejo fica… - girei no lugar, tentando me orientar e finalmente apontando na direção de onde vinha o sol - para lá. Oeste. - o desenho da tatuagem em meu braço esquerdo se agitava furiosamente sob a minha pele, indicando a proximidade da lua cheia.
Dei um sorriso para Ash, tentando disfarçar meu nervosismo. Estávamos em um terreno desconhecido e mais uma vez não havia conseguido preparar minha poção. Mas, para minha sorte, Ash estaria comigo e poderia tomar conta de mim enquanto estivesse transformada.
- Só precisamos evitar ir naquela direção… - por mais que eu soubesse que agora Nox me ouvia, ainda não tinha controle nenhum sobre ela, ainda mais se ela sentisse o cheiro de outros humanos.
Ainda segurava a mão de Ash na minha, que trouxe até meus lábios para dar um beijo carinhoso em seus dedos, como um agradecimento silencioso pela sua companhia.
Caminhamos por algum tempo, nos afastando cada vez mais do vilarejo, até que a luz na floresta começou a diminuir, anunciando o final do dia. Ali começamos nosso ritual já bem conhecido antes da lua cheia. Eu me despi por completo, para que minhas roupas não fossem destruídas durante a transformação, guardando todos meus pertences em uma mochila, que escondi entre as raízes de uma árvore. Ash me imitava, não porque precisasse - suas transformações de animago também envolviam suas roupas - mas sabia que esse era seu jeito de mostrar seu apoio.
Ali, ele se transformava na pantera que me acompanharia durante a noite toda e continuamos nosso caminho, cada vez mais longe, até que a lua cheia surgisse no céu e a minha transformação se iniciasse.
Antes mesmo da lua surgir, eu já sinto Nox por perto. Sinto meu coração batendo depressa e sei que ela está feliz por ter a pantera conosco. A cada lua cheia sem a Mata-cão, sinto que estou mais próxima do monstro dentro de mim. Ao mesmo tempo em que consigo manter parte da minha consciência quando transformada, tenho por vezes tenho uma sensação de inquietação dentro de mim, sem saber se é Nox quem está acordada ou se é apenas paranoia da minha parte.
Mas antes que possa pensar mais no assunto, sou derrubada no chão pela já conhecida onda de dores do início da transformação. Aperto meus olhos fechados e cerro meus dentes enquanto sinto meu corpo mudar de forma. Tinha a sensação de que agora as transformações também estavam piores, mas sabia que essa era apenas uma impressão. No início, sempre tomava a Mata-cão, que anestesiava boa parte do sofrimento da transformação e mais tarde, quando perdi o acesso à poção, a dor era tanta que imediatamente perdia a consciência.
Agora eu me via presente no processo todo. Perdia o controle do meu corpo, mas ainda podia sentir tudo que estava acontecendo. Cada osso se esticando, músculo e nervo se retorcendo, até mesmo cada fio de pelo que brotava sob a minha pele para cobrir meu corpo. Quando a dor finalmente passava, não era mais eu quem comandava aquele corpo.
Observava o lobisomem se erguer, invadida de repente por uma avalanche de sentidos. As cores desapareciam da minha visão, mas podia farejar e ouvir muito melhor que jamais pude como humana. Podia sentir o cheiro das árvores ao meu redor, dos animais que se escondiam na floresta, de uma aglomeração de humanos muito ao longe...
"Pra lá é perigoso, eles são muitos" - avisei, esperando que Nox aceitasse meu conselho. Imaginei por um segundo a confusão que seria um lobisomem aparecer no meio de um vilarejo de bruxos e, como uma boa caçadora, ela pareceu concordar, focando a sua atenção na pantera na sua frente.
Era estranho pensar como os dois animais haviam se tornado amigos. Podia reconhecer seu cheiro até mesmo o som de seu coração batendo. Havíamos passado tantas noites explorando a floresta de Hogwarts, ou mesmo dormindo enrolados um no outro quando estava sob efeito da Mata-cão, que agora Nox confiava na pantera como se ambos fossem de uma mesma família.
Me perguntava se meus sentimentos por Ash de alguma forma reforçavam o laço entre os dois, mas Nox tinha suas próprias preocupações. Imediatamente notou que estávamos em uma floresta diferente e teria muito o que explorar naquela noite. Soltou um latido, meio cumprimentando, meio chamando a pantera para lhe acompanhar e logo partiram juntos.
Estava aproveitando o início do meu ano sabático, ainda tinha meu compromisso com Marisha, minha promessa de não deixar ela ficar sozinha na lua cheia. Estamos separados durante a semana, porque o talento da minha amada foi reconhecido por Hogwarts, o que não foi surpresa. Eu sei o quanto ela é talentosa em poções e principalmente no seu principal talento, a arte da tatuagem.
— Esse negócio de aparatar ainda me deixa zonzo… — Comentei, apertando os olhos com os dedos, um meio de fazer minha cabeça para de querer girar. Nos arredores de Godric Hollow, em uma floresta seria nosso lugar de passar a noite. Marisha havia comentado que a situação em Hogwarts estava mais apertada, em questão de segurança o que era milagre, por isso hoje aquele floresta seria o parque de diversões de Nox e eu estaria como o sinto de segurança da criatura.
Podia sentir que Marisha não estava tão a vontade naquela região e ela tinha todo direito. Tínhamos que tomar cuidado para não ficar próximo do vilarejo. — E vamos ficar o mais longe possível de lá — Retribuir o beijo puxando sua mão em direção aos meus lábios. — Vou está aqui para você. —
É a maior certeza que tinha, que Marisha podia contar comigo para tudo e estaria ali para ela. “difícil saber se ela estaria para você, tá doido par um dia ser devorado”. Continuamos de mãos dadas para o interior da floresta, indo em direção contraria do vilarejo. Sem a poção, esse era um dos motivos de maior preocupação da minha namorada. O que me restava fazer, era manter nós dois seguros.
Encontramos um lugar seguro, onde poderíamos deixar nossas coisas. Como um ritual, tirei a minhas roupas. Estamos tão no interior da floresta, que não conseguia mais ver o céu, por conta das copas fechadas da árvore. Assim que terminei de dobrar minhas roupas, me aproximei por trás de Marisha, ela estava despida como eu, apenas passei os braços em sua cintura, colocando o queixo no seu ombro. — O último abraço da noite antes da Nox chegar… — Depositei um beijo na curva do seu pescoço. — Vamos conseguir, mais uma lua, mais uma noite. — Apertei um pouco o abraço sentindo o toque do corpo dela no meu.
Relutante, me afastei, deixando em pouco segundos a forma da pantera tomou conta do meu corpo humano. O pelos negros brilhosos cobriram minha pele, a pantera parecia ansiosa por esse momento, a mudanças estavam mais rápidas, ela queria aproveitar os poucos minutos com Marisha e gostava de se aventurar com Nox. Podia sentir a energia, o cheiro, os sons de tudo ao meu redor e a quilômetros de distância, mas o cheiro que mais me importava ali era o dela. Sentia o solo em minhas patas, meus olhos estavam expandidos por conta da escuridão, mas mesmo assim nada passava despercebido.
A mudança em meu corpo não me afetava tanto, sentia somente um leve formigamento, como se uma onda elétrica passasse por todo meu esqueleto enquanto se transformava. Me sacudir, como se estivesse acordando de um longo sono. Me estiquei, me apoiando nas patas traseiras e jogando as patas dianteiras para frente, dando uma longa espreguiçada. Como se toda energia do que guardei, tivesse ativado no momento que meus olhos viram elas. Imediatamente me adiantei em sua frente, passando meu corpo ao redor das suas pernas.
Continuamos seguindo para o mais profundo da floresta, aquele era um lugar novo, tinha muitas coisas novas, barulhos, cheiros e por um momento me sentia preocupado, mas animado. Uma vontade de sair por ai explorando tudo. Meu focinho não parava, cheirava o chão, ou qualquer coisa que achava interessante no nosso caminho. Minha atenção parou no ambiente quando vi ela caindo do chão, no momento sentir minhas orelhas baixarem, caminhando para trás.
Era inevitável ver a cena na minha frente, sem meu instinto querer fazer mal a quem estava a machucando, as presas ficavam a mostra, se a dor fosse um alguma coisa, com certeza iria colocar meus dentes nela. A forma do lobo tomava de conta da casa grito de agonia, não demorando para o forma lupina aparacer. Sabia que gostava da sua companhia, mas sempre quando ela aparecia, me sentia recuado nos primeiro segundos.
Caminhei devagar em sua direção, cheirando como sempre fazia, esperando ela responder meu movimento. Não demorou para me cumprimentar, mas ela aparecia agitada, começou a farejar o redor. Sabia o que estava acontecendo, também queria e com seu sinal a acompanhei mata adentro. Longe da direção que ele ordenava. Manter ela longe, esse é minha função hoje.
Muito nesta floresta lembrava aquela outra a qual estava acostumada. O cheiro das árvores e outros habitantes era parecido, mas, ao mesmo tempo, parecia mais seguro. Não farejava criaturas sombrias, ou os centauros que por vezes lhe perseguiam. Na sua floresta haviam lugares que até ela mesma evitava frequentar, mas ali tudo parecia calmo e pacífico.
Acompanhada da pantera, explorou a região, farejando uma toca de coelhos, uma família de raposas, corujas vigiando a noite do alto das árvores... Todo o lugar transmitia paz e tranquilidade.
Era madrugada quando encontrou um novo cheiro. Começou sutil, subindo uma colina entre árvores, como se seu dono tivesse passado por ali muito atrás. Mas conforme subiam, iam encontrando mais e mais sinais. O cheiro de fumaça e suor, então galhos cortados com algum objeto afiado, armadilhas para coelhos, árvores inteiras cortadas...
Seu coração começou a bater depressa, empolgado, ao farejar o cheiro de caça fresca.
De repente não era mais hora de explorar e descobrir. O cheiro de uma presa próxima lhe dizia que era hora de caçar. Sua postura mudou, curvando-se para farejar o chão, atenta. Fazia tempo que não tinha a chance de caçar e comer de verdade. Por vezes capturava pequenos animais, mas agora farejava a chance de um verdadeiro banquete.
Ao mesmo tempo, sentiu uma onda de ansiedade que não era sua lhe invadir. Sentia lá no fundo a vontade de correr para longe, de fugir e se esconder. Mas essa vontade não era nada comparada à fome e fúria que sentia de repente e rapidamente a empurrou para longe em seus pensamentos.
"Nãonãonãonã-" - uivou alto para o céu, tentando silenciar a voz em sua cabeça, ao mesmo tempo convocando a pantera para participar da caçada. Transformou a vontade de fugir em vontade de correr e atacar e disparou na direção de seu alvo, seguindo o rastro enquanto corria sobre as quatro patas.
A floresta era nova, havia sons que me fazia sentir que aquele era um lugar seguro. Podia sentir o vento em meus pelos, barulhos que me fazia querer caminhar um pouco mais devagar, ouvia os pequenos passos de criaturas escondidas. Tudo parecia tão convidativo em me fazer descansar, mas sabia que tinha que continuar acompanhando ela. Eu me movia sem som, sentindo a textura da terra úmida em minhas patas, deslizando entre as sombras, enquanto ela avançava à frente, mais rápida, mais feroz. O cheiro da terra molhada preenchia meus pulmões, e por um instante, eu me permiti sentir a tranquilidade daquele lugar. Mas então, algo mudou.
O cheiro se intensificou. Fumaça, suor, ferro. Conseguia ver o rasto e com certeza era por isso que ela parecia tão agitada. “agora a porra toda vai desandar”. Cada vez mais nítida, marcada por cortes nas árvores e armadilhas espalhadas pelo chão. Não era uma presa comum, não era uma caça qualquer. Tínhamos que parar, ele queria parar. “avance, pare ela agora”. Um rosnado profundo cresceu em meu peito, e minhas patas se moveram sem que eu precisasse pensar. Alcancei o lobo e me coloquei à sua frente, bloqueando seu caminho.
Armei uma postura, mostrando que não poderia seguir para aquele caminho. Tenho que cuidar, cuidar dela, cuidar somente dela, fazer de tudo. “Faça de tudo, não deixe”. Balancei a cabeça, para espantar esse, barulho. Um rosnado saia do fundo da minha garganta, me mantendo a frente dela. Girei ao seu redor, minhas patas afundando no solo úmido, cortando qualquer rota que ele pudesse tentar. Meu rabo chicoteou o ar, minha postura era tensa, firme. A mensagem era clara.
Se tivesse que correr, que corresse de mim. Se tivesse que lutar, seria para manter-lá longe dos humanos.
Seu coração batia depressa e a vontade cega de correr e atacar só crescia dentro de si. Havia provado daquela caça apenas uma vez e agora lembrava toda a exaltação da caçada. Podia sentir o sabor da carne, o cheiro do sangue. O único grito do humano antes que seus dentes perfurassem sua garganta.
Mas então a pantera saltou na sua frente, interrompendo sua corrida e bloqueando seu caminho. Sua companhia de caçadas agora se colocava entre ela e sua caça, rosnando ameaçadoramente.
Ainda ouvia dentro de si uma voz que implorava que parasse, que desse meia volta, que se afastasse dali, mas o rastro deixado pelo humano lhe convidava com ainda mais força. Sentia sua sede de sangue crescendo e nada lhe impediria de satisfazê-la.
A pantera tentava lhe intimidar, mas ela também sabia parecer ameaçadora. Ficou em pé nas patas traseiras, rosnando e exibindo seus dentes e garras.
Seu agora adversário não recuou, rosnando alto, flexionando as patas, mostrando que estava pronto para atacar.
Se encararam por um segundo e então ela partiu para o ataque. A pantera se esquivou, escapando por pouco de suas garras.
"Pare! Nox, por favor. NÃO!"
A voz agora era tão insistente que mal podia se concentrar. Uivou novamente, arreganhando os dentes para a pantera e saltou sobre ela, sentindo suas garras rasgando sua pele coberta de pelos.
Sentia meu pior pesadelo se tornando realidade. Nox avançava contra Ash, cega por saber que havia um humano tão perto, enquanto eu não podia fazer nada. Sentia a minha boca salivando enquanto as minhas garras investiam contra a pantera e tudo que eu podia fazer era lutar dentro da minha própria cabeça, implorando que o monstro que controlava o meu corpo recuasse, mesmo sabendo que eu não tinha chance nenhuma.
“IMPEÇA! IMPEÇA AGORA” Sentia minhas garras afundando na terra úmida enquanto encarava o lobo que mostrava que iria lutar para conseguir a caça. Impedir, devo impedir. Sabia que conseguiria impedir, melhor do que ele, eu estou aqui para proteger as duas. Meus olhos seguirem seus movimentos, me fazendo pular para o lado, desviando da investida da criatura. Sentia no rosnado e na vontade que era a fome, o sangue nos olhos, o corpo prestes a explodir em violência. Não vou recuar, não vou.
Abrir a boca num rugido baixo e grave, queria mostrar que ia até o fim. A floresta emudeceu. Parecia que era só eu e ela ali, foi nesse momento que em resposta ela uivou e, ao mesmo tempo, atacou, mais uma vez tentei desviar da suas garras, jogando para o lado. Um grunhido alto saiu da minha boca, quando sentir as garras rasgando superficial a lateral do braço. A dor foi real. O sangue quente escorrer entre meus pelo. Não gritei, apenas rugir mais alto. Não tinha tempo para dor.
O cheiro de sangue, suor e terra saturava o ar, não podia vacilar. “ela está sem controle. Tenho controle. Tenho que fazer ela correr atrás de mim, e não deixar ela me morder”. Joguei as patas para um lado fazendo o lobo seguir, mas foi somente uma finta, querendo fazer ela cair no meu movimento e com forças das patas traseiras, me joguei para o lado oposto, correndo com tudo para uma árvore que estava atrás dela.
As patas mal tocam o chão enquanto cortava o espaço entre nós. Avancei em direção ao tronco inclinado, o suficiente para me dar o que precisava. Cravei as garras na madeira, subi só o bastante para ganhar impulso — um instante, um ponto de apoio.
Meu corpo atravessou o ar como uma flecha, e antes que ela percebesse o que vinha, caí sobre suas costas com toda a força do meu peso. O impacto foi seco, forte. O uivo dela ecoou alto quando tombamos juntos contra o solo. Com as garras cravadas em suas costas, na pelagem espessa, apenas para conseguir colocar todo peso no meu corpo sobre ela. Abocanhei seu pescoço, deixando os dentes presos na pele, sem atravessar, travando seu pescoço, pressionando sua cabeça no solo.
Ela se debateu, ensandecida, tentando morder. Aproveitei força que ela fazia, para virar lá de costa no chão, saindo de suas costas e a puxando pelo pescoço ainda com os dentes ali, para longe da trilha do humano. A arrastava pelo chão, usando toda minha força e rapidez. Não durou nada, ela estava fora de controle, não ia conseguir arrastar por muito tempo, mas o suficiente para fazer-lá correr atrás de mim. O uivo agudo, como suas garras queriam me agarrar, soltei escapando de uma investida. Comecei na direção contrario do cheiro do humano, ela vinha atrás, “ela tem que vim, ela gosta de uma boa caça, gosta ainda mais de uma caça que luta”
Sentia Nox dividida. A pantera lhe provocava, oferecendo um desafio, mas o cheiro do humano, escondido entre as árvores no alto da coluna, lhe dava água na boca.
Ela não queria correr atrás de Ash. Eu não queria que ele fosse nossa caça.
Se precisasse escolher entre matá-lo ou a um estranho, não havia dúvida de quem eu escolheria. Mas também sabia que a pantera nunca deixaria Nox matar um humano.
O felino rosnava, saltando ao nosso redor, insistindo em chamar nossa atenção.
"Vá!"- meu pedido para Nox era mais uma torcida, pois estava cansada de saber que naquele momento o corpo não era meu e não tinha nenhum controle sobre ele. Se tivesse sorte, o sol nasceria enquanto ainda seguíamos a pantera.
Mas... O cheiro de fumaça, suor e sangue humano convidava a lobisomem, insistente.
"Depois" - ela não pensava em palavras, mas podia sentir como o cheiro humano preenchia seus pensamentos.
Virou-se na direção do rastro, ignorando a pantera. Uivou mais uma vez e disparou colina a cima, sabendo que o felino viria em seu encalce.
Havia uma casa lá no alto. Era feita de troncos, com uma chaminé de pedra que soltava fumaça cinzenta. Havia uma luz fraca lá dentro. Meu coração batia depressa, dividido entre a excitação da caçada de Nox e o meu medo do que aconteceria a seguir.
Nox farejou o ar, procurando o cheiro do humano, mas o rastro estava frio. Podia farejar a comida no fogo, a bebida em um copo sobre a mesa... Mas seu dono havia partido às pressas.
A pantera nos alcançou, mas não havia mais caçada para ser impedida. Ainda farejamos o chão, procurando um rastro fresco, mas era claro que o humano havia desaparecido no ar.
Soltaria um suspiro aliviado se tivesse controle dos meus pulmões, mas em vez disso só pude sentir a frustração de Nox, enquanto farejava a casa, ainda na esperança de encontrar seu dono. Ela e a pantera haviam feito barulho o suficiente para alertar o dono da casa, que foi esperto em aparatar para longe.
As garras dela abriram meu lado esquerdo como se minha carne fosse papel molhado, mas o sangue que escorria pelas minhas costelas não me impedia de correr. A dor era real. Pulsante. Ignorar agora era o ideal, sabia o que estava em jogo.
"Não deixa ela matar, não deixa ela cruzar essa linha novamente", rangia os dentes, contra esse barulho na minha cabeça, sabia o que tinha que fazer e não ia deixar ela sozinha, deixar nada de ruim acontecer novamente. Tenho que fazer mais, tinha que ter feito mais, não conseguir chamar atenção dela. Marisha era nossa. Nossa. Fidelidade sem nome. Laço sem dono. Não deixaria a loba estregar ela novamente — aquela fera cega pela lua — poderia acabar com tudo de novo. “Não sei se Marisha conseguiria suportar mais uma vez.”
Os galhos rasgavam minha pele conforme corríamos floresta adentro. As patas afundavam na terra, o sangue do ombro se misturava à terra. O cheiro do humano era mais fraco agora, mas ainda havia resquícios no vento.
Minha velocidade estava lenta, comparado a dela, já que o instinto assassino a movia. Eu devia ter impedido. Mas ela me passou. Me ignorou, mas não podia deixar, não podia desistir agora.
Rosnei para mim mesmo, simbolizando minha frustração. “você sabe que vai ser assim a sua vida toda! lutando contra um monstro, tentando sobreviver a uma assassina sempre”. Um rugido rasgou minha garganta, em contestação. Era um só pensamento agora. Corríamos com a mesma raiva, a mesma urgência. A mesma promessa.
O alto da colina se revelou rápido demais. A casa apareceu como uma memória. Madeira escura, chaminé ainda soltando fumaça, luz fraca pela janela. Assim que vi a loba atravessando a porta, dei tudo de mim para alcançar, forçando ainda mais minhas patas, entrando que nem um furacão pela porta.
A massa do meu corpo se chocou contra o dela com um baque surdo. Rolamos no chão de madeira, garras cruzando, dentes rangendo. Ela me empurrou, fazendo minhas costas colidir com a parede de madeira da cabana. Despenquei no chão. Arfei, tentando respirar, me sentia zonzo? Ia desmaiar? Via ela na minha na minha frente, antes mesmo de me entregar ao cansaço, pude ver os raios de sol atravessar a janela, tocando os pelos negros dela… “Acho que agora posso descansar?” O cheiro do humano estava fraco, ele não estava ali. Ultima coisa que escutei foi uivo de frustração.
Fomos derrubadas no chão e deixamos escapar um ganido de dor. Nox ainda estava fora de si e empurrou a pantera para longe, com uma força desnecessária ainda na esperança de continuar sua caçada. Talvez a pantera fosse seu novo alvo. Não era ela a culpada pelo humano ter fugido? Se não tivesse entrado no seu caminho...
O felino se chocou contra a parede da cabana e então caiu no chão, tentando se levantar. Talvez esse fosse nosso prêmio de consolação. O humano havia escapado, mas ali estava um adversário a altura. Podia ouvir seu coração batendo depressa, a respiração difícil, o cheiro do sangue...
Eu ainda gritava, presa em minha própria mente, implorando que Nox parasse. Sentia minha boca salivando, os dentes arreganhados, os músculos tensos, se preparando para atacar mais uma vez...
Mas então um arrepio percorreu nosso corpo e uma violenta onda de dor nos derrubou no chão.
Nox ainda tentou resistir. Faltava pouco. Uivou em protesto, ainda tentando se erguer, mas nossas patas se contorciam e encolhiam, voltando a ser mãos. Nossas pernas recusavam a aceitar qualquer peso enquanto ossos e músculos se retorciam de volta para sua forma humana, enquanto os primeiros raios de luz solar surgiam no horizonte.
Se transformar em lobo era doloroso pois de repente todo meu corpo se expandia e esticava, tentando comportar uma forma muito maior. Voltar a ser humana era doloroso de um jeito diferente. Era preciso fazer aquele monstro enorme caber em um corpo frágil e ossos e carne protestavam enquanto eram comprimidos, forçados a encolher. Minha pele queimava enquanto se esticava sobre a massa que ainda encolhia, ao mesmo tempo que os pelos grossos negros se retraíam, deixando para trás apenas minha pele pálida e sensível.
E mesmo quando finalmente a dor passou e conseguimos entreabrir os olhos, percebi que não estava sozinha. Nox continuava comigo. Ainda brigava pelo controle. Ainda queria avançar na pantera.
Aproveitei sua confusão com o novo corpo para empurrá-la para o fundo da minha consciência, mas o cheiro do sangue ainda fazia nossa boca salivar. Minha boca.
Tive medo de me mover. E se Nox ainda estivesse por perto quando tentasse me levantar? E se ela ainda assim tentasse atacar a pantera?
Continuei no chão, imóvel. Esperando minha respiração normalizar. Tudo doía. Não só pela transformação, mas por cada pancada que havia sofrido durante a perseguição na floresta.
- Ash? - minha voz saiu aguda, rouca. Podia sentir o cheiro do sangue, enquanto Nox se revirava dentro de mim, furiosa.
Ergui a cabeça lentamente, testando o controle que tinha sobre minha forma humana. Tudo bem. Estava no controle. Finalmente me virei na direção onde estava a pantera, meu coração ainda batendo depressa.
O ombro queimava.
Não podia desmaiar agora, não podia deixar Marisha ali sozinha lidando com toda aquele pós-briga, que eles tiveram, sozinha. Eu sei que ela não queria me machucar, sei que estava tentando, mas sabemos que não é bem assim quando se trata de Nox. Minha visão dela na minha frente totalmente frágil agora, ficava ainda mais distante “levanta! levanta! vai deixar de novo ela sozinha?”.
Minha respiração estava pesada, a pancada na parede me deixou com pouco de ar e inspirar agora era doloroso, mas tentava devagar, manter o ar circulando para não apagar. Apoiei o braço bom no chão para me sentar e me encostar na parede de madeira da cabana. — Estou bem…vivo, pelo menos. Você ta bem? — Dei dá um sorrisinho, mas desistir quando sentir as pontadas nas costelas e ardência em meu ombro. — Desculpa, eu fiz o que pude para te manter longe. Isso não culpa sua, por favor não assuma isso para você ta bom? — As palavras saíram com certa dificuldade, até porque respirar e falar é complicado com todas aquelas dores. Conhecendo Marisha ela iria se culpar e queria mostrar que nossas escolhas tinham consequências.
Hoje não estava completamente pelado como de costume, vestia uma calça moletom, com uma regata preta. Me sentia enjoado, mas tinha que me manter consciente. Tateei o bolso da calça procurando minha varinha. Tinha que fazer os primeiros socorros, alguns feitiços de cura para evitar alguma infecção.
Dei uma olhada em meu braço esquerdo, estar com uma mistura de sangue seco com fresco escorrendo, pingando no chão de pedra. Assim que conseguir de tirar do bolso, ela escapuliu das minhas mãos rolando em direção a Marisha. Nem sei se tinha alguma energia em meu corpo para executar um simples feitiço. — Na próxima vamos preparar com poções... —
Ao ver Ash se apoiando na parede, respirando com dificuldade e o ombro ferido profundamente, quis correr para ele, mas me detive. O cheiro de sangue me dava água na boca, o que me encheu de repulsa, fazendo meu estômago se revirar. Nox ainda estava por perto e, por um instante, tive medo de que ao correr para ele, fosse ela quem o alcançasse.
Falando com dificuldade, ele se desculpou por não ter conseguido nos deter e apenas balancei a cabeça negativamente. Nesse momento eu mal pensava no homem que havia escapado por pouco, estava mais preocupada com o rasgo que eu havia aberto no ombro de Ashwell e que agora formava um fio de sangue que descia do seu braço para o chão. Ele ainda tentava me acalmar, enquanto procurava sua varinha no bolso, mas depois mal conseguiu segurá-la e a derrubou no chão.
No segundo seguinte estava ao seu lado, apanhando a varinha. Sentia um aperto terrível no peito ao vê-lo machucado por minha culpa, mas não havia tempo para me sentir culpada.
- Eu estou bem... - sentia o canto dos meus olhos formigando e precisei piscar furiosamente para afastar as lágrimas - Vou deixar você novinho em folha... - tentei sorrir enquanto apontava a varinha para seu ferimento, mas lábios só estremeceram e as palavras mágicas saíram emboladas - E-estanq- Estaque Sangria! - algumas fagulhas saíram da varinha, mas o feitiço não pareceu fazer efeito nenhum - Merda.
Sentia o pouco controle que tinha escorregando entre meus dedos. Meu corpo todo doía, sentia Nox rondando meus pensamentos, Ash sangrava na minha frente e não conseguia conjurar magia suficiente para curá-lo. Fechei os olhos e inspirei fundo, tentando encontrar o mínimo de calma.
- Asclépio! - mais fagulhas saíram da varinha, dessa vez se agrupando nas bordas do ferimento e lentamente restaurando a pele. Suspirei, aliviada. Não era o feitiço mais indicado, mas parecia ser o que conseguiria nesse momento. Sangue ainda escorria das partes mais profundas do corte e finalmente ergui minha cabeça para olhar ao redor, procurando algo que me ajudasse a estancar o sangramento.
A cabana era formada de um único cômodo, que fazia as vezes de quarto, sala e cozinha, com uma lareira de um lado, uma pequena mesa para refeições que havia sido jogada para longe no meio da confusão e uma cama no fundo do cômodo. Agarrei um pano de prato no balcão da cozinha e o usei para pressionar o ferimento.
- Preciso lembrar de também trazer umas poções de cura. - disse em voz baixa, mantendo o pano firme em seu ombro. Que mentira, da próxima vez queria estar dopada em algum porão escuro sem correr a chance de machucar ninguém - Me desculpe. - eu sussurrei para Ash - Você fez tudo que podia. Eu não sabia que teria alguém morando por perto. Eu- engoli em seco, me esforçando para conter as lágrimas que insistiam em querer escapar.
Estremeci, apertando a varinha de Ash em minha mão enquanto tentava traçar um plano. Meus pertences estavam em uma mochila escondida nas profundezas da floresta, nenhum de nós tinha magia ou forças suficiente para aparatar de volta para casa e eu não tinha nem mesmo roupas para vestir...
- Consegue segurar o pano no lugar um instante? - segurei a mão ainda boa de Ash e a trouxe para seu ombro para que segurasse o curativo improvisado.
Resolvi o menor dos problemas localizando uma camisa do dono da cabana, embolada no que restava do cabide onde estivera pendurada antes de uma pantera e um lobisomem enlouquecidos invadirem a pequena casa. Lentamente a adrenalina se dissipava em meu corpo e começava a tomar consciência da minha própria dor. A própria transformação era dolorosa e sempre voltava fraca, me sentindo como se tivesse sido atropelada por uma manada de erumpentes. Demoraria um pouco para descobrir as consequências de enfrentar uma pantera durante a noite.
Vesti a camisa, tentando ignorar minhas mãos sujas com o sangue de Ash. Havia sangue seco por baixo das minhas unhas, provavelmente de quando o arranhei. Sacudi a cabeça, empurrando o pensamento para longe e ergui a varinha mais uma vez. Fechei os olhos para me concentrar...
- Accio Mochila! - soltei o ar devagar, concentrada em trazer minha mochila, escondida na floresta colina abaixo - Já vamos sair daqui. - sussurrei para Ash, sem virar para olhá-lo, meus olhos ainda fechados.