Fechei-me tão profundamente e por tanto tempo no silêncio que nunca consigo abrir-me através das palavras. Apenas me fecho de outras formas quando falo.
“Sobre fazer as malas” de Herta Müller in Tudo o que tenho levo comigo
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Fechei-me tão profundamente e por tanto tempo no silêncio que nunca consigo abrir-me através das palavras. Apenas me fecho de outras formas quando falo.
“Sobre fazer as malas” de Herta Müller in Tudo o que tenho levo comigo
Podiam-se ver as pegadas por todo o jardim. A neve a denunciava, teve que abandonar voluntariamente seu esconderijo, voluntariamente obrigada pela neve. Eu nunca perdoarei a neve por isso, disse Trudi. Não é possível reproduzir a neve recém-caída, não é possível ajeitar a neve de modo que ela pareça intocada. Pode-se ajeitar a terra, ela disse, a areia também, e até a grama, se nos dedicarmos. E a água se ajeita sozinha, porque ela engole tudo e se fecha novamente ao engolir. E o ar já está sempre ajeitado porque não podemos enxergá-lo. Tudo teria silenciado, com exceção da neve, disse Trudi Pelikan. Que a neve grossa carregava consigo a culpa principal. Que ela caíra precisamente sobre a cidade como se soubesse onde se encontrava, como se estivesse em casa. Mas que imediatamente se pusera a serviço dos russos. Por causa da traição da neve eu estou aqui, disse Trudi Pelikan.
“Sobre fazer as malas” de Herta Müller in Tudo o que tenho levo comigo
Muitas pessoas acham que fazer a mala é uma questão de treino, aprende-se fazendo, como cantar ou rezar. Nós não tínhamos treino, tampouco tínhamos malas. Quando meu pai teve que ir para o front juntar-se aos soldados romenos, não havia nada para levar. Como soldado recebe-se tudo, faz parte do uniforme. Para a viagem, para o frio; fora isso, não sabíamos para que fazíamos as malas. O adequado não se tem, improvisa-se. O errado torna-se o necessário. O necessário é então a única coisa adequada, porque é o que temos.
“Sobre fazer as malas” de Herta Müller in Tudo o que tenho levo comigo
Há coisas sobre as quais não falamos. Mas eu sei do que estou falando quando digo, o silêncio na nuca é diferente do silêncio na boca. Antes, durante e depois do meu tempo no campo de trabalho, durante vinte e cinco anos vivi com medo, do Estado e da família. Da dupla queda: que o Estado me encarcerasse como um criminoso e que a família me repudiasse como uma desonra. No meio da multidão nas ruas, me vi no reflexo das vitrines, das janelas dos bondes e das casas, nos chafarizes e poças, pensando incrédulo que talvez eu fosse mesmo transparente.
“Sobre fazer as malas” de Herta Müller in Tudo o que tenho levo comigo
Depois dos cinco anos no campo de trabalho eu vagava dia após dia pelo tumulto das ruas, ensaiando mentalmente as melhores frases para o caso de ser preso: PEGO EM FLAGRANTE - pensei em mais de mil desculpas e álibis para essa acusação. Levo comigo uma bagagem silenciosa. Fechei-me tão profundamente e por tanto tempo no silêncio que nunca consigo abrir-me através das palavras. Apenas me fecho de outras formas quando falo.
MÜLLER, Herta. In: Tudo o que tenho levo comigo (2011).
"...está anocheciendo. El portón de la calle chirría. Entra papá. Ya está aquí. Hoy puede caminar recto. Papá no está borracho. Mi corazón palpita de alegría. Aguardo la noche. También hay miedo en la alegría. Mi corazón palpita de miedo en la alegría, de miedo de no poder seguir alegrándome, de miedo de que el miedo y la alegría sean la misma cosa."
En Tierras Bajas - Herta Müller
SE stiamo in silenzio, mettiamo in imbarazzo, diceva Edgar, se parliamo, diventiamo ridicoli. Il paese delle prugne verdi, Herta Muller