Tento apertar os parafusos, mas as coisas funcionam mal. Essa máquina, a que range no peito, tem dia que não sabe funcionar. E eu fico perguntando o que é que falta. Mas não falta nada. Eu me olho no espelho com calma, não gosto. Não encontro abraço o dia todo. Sei que é preciso ir pro outro lado, fazer a lista de compras, visitar a obra, começar a caminhar, escrever aquele texto, mas não me levanto. As mesmas machetes mal escritas, como essas notas que eu solto por aí pra alguém ler e pensar: “É...”. São dias pesados e tempos sombrios. Eu sei, eu sei, eu sei que tem alguma coisa desencaixada entre nós. Eu e o mundo. Eu e cada um que amo. Eu e o tudo. Eu e o Outro. É um desarranjo que não tem ressonância magnética e tomografia que encontre. Tomei distância de tudo que transpassa a pele. Evito o doloroso processo de entregar-se, com a mesma força que nego a superfície insossa das relações. Isso, o desarranjo. É ter um rato morando dentro da máquina, roendo os fios, mijando entre as engrenagens. Quem é que conserta essas coisas de sentir? E eu tento me agarrar, no fim do dia, a qualquer resto carinho. E fico pensando nessa gente toda que a gente encontra na rua, tanta história indo pra tanto lado, morte, vida e sexo em cada janelinha de luz acesa. E o barulho insistente daquilo que a gente é, dessa máquina fodida que não descansa nunca. E na madrugada abafada, quente e insone, a gente arrisca um texto ruim, pra ver se esparrama esse óleo velho que fica no peito, limpa, lustra, dá jeito de seguir viagem com essa máquina mesmo. Não tem reposição.